Mais uma vez, a arte da vez

No artigo intitulado "O tênue sentir na obra de Simone Bichara" introduzi algumas das principais características do trabalho dessa artista. Como em quesito Arte há sempre tudo para se dizer e todos os motivos para se calar, volto a escrever sobre esse trabalho primoroso e arrebatador que são as Mandalas da Floresta. Da mesma forma como volto a silenciar e deixar incontáveis lacunas a serem preenchidas não só pelo tempo e demais apreciadores da obra de Bichara, como para a própria arte responder e indagar.

Como Salvador Dalí e sua "surrealidade", retratando em "A persistência da memória", duas das maiores preocupações humanas: o tempo e a memória; Simone Bichara retrata em cada peça do seu acervo de mandalas, as serenidades pungentes que ambiciona o ego humano. Clareando que, na visão espiritualista, o Ser humano já possui tais virtudes, sensações e sentimentos que dão nome as mandalas, embora muitas vezes esquecidos.

Inocência, integração, poder, força, alegria, energia, amor perdão... Alguns dos títulos que, segundo a artista, "vêm durante o processo de criação".

Para nós que somos apenas observadores e apreciadores dos transformistas do trivial em extraordinário bastam-nos a análise (cética ou não) dessa expressão.

Começaremos saindo e retirando as mandalas de Simone Bichara do lugar comum. O que essa artista faz é muito mais que um trabalho alternativo, terapêutico e auto-realizador. Simone delineia traços, rabiscos, gotas, manchas, flores e simetrias em uma combinação harmônica e indiscutivelmente peculiar. Seu trabalho não se reduz em "mandalas", são verdadeiras obras de arte idealizadas em madeiras recicladas em formas de círculos!

Há espaço, sem dúvidas, para o místico, a magia, o espiritual. Simone nos conta que antes mesmo de conhecer o nome mandala, visualizava e pintava em qualquer papel os preciosos círculos. Esse movimento ocorreu enquanto a artista convivia com índios em suas aldeias, e imaginava que estava vendo o sol como eles viam. Por essa conotação cheia de simbologia e a própria carga de espiritualidade que as mandalas possuem, fica sendo impossível (e não é a intenção) separar o seu trabalho das nuances espirituais e místicas. Porém, o que propomos em analogia a isso, são as apreciações da substancialidade e as articulações artísticas usadas na composição das peças.

Um olhar mais atento ao conjunto da obra da artista nos revelará um trabalho de expressão e autenticidade que, distorce não só o nosso olhar para um possível processo meditativo (que segundo os orientais é a função da mandala), mas distorce para o que supúnhamos saber sobre o outro lado da arte; seu trabalho nos instiga a repensar nossos conceitos sobre cosmologia, adentrá-la e incluí-la na construção de uma obra de arte.

Simone Bichara ultrapassa a função e denominação da mandala, o que faz é algo legitimamente brasileiro e altamente original. Com expressões além de contemporâneas, todavia com os ensejos dramáticos que o humano moderno deseja. Não há encaixes e rótulos possíveis para a sua criação: ela transpõe o místico, atinge o mítico e o supera também. Excede os limites pertencentes ao zen, ao oriental, ao peregrino, para retratar a Floresta Amazônica, os kenês indígenas, as várias facetas da fé, tudo muito genuinamente brasileiro.

As Mandalas da Floresta é algo para qualquer cidadão desse país se orgulhar. Essa artista recriou de forma brasileiríssima uma representação milenar da dinâmica relação entre o homem e o cosmo. Levando-nos não somente a tocar certa grandeza espiritual, mas, como toda verdadeira beleza e arte, a nos indagar e a nos redescobrir, e a deixar-nos ser conduzidos aos primórdios essenciais e às primazias futuristas.

Publicado em Revista Acadêmica, por Daniella Paula Oliveira (escritora cuiabana formada em Letras e há dois anos estudando as tipologias artísticas na obra de Simone Bichara).