A Teoria do Grão de Areia - Tomo 1
Benoit Peeters (argumento) e François Schuiten (desenho)
Edições ASA (Portugal, junho de 2009)
Num universo fantástico, só possível em BD, dotado de cidades (quase) com vida própria - as verdadeiras protagonistas de cada livro – onde se distinguem alguns habitantes que despoletam e desencadeiam a história- a série "As cidades obscuras", associa o traço sumptuoso - mas extremamente legível e funcional - de François Schuiten, que cria e recria arquiteturas e mundos, e os argumentos inteligentes, ao mesmo tempo profundos e claros, de Benoit Peeters.
Este álbum, que começa com alguns factos insólitos aparentemente sem interligação, mas que se vão acentuando com o passar do tempo:
Na cidade de Brüsel, 21 de julho de 784. Constant Abeels lista pacientemente as pedras que se materializam misteriosamente nas diferentes salas de seu apartamento. Num prédio vizinho, uma mãe descobre, da mesma forma, que areia se acumula com regularidade em seu apartamento, enquanto um pouco mais adiante, o cozinheiro chefe da famosa cervejaria Maurice descobre que perde peso sem perder peso. Esses fenômenos estranhos só pioram com o passar dos dias. É para investigar esses fatos incomuns que uma mulher chega especialmente de Phary: Mary Von Rathen, ela rapidamente descobre que a maioria desses fenômenos parece estar relacionada com a pessoa do falecido Gholam Mortiza Khan.
Mary Von Rathen e Constant Abeels vão ser observadores privilegiados dos insólitos fenómenos que dão um toque de fantástico à série, e que contrasta com o traço hiper-realista com que Schuiten, a pincel, construiu os cenários, e pontuam a ação deste livro, em formato italiano (deitado), que marca o regresso ao preto e branco (e branco - puro, uma "terceira" cor, de que só os leitores e Mary se apercebem, mas cuja mancha vai crescendo página a página), numa obra que reafirma a vontade de Schuiten e Peeters inovarem constantemente, pondo sempre em causa todas as soluções anteriormente experimentadas nas Cidades Obscuras e questionando continuamente o universo que criaram.
A Teoria do Grão de Areia - Tomo 2
Benoit Peeters (argumento) e François Schuiten (desenho)
Edições ASA (Portugal, julho de 2010)
O segundo volume de “A teoria do grão de areia” começa duas semanas após os primeiros eventos do Volume 1, 2 de agosto de 784. Oprimido pelo acumular de pedras no seu apartamento, Constant Abeels recorre às autoridades. Mas estes também estão sobrecarregados com casos de urgência devidos à areia que continua a derramar do topo de um grande prédio, do apartamento onde tudo começou. Em uma profusão de decorações urbanas de uma riqueza e de uma excecional inventividade, Schuiten e Peeters renovam com as atmosferas inimitáveis do ciclo das Cidades Obscuras, por um enredo fascinante que combina um toque discreto de humor e ironia.
Peeters e Schuiten com uma fina ironia, mas de forma consistente, desenvolvem uma narrativa de contornos ecológicos que alerta para os perigos do aquecimento global ao mesmo tempo que nos mostra as confrontações, cada vez mais inevitáveis nos nossos dias, entre a civilização urbano e ocidental, com fatores estranhos - nem melhores, nem piores, só diferentes - ou desconhecidos, provenientes de outros mundos, outras realidades, outras civilizações. No caso presente, os pequenos grãos de areia surgidos do nada que vão emperrar – e quase destruir - a máquina – nem sempre bem oleada, admita-se – que faz funcionar a grande metrópole de Brusel.
Romeu Silva, adaptado de: http://asleiturasdopedro.blogspot.com/
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