TORMENTOS VOLUNTÁRIOS – MIRIAM OFIR BARBOSA

 

Na busca pela felicidade, nos deparamos com tormentos que nós mesmos ocasionamos, realidade esta, muitas vezes não aceita por nós, afinal, a nossa visão estreita da realidade nos leva a imputar aos outros as causas pela nossa infelicidade, por aquilo que nos atormenta. Nossas conquistas no campo material, falam alto nas nossas mentes e nos conduz às conquistas que, acreditamos serem os recursos que nos trarão a felicidade e é igualmente este, o caminho dos nossos tormentos mentais.

“Penso, logo existo”, conforme nos deixou escrito o Filósofo francês Renê Descartes. A questão é entendermos, que se pensamos e logo existimos, colocamos para funcionar nossas mentes, nossa inteligência e discernimento, a favor da nossa existência, visto que se trata de um raciocínio lógico.

Acreditamos muitas vezes que ao determos determinado objeto do nosso desejo, isso nos preencherá e tudo ficará melhor nas nossas vidas, porque afinal, é aquilo que queremos e que envidamos esforços para conseguir, porém, quando alcançamos o nosso “objeto da posse”, parece que novo vazio se faz presente e vamos assim buscar um novo objeto que preencha esse vazio, nova busca, nova conquista e, obtemos o que queremos, e assim seguimos.

Até onde vamos com essa vontade, esse desejo de querer mais e mais? Até certo ponto essa é uma reação natural do ser humano.

Pedimos a oportunidade de nascer neste planeta Terra, sabendo ser este um planeta em constante evolução como tudo o que existe no universo e, graças à Deus, nos é permitida essa nova experiência, ou, em raras vezes, imposta esta oportunidade.

Partamos do princípio, excluindo a exceção, de que todos pedimos e aceitamos a nova proposta reencarnatória, nosso Espírito, ainda na erraticidade, sabe que a oportunidade que virá lhe valerá para todo e sempre, visto que somos Espíritos imortais e que, precisaremos exercer um esforço constante, elaborando assim, uma nova consciência que nos levará a alcançarmos a meta proposta.

Ilógico imaginar, que viríamos para esse verdadeiro “Planeta Escola”, para adquirirmos coisas, valores materiais e que assim a vida se extinguiria e nossos tesouros terrenos estariam garantidos. Desde a civilização mais remota, até os tempos atuais, nenhum historiador, nenhum geólogo, nunca, ninguém conseguiu ou disse que, alguém conseguiu levar daqui algo de material. No Egito, vemos ainda, resquícios de uma civilização que enterrava seus mortos, junto com seus pertences materiais e tudo o que lhe seria necessário, acreditando que eles, os mortos, se utilizariam daquele material. Abrimos essas tumbas e lá estão todos aqueles pertences, já bastante deteriorados pelo tempo, demonstrando a sua inutilidade.

Ao mesmo tempo em que evoluímos em conhecimento, também nos desgastamos, nos atormentamos por essas questões materiais. Vemos que elas, quando mal empregadas, causam o excesso, nos transformam em tiranos; quando as transformamos em símbolo para os nossos desejos, nos conduzem às viciações, porém, vejamos que é natural a busca, o que não é natural é o abuso, o excesso, são essas formas de conquistas e buscas que nos levam a caminhos tortuosos. Avaliando sob essa ótica, percebemos que não são os objetos dos nossos desejos que nos levam a caminhos tortuosos, mas sim nós mesmos, que não aprendemos ainda a controlarmos nossos impulsos e a darmos o devido valor a tudo isso que queremos possuir.

É no Evangelho Segundo o Espiritismo, em seu Capítulo V, ítem 23, que vamos nos inspirar, para verificarmos o que os Espíritos nos instruem a respeito do tema apontado, é Fénelon, que em Lyon, no ano de 1860, nos deixou essa mensagem, codificada por Allan Kardec, nesta obra.

A felicidade, na Terra, é possível de ser alcançada, porém, ela está para nós, na medida da condição do Planeta que habitamos, ou seja, aqui poderemos alcançar a felicidade relativa. Por que relativa, se queremos mesmo é a felicidade plena? Fica simples agora a compreensão, como podemos nós, querermos a felicidade plena, se acreditamos que ela pode ser encontrada nas coisas materiais.

…“Haverá maiores tormentos para a humanidade, do que os causados pela inveja e pelo ciúme?…” (E.S.E., Cap. V, 23) Podemos olhar uns para os outros e dizer, mas eu não tenho isso, eu não sou invejoso, não tenho ciúmes. Dizer-se não ter, não ser, faz parte da visão que temos de nós mesmos.

Perguntemos ao nosso próximo, se vêm em nós algum resquício de inveja ou de ciúmes, a resposta virá: SIM!

Todos nós, ainda possuímos ao menos em resquício esse tipo de sentimentos, basta vermos alguns exemplos:

Existem pessoas que tem um excesso de preocupação, com a perda de pequenos objetos, uma caneta “de estimação”, uma roupa preferida, uma joia, um livro, uma moeda rara; esse mesmo excesso de preocupação com a perda, nos conduz a tê-la na mesma proporção, com grandes objetos; outros carregam esse fardo da preocupação para a possibilidade da perda de um ente querido ou até para o que já se foi, o medo de ficar só; a necessidade de ida ao médico e receber a indicação de uma doença que necessita de medicação ou cirurgia para ser extirpada.

O invejoso não consegue ser feliz, sua mente atormentada, não alcança paz, o sono que deveria ser revigorante, é interrompido ou desgastante, pois, seu pensamento está ligado ao objeto de sua inveja, seja ele material ou não. O invejoso quer ter para si o que não lhe pertence, ou o que ainda não conseguiu adquirir, olha para o que o vizinho tem e pensa:-Como pode aquele vizinho ter comprado esse carro e eu nem carro tenho; parece que aquele vizinho tem muita sorte, olha só as roupas que ele veste, a esposa então, que linda, ele vive feliz e eu não tenho nada disso; qualquer detalhe para ele, lhe causa inveja. O ciumento, por sua vez, é aquele apegado, igualmente não tem paz, excede nos cuidados com aquilo que acredita ser seu. É o caso da caneta, do livro, mas temos um ainda pior, aquele que “tem ciúmes até da própria sombra”, como dizemos popularmente. Vemos isso, entre casais, entre amigos, entre pais e filhos, entre pessoas para com seus animais de estimação. Quantos tormentos voluntários presentes na vida de nós seres humanos. Chegamos ao cúmulo de, na atual fase de globalização e a facilidade da internet, vermos grandes catástrofes ocorrerem pelo ciúme das imagens que ali circulam. Tempos atrás, a mulher ou o homem, ciumentos, cheiravam as roupas do parceiro ou da parceira, viam a gola da camisa se estava com marca de batom, olhando isso parece até uma coisa doentia. E hoje? Precisamos até de leis que regulamente esse abuso à privacidade, e isso se falando de casais, formadores de uma família, quanto ciúme, quanto tormento voluntário. Tentam muitos, mesmo em razão da profissão que exercem, a todo custo fazer cumprir o seu desejo de dominar, aquilo que acredita ser seu, não aceitando jamais um “não”, como resposta, ou seja, o término de um relacionamento.

Quantas mentes doentias, perturbadas por sua própria intemperança, falta de confiança e de discernimento, ainda não reconhecendo seus verdadeiros tesouros, que não se encontram nas coisas da Terra, mas sim no céu.

O céu que muitas vezes olhamos para cima a fim de encontra-lo e que bastaria apenas olharmos para dentro de nós mesmos para fazer do nosso ser aquele que consegue experimentar a paz que tanto buscamos, a certeza do dever cumprido, dever esse moral.

É, em razão dessas imperfeições humanas, que precisam ser extirpadas, através do aprendizado constante e entendimento, que Jesus nos disse que todas as leis que regem o homem na Terra, devem assim imperar, nos indica e exemplifica a maior delas, a Lei de amor: “Amar a Deus sobre todas as coisas, de todo o coração, de todo o entendimento, de toda a sua alma e ao próximo como a si mesmo.”

Que amor é esse que pode sublimar o ser à felicidade, mesmo que relativa, vejamos que se trata do amor a si mesmo. É Jesus deixando para nós um roteiro seguro, quando exorta o amor a Deus acima de todas as coisas, pois quem não ama a si mesmo, não pode amar a Deus, muito menos ao próximo.

Precisamos aprender a valorizar o que somos e a deixarmos para segundo plano o amor ao que temos, pois o amor verdadeiro não se apega às coisas, mas sim aos sentimentos, afinal, como vimos, nós levaremos daqui aquilo que conseguirmos desenvolver em nós, esperamos que levemos os bons sentimentos e o conhecimento, através da instrução, sendo que esses ninguém nos tira, não se deterioram e tão pouco podem ser de nós roubados.

Se ainda nos sentimentos atormentados, vamos repensar em como fazer para nos libertar desses tormentos. Valorizemos a vida, vamos despertar para um novo dia compreendendo a oportunidade que Deus nos dá a cada manhã de novo aprendizado, não importa a constituição física que temos, pois, acreditemos, é a ideal para a nossa proposta evolutiva. A família que compomos, o local em que vivemos, tudo compõe o universo Divino, que está cheio de oportunidades para o aprendizado.

Joanna de Ângelis, nos esclarece a respeito desse tema, no livro: Triunfo Pessoal, psicografado pelo Médium Divaldo Franco: “…Poderoso, pelas suas resistências para vencer dificuldades e alterar os panoramas por onde tem transitado, o ser é, ao mesmo tempo, na sua constituição física, frágil, porque pode ter interrompida a existência orgânica por uma picada de inseto contaminado por vírus devastador ou um choque emocional poderá vencê-lo, prostrando-o, em largo estado de paralisia e coma, que lhe anula a lucidez e lhe impede prosseguir nos compromissos que lhe diz respeito atender.” (Ítem 3, Tormentos Psicológicos – Insegurança pessoal).

Entendemos que, diversos fatores externos, corroboram para com o nosso desequilíbrio interno, psíquico, nos conduzindo assim à grandes aflições, insegurança, ansiedade, medo, o que pode nos afastar, mesmo que temporariamente, do meio em que vivemos. No esforço constante, haveremos que agarrar esse desafio e ultrapassar esse momento, esse é o caminho para nos desenvolvermos em conhecimento e sentimentos.

Esses pensamentos, quando constantes, nos levam a verdadeiros tormentos, acabam por desaguar no corpo físico. Todo mal é de ordem espiritual, seu reflexo se dará no corpo perispiritual e material, atingindo, a cada mazela, um determinado órgão, verdadeiro eixo energético, que podem nos propiciar tanto as doenças, quanto a cura.

A insatisfação que temos com relação a nós mesmos e que não conseguimos solucionar, nos conduz à depressão, mal do nosso século. O primeiro caminho é este, depois virão as síndromes, dentre elas a do pânico e outras.

Quando buscamos desvendar os escaninhos da nossa mente, verificamos que necessitamos desenvolver sentimentos que nos levem à proximidade daqueles que fazem parte da nossa família, independente de termos ou não laços consanguíneos, precisamos nos aproximar das pessoas, ter a oportunidade de dizer aos outros o quanto são importantes para nós, mostrar, através das nossas atitudes essa importância, para que não sejam apenas palavras ditas da boca para fora e sim que conduzam em si o nosso sentimento, carregado de energias, que nos aproximam dos nossos semelhantes, nos auxiliando a construir o verdadeiro amor, o amor desinteressado, que valoriza e que traz vida, que vivifica a nossa alma.

Jesus conhece cada alma desse solo terrestre, nos entende e nos deixa um roteiro seguro para seguirmos, lições estas contidas no Evangelho e que foram exemplificadas por Ele. Cabe a nós, porém, acreditarmos e agirmos em prol de um amanhã melhor.

“O hábito saudável da boa leitura, da oração, em convivência e sintonia com o Psiquismo Divino, dos atos de beneficência e de amor, do relacionamento fraternal e da conversação edificante constitui psicoterapia profilática que deverá fazer parte da agenda diária de todas as pessoas.” (Triunfo Pessoal, Joanna De Ângelis, Divaldo Franco – Ítem 6, Transtornos profundos – Depressão)

Lembremos que estamos adstritos à Leis Naturais e imutáveis, dentre elas a lei de atração e a lei de ação e reação. É o que permeia nossas mentes que direcionará o nosso porvir, uma mente atormentada, provocará um verdadeiro caos, na existência presente. Emmanuel, em obra psicografada por Francisco Cândido Xavier – “Chico Xavier pede licença”, no Capítulo das desencarnações coletivas, quando perguntado ao benfeitor: Por que Deus permite a morte aflitiva de tantas pessoas enclausuradas e indefesas, como nos casos de incêndios e, pedimos licença para acrescentar, mais recentemente, a queda de um avião? Ele responde: “criamos a culpa e nós mesmos engenhamos os processos destinados a extinguir-lhe as consequências. E a sabedoria Divina se vale dos nossos esforços e tarefas de resgate e reajuste a fim de induzir-nos a estudos e progressos sempre mais amplos no que diga respeito à nossa própria segurança. É por este motivo que, de todas as calamidades terrestres, o homem se retira com mais experiência e mais luz na mente e no coração, para defender-se e valorizar a vida”.

Somos seres espirituais em uma jornada humana, quando bem aproveitamos as experiências presentes, para crescermos espiritualmente, nos tornamos os aflitos e assim Bem-aventurados. Nos preparamos para sentir a felicidade relativa que o nosso Planeta Terra, nos permite sentir. Temos a oportunidade de sentir nossa mente calma, nossos corações em compasso de serenidade, e essa calma já é a expressão da felicidade.

Detentores da livre vontade de escolha, precisamos extirpar as culpas, o remorso, pois a resposta será sempre a punição. A escolha pela felicidade é algo que cada um de nós pode fazer, tudo deve ser considerado como útil na vida, porém, o passado nos deixa apenas suas lições, não podemos voltar e fazer um novo fim. Vale para nós o presente, o respeito que temos para com o nosso próprio ser, nos libertando das mazelas da mente, buscando ajuda, se necessário, nos conhecendo, nos valorizando, como criaturas de Deus. Devemos procurar a paz íntima, que mora dentro dos nossos corações.

Onde o amor impera não haverá sofrimento. Olhemos para a vida futura, tudo o que podemos construir de bom no hoje, para termos um amanhã cada vez melhor.

Muita Paz a todos!