#Ocupajornalismo

Este é um manual criado para orientar redações e também escolas de jornalismo a se atentarem para a importância de um olhar diverso, com riqueza e pluralidade de perspectivas. O objetivo é ajudar a imprensa a refletir a diversidade de condições sociais e econômicas - e, portanto, de pontos de vista - que compõem o país. E fazer um jornalismo que respeita e se constrói a partir dessa complexidade.

Quem produziu este manual?

Este manual foi feito colaborativamente por um grupo de jornalistas do centro e das periferias, em um debate sobre formas de ocupar a imprensa tradicional com pautas que refletem os interesses dos grupos que são as maiorias: mulheres, pretos e pardos, pobres e moradores de periferias.

Depois do debate, o conteúdo foi organizado pela Escola de Jornalismo da Énois, que capacita jovens das periferias de São Paulo em jornalismo.

Este material é aberto para ser aprimorado: tem licença CC BY 3.0 BR, ou seja, seu conteúdo pode ser usado e compartilhado, dando o respectivo crédito. Caso tenha sugestões e comentários, por favor, envie para contato@enoisconteudo.com.br

Um manual em construção

Este material é o começo de um monitoramento contínuo que a Énois quer manter sobre a diversidade no jornalismo. Queremos fazer ambos - o manual e a diversidade no jornalismo - crescerem.

Para isso, queremos receber indicações de ações das redações e exemplos de cobertura que ajudem o jornalismo a refletir, de forma mais completa e plural, a sociedade.

Mande contribuições para o e-mail contato@enoisconteudo.com.br 

Agradecimentos

Amanda Rahra, Caroline Ferrari Farah, Bea Lima, Helaine Martins, Tiago Tuiuiu, Maria Teresa Cruz, Nana Soares, Juca Guimarães, Nayra Lays, Marcela de Paula, Guilherme Petro, Isis Naomí, Stephanie Minucci, Natália Barbosa, Yuri Nogueira.

Organização e edição

Nina Weingrill e Simone Cunha


Capítulo 1 - Representatividade e agenda pública

Como diversificar as pautas

A imprensa no Brasil nasceu por decreto, das mãos de D. João VI, com a função de registrar os acontecimentos administrativos da colônia. Mesmo quando ganhou concorrência, ela também vinha das mãos de outro homem branco, de família abastada, formado em leis, filosofia e matemática na Universidade de Coimbra. Assim que viu a existência de seu jornal, o Correio Braziliense, ameaçada, Hipólito José da Costa fez um acordo secreto com a Coroa portuguesa, que comprava parte da tiragem da publicação e lhe dava uma "ajuda de custo" em troca de críticas mais moderadas à monarquia.

Temos, desde sempre, uma concentração econômica da mídia, que reflete também os interesses de grupos específicos, com demandas específicas. Em 2016, a ONG Repórteres Sem Fronteiras rebaixou o Brasil cinco posições em seu ranking mundial de liberdade de imprensa – para o 104º lugar em um conjunto de 180 países –, dizendo que “o campo da comunicação ainda é bastante concentrado no país, com forte influência de grandes famílias industriais, com frequência, próximas da classe política. Cerca de 40 senadores e membros do Congresso Nacional possuem participação societária em concessões de canais de rádio e de TV, de acordo com ação movida pelo PSOL, no Supremo Tribunal Federal – o que já foi considerado ilegal pelo STF porque viola a constituição e dá privilégio aos políticos.

Os assuntos que a imprensa trata - as pautas - geralmente nascem a partir da ótica de quem produz – e paga – essa produção: são os donos dos veículos, os jornalistas e os influenciadores desse segmento da sociedade. Os consumidores de notícias, por sua vez, tendem a considerar mais importantes os assuntos veiculados na imprensa. Forma-se aí um círculo, um diz que me diz do que é importante, um fenômeno conhecido no jornalismo como "agenda pública". Seguindo nesse contexto, a consonância nas notícias – entre veículos e jornalistas – tende a ser buscada e valorizada e as diferenças, não. Por exemplo: quando todos os jornais dão a mesma capa, isso quer dizer que "acertaram" o que é a pauta principal do dia. Quando, na verdade, isso significa que existe uma mesma visão de mundo, poder e influência de quem produz e pauta a notícia.

O problema que isso causa está claro: a leitura de mundo que o jornalismo faz da realidade tem um recorte que passa longe da realidade da maior parte dos brasileiros. Um exemplo disso foi a dificuldade que jornalistas dos grandes veículos tiveram, tanto em 2016 quanto em 2012, ao tentar explicar o fenômeno Russomano. O candidato, considerado pela imprensa um azarão, liderou as pesquisas eleitorais para prefeito na cidade de São Paulo nas duas eleições consecutivas. Enquanto tentavam parvamente explicar os gráficos, os jornalistas deixavam transparecer o preconceito que tinham em relação ao candidato preferido pelas pessoas das classes C, D e E (68% dos brasileiros, segundo dados do IBGE).

Trecho do texto publicado durante a sabatina de jornalistas para a Folha de SP com o candidato a prefeito Celso Russomano.

Um caminho para equilibrar esse cenário, no entanto, só começou a ganhar força no Brasil com a popularização da internet, que diluiu os custos de produção da mídia e possibilitou a coletivos locais lançarem seus veículos online. Desde 2003, de forma mais organizada, coletivos como o Intervozes, levantam a bandeira da democratização da informação. Em 2009, durante a Conferência Nacional, foram reunidas uma série de propostas para regulamentar questões como o fim das licenças de rádio e TV para senadores e deputados, a concentração de verbas publicitárias e um espaço garantido para o sistema público e comunitário – que hoje estão contempladas num projeto de lei de iniciativa popular chamado Lei da Mídia Democrática.

No entanto, não é preciso esperar que uma lei comece a valer para encontrar caminhos que solucionem essa concentração. Veículos independentes como a Agência Pública, a Ponte e a ONG Repórter Brasil têm trazido à tona pautas que não recebem espaço na grande mídia, por exemplo, mas que tem gerado repercussão nela.

Apuração da Agência Pública repercutiu crítica na Folha de SP durante as Olimpíadas

Texto de Andrea Dip para Agência Pública republicado na íntegra no El País e n’O Globo.

ONG Repórter Brasil,  que investiga casos de trabalho infantil e análogo ao escravo, tem informações replicadas pelo Estadão.

Investigação da Ponte Jornalismo que desmascarou o capitão do Exército infiltrado nas manifestações de 2016.

Diário do Comércio repercute caso publicado pela Repórter Brasil.

Por um lado, as novas iniciativas jornalísticas ganham repercussão e influenciam a sociedade quando pautas e reportagens vindas delas chegam à grande imprensa. Por outro, tem sido estratégico para alguns jornais formatar parcerias de conteúdo e distribuição de reportagens produzidas por esses veículos. A Folha de SP, por exemplo, apoiou o nascimento da Agência Mural, que começou como um blog no site do jornal e hoje é uma agência de notícias independente das periferias, que contribui, mesmo que ainda com pouco espaço, para a diversidade na produção.

Ter um diálogo permanente com esses veículos de mídia independente é uma forma de garantir que a agenda pública tenha uma conversa mais diversa e, por isso, mais próxima da realidade brasileira – ainda que a redação de parte desses veículos também seja formada por jornalistas que fizeram escola na grande mídia.

Blog Mural no site da Folha de S. Paulo.

Site da Agência Mural em campanha de financiamento coletivo.

Coletivo Periferia em Movimento escreve sobre mobilidade nas periferias para o jornal online Nexo.

Agência Pública lançou um mapeamento da mídia independente no Brasil.

Essa parceria é benéfica para ambos. A grande mídia consegue chegar aonde muitos veículos independentes não chegam – podendo levar pautas de seu interesse para outros públicos - e são incontestavelmente veículos que exercem pressão e fiscalização sobre o poder econômico e político instituído, especialmente por conta da repercussão. Já o olhar dos veículos independentes enriquece a produção jornalística da imprensa como um todo, muitas vezes quebrando estereótipos, trazendo outros pontos de vista para determinados assuntos e olhando para o cotidiano de maneira mais específica - lembrando que o conjunto de visões específicas compõem uma realidade muito mais complexa e abrangente.

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Mapeamento da Revista Paladar (Estadão) com serviço gastronômico em São Paulo comparado ao do Prato Firmeza, guia gastronômico das periferias da cidade. Os dois mapas poderiam co-existir num cenário onde há diversidade jornalística.

Outras práticas que ajudam a trabalhar a representatividade nas redações são produções colaborativas - mais de uma pessoa dedicada a uma mesma reportagem. Isso evita recortes simplistas. Por exemplo, ao falar de problema de mobilidade urbana, ter na equipe pessoas que possuem rotinas diferentes (vão ao trabalho de ônibus, carro e bicicleta), que geram uma experiência vivida que impacta diretamente na abordagem do assunto.

Quase sempre é possível, também, incluir aspectos, econômicos, sociais, culturais, comportamentais e efeitos gerados pela má distribuição de renda nas pautas que, a princípio, são sobre um assunto específico. Isso aproxima a produção jornalística, qualquer que seja ela, da população.

                                        


Capítulo 2 - Diálogo com a sociedade

Como diversificar o público

- ouvir a sociedade: saber o que pessoas e grupos diferentes entre si pensam sobre as pautas (seja por meio de canais oficiais criados pelos veículos ou informalmente) contribui para ampliar temas e abordagens

- diversificar pautas: compreender e falar sobre o cotidiano e os interesses de diferentes leitores aumenta o potencial de apoio financeiro aos veículos

A maior parte da imprensa brasileira discute mecanismos de combate ao racismo, mas não entram no debate mais aprofundado, levando em conta questões históricas, filosóficas, sociológicas e antropológicas, segundo a pesquisa Parlamento e Racismo na Mídia. Nas redes sociais, por outro lado, o assunto é discutido e gera polêmicas, porque faz parte do cotidiano de grande parte dos brasileiros.

Esse descolamento da sociedade é produto da falta de percepção de quem é a sociedade, de uma idealização do “leitor médio” e da falta de diálogo. Ou seja, o que define a pauta não é a urgência do leitor, e sim forças econômicas, políticas ou a visão de um grupo específico - que não necessariamente é majoritário. Na época em que a resposta do leitor tinha que ser enviada por carta à redação, esse distanciamento era pouco enfrentado. Hoje, vemos o questionamento das pautas e enfoques dados pela imprensa acontecer de forma quase imediata. A Folha de SP publicou entrevista com a primeira dama de São Paulo, onde a mesma compara Paraisópolis à Etiópia. Na mesma semana, Vagner de Alencar, morador de Paraisópolis e colaborador da agência Mural, escreveu uma carta-resposta à entrevista.                                                    

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A Folha de SP publicou entrevista com a primeira dama de São Paulo, onde a mesma compara Paraisópolis à Etiópia. Na mesma semana, Vagner de Alencar, morador de Paraisópolis e colaborador da agência Mural, escreveu uma carta-resposta à entrevista.

Se aproximar do leitor sem idealizá-lo é também uma forma de fazer um jornalismo mais representativo e diverso. Quando abrimos o canal e deixamos o campo de pautas aberto à participação do leitor, podemos trazer assuntos que saem do ciclo vicioso que a maior parte dos veículos está acostumada a reproduzir.                                         

A nova cara da velha cara do capitalismo brasileiro: capas similares de 2006 e 2016 da revista Exame.

Quem faz e lê a revista: mulher negra é “ela”, homem branco de gravata é “você”.

Veículos que nasceram na era digital incorporaram alguns hábitos que promovem a conversa. A Revista online feminista Azmina, por exemplo, possui um grupo de leitoras e apoiadoras no Facebook no qual discutem pautas e rumos para o veículo. A Agência Pública criou um sistema onde os leitores que apoiam financeiramente o veículo votam nas pautas que querem ver realizadas.

Esse diálogo aproxima o público do veículo, que entende que o mesmo está ali à serviço de seus interesses, e é uma forma de garantir sua sustentabilidade. Se as reportagens trazem utilidade para o cotidiano dos leitores, há chances de que irão apoiar, assinar e/ou contribuir financeiramente com o canal.


Capítulo 3 - Processo seletivo

Como diversificar a equipe

- buscar jornalistas de perfis diferentes: no lugar de uma seleção que valoriza experiências e saberes padronizados, se empenhar em alcançar gente de outras classes, raças e vivências enriquece a produção jornalística e seu alcance.

No mesmo tempo em que a mídia passou por mudanças significativas, a demografia do jornalista brasileiro segue muito parecida. O percentual de negros entre os jornalistas é inferior à metade da presença de pretos e pardos no Brasil (72% dos jornalistas eram brancos, enquanto que 52% da população brasileira se declara negra), segundo uma pesquisa da UFSC para entender o perfil do jornalista, em 2012, feita por meio de uma enquete com 2.731 profissionais do país. (Quem é o jornalista brasileiro). Um levantamento feito pelo Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa em 2016 constatou que os negros não eram nem 10% dos colunistas dos principais jornais do país.

Nove em cada dez jornalistas eram diplomados em Jornalismo, em sua maioria por instituições de ensino privadas, indica também a pesquisa “Quem é o jornalista brasileiro”.

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Generalização é resultado evidente de um ponto de vista que fala de "nós" para "eles".

A forma mais eficaz de combater a falta de diversidade das redações é rever seus processos seletivos. As redações estão inclinadas a contratar pessoas que tiveram experiências que a maior parte da população muitas vezes não teve acesso, como viajar para o exterior, ou falar uma segunda língua. E não ter feito isso não o torna um mau jornalista. Para alguém que mora em um grande centro urbano, por exemplo, ter a experiência de andar de ônibus é mais importante do que andar de carro. Rever esse processo, olhar de novo para as perguntas, acolher perfis e formações diferentes, olhar com carinho experiências de cunho social, não eliminar um candidato pela faculdade ou uma mulher porque ela acabou de se casar, são pequenas coisas que impactam no resultado. Pelo contrário, cuidar da diversidade entre os selecionados enriquece a produção.

Em muitas empresas, existe um perfil esperado e homogêneo e isso prejudica a retenção de pessoas que hoje são minorias nesses espaços. "Ter uma chefe negra como eu fez com que eu me sentisse mais segura para me afirmar esteticamente, deixar meu cabelo crescer. Eu tinha orgulho dela", afirma a repórter Nayra Lays, de 20 anos.

Divulgação do processo seletivo da Folha de SP: redações homogêneas.

Depois, é importante trabalhar a divulgação das vagas de forma criativa. Alguns veículos americanos já publicam oportunidades em listas de classificados populares como o Craigslit. Você aumenta seu alcance e pode encontrar talentos de forma não-tradicional.

Em 2016, a agência investigativa Pró-pública se questionou sobre o que estava fazendo, como redação, em relação à diversidade, tendo cerca de 70% de brancos em sua equipe. Criou então uma série de ações para aumentar a representatividade de grupos "minorizados", como um fundo pago para não-brancos fazerem estágio remunerado (os estágios na agência são todos não remunerados e acabavam atraindo sempre o mesmo público).

Outra iniciativa mais recente da agência paga bolsas para estudantes que querem participar das conferências de associações jornalísticas de grupos hispânicos, afro-americanos, asiáticos e nativo-americanos, apostando na formação diversa desses jovens. Os programas, no entanto, estão diretamente ligados a questões de raça e etnia. Não há nada na iniciativa que fale sobre gênero – apesar de 60% da redação ser composta por homens.


Capítulo 4 - Cargos de chefia

Como diversificar o comando

Apesar de serem maioria nas redações (64%), as mulheres ainda são minoria nos cargos de chefia diz a pesquisa Quem é o jornalista brasileiro, da UFSC. Tirando as revistas femininas, há uma desproporção notável no número de homens e mulheres à frente das grandes redações no país.

De acordo com o levantamento, as mulheres mais jovens ganhavam menos que os homens, eram maioria em todas as faixas até 5 salários mínimos e minoria em todas as faixas superiores a 5 salários mínimos.

Esses dados se refletem diretamente no tratamento que é dado ao conteúdo. Vivemos para ver a cobertura machista das Olimpíadas se tornar pública e pautar a própria imprensa, por exemplo. "Simone Biles, o Michael Jordan da ginástica olímpica", foi título de uma matéria que comparava a ginasta a um atleta masculino, ao invés de reconhecer suas conquistas como únicas. Enquanto 45% das atletas eram mulheres, apenas 21% da imprensa cobrindo o evento era mulher.

Tuítes do jornalista Milton Neves durante as Olimpíadas.

Chamada do Chicago Tribune usa, no lugar do nome da atleta, o título de esposa.

Matéria do Olé faz galeria de fotos com atletas suecas: “loiras de olhos claros chamam a atenção de todos”, diz a linha fina.

E mesmo quando o tema não é esporte, o tratamento dado a temas que se relacionam com o universo feminino é machista, como mostram exemplos da cobertura de casos de violência contra mulher citadas no Minimanual do Jornalismo Humanizado da ONG Think Olga.

Existe, no entanto, um movimento de veículos independentes nascendo das mãos de mulheres que, para além da discussão de gênero, estão inovando no jornalismo, como é o caso da Agência Pública, do jornal Nexo, da revista Azmina e dos projetos Nós, Mulheres da Periferia e Gênero e Número.


Capítulo 5 - Diversificar as fontes

Como buscar especialistas

- procure trabalhar representatividade na escolha dos entrevistados e, se o tema tem relevância social, provavelmente existam grupos que já atuam na questão e devem ser consultados

Todo jornalista sabe que, numa reportagem, é importante ouvir e o maior número possível de fontes relacionadas ao assunto. Isso significa que um jovem deve ser ouvido quando a pauta é ensino médio, assim como idosos devem ser ouvidos quando se fala sobre aposentadoria. Não devemos desconsiderar ninguém na hora de apurar.

No entanto, isso é muito comum, tanto em veículos da grande imprensa quanto em veículos da mídia independente. Em 2016, por exemplo, o site Jornalistas Livres publicou uma reportagem sobre as novas regras para verificar a veracidade da autodeclaração racial nos concursos públicos sem consultar fontes de entidades do Movimento Negro. O site recebeu críticas e publicou, em seguida, um manifesto dessas entidades, que apontava questões que não foram tratadas – ou tratadas de forma errônea – pelo veículo.  

Mas, para além disso, é importante também pensar em como ser diverso nessas fontes independente da relação direta com o tema. O entrevistado tradicional é homem e branco. Vemos, por exemplo, poucos negros sendo entrevistados quando o assunto é ciência e tecnologia. Ou poucas mulheres fontes de economia e empreendedorismo.

Projetos como o Entreviste uma Mulher e Entreviste um Negro são formas autônomas e independentes de provocar um olhar mais plural para as fontes e um excelente recurso para jornalistas.


Capítulo 6 - Linguagem responsável e acessível

Como falar de diversidade

- respeite os termos e formas de falar dos entrevistados: utilizar os conceitos escolhidos pelo grupo e acompanhar discussões sobre uso de expressões erradas ou preconceituosas faz o jornalismo se comunicar com o público sobre o qual fala, sem estereótipos

O jornalista Lucas Veloso, 22, colaborador da Agência Mural, reuniu exemplos de como se usa a palavra “carente” no noticiário. “O Mural acredita que a palavra carente, quando se refere aos moradores de periferia, é utilizada como julgamento de valor. A palavra pede um complemento, é preciso ser carente de algo. Da forma como é usada, ela só reforça os estereótipos sobre a periferia”, afirmou para reportagem da Folha.

É importante cuidar para que a escolha das palavras não comprometa o sentido daquilo que se escreve. Existem termos utilizados há muito tempo pela imprensa que foram, ao longo do tempo, sendo ressignificados. "Chame as coisas pelo nome que elas têm – e quando não souber, pergunte como gostariam de ser chamadas", afirma a jornalista Nana Soares, que tem um blog sobre feminismo no Estadão.

É fundamental ter cuidado com o texto, mas sem ser higienista. É comum, por exemplo, vermos citações diretas serem alteradas a ponto de mudarem a linguagem característica da fonte. "A linguagem periférica, cheia de gírias e expressões típicas, é rica e dinâmica e, por isso, merece seu espaço", afirma Juca Guimarães, repórter da Ponte Jornalismo.

O jornalista deve fazer sempre o exercício político de entender o que é pejorativo. Eufemismos como "mulata" e "da cor do pecado" foram utilizados em abundância durante décadas no Carnaval. Hoje estão na categoria de palavras ofensivas e racistas. Palavras como homessuxualismo e lesbianismo também. Acompanhar as discussões que são travadas por movimentos sociais que defendem causas específicas são uma forma de garantir o uso correto da linguagem.  

O sufixo “ismo” é utilizado para categorizar doenças. O uso correto  é homossexualidade.

Folha de SP usa o termo “carente” para classificar população pobre de São Paulo.

Jovens x traficantes: diferenciação de linguagem para públicos diferentes apontam preconceito da mídia.

Da mesma forma que invasão tem sentido diferente de ocupação e suspeito tem sentido diferente de criminoso. E o tempo todo vemos jornais usarem essas palavras porque possuem, por trás, intenções de significado específicas.

Aqui, alguns manuais que ajudam a cuidar da linguagem:

> Minimanual do jornalismo humanizado, Think Olga

> Manual de comunicação LGBT, do ABGLT

> Guia para jornalistas sobre gênero, raça e etnia, da ONU Mulheres


Capítulo 7 - Empatia

Como perceber a falta de diversidade

- buscar a diversidade na redação: analisar o perfil dos jornalistas e discutir pautas e temas importantes em grupos ajudam a ver se há gente diversa o suficiente trabalhando junta. Quando todos pensam da mesma forma sobre os temas, há indício de que não

Olhar para a falta de diversidade é o primeiro passo para nos tornarmos mais diversos. Veículos como a BBC Brasil tornaram parte dessa angústia pública, onde a diretora de redação afirma que são bons em monitorar a diversidade no governo, mas a aplicam muito pouco no ambiente de trabalho.

Diretora de redação da BBC Brasil faz texto “mea culpa” sobre falta de diversidade nas reportagens.

Culturalmente, temos uma imprensa majoritariamente elitista, em primeiro lugar, porque ainda dependemos de fontes de financiamento que se apoiam em modelos de publicidade, acesso e massa. Para mudar esse cenário, é preciso fortalecer, entre todos os atores, jornalistas e público, que o jornalismo está à serviço do cidadão. Isso passa por se colocar no lugar dele ao pensar uma pauta, mas também por transformá-lo em audiência ativa, que cobra e fiscaliza a qualidade e descentralização da mídia.  

s vezes eu quero ser simplista demais em veículo de massa porque temos que explicar as coisas. As pessoas não partem todas de um mesmo lugar. Quando vou falar de aborto, por exemplo, meu papel é falar que mulheres negras e pobres morrem mais. Não é falar por elas, mas é falar sobre elas", afirma a jornalista Nana Soares.                                 

                

Diversidade não quer dizer apenas histórico social, diferença de gênero ou racial. Uma redação onde as pessoas negras falam apenas sobre assuntos relacionados a elas não é uma redação diversa. O mesmo vale para mulheres serem as únicas a falarem sobre feminismo. Só isso (que já acontece muito pouco em redações mais ousadas) não quer dizer diversidade. Uma redação diversa é também aquela que traz pontos de vista diferentes que convivem e se desafiam o tempo todo. É uma redação que abraça a complexidade da sociedade e está empenhada em entendê-la.

                

                


Capítulo 8 - Banco de práticas de diversidade no jornalismo

Projeto

resumo

assunto

local

Revista Them e Into

O movimento #GayMediaSoWhite, que começou em 2016 nos EUA, apontou para uma cobertura excessivamente branca e feita por brancos de questões LGBTQ e vem puxando uma mudança no perfil das equipes e foco das publicações. Uma análise de 224 capas de revistas gays norte-americanas mostrou que homens cisgênero foram capa de 40% delas, em cinco anos, enquanto pessoas de cor foram de 9%. O dado foi a base de uma reconfiguração da revista Into, a partir da contratação de um editor negro gay, e que levou a publicação a alcançar, em média, 3,7 milhões de visitantes únicos por mês com permanência de pelo menos quatro minutos. A revista Them foi criada com a ideia de tirar a cultura queer do nicho, olhar olha para a cultura queer como inclusiva e parte da cultura geral e é feita em uma redação com apenas um homem branco cisgênero, comandada por Meredith Talusan, filho de imigrantes filipinos, que é trans, portador de deficiência e albino. "Esta é uma nova geração de jornalismo que está respondendo ao fato de que as pessoas mais jovens são mais queer e menos brancas", disse Talusan.

gay, queer, LGBTQ

http://www.latimes.com/entertainment/la-et-mn-lgbtq-media-into-them-magazine-20171114-story.html

Canal LGBTQ

canal de imprensa sobre política e cultura LGBT sem estereótipos, feito por LGBTS e que consigam falar com o movimento como um todo e não foquem apenas em festas, arte e crime

gay, queer, LGBTQ

workshop Fiam-faam, agosto/2017

Jornalistas trans

levantamento para identificar se há jornalistas trans, onde trabalham, o que cobrem. a partir da diversidade nas redações, fazer uma cobertura mais conscienti, humana e que se distancie de estereótipos e simplificações

transsexuais

workshop Fiam-faam, agosto/2017

Semana afro

Semana de aulas, oficinas e discussões com negros intelectuais e em posições chave do mercado para trazer representatividade no meio acadêmico e jornalístico. Falar sobre o espaço já alcançado, a busca de cada um pelo seu, as questões vividas no dia a dia da profissão, o racismo, o assédio, a desvalorização e as saídas e caminhos para construir um mercadod e trabalho mais diverso em raça

raça

workshop Fiam-faam, agosto/2017

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