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BOLINHAS DE GUDE - GILFREDO RENCK
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Bolinhas de gude

Lembro das vezes em que, tendo jogado à ganhas (e não sendo bem sucedido...) teimava em inciar outra disputa, improvisando caroços de butiá e de coquinho. Aí, então,  mais “seco”, aos poucos, ia readquirindo as bolinhas perdidas - permanentes relíquias; cada uma com sua historia e fascínio.

Autor:

Gilfredo Rodrigues Renck


BOLINHAS-DE-GUDE

Nota do autor

        Sendo a poesia a linguagem natural da adoração, volvi os olhos ao meu pretérito e refiz àquele cenário com tantos e tão criativos brinquedos. Desta vez, minha pena fez sobressair as bolinhas-de-gude (ou bolinhas-de-unha), segundo o linguajar da piazada. Eram verdadeira pérolas para todos quantos - como eu - registraram os mais felizes momentos da infância com os bolsos cheios destes cristais, à procura de parceiros para um entretenimento tão puro; em meio aos ransos, empurrões, cascudos e rixas. Por fim, com a naturalidade peculiar aos bons instintos, volta-se às casas lado a lado - já fazendo planos aos futuros embates e, ainda, mais amigos.

        Lembro das vezes em que, tendo jogado à ganhas ( e não sendo bem sucedido... ) teimava em inciar outra disputa, improvisando caroços de butiá e de coquinho. Aí, então,  mais “seco”, aos poucos, ia readquirindo as bolinhas perdidas - permanentes relíquias; cada uma com sua historia e fascínio.

        Diz-se que “cabeça vazia é a oficina do diabo’. Tenho lá minhas restrições a esta apologia, pois quando a minha fica vazia eu me transformo em criança e ponho-me a brincar com as palavras, transformando-as em brinquedos poéticos. Só, então, dou-me conta de que, em verdade, são as palavras que brincam comigo, fazendo-me arranjar ideias luminosas. Porém, há os que são ásperos, aos sentimentos e desaprenderam a arte de brincar. nestes, sim, o diabo toma conta de corpo e alma, pois o “capeta” não brinca em serviço…

        Bolinhas-de-gude tem o pretenso mérito de eternizar os fatos e os feitos de uma infância humilde, porém, com o virtuosismo de ser culturalmente rica em hábitos, crenças, costumes e princípios, com rastros bem sulcados na estrada real da campanha, onde o cheiro de terra e o vestígio de suor dos ascendentes, são as marcas da identidade de minhas origens de guri interiorano.

        Dedico esse poemo ao prof. João de Sousa Peil, o qual, além dos atributos como educador, cidadão e amigo, tem a virtude de ser um emérito poeta. Por isto, os meus trabalhos (poemas e crônicas), passam, sempre, pelo seu apurado crivo para receberem os retoques finais de sonoridade, harmonia e estética: tão necessários à pureza das obras literárias.

        

        Ao dar o passar d´olhos nesta poesia, percebi sua vibração interior ao vivenciar, no jogo vocabular, os dias de sua infância e sentir-se um personagem desta história, contada com a malícia suave que desliza levemente entre as palavras.

        A ele dedico este modesto trabalho, pois os poetas são aqueles que fazem bolhas de sabão com as próprias lágrimas; como ele o fez ao reviver e reavivar o seu passado e a sua história de guri: seco no jogo das bolinhas-de-gude

Fraternalmente

Gilfredo R. Renck


BOLINHAS-DE-GUDE

Prof. Gilfredo R. Renck

Folhei o diário do tempo

E, outra vez, me fiz menino.

De mãos dadas ao destino,

Caminhei de pés no chão,

Calça curta, mongolão,

Tive a infância que sonhei…

De tudo um pouco brinquei.

Embora esperto, era rude,

Mas com bolinhas-de-gude,

Fiz de um jogo, diversão.

Pareço me ver mirando,

Em prosa e verso acertando,

No imba do coração.

Sempre ia com meu pai,

Fazer compras no armazém

E limpava os meus vinténs

Da barriga de um porquinho,

Pra comprar balas “Mocinho”,

Puxa-puxa e pirulito.

Mas tinha um vidro maldito,

Que me ofuscava a visão

Bem na frente do balcão.

Eram cristais nos meus sonhos…

Só o meu velho percebia,

Me olhando, o troco pedia:

Dá, em bolinhas, ao medonho!

Jogo às ganhas; não às brincas”:

Gritava um seco, exibido

E o terreiro, bem varrido,

Ficava todo riscado,

Com gaias por todo lado.

E a turma do “deixa disso”

Desmanchava os reboliços…

No ponto, a repetição:

Falei primeiro - ultimão!

Não dou arredo na minha.

Quero meça ou dou levante

Pediu luz: um palmo adiante.

Não vale cú-de-galinha!


Os jogos, como esquecer:

Triângulo, tão conhecido,

O imba - mais aguerrido,

Tinha a cobra, o rapeluz,

A barca, a xanta e a cruz.

Depois, as mãos encardidas

E as roupas todas puídas…

Chegando em casa, o sermão,

O tabefe e o beliscão,

Mas, sendo mãe, não há dor.

Quantas lições de bondade,

Ao lembrar me traz saudade,

Aquilo, sim, era amor!

Das “bolitas”? Se me lembro,

Num saquinho bem guardadas,

Eram de vidro, rajadas,

Constelações coloridas.

Sempre a minha preferida,

Foi a esfera de um trator,

A “jogadeira” - um terror,

Quando tilintava em cheio,

Partia as outras ao meio.

E o chão da infância se foi…

O bigico, era a menor.

O bochão, sempre a maior.

Ah! Meu lindo olho-de-boi.

Eu sempre serei criança

Porque vivo de passado,

Com meus tesouros guardados

Lá no galpão da saudade.

Feitos por mim, de verdade:

Bola-de-meia, piões,

Pernas-de-pau e botões,

Arco-de-arame, bodoque

Carrinhos: Tinha em estoque.

Por fim, revelo um segredo:

Que as bolinhas-de-gude,

Terão a eterna virtude:

O “melhor” dos meus brinquedos!


GLOSSÁRIO

Arredo

permissão (ou não), para arredar a bolinha de um determinado lugar, facilitando a jogada do adversário.

Às ganhas

jogar a valer, ou seja, o ganhador ficava com as bolinhas que ele acertava do concorrente. Também dito às verdas.

Barca

modalidade de jogo no qual as bolinhas eram casadas no interior de uma figura que, vista de cima, tinha o formato de uma canoa.

Bigico

bolinha menor. Geralmente era a mais apreciada, por se difícil conseguí-la

Bochão

bolinha maior. Também era rara no comercio, por isto, mais valorizada pelo guris.

Casar

colocar uma ou mais bolinhas em jogo, obviamente propenso a perdê-las.

Cruz

modalidade de jogo no qual as bolinhas ocupavam os quatro pontos extremos (e o centro) de dois traços, perpendiculares entre si: dando o aspecto de cruz.

Cú-de-galinha

maneira mais fácil de preparar o lançamento da bolinha. Nesta posição a bolinha ficava presa entre a unha e o dedo polegar e a parte central do dedo médio.

Gaia

traçado feito no chão ligando três pontos equidistantes. Dois lados eram levemente côncavos e o outro convexo. Em algumas regiões diz-se “raia” ou “triangulo”.

Imba

cavidade feita no chão (com a própria bolinha), tendo a forma de uma concha. Modalidade de jogo.

Jogadeira

bolinha usada pelos guris para atirar nas outras. Segundo eles, a “escolhida” dava mais sorte, tinha mais resistência ao impacto e maior aderência entre os dedos.

Levante

retirar as bolinhas do jogo. Em algumas regiões era conhecido por “rapa”. Este procedimento era comum quando dos desentendimentos, brigas e situações afins.

Luz

reaviso que os mais secos davam aos adversários, permitindo jogar mais próximo. Ex.: luz de um palmo = avançar um palmo.

Meça

ato de medir a distância entre as bolinhas, em caso de dúvida. A régua improvisada era, geralmente, uma varinha de madeira.

Olho-de-boi

bolinha maior (rajada no seu interior), à semelhança de um globo ocular. Caso fosse um bigico, era conhecido por “olho-de-gato”.

Ovo

àquele que jogava mal.

Ponto

lugar demarcado por um traço (ou trilho), a mais ou menos seis passos da gaia. Dali os jogadores atiravam suas bolinhas em direção à gaia, cruz, imba, etc…, para ver quem inciava a sequencia no jogo.

Queimar

termo usado para designar quando a bolinha “jogadeira” caía dentro da gaia. Também expressava pisar no trilho ao atirar no ponto.

Rapeluz

modalidade de jogo com bolinha de gude, sobre o qual temos poucas informações.

Seco

guri que jogava bem. Bom de pontaria.

Tilintava

acertava

Ultimão

o último a lançar a bolinha do ponto. Segundo a crença infantil, este levava vantagem, pois sabia, de antemão, a posição das demais concorrentes.

Xanta

jogo no qual os contendores saíam a caminhar, um atirando na bolinha do outro.

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