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canções concebidas no inferno

wilton Cardoso

sumário

Lá fora

bunkers 2

As mãos dadas do mundo?

Desse mal-

querer não padecem.

Querem

saltar da favela

ao paraíso dos bunkers,

vida próspera e reta,

ganhar e gastar.

Querem voar

pra clausura dos muros

dos homens-casulo

em suas conchas de ouro.

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Limpeza urbana

Guardas civis,

com o apoio de garis,

tomam os bagulhos do mendigo

e, de quebra,

lhe aplicam uns bons sopapos.

Bem feito!

Quem mandou

sujar a cidade com os seus trapos

e sua existência?

O episódio é desagradável

ao paladar civilizado,

porém,

necessário ao bom funcionamento

e à assepsia da cidade,

para o bem viver

das pessoas de bem.

O prefeito,

sinceramente,

lamenta o os fatos

e lava as mãos.

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bunkers

os vidros fechados dos carros

os muros altos das casas

condomínios fechados

edifícios fortificados

câmeras, sensores, alarmes

a segurança dos shoppings

lá fora o mundo

favela sem fim

o egoísmo venceu

palmas pra mim

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Nosotros

Multidões,

vagam sós pelas redes, ruas,

mercados, shoppings, rodovias...

Carregam o desejo infinito de mais, sempre mais.

A vida se esvai

e a multidão, que não sabe de si,

se entrega ao trabalho incessante

de seus corpos contagiados pela devoção

da devoração do mundo

e de si mesmos.

Os zumbis perdem partes de si

perdem os seus, a alma e o mundo

e não sentem dor.

Perdem a beleza, derretem, despencam de si

e não se sentem feios

nem belos.

Perdem o prumo, o sentido, a lembrança

e não sentem o nada

imenso que os habita.

Autômatos perfeitos,

os zumbis não sentem o mal

nem o bem,

nem a solidão que se expande na noite

sem lua e estrelas de seu espírito ausente.

Não sentem nada

a não ser o desejo infinito de devorar(-se),

de gastar(-se) mais

e mais

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à velocidade da luz

o caos avança nas ruas

o caos avança nas casas

zumbis vagam o deserto

de asfalto ferro e cimento

ávidos por um trabalho

ávidos por um salário

anseiam uma chuva de crédito

para a colheita nos shoppings

e um farto supermercado

se as bocas repetem que sim

à espera de dias melhores

os olhos se afundam no chão

por dentro uma chuva de lágrimas

inunda o deserto das almas

de frio ferrugem e pó

os zumbis e seus corpos lentos

lentos seus pensamentos

se perdem apodrecendo

no inferno de ferro e cimento

o caos avança nos corpos

o caos avança nas mentes

à velocidade da luz

23/11/2016

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pátria amada

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o reino de mammon

cada palmo de terra

tem cerca e senhor

sertão não tem não

um maquinal compasso

de prazos e horários

adestra a duração

balcões e vitrines

encerram o desejo

em gaiolas de ouro

nem as almas tão leves

escapam ao peso

das réguas do preço

o corpo e a mente

dia a dia se negam

se entregando ao trabalho

no coração dos súditos

a aridez das horas

a solidão dos muros

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as pessoas de bem

é pobre porque não estudou

não estudou porque não quis

sem teto sem terra? sem vergonha

isso sim, sanguessuga safado

quer tudo de mão beijada

tá precisando é de uma enxada

lugar de nordestino é no nordeste

de mulher é em casa

de pobre é na faxina

de bandido é no xadrez

ou no além

bala nos filhasdaputa

só podia ser preto

não vem pedir dinheiro aqui não

seu/sua vagabundo(a) de merda

trabalhar cê não quer não né?

vira homem, sua bichinha

sodomia é pecado, dá inferno

sangue de Jesus tem poder,

faz milagre, o Espírito Santo

me abençoou com a prosperidade

cresci por mérito próprio

minha vida é trabalhar

sou cumpridor dos deveres

e horários, eu pago as contas

em dia e os malditos impostos

que o governo rouba ou dá

pros vagabundos do bolsa família

encherem o rabo de pinga

tudo que tenho é presente de Deus

agradeço a Ele e a minha família

que eu amo de coração, o dinheiro

é importante mas o principal

é ter amor no coração

eu tenho

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de ponta cabeça

eu não preciso ler jornais

mentir sozinho eu sou capaz

                               (raul seixas)

a classe média

clara esclarecida

delira com curitiba

uma obscura pátria

facista

os doutos

enfeitados com a missão

de defender os direitos

civis se calam

ou facistam

os loucos

com suas alucinações

de gentios gentis

e sociedades solidárias

são os lúcidos

os crentes

obrigados por deus

a amar e perdoar

o outro sem condições

odeiam

os jornalistas

pagos para mostrar

a verdade dos bastidores

dos jogos de poder

ocultam

os artistas

que vivem de fingir

mentir e inventar

revelam

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canção de acordar

músicas & filmes

delírio & embriaguez

quem puder

que viva a beleza do mundo

cantar a beleza do mundo

fica para outros tempos

de ventos menos sombrios

as palavras de hoje

serão pedra e faca

ao ritmo do martelo

aos olhos e ouvidos

dos crentes do crédito

distraídos do abismo

para onde correm

surdos e cegos

inebriados dos deveres

do trabalho e dos prazeres

do circo que os cerca

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boas novas

o novo normal

é a crise

a nova paz

é a guerra

a nova política

é o porrete

a nova economia

é o 1%

a nova notícia

é a mentira da mídia

setembro de 2016

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la crème de la crème

corpos & almas

coisas & seres

o mundo inteiro

reduzido

a pesos & medidas

pesos & medidas

se reduzem

a dinheiro

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possessão

Democracia, liberdade,

cidadania, interesse

público, estado

de direito, direitos

humanos...

Quem se ilude

com a farsa do mundo?

Quem tem grana tem a política,

a polícia, a notícia, a lei, a justiça,

o bem, a beleza, a ciência, a razão,

a úlima palavra. Quem tem

grana tem a verdade.

Mas eles têm grana

ou são por ela

possuídos?

Ouvir 

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uma terceira

es.ca.to.lo.gi.a: (grego skór, skatós, excremento + -logia) s.f. 1. Tratado acerca dos excrementos. = COPROLOGIA. 2. Utilização ou gosto por expressões ou assuntos relacionados com fezes ou obscenidades. 3. (grego éskhatos, -ê, -on, último + -logia) Teoria acerca das coisas que hão-de suceder depois do fim do mundo; teoria sobre o fim do mundo e da humanidade.

uma lenta decadência,

administrações de crise,

pão e circo, pau e mídia

cabeça adentro,

o que se vive,

o momento

ou

um baque, quebras, quebra-

quebra, revoltas, o pau

comendo, o horror, o caos

sem regras, a lei

da selva, o meu

primeiro

depois

o que será

dos cacos

acaso

juntados?

ah!

ainda há

uma terceira,

nessa

não há cacos

de juntar,

nem queremos

pensar

Ouvir

 

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um outro

é culpado ser

burocrata e poeta?

exílio do mundo

no monturo

de processos do estado

um rapaz para

na porta do arquivo-

morto    (mau cheiro

sujeira  feridas)

pede cigarro

em troca   teorias

catadas na rua:

o jardineiro tem um chip

no braço           o senhor

tem na cabeça    mas

é tudo igual      tudo

o mesmo    programa

trabalhar    ganhar

e gastar    gastar

e ganhar    mais

é tudo     que há    tudo

pobre        só eu

                    não

há poetas

num outro estado

                (em absoluto

exílio             fora

de tudo)

                                      sorte

                                      ou azar?

Ouvir

 

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fim de tarde em powerópolis

os meninos estão brincando

domingo   o sol se pondo

barulhos de pique-esconde

não sabem o que virá

o pai lendo marxismo

um cão late no quintal

capitalismo foi à pique

mendigos vagam as ruas

crianças sírias sem tardes

idílicas para brincar

um sertanejo universitário

tortura os ouvidos da tarde

amanhã é dia de trampo

não aos desempregados

em silêncio um mundo se vai

uma sombra do tamanho do mundo

se esgueira entre o por do sol

e a calma atônita da cidade

Goiânia, 31 de julho de 2016

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turistas do espírito

templos mitos tradições

deuses cantos e comidas

arrancados das árvores dos povos

processados na indústria das almas

para o consumo das vidas

as almas civilizadas

árvores plásticas no chão de cimento

consumindo as terras do espírito

dos povos extintos

inútil fuga do inferno infértil

da cidade morta/cidade-troca

as almas caminham

entre árvores apodrecidas

atrás

a terra derruída dos povos        

à frente  

                   a ruína do caos

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el pájaro podrido

as latências

as mãos dadas

el pueblo contra la tiranía

las memorias subterráneas

Invisíveis aos radares

quizás un día

ahora

ninguém se olha no espelho

la cara de narciso es insoportable

as mãos dadas

son sólo espejismos

um cheiro podre nos ares

de são paulo a santiago de la paz

a buenos aires

as aves de rapina devoram

sus propios cuerpos monetarios en descomposición

rápida

ninguém se olha no espelho

no coração das trevas a pulsar

ríos llenos de deseo

de um mar de mercadorias de um mar

sin fin de egoísmo e instantaneidad

a hora

nos cerca

nos olha no cerne

no coração das trevas

nos fere as asas derretidas

sob o sol do espelho: mar lleno de cuerpos

ahogados en mercancías

deseos de muerte

y deudas de vida

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prece

(ao divino crédito eterno)

o senhor é o meu pastor

tudo me faltará

mesmo que eu tenha tudo

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com ferro será

A única língua que eles entendem

É a da bala

Olha onde a bala entrou no desgraçado!

Bem feito! Quem mandou?

Bandido bom é bandido m

Não vem com essa conversa mole de direitos...

Somos tão piedosos que apressamos o encontro

Do meliante com deus

segura! Vamo esfolar o filhadaputa aqui mesmo!

Bandido comigo é no pau!

O homem de bem

Reverso exato

(negativo incrustado

No filme) do homem

mau

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a pedra do gênesis

A alma escorre num fio de sangue

Um pacto com o Demônio

Eu quis saber

O mistério da caverna

O chip do desejo

O motor das paixões

A raiz dos sentimentos

Cavei fundo no coração dos homens

E mulheres

A máquina do mundo

É o amor

                  Entre Uma nota de cem dólares

                  E um cartão de crédito

                                                                              Sem limites

ouvir I

ouvir II

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la muerte olvidada

I

as personagens complicadas dos clássicos do cinema

dos grandes romances das séries da BBC

as tramas das emoções arrebatadoras da burguesia

da classe média a cultura popular

a luta de classes o dia a dia

das grandes cidades a modorra do interior

a vingança a fé o amor

a vida simples os homens de cultura

a virtude o glamour

as belas mulheres os homens fortes

e os fracos   as mulheres fortes

o mundo inteiro

ainda se mexe         no seu murmúrio sem fim

aos trancos e barrancos

mas paro

e miro com calma

o mundo              esse de sempre   me parece        

quase sem saber

debaixo da sepultura

algo acabou (ou acaba)

no tecido do mundo

irrompe abrupta uma ruptura

e não há prece

ou sutura

II

o relógio pulsa 15 horas

podia ser outra

hora qualquer

tarde noite        fim de ciclo

saudades e memórias

o que se é se perde

agora

segundo a segundo

nas disciplinas da eficácia

o amor

escorre pelo ralo da aurora

dos pequenos facismos que se alastram

no fundo dos corpos

distraídos

de suas próprias sombras

III

a noite vem ligeira

a noite dos zumbis e vampiros

a noite do povo engolido

a noite do tesouro

                       perdido

março/2016

ouvir

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dançar beber cantar

dançar beber cantar

sonhar sorrir chorar

Vida humana nos livrai

das algemas de ouro do Dinheiro

Deus criado que nos cria

Nos guia e nos sorve

A vida Para o seu

escuro viver

De morte

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os trapos da urbe

Aos noias

a política do pau

não servem

a número algum

de ganho de ou gasto

não servem ao número

de nenhum espetáculo

aOs sãos

Futebol e churrasco

Inumeráveis

vagam viciados

em jesus e labuta

o deserto das ruas

zumbis

Sob o sol monetário

Martelando as cabeças

De noite e de dia

deliram um oásis

De crédito fresco

que vai saciar

sua sede sem fim

de mercadorias

ouvir

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na esquina à esquerda

na esquina à esquerda

esmola aos mendigos

à direita cortam o pão

equilíbrio orçamentário

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um homem

um homem

precisa saber a verdade

(a mentira que dorme

sob a sombra dos escombros)

debaixo de suas máscaras

saber viver

cada gole

da morte que o ronda

e lhe morde a alma

saber sofrer

a dor perene

de suas feridas

e demônios

e dar de ombros

ouvir

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a vó

a vó

linda

menina

a voar

para a dinha

ago-2014

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silêncio

silêncio

fiel companheiro

por horas à fio

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é tarde

é tarde

só poentes

brotam no horizonte

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folhas secas

folhas secas

bailam no asfalto

ao ritmo do vento

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Pão de ar

                                   

O velho Pereira

Não leva mais o boteco nas costas,

É a vez do filho

E da neta.

Mas pela manhã

Ele ainda se move, lento,

Na retaguarda,

Coando café, revirando a papelada

E conversando com os fregueses mais antigos.

Vaga ali para passar o tempo,

Talvez para se manter vivo.

O velho Pereira não tem mais energia

Para a lida do dia a dia,

Servir café com pão de queijo,

Fazer o suco, o troco, olhar o forno,

Que mais? Quanto foi? Obrigado!

Tudo rápido, ágil e bem feito.

Máquina tresloucada na manhã,

O boteco é puro movimento

De pessoas, comida, dinheiro.

E o velho Pereira cada vez mais lento...

O que há de prática e precisão

Na engrenagem no boteco

Do melhor pão de queijo de Goiânia

Não precisa mais

Da presença cansada de seu velho dono.

Mas o que há de poesia

Precisa.

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rio do esquecimento

                                   

a vida escorre pelo ralo dos relógios

no inferno de cimento e piche

gases e automóveis

os sonhos derretem no asfalto

o alto dos edifícios é um abismo

no fundo, rio do esquecimento

em brancas nuvens

cocô de cachorro pedaços de

copos plásticos folhas secas

rolando sobre a grama seca

no ar quente e seco de setembro

             canteiro

      no meio da avenida

o sol martela a pele manchada

a imundície dos cabelos

a cara-cadáver noias

putas mendigos (de)ambulantes

viajam as vias (s)em volta

da rodoviária

Ouvir

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Limpeza urbana

bunkers

Nosotros

à velocidade da luz

pátria amada

o reino de mammon

as pessoas de bem

de ponta cabeça

canção de acordar

boas novas

la crème de la crème

possessão

uma terceira

um outro

fim de tarde em powerópolis

turistas do espírito

el pájaro podrido

prece

com ferro será

a pedra do gênesis

la muerte olvidada

dançar beber cantar

os trapos da urbe

na esquina à esquerda

um homem

a vó

silêncio

é tarde

folhas secas

Pão de ar

rio do esquecimento

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