Perante o choque da invasão russa da Ucrânia, muitas populações mobilizaram-se para estender a mão a quem teve de fugir da guerra. Portugal não foi excepção e a Associação Pão a Pão fez também parte desse movimento solidário.
Sabendo que as portas estavam abertas e o acolhimento garantido, quisemos dizer às pessoas refugiadas da Ucrânia que há um futuro para construir aqui. Ainda em Março de 2022, organizámos um concerto no São Luiz Teatro Municipal, acompanhado por uma campanha de angariação de fundos. A generosidade dos portugueses superou as nossas expectativas e conseguimos recolher nessa ocasião mais de 90 mil euros. Depois da auscultação aos próprios refugiados, associações de imigrantes e organizações de acolhimento, considerámos que era prioritário intervir no bem estar físico e emocional das crianças, jovens e adultos que fugiram do território ucraniano.
Ninguém tem dúvidas de que a língua é um dos pilares da integração. Por isso, comprámos centenas de livros de Língua Portuguesa para Estrangeiros, para facilitar a aprendizagem do Português.
Fizemos uma turma do Mezze Escola, o curso de restauração criado em parceria com a Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, para pessoas deslocadas da Ucrânia.
E ainda lançámos o IUPI! - Instigar Utopias, Plantar Ideias. Trata-se de um projecto destinado a crianças, jovens e adultos a residir no centro de acolhimento gerido pelo Jesuit Refugee Service (JRS) em Vila Nova de Gaia. Estamos a trabalhar para desenvolver a sua autoconfiança, cuidar do seu bem estar físico e emocional, mas também abrir caminho à criação de redes, para que ninguém se sinta sozinho.
Para as crianças até aos 10 anos introduzimos actividades que seguem a metodologia DROPI, desenvolvida e testada pela Associação Unifica. O objectivo é promover competências socioemocionais, como o autoconhecimento, autoestima, empatia, comunicação, gestão
emocional, pensamento crítico e resiliência. Cada sessão é dinamizada por um monitor que, ao longo de duas horas, promove espaços de diálogo, interação e desenvolvimento pessoal e social, recorrendo a uma diversidade de metodologias activas e participativas, que envolvem dinâmicas grupais, jogos, debates, role-plays, exercícios de reflexão individual, relaxamento, entre outros.
É pretendido que as crianças se tornem mais competentes para superarem desafios e obstáculos, e mais conscientes das suas aptidões e forças.
Em paralelo, o Movimento Transformers está a trabalhar com adolescentes e adultos, numa construção do processo participada, dando pelo caminho ferramentas para uma integração social. A metodologia da Escola de Superpoderes pretende capacitar adolescentes e jovens adultos para serem agentes de mudança na sua comunidade, através do potencial dos seus próprios dons e talentos. Um grupo de mentores partilha o seu conhecimento de forma regular (duas ou mais vezes por semana), através das atividades como o desporto, ioga, agricultura ou cozinha. Os aprendizes desenvolvem assim novas capacidades, competências pessoais e sociais (criatividade, comunicação interpessoal, trabalho em equipa, pensamento crítico, consciência social, cooperação, resiliência e empatia), apercebendo-se de que cada um tem valor a acrescentar na comunidade onde está inserido.
O tempo de permanência num centro de acolhimento tem muitos desafios. O compasso de espera para uma vida autónoma arrisca-se a criar uma sensação de vazio e desenraizamento, com efeitos nefastos no desenvolvimento das crianças e jovens, e na saúde mental de adultos, prejudicando o processo de integração de todos. Não tem de ser assim. E por isso criámos o IUPI! - Instigar utopias, plantar ideias.