Baribená

 

Desvirginou com altivez e doçura a manhã secreta. Úmida como um sexo anteposto.

Rasgando as matas, os rios, os peixes, os mistérios e o silêncio mais antigo que a própria solitude da voz.

Fustigando no tempo a perpetuação do incansável novo instante – que obstinadamente nasce na proporção do eterno.

 

Hoje foi no Céu da minha Aldeia que germinou o Baribená.

As brumas deixadas pelo o taciturno foram varridas pelo o colorido caleidoscópico do Novo Sol.

E a brandura da lua foi matizada pelas cores dos deuses meninos, que fugiram das Ocas para brincar de pintar sois.

 

Fechem os olhos e vejam, tribos!

O Baribená com toda a sabedoria e luz, vem nos ensinar os Shamash – a cura que vem da floresta.

Iluminando-a, rompendo os seus lodos e trazendo vida às suas sementes, ele desvenda aos nossos olhos, as pinturas mágicas que cada naco da Floresta produz.

O germinar desenfreado do neófito na natureza de todas as coisas.

 

Meus olhos ocidentais são retirados pela imolação do meu Ser indígena –

Posso ver agora, todo o Grande Bená. O Bari que se pari para todo o Universo.

E os índios do meu cerne celebram o Baribená, sem saber dos versos que uso para cantar, as canções da minha elegia.

E eu sem saber que dentro de cada sol há desenhos, cores e línguas, e que isso é bem mais que poesia.

 

Os kenês bailam em suas chamas.

A esperança se auto-proclama.

Os grilos voltam a dormir, as estrelas se unem ao astro e as formigas se põem a trabalhar.

Em todas as tribos, mais um motivo para amar.

Consciência nova no orvalho do dia e horizontes reconstruídos nos idéias da alegria.

O oxigênio se renova na Floresta, e a Aldeia em festa:

Canta para o Novo Sol.

 

Baribená na mandala de caracóis

Onde todos os sois se põem a nascer.

E todos Kaxis vem agradecer!

Baribená na mandala de kenês

Aonde o matiz de energia vem florescer

E todos os nawás vêm receber!

 

Katãw, Baribená!

Vai e depois volta...

 

 

Mandala de Simone Bichara – Texto de Daniella