“Os meus gatos e os quatro pilares que sustentam a minha readaptação como deficiente visual”

Rosária Grácio

Os meus gatos

e os quatro pilares

que sustentam a minha readaptação como deficiente visual

Rosária Grácio

Introdução:

Há cerca de uns dez anos, numa consulta de oftalmologia, o médico assegurou-me que a minha doença hereditária Retinose Pigmentar era atípica, e por isso, iria ter a minha visão perfeita até os 100 anos. E assim, munida com esta certeza médica, continuei a viver a minha vida normalmente, até que em meados de 2013, em nova consulta de oftalmologia, foi-me dito, que afinal, a minha doença visual estava a progredir rapidamente, não havendo previsão de, por quanto tempo, ainda teria visão, se por alguns dias, meses ou anos.

Após os primeiros meses de pranto, interrogações e passividade diante do que previsivelmente me estava destinado, aos poucos, fui percorrendo um caminho que aqui quero partilhar de uma forma simples e acessível a todos.

Foi nessa mesma altura que adotei uma gata de rua de nome Bia. Eu já tinha outra gata em casa, e infelizmente existem tantos mitos acerca dos gatos e da sua personalidade, que mais uma vez, nessa etapa dura da minha vida, em que me deparava com uma deficiência visual, percebi que também existem muitos mitos acerca da cegueira.

O perder da visão, de um modo geral, é conotado com uma incapacidade física irreversível pois a visão é um dos sentidos mais usados na vida diária. No meu caso pessoal, sendo pintora artística[1], usava a visão com todas as suas potencialidades. Por isso, ao sentir que ia perder este meu precioso sentido da visão, inicialmente julgava que ia perder todo o sentido da minha vida.

No entanto, ao conviver com a minha gata Bia, aprendi que um gato de rua pode readaptar-se a um ambiente de casa e voltar a confiar nos seres humanos. Se um gato consegue se readaptar, também eu poderia me readaptar.

Aos poucos, fui percorrendo este caminho de readaptação, reconstruindo os meus conceitos acerca dos vários mitos acerca da deficiência visual. Ao mesmo tempo, tive e foram sendo construídos quatro pilares, que julgo serem imprescindíveis, a meu ver, na readaptação de uma pessoa diante de uma limitação ou dificuldade.

Aqui também partilho estes quatro pilares que funcionam como que as quatro pernas que sustentam uma mesa ou uma cadeira para que se possa estar de pé. Claro que isto de “cadeira” ou “mesa” é uma espécie de metáfora. O que pretendo aqui realçar é que, são necessários pelo menos quatro pilares fundamentais, para sustentar a readaptação, fazendo-a menos penosa e até mais rápida de ser ultrapassada. Eu uso o termo “ultrapassada” pois o obstáculo da deficiência visual ainda está lá, no entanto, o mesmo é ultrapassado por meio do salto da readaptação. Estes pilares, julgo eu, são necessários para qualquer pessoa, pois todos, cada qual a seu modo, tem a sua limitação, e a deficiência física é apenas uma dessas limitações com que se depara o ser humano.

Do luto à vida – Readaptar, é preciso porque a vida continua!

Nos primeiros meses após o meu diagnóstico irreversível da deficiência visual, e apesar dos vários médicos que consultei, aqui e ali, na busca de uma cura, aos poucos percebi, que era tudo inútil. Por algum tempo entrei em depressão, julgava que tudo estava acabado na minha vida, e que afinal, era só uma questão de dias ou meses para ficar cega e ponto final.

A dada altura, pensei em desistir de tudo. Tentava dormir e esquecer que ainda vivia.

Porém, felizmente não vivia sozinha. Meu marido acompanhava-me neste processo e para além dele, partilhava a casa com três gatos e um canário. Esta interação com estes animais fez com que muitas vezes, me obrigasse a sair da cama.

Os gatos são animais muito interativos e gostam que lhes prestemos a nossa atenção. Quando os meus gatos me viam na cama, sem me levantar, vinham logo ter comigo a desafiar-me para sair da cama e fazer-lhes festas e/ou dar-lhes comida. Aos poucos, os quatro pilares da minha reabilitação foram-se interligando também com estes felinos, especialmente porque também estes animais são, por vezes, alvos de mitos devido ao grande desconhecimento do público do que é a sua real personalidade.

Eu também desconhecia o que é a cegueira e a sua diferença da baixa visão. Existem tantos mitos que nos fazem crer que ficar cego acontece de um dia para o outro. Existe um grande desconhecimento do que é perder a visão lentamente, bem como do que é viver e “ver” sem o uso da visão na vida diária. Por isso, quando se vê e perde-se a visão, inicialmente pensa-se que vamos perder a nossa autonomia para sempre.

Porém, antes de começar a ultrapassar o obstáculo da baixa visão, é importante que percamos um pouco de tempo a ver o que se passa à nossa volta. Assim sendo, fui percebendo que afinal, apesar da minha deficiência visual, a vida continuava à minha volta, e que ainda tinha pessoas e animais que precisavam de mim, e que, enfim, precisava continuar a cuidar do que ainda me restava. Ao invés de focar em mim mesma e na minha deficiência, direcionei a minha atenção para o que estava ali perto de mim.

Apesar da minha deficiência, continuava a ter pessoas e coisas para cuidar, e fui-me ocupando das tarefas do dia a dia, como por exemplo, dar de comer aos meus gatos, dar ao meu canário algumas rodelas de maçã de vez em quando, regar as minhas plantas, ocupar-me com as tarefas de casa que precisavam ser feitas, etc e etc… E para além da porta da minha casa, eu também necessitava sair para fazer as compras, pois não tinha ninguém que as iria fazer por mim. Esta noção do que se passava à minha volta fez-me sair da minha própria deficiência.

Mesmo com medo da rua e dos carros, pois moro num movimentado centro urbano, lá fui saindo, usando alguns estratagemas como um guarda-chuva ou um carrinho de compras para poder andar na rua sem estar a tropeçar nas coisas.

Porém, apesar de todos estes meus esforços, não consegui fazer e aprender tudo sozinha.

O caminho da superação da deficiência visual passa por um querer se readaptar às limitações sentidas e ao mesmo tempo, é preciso também um querer aprender e reaprender este novo modo de viver, apesar das limitações. Assim sendo, acabei por procurar pessoas especializadas para que elas me pudessem ajudar nesta minha readaptação.

Contactei um Centro de reabilitação estatal (Centro de Reabilitação da Areosa[2]) onde comecei a aprender técnicas de mobilidade, conhecendo profissionais e pessoas especializadas na área da reabilitação. Foi neste centro de reabilitação que me deparei com a necessidade de usar uma bengala, tendo-me sido apresentada a “Bengala Verde” que já é usada em vários países para identificar as pessoas com baixa visão. Para além disso tudo, comecei a conviver com pessoas que tinham também deficiências visuais, umas mais graves, outras menos graves que as minhas.

Aos poucos, fui conhecendo um novo mundo, até então desconhecido, de realidades e pessoas que apesar das suas limitações visuais, continuavam a sua vida diária, trabalhando e estudando, readaptando-se às suas novas condições físicas.

Passados cerca de quatro anos, tenho feito uma reflexão sobre este caminho que fui, aos poucos, traçando nesta minha readaptação. As dificuldades e as barreiras ainda continuam, a minha deficiência visual ainda está a progredir, porém fui reescrevendo a minha história e reaprendendo com esta nova situação.

Ao longo deste percurso, também percebi que esta minha readaptação foi-se apoiando em quatro pilares, que julgo serem imprescindíveis para qualquer pessoa, especialmente para as que passam por alguma limitação, especialmente a deficiência visual.

1º Pilar – Ter fé - Acreditar que é possível recomeçar, optar por caminhar e reaprender a viver, apesar da deficiência visual.

O primeiro pilar é construído por nós mesmos. Toda e qualquer readaptação necessita da nossa opção por dar o primeiro passo. Não adianta que toda a gente nos incentive ou dê uma mão para nos levantarmos, se nós não quisermos ou aceitarmos nos por de pé.

No ano de 2013 estava no meu segundo ano da licenciatura em Solicitadoria, e foi nessa altura que recebi a notícia de que em breve perderia a visão. A minha primeira vontade era desistir daquele curso, parar, estagnar; porque quando estamos a perder a visão, o cansaço é muito maior devido ao desânimo. Estudar, para quê? Uma solicitadora com deficiência visual com tantas pessoas desempregadas com o mesmo curso que eu, e sem uma deficiência visual? Que futuro tenho neste mercado de trabalho? Se vou perder a visão, para quê continuar a estudar?

Então refleti se desejava acabar o curso para ter um título ou por amor ao Direito. Se amava estudar Direito, porque desistir? E então persisti e continuei. No ano de 2015, terminei a minha licenciatura e foi uma das maiores conquistas da minha vida.

Quando estamos diante de uma adversidade temos que optar se queremos continuar ou não. Não há aqui atalhos ou “palmadinhas nas costas” que nos empurrem sem que tenhamos nós mesmos de nos levantar e dar o primeiro passo.

Na minha readaptação, tenho eu dado o primeiro passo para quase tudo. A começar dentro da minha casa, onde tento manter a minha atividade o mais que posso, cuidando de tudo, do meu marido, dos meus gatos, do meu canário, das minhas plantas, das pastas dos documentos, etc.

Depois, tenho de abrir a porta e ir para fora, e foi assim que encontrei um Centro de Reabilitação da Areosa. Não parei por aqui, porque logo a seguir procurei associações ligadas à minha doença visual, pesquisando nas redes sociais, e encontrando outras pessoas que passavam pelo mesmo que eu, para que eu pudesse perceber melhor como funcionava a minha doença e como os outros, que passavam pelo mesmo, a ultrapassavam na sua vida diária. É muito importante estarmos abertos a esta aprendizagem, ouvindo as experiências dos outros, partilhando as nossas, e assim interagindo sem preconceitos ou receios de mostrarmos as nossas fragilidades.

Foi assim que conheci a Associação de Retinopatia de Portugal (ARP) em Lisboa[3]. E ali deparei-me com outra realidade que até então desconhecia: a deficiência visual manifesta-se de muitas maneiras porque as doenças que causam a cegueira progressiva também são igualmente diversificadas. E para além disso, a doença poderá manifestar-se em cada pessoa de maneira diferente. A progressão da cegueira não se processa da mesma maneira para todos. Por vezes, a visão perde-se a partir da periferia e aos poucos resume-se ao seu espaço central. Outras vezes, é exatamente o contrário e a pessoa consegue ver bem para os lados, mas a sua visão central está muito comprometida. E isto é apenas dois dos múltiplos modos da cegueira se manifestar. E este mito da cegueira resumir-se apenas aos que nada vêem quando, na maioria das vezes, ela é progressiva e assim sendo, nem todos os deficientes visuais são cegos. Perder a visão é um caminhar, por vezes lento, outras vezes rápido. Antes da cegueira total a pessoa poderá passar pela “baixa visão”, em que há um pouco de visão mas é preciso lidar com o pouco que se vê e com o que não se vê. E este processo é difícil porque nem sempre o que vê é da mesma maneira. Mas precisamos saber do que se passa com os outros que também sofrem uma deficiência visual para percebemos melhor a nossa própria deficiência. E depois, há que aprender como os que já são deficientes visuais, como eles se adaptaram e se adaptam a esta perda visual progressiva.

Assim sendo, somos nós que temos de dar este primeiro passo de sairmos de nós mesmos. Este primeiro pilar onde tenho de me sustentar é em mim mesmo e na minha vontade de querer me levantar e aprender. Ter esperança que irá ultrapassar as suas limitações, mesmo que pareçam intransponíveis. Por isso, uso o termo “ter fé”!

Não se trata aqui de ter uma religião ou não, pois esta fé vem desta vontade intrínseca de acreditar naquilo que ainda não se vê!  

Ter fé é exatamente acreditar que é possível, mesmo que outros digam ser impossível, ou todas as expectativas serem desanimadoras. A fé é este sentimento de acreditar em algo que não se pode provar, e por isso mesmo, é que lhe chamamos fé. Este sentimento de avançarmos no meio de uma intensa escuridão, sem qualquer luz visível pois temos fé que haverá ao fundo, a um canto qualquer, uma saída iluminada e pronta para ser habitada pela nossa presença e capacidade.

Este acreditar deve vir de dentro de nós, e nada e nem ninguém nos pode ajudar a ter esta fé. Como qualquer fé de qualquer religião, esta crença não é palpável, contudo é uma alavanca, que nos arremessa a dar o primeiro passo e a construir o primeiro pilar da nossa readaptação.


2º Pilar – O apoio da família e/ou comunidade mais próxima

Um segundo pilar que está a fazer parte na minha readaptação é este apoio da minha família mais próxima. Aqui deixo o meu agradecimento muito especial ao meu marido, aos meus pais e irmão, cunhada e sobrinho, todos estes familiares próximos que me têm acompanhado neste percurso desde que comecei a ficar cega.

Penso que o apoio das pessoas que nos são próximas é essencial para nos adaptarmos às novas situações da vida.

Quando falo de família, refiro-me não só aos familiares de sangue, mas também amigos e/ou vizinhos que nos são próximos.

O deficiente visual tem de contar com esta ajuda pois haverá ocasiões em que terá de pedir apoio a alguém.

Aliás, eu percebi que diante da minha limitação visual, precisava de pedir ajuda. Eu não me podia isolar, nem achar que sou uma super-herói e que conseguiria fazer tudo sozinha. Ninguém tem superpoderes e todos precisam da ajuda uns dos outros. Até mesmo as pessoas que dizem não ter qualquer deficiência, precisam da ajuda em algo. Todos nós precisamos uns dos outros. E por isso, temos de ter esta humildade para pedir que alguém nos ajude nesta ou naquela situação em que estamos mais frágeis ou inseguros.

Julgo que este segundo pilar nos permite que abramos a porta da nossa casa interior, ultrapassando a nossa timidez, para assim, termos forças para continuar, pois temos esta ou aquela pessoa que está ali, e com a qual podemos contar em caso de necessidade. Não nos podemos isolar pois é na sociedade que devemos interagir e nos mostrar, com a nossa bengala. Só assim, a sociedade perceberá que pessoas como nós conseguem continuar a viver, mantendo a sua autonomia, apesar de sermos deficientes visuais.

3º Pilar – Apoio da sociedade de forma concreta e objetiva

Julgo que a partir de agora, o leque social estende-se. Não adianta que um deficiente visual se sustente nos dois primeiros pilares, se quando procura um emprego ou uma oportunidade, esta porta se fecha porque a sociedade não acredita na sua capacidade.

Aqui em Portugal existem alguns apoios financeiros para as empresas que empreguem pessoas com deficiência. No entanto, não sei se isso é positivo, apesar de, neste momento, ser a melhor maneira de quebrar tabus sociais que ainda existem na empregabilidade dos deficientes.

O ideal seria que a sociedade acreditasse na capacidade das pessoas com deficiência, e que este acreditar não dependesse dos incentivos fiscais ou financeiros que possam obter, ao dar-lhes uma oportunidade profissional.

Infelizmente, ainda existe a errônea noção de que a deficiência tira a eficiência de uma pessoa. Eu tenho visto que, por vezes, esse tabu social, infelizmente não existe só com relação aos deficientes.

Existem muitos preconceitos que são frutos de uma falta de conhecimento do público em geral. Por exemplo, a questão da baixa visão e a sua diferenciação da cegueira total.

São tabus sociais, como aqueles que as pessoas têm acerca dos gatos. Eu também os tinha até que adotei uma gata há cerca de uns quinze anos e comecei a mudar a minha mentalidade. Aliás, quando me deparava com a minha deficiência visual em 2013, foi quando adotei a Bia, uma gata de rua já adulta. Quantos preconceitos que existem na adoção de gatos, ainda mais se eles vierem da rua e se já forem adultos? Eu também os tinha até que conheci a Bia, uma gata de rua que se readaptou a uma nova realidade numa casa pequena, a conviver com outros gatos e com pessoas desconhecidas. Ao observar essa sua readaptação, comecei a escrever a sua história como um meio de mudar um pouco esses tabus, que por vezes, temos na adoção dos gatos de rua e já adultos.

Os tabus que existem acerca da adoção dos gatos é um pouco como os vários mitos que ainda rondam os temas ligados à cegueira. E para além disso, a história da Bia entrelaça-se com a minha história. A Bia ensinou-me que se um animal é capaz de se readaptar às novas situações, eu também podia me readaptar. Então resolvi escrever a sua história e nasceu o livro “Bia por um triz [4]. Foi nessa altura que, concretamente senti este terceiro pilar da readaptação na minha vida quando uma editora acreditou nessa história e a publicou em livro. O mais interessante é que esta história foi publicada sem qualquer apoio estatal. A editora acreditou na minha capacidade em contar histórias e editou o meu livro e ponto final.

Posso dizer que ainda tentei obter apoios financeiros para editar o livro. Porém, infelizmente, por vezes, esse apoio estatal ou social caminha longe da realidade do dia a dia dos deficientes.  Acabei por fazer nascer este livro por meio de um grande esforço e de iniciativa própria, porque se fosse olhar às minhas possibilidades financeiras, teria desistido. No entanto, havia uma porta aberta: uma editora que acreditava na minha história. Tive de agarrar esta oportunidade com todas as minhas forças porque aqui estava em causa algo mais que uma simples história de gatos. A história da Bia também conta um pouco da minha história de caminhada na readaptação perante uma deficiência visual. Ao escrever a sua história também estava a escrever a minha história de readaptação, e ao mesmo tempo, a acreditar nas minhas capacidades literárias.

No percurso de uma deficiência, temos de redescobrir as capacidades que ainda podemos desenvolver. A falta da visão não nos pode negar esta redescoberta de talentos. Alguns dos nossos talentos, talvez tenhamos de deixá-los para trás. No entanto, poderemos redescobrir outros mais adaptados às nossas limitações. E esta caminhada de redescoberta das nossas potencialidades nos ajudam a redescobrir o nosso papel social.

Passados alguns meses do lançamento do meu livro “Bia por um triz”, também um dos meus poemas foi selecionado para fazer parte de uma “Antologia de Poesia[5] que reuniu vários poetas de Portugal. Esta nova participação no contexto literário, aos poucos me fez redescobrir uma nova forma de me manter ativa com as minhas atuais capacidades.

Penso que este pilar social também o senti quando criei o meu canal de Youtube[6] onde comecei a publicar pequenos filmes, alguns deles narrados por mim. Neste momento, este canal de Youtube já tem mais de cento e cinquenta subscritores e quase 20 mil visualizações, o que demonstra que este meu trabalho está a ser valorizado socialmente, sem qualquer incentivo financeiro. As pessoas subscrevem o meu canal porque gostam do que veem e ouvem, sem qualquer conexão à minha deficiência visual.

Esta aptidão artística e literária manifestou-se em mim desde criança. Aliás, durante muitos anos dediquei-me a pintar e a fazer exposições de pintura em várias localidades de Portugal. Para cada uma das minhas obras, sempre fazia questão de escrever um poema que dizia ser a alma e a personalidade de cada uma delas. Por vezes, as obras dos artistas são posteriormente explicadas por experts na matéria, mas será que falam do que o artista realmente sentiu quando as pintou? Por isso comecei a criar estes poemas para identificarem o que as minhas obras artísticas são, a partir do que imaginei e senti, ao criá-las. E assim comecei a fazer pequenos filmes com estas obras e poemas. Depois, como sou uma pessoa crente, comecei a fazer pequenas orações com a minha narração, usando fotos tiradas por mim da natureza e também imagens das minhas próprias pinturas sacras. Neste momento, tenho várias listas de reprodução no Youtube, incluindo uma dedicada ao livro “Bia por um Triz” onde também publico alguns filmes da gata real Bia com mensagens que motivam a adoção de gatos de rua. Brevemente, terei vários canais secundários dedicados a cada temática.

E então percebi que aos poucos estava também a me apoiar num quarto pilar…

4º Pilar – Ter objetivos que não se concentrem apenas em mim pois ainda sou útil e posso ajudar os que me rodeiam.

Quando escrevi o livro “Bia por um triz”, o meu maior objetivo era ajudar a desmitificação do que ainda se fala sobre os gatos, especialmente os de rua. Ao adotar a Bia, deparei-me com o mundo dos animais abandonados na rua, errantes e desprotegidos legalmente.

Penso que independente da nossa deficiência ou limitação, precisamos sair de nós mesmos e ajudar os que nos rodeiam. Este círculo de ajuda começa ali na nossa casa, a cuidar dos que moram connosco, sejam pessoas, animais ou plantas.

Mesmo sendo eu deficiente visual, sei que os meus gatos precisam que eu cuide deles. Tenho de cuidar do meu marido, dos meus pais, do meu irmão e de todos que necessitarem da minha ajuda na medida das minhas possibilidades.

Não é porque eu sou deficiente visual que devo estar apenas a aguardar a ajuda dos outros. Estes outros também têm as suas limitações e dificuldades, e por isso também eu preciso sair de mim mesma e estabelecer uma ação no ambiente que me rodeia.

E para além dessa atitude de ação no mundo, temos de estabelecer objetivos e metas a serem alcançadas.

Uma das frases que digo para mim mesma, é que se deve pensar em um dia de cada vez. Sei que com a minha deficiência visual, nem tudo poderá ser feito tão rápido como antes. No entanto, haverão outras coisas que poderei fazer e organizar para que possa manter um dinamismo na minha vida pessoal e social.

Este quarto pilar fecha um círculo, mas ao mesmo tempo volta a alicerçar-se no primeiro pilar, pois mais uma vez, esta questão da readaptação passa por um querer, por um agir, mesmo que seja um passo de cada vez, no sentido de se readaptar a esta nova situação de ser deficiente visual.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A aceitação da minha deficiência foi o passo mais difícil, mas também foi o primeiro passo na minha readaptação. Nada disso que eu aqui disse é fácil de fazer no dia a dia. É preciso trabalho e esforço pois o nosso corpo cansado vai desejar mais estar parado do que estar ali ocupado com tantas coisas que, por vezes, nos interrogam: - Será que vale a pena?

A questão é essa mesma. Ninguém sabe se isto ou aquilo vale a pena. Muitos dizem que, se não sabemos quanto tempo temos ainda de visão, porque fazer isso ou aquilo, estudar, trabalhar, viver? Mas o que de certo temos, é que ninguém sabe quanto tempo tem de visão. Conheci pessoas que perderam a visão sem ter qualquer doença visual. Pessoas que ficaram cegas após um acidente de automóvel, ou por baterem a cabeça ou tantos outros acasos da vida que se eu fosse aqui enumerar, não havia páginas que as escrevessem. A questão é que também a vida é uma interrogação em si mesma, com ou sem doenças, e mesmo assim, andamos de um lado para o outro com aquela sensação que somos eternos e invencíveis. No entanto, somos humanos e a minha deficiência visual me fez perceber que esta limitação da vida me faz viver ainda mais. Aliás tenho uma frase no meu blogue dedicado à bengala verde que é assim:

- “Ver cada vez menos a cada dia… Viver cada vez mais a cada dia…”[7] - Penso que esta frase resume bem, o que eu tenho tentado viver nestes anos, em que tenho perdido a visão tão rapidamente. Um processo doloroso, difícil e ao mesmo tempo, catalisador para tudo o que me tenho proposto a fazer. Ao mesmo tempo, tento estar atenta ao que se passa à minha volta.

A história do meu primeiro livro “Bia por um triz” é um pouco da minha história. Assim como um gato de rua tem a imensidão do mundo à sua volta, igualmente era assim, quando eu ainda tinha a visão a 100%. Quando a Bia veio para a minha casa, ela teve de se readaptar a um pequeno apartamento de 70 metros quadrados onde já lá estavam outros gatos. Se na rua, ela não devia carinhos e nem favores a ninguém, em casa teve de acreditar nos seus tutores e reaprender a confiar nos seres humanos e a depender deles. Eu, igualmente como a Bia, estou a ter o meu campo visual cada vez mais reduzido. De dia para dia, o que vejo é um espacinho cada vez mais pequeno e limitado. Sei que tenho de aprender a confiar nos que me são próximos para me ajudar a ver isto e aquilo. Em conclusão, eu aprendi que se um gato consegue se readaptar a um espaço mais reduzido de ação depois de ter tido toda a largueza do mundo, porque eu não poderei me readaptar a esta limitação física?

Aqui repito que essa limitação é apenas física pois mentalmente, ainda consigo voar para além dos limites visuais. Readaptar-me é crescer para um novo mundo, uma nova realidade como quem visita um país estrangeiro. Esta viagem é feita com os pés assentes no chão frio da realidade, mas com o coração no alto, bem alto até onde a minha decisão e vontade possa chegar.

Não vale a pena insistir em abrir aquela porta da deficiência visual que já está fechada. Mais vale vasculhar o nosso íntimo, e aos poucos abrir aqui e ali uma janela, e certamente iremos nos surpreender com o que vamos encontrar.

Penso que nós deficientes visuais, temos de ser como os atletas olímpicos que ultrapassam os obstáculos numa corrida. Porém, antes das medalhas, é preciso muito treino, esforço e resiliência para que se possa chegar à meta. Nesta corrida, todos os que ultrapassam os obstáculos, vencem a corrida. O mérito não está na rapidez, antes está na persistência dos atletas.

Nas olimpíadas da vida, o que importa é o ultrapassar dos obstáculos!

REFERÊNCIAS:

Deixo aqui os links de alguns dos meus blogues e do canal de Youtube para perceberem um pouco daquilo que foi mencionado ao longo do texto acima:

www.youtube.com/c/RosáriaGrácio

livrobiaporumtriz.blogspot.pt

vercombengalaverde.blogspot.pt

www.gracciocaetano.com


[1] Rosária Grácio faz parte do Gráccio Caetano Atelier. No site www.gracciocaetano.com podem ser vistos alguns dos seus trabalhos e o percurso artístico bem como das suas Exposições de Pintura.

[2] O Centro de Reabilitação da Areosa é um serviço do Instituto de Segurança Social, I.P., Centro Distrital do Porto, situado na Rua D. Afonso Henriques nº549, Rio Tinto, Porto, Portugal. Este Centro de Reabilitação promove a igualdade e o acesso aos direitos de cidadania, para pessoas em situação de vulnerabilidade social, estabelece e desenvolve parcerias, dinamiza as sinergias locais, rentabiliza os recursos comunitários, ativando os processos preventivos e interventivos de Inclusão Social. A sua Unidade de Reabilitação Funcional de Adultos tem como objetivo desenvolver competências individuais facilitadoras de autonomia pessoal e social. Os destinatários são pessoas com deficiência visual adquirida, com cegueira ou ambliopia, com idade superior a 16 anos, do Norte do País. Toda a intervenção desenvolve-se através do treino de técnicas específicas de Mobilidade, Braille, Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (com utilização de software específico para o PC Jaws, Abby Fine Reader e para o telemóvel), Atividades de Vida Diária.

[3] A Associação de Retinopatia de Portugal (ARP) é uma Instituição Particular de Solidariedade Social, sem fins lucrativos, de åmbito nacional, com sede em Lisboa. Foi fundada em julho de 1997 e, atualmente, conta com mais de 2000 associados, distribuídos por todos os distritos de Portugal Continental e Ilhas. (retinaportugal.org.pt/wordpress/)

[4] livrobiaporumtriz.blogspot.pt – neste blogue, Rosária Grácio partilha a sua experiência com a adoção de gatos, especialmente os de rua e já adultos, tendo também uma página no Facebook - www.facebook.com/livroBiaporumTriz

[5] Rosária Grácio teve um dos seus poemas selecionados para fazer parte da Antologia de Poesia "Entre o Sono e o Sonho" - Volume 8 – 2017, da Chiado Editora, cuja a apresentação foi realizada no dia 30 de setembro de 2017 no Teatro Tivoli BBVA em Lisboa. O poema selecionado tem o título de "Nas ruas virtuais da solidão…"  e neste poema, a autora Rosária Grácio colocou um pouco do que é o sonho nas mãos que avançam ou nas que se deixam parar pelo sono. Este poema foi escrito há cerca de dois anos, quando Rosária Grácio se deparava com esta luta diária na readaptação à sua deficiência visual progressiva.

[6] www.youtube.com/c/RosáriaGrácio - Neste canal do Youtube, Rosária Grácio tem vários filmes direcionados para diversos temas. No início, os filmes eram apenas para exibição das suas obras e poemas para além da narração de orações religiosas. Atualmente, este canal abarca também filmes ligados à desmitificação da adoção de gatos de rua com a divulgação do livro “Bia por um triz” e também filmes ligados aos outros blogues de Rosária Grácio.

[7] Para partilhar as suas dificuldades com a baixa visão e o uso da bengala verde na sua vida diária, Rosária Grácio criou um blogue, onde em alguns artigos dá a conhecer esta sua experiência de vida perante a deficiência visual -  vercombengalaverde.blogspot.pt