Ao som de Caetano – Neiva Pavesi

    Frágil, negros cabelos encaracolados emoldurando o rosto bonito, boca vermelha bem desenhada, nariz arrebitado. Mesmo quando sorria, seus olhos continuavam tristes e ao redor deles formavam-se ruguinhas atrevidas que, se melhor observadas, denunciariam sua idade. Muito séria, nunca deixava transparecer sua intensa sensualidade. Filha única, cuidava dos pais quando uma desilusão amorosa se fez presente em sua vida. Tentou namorar outros rapazes, chegou até a noivar, mas como “era outro o amor a quem queria”, resolveu não se casar. Sem os pais, vivia sozinha no apartamento frente ao mar e, de sua janela, fazia-o seu confidente.

    Já no outono da vida os pretendentes escassearam até não mais tê-los. Seus olhos tristes não atraíam os homens, que jamais imaginariam a mulher fogosa neles escondida. Como ninguém conseguira descobri-la, ficou só, com suas lembranças.

    Certo dia notou o piano reluzente no restaurante onde sempre almoçava. Quando pegou o cardápio, ouviu o som delicioso de Caetano: “Você é linda.” O pianista, bem à sua frente, tocava com evidente prazer. Parecia olhar para ela através dos imensos óculos escuros. Sentiu-se alegre, jovem, feminina. Vaidosa, sorriu e ajeitou os cabelos. A música fazia-lhe muito bem embora lhe despertasse vaga e inquietante nostalgia que não conseguia definir.

    O hábito de almoçar tornou-se prazeroso: todo dia, às catorze horas, ela chegava e ouvia “Você é linda”, de Caetano. Demorou três semanas para perceber que era sempre a mesma música, no mesmo horário.

    Sua sensualidade, aliada ao romantismo e à solidão, levaram-na a sonhar. Com o pianista. Sonhos eróticos que jamais imaginara. De repente, o marfim do teclado do piano era seu corpo ardente e o negro das teclas seus pêlos macios. Sentia os longos dedos do pianista explorando os interstícios de seu corpo com desejo e delicadeza, deslizando por sua barriga macia, subindo até seus seios e depois descendo, descendo... Acordava banhada em suores, o corpo enlanguescido, ardendo em desejos jamais suspeitados.

    Seus dias se resumiam na música de Caetano. Sua casa tinha, apenas, um som. Ansiava por ver o pianista. Cada gesto, cada expressão dele, passaram a ter um significado para ela. Imaginava-o vindo ao seu encontro e beijando-lhe as mãos. Abstraíra-se tanto em seu envolvimento com o pianista e com a música de Caetano, que já não conseguia separar um do outro. Passava horas no restaurante. Mesmo estando o piano fechado, ela continuava a ouvi-lo.

    Um dia, decidida a não enlouquecer, resolveu dar um basta naquela paranóia. Assim que entrou no restaurante, mesmo ouvindo a música de sempre, caminhou resoluta até o pianista e, quase sussurrando, perguntou-lhe:

    - Posso saber por que o senhor toca essa música, sempre neste horário?

    Ele parou de tocar, tirou os óculos e, com um sorriso luminoso, respondeu-lhe:

    - Para você, querida...

    Ela olhou-o atônita e desmaiou. Ao voltar a si viu que ele acariciava suas mãos e as beijava, tal qual em seus alucinantes delírios.

    -Jorge?! – perguntou, trêmula, num fio de voz.

    -Sim... – sorriu ele.

    - É mesmo você?! Meu Deus, é você! É você!

    - Sou eu, querida, trinta anos depois. Vê como envelheci? Mas, jamais deixei de amá-la. Você viveu em mim durante esse longo  tempo. Você e o piano que um dia nos separou...

    E, jocosamente:

    - Laura, querida... Você demorou três meses para me reconhecer!

    Jorge levou-a para casa. Laura, ainda aturdida, deixou-se recostar no sofá macio olhando-o com ternura. Enquanto ele, ajoelhado a seus pés, contava-lhe suas aventuras por países distantes e a falta que sentira dela, Laura acariciava as rugas de seu rosto, tão amado. Semicerrando os olhos, ofereceu-lhe os lábios vermelhos e carnudos, ansiosa por seus beijos. Ele enlaçou-a e beijou-a famintamente. Seus corpos procuravam-se avidamente e o desejo, há tanto tempo represado, explodiu em luzes e cores, espalhando-se com ímpeto pelo tapete persa. Nos braços de Jorge, vivendo intensamente a realidade do amor de sua vida, Laura teve a certeza de que não mais precisaria sonhar ao som de Caetano.