Direitos Animais

Pela abolição da escravidão














DAVID TURCHICK
KOJI PEREIRA




Prefácio

Este pequeno livro é fruto de um trabalho a quatro mãos. Inicialmente queríamos apenas criar um site que fosse referência teórica em português sobre Direitos Animais. Começamos a escrever os textos para o site direitosanimais.org em 2007, com ajuda de referências de livros e artigos sobre o assunto e em pouco tempo o site se tornou uma referência sobre o assunto. Porém desde 2007 o site sofreu muito poucas, ou nenhuma mudança, o que nos fez querer transformá-lo num livro eletrônico. Assim também podemos aproveitar o crescimento do uso de celulares e tablets para leitura de livros.

"Pô, pena que não conheço nenhuma fonte em português abordando a questão dos direitos animais de forma ampla e clara, tanto no terreno filosófico, quanto prático (o veganismo), quanto estratégico (o abolicionismo)..."

Essa era uma pergunta que em 2007 era muito recorrente, quando lançamos o site direitosanimais.org. Hoje, ainda, existem muito poucos livros sobre o assunto. Os dois principais são “Introdução aos Direitos Animais” do Prof. Gary L. Francione lançado pela Editora Unicamp e o “Jaulas Vazias” do Filósofo Tom Regan, já fora de catálogo da Editora Lugano.

O objetivo deste livro, assim,  não é responder a todas as questões relacionadas aos direitos animais, nem se transformar numa nova proposta sobre ética. Esse é um livro para quem já tem algum interesse em direitos animais e veganismo e quer entender um pouco mais sobre o assunto, sendo assim juntamos alguns pontos básicos no estilo “O que é?”, “Como?” e “Porquê?”. Em outras palavras queremos com este livro responder de forma sucinta a perguntas básicas:

Se estas perguntas lhe interessam - e acreditamos que praticamente interessa à todos(as), este livro é feito para você. Aqui você encontra tudo isso da maneira mais simples e informativa possível (ou ao menos que nós encontramos).

Se ainda sim lhe resta uma dúvida que não foi abordada, uma sugestão, uma discordância, um comentário, ou tem material para compartilha. Por favor, envie para contato@direitosanimais.org, ou acesse nosso site www.direitosanimais.org onde vamos manter atualizados alguns contatos de redes sociais onde poderá obter mais informações sobre o assunto.

Saudações Abolicionistas e boa leitura!


Dedicado à todos os animais não-humanos que tem seus direitos negados todos os dias, desde sempre.



Índice


O que são direitos animais?

A teoria dos direitos animais existe para nos ajudar a decidir quando estamos certos e quando estamos errados em nossa relação com os outros animais. Ela é absolutamente simples. Ela pode ser aplicada por qualquer um, independentemente de credo, etnia, condição financeira, orientação sexual ou posicionamento político. E ela deve ser aplicada por todos e todas que acreditam no respeito e na justiça.

Por que devemos basear nossa ética em direitos?

Para decidir se uma ação é certa ou errada, não basta olhar para o quão felizes ou tristes ficam os indivíduos envolvidos. É claro que isso é importante – mas apenas uma vez que temos certeza de que ninguém está tendo algum direito básico seu violado.

Por exemplo, se nos pedem para julgar moralmente um estupro, a última coisa que nos ocorre é se foi bom para o estuprador. Seria muita ousadia ele se virar para o juiz e dizer "Acredito que o prazer que eu senti excedeu o desprazer da vítima, de modo que minha ação aumentou o nosso bem-estar total. Então eu não só agi certo, como estaria errado caso não a tivesse estuprado!".

Considerações a respeito do bem-estar dos envolvidos simplesmente não têm qualquer relevância quando a questão envolve uma violação de direitos. Por exemplo, no caso do estupro, a vítima teve um direito seu violado – o de não ser dominada por ninguém. Infelizmente, na nossa relação com os outros animais, nós sempre estamos violando um direito básico deles.

Mas afinal de contas, o que é um direito?

Um direito é uma barreira que protege um interesse fundamental seu da ação de terceiros. Ninguém pode violar um direito seu simplesmente alegando que isso o deixaria mais feliz. É a história do “o seu direito termina onde o meu começa”.

Nem sempre um direito é garantido por lei. Mas, mesmo na ausência do direito legal, você ainda pode ter um direito mais importante, um direito moral. Por exemplo, você tem um interesse fundamental em que as outras pessoas não te matem (pois, se o fizerem, seus outros interesses deixarão de fazer sentido). A esse seu interesse fundamental está relacionado o seu direito à vida, um direito moral. E as pessoas têm e sempre tiveram esse direito, independentemente do que diziam as leis e os costumes da região e da época em que vivem ou viveram.

Duas observações são importantes para o bom entendimento dos direitos. A primeira é que, ao direito de um, corresponde o dever do outro de respeitar esse direito – no caso de esse “outro” ser um indivíduo que possa ser responsabilizado pelos seus atos (um humano adulto com plenas faculdades mentais, por exemplo). Logo, não se pode dizer que você tem o direito de não ser atingido por um raio, já que não há alguém junto a quem reclamar tal direito. Tampouco se pode dizer que você tem o direito de não sentir o cheirinho daquilo que o bebê deixou em sua fralda: é só um bebê; é difícil responsabilizar qualquer um por isso.

A segunda observação é que a possibilidade da violação ética de direitos existe, sim – mas apenas em casos em que há um conflito entre os direitos morais de dois ou mais indivíduos. Por exemplo, alguém apontando uma arma para a nossa cabeça e pedindo que escolhamos entre a vida de uma pessoa e a de outra (construir exemplos práticos já é mais difícil). Mas o conflito precisa ser entre interesses genuinamente fundamentais e que gerem direitos morais.

Um exemplo pode ilustrar a importância dessas observações: imagine que dois filhos do seu vizinho nasceram com uma doença desconhecida. Ele, então, raptou a sua filha para lhe servir de cobaia em experimentos que terminaram por ajudá-lo a descobrir uma cura para a doença dos seus meninos. Isso se justifica? Se o seu vizinho tiver lábia, talvez até consiga convencer algumas pessoas de que sim, dizendo saber que se tratava de um conflito de interesses fundamentais, mas que sua pesquisa acabou por preservar o interesse do maior número de pessoas. Ele só não convenceria você nem ninguém que percebesse que, enquanto o interesse fundamental da sua filha em não ser dominada gerava um direito, o interesse fundamental dos filhos do vizinho em ter uma vida feliz não geravam um direito, já que sequer haveria alguém junto a quem reclamá-lo. E muito menos esse alguém seria sua filha ou você. Tanto é que seu vizinho precisou raptar sua filha, ele não simplesmente bateu à sua porta e disse “Olá vizinho, tudo bem? Vim tomar o que é meu de direito. Com licença, sim?”.

O mais básico de todos os direitos

Ao longo da História, seres humanos inocentes dos mais diversos credos, etnias, gêneros, posições sociais, convicções políticas e orientações sexuais foram perseguidos, escravizados, torturados, humilhados, estuprados e assassinados. Tudo isso fere um direito moral básico de todos os seres humanos: o direito de não ser considerado propriedade.

Ser considerado propriedade significa ser considerado recurso. Coisa. Escravo(a). Apenas um meio para os fins dos outros. Algo sem interesses próprios, ou ao menos não interesses que mereçam ser protegidos por direitos. Assim se justifica praticamente qualquer coisa que possa ser feita com a propriedade. Por um lado, esta não tem direitos. Por outro, o proprietário possui direito legal justamente sobre sua propriedade. O resultado é que os interesses do proprietário – por mais banais que sejam – sempre prevalecerão sobre os interesses da propriedade – por mais fundamentais que sejam.

Mas como é que sabemos que todo ser humano possui o direito de não ser considerado propriedade? Pelo seguinte: seres humanos possuem a capacidade biológica de sentir dor. A dor nada mais é que um mecanismo de preservação da vida. Logo, cada humano preza sua própria vida. Mas de nada adianta ele estar vivo se sua vida não lhe pertence. Se sua vida pertence aos outros, ele não poderá escolher sobre seu próprio destino e nem terá domínio sobre o seu próprio corpo.

E mais: todos os seus interesses vão por água abaixo quando seu direito de não ser propriedade não é respeitado. Não só porque esses interesses podem ser violados (pois uma propriedade não têm quaisquer direitos), mas porque eles serão violados (um ser só é transformado em propriedade se, para começo de conversa, alguém enxergou em sua exploração alguma possibilidade de benefício pessoal).

Quando você é propriedade, você não precisa ser respeitado(a) enquanto indivíduo. Suas relações afetivas com sua família podem ser interrompidas a qualquer momento. Você pode ser violentado(a) sexualmente. Pode ser ameaçado(a). E será descartado(a) assim que perder a utilidade para os outros. Em suma: talvez pior que simplesmente se tirar a vida de um indivíduo seja lhe roubar a vida para si. É por isso que o direito de não ser propriedade pode ser considerado o mais básico de todos os direitos.

Quem tem o direito de não ser considerado propriedade?

Repare na argumentação no item anterior. O direito básico de não ser considerado propriedade decorreu unicamente da capacidade de sentir dor, também conhecida como senciência. A conclusão imediata é que todos os seres sencientes têm o direito de não serem considerados propriedade. E quem é senciente?

Essa categoria inclui não só os animais humanos, mas também os não-humanos, que também sentem dor. Vacas, ratos, araras, cachorros, elefantes, cavalos, todos eles têm o direito moral de não serem propriedade, pelo exato mesmo motivo que humanos o têm. Isso significa que temos a obrigação moral de respeitar praticamente todos os animais, e não os enxergar como nossos recursos, meios para os nossos fins.

Infelizmente, hoje em dia, vacas são consideradas animais “para fins de alimentação e vestuário”, ratos são animais “de laboratório”, araras e cachorros são animais “de estimação”, elefantes são animais “de circo”, cavalos são animais “de tração” etc. Ou seja, botamos nos animais não-humanos apelidos que denotam sua principal utilidade para nós. Violamos seu direito mais importante, o de não serem considerados propriedade. É por isso que podemos afirmar que a escravidão nos dias de hoje continua mais forte do que nunca.

Colocando a teoria em prática

Agora que já entendemos que os animais não-humanos não pertencem aos humanos, do mesmo jeito que os negros não pertencem aos brancos e as mulheres não pertencem aos homens, a pergunta natural é: como fazemos para respeitá-los?

Só para clarear as idéias, pensemos no caso dos escravos africanos no Brasil colonial. Imagine que você fosse um europeu do século XVI. Como você faria para respeitar esses seres sencientes que, apesar de terem o direito moral de não serem propriedade, não tinham a contrapartida legal desse direito? Bom, em primeiro lugar, você não seria um(a) senhor(a) de escravos, claro. Mas isso adiantaria de algo se você continuasse a consumir o açúcar produzido com mão-de-obra escrava?

Não. Para o escravo, não faz diferença nenhuma quem está segurando o chicote, se você ou outra pessoa. Ao engrossar a demanda por um produto que venha da escravidão, damos o nosso próprio aval para que a escravidão continue, firme e forte. Não somos nós que seguramos o chicote – mas somos nós que colocamos o chicote na mão do capataz. Por outro lado, se você optasse por boicotar aquele produto, você conseguiria mostrar sua oposição à instituição escravocrata, e ajudaria a torná-la menos forte e legítima. E, com certeza, menos indivíduos teriam que ser escravizados para suprir a menor demanda.

O tempo passou, mas a lógica continua a mesma. A única maneira de combatermos a escravidão legalizada de hoje, a dos animais não-humanos, é nos recusando a consumir produtos provenientes dela: carnes, laticínios, couro, animais “de estimação”, produtos testados em animais, ingressos de zoológico etc. Essa idéia revolucionária é chamada de veganismo. É, por definição, a única maneira de respeitarmos os animais. Ela é tratada com mais detalhes aqui.

É bom notar que não é nenhuma espécie de santidade da nossa parte que os outros animais requerem. Nós tampouco somos santos(as) em nossas relações com os outros humanos: é difícil encontrar alguém que verdadeiramente considere de maneira igual os interesses dos outros e os seus próprios. Mesmo assim, respeitamos as outras pessoas, não violamos seus direitos morais a torto e a direito (encontrem estes contrapartida legal ou não). E os animais não-humanos também não pedem nada além do nosso respeito.


Por dentro da escravidão

Existe uma extensa lista de filmes e é sempre possível encontrar fotos na internet sobre diversos usos dos animais. A posição de direitos animais rejeita o uso de animais, independente de como ela é, porém é sempre interessante entender como os animais são usados na prática. Dessa forma exemplifica-se como os animais são submetidos a todo tipo de atrocidade, e isso continua a ser visto como normal devido ao seu status de propriedade.

Alimentação

Bovinos: São mortos entre os 2,5 e 5 anos de idade. Sua expectativa de vida natural é de 20-25 anos. Devido a décadas de seleção genética, foram desenvolvidas raças “leiteiras”, que dão até cinqüenta vezes mais leite que o filhote mamaria (se lhe fosse concedido esse direito). São inseminadas duas ou três vezes na vida, para que “dêem” leite. Se o filhote for fêmea, ela será uma nova vaca leiteira para o pecuarista, e terá o mesmo destino da mãe. Se for macho, será destinado apenas ao corte. Possivelmente, será separado da mãe logo após seu nascimento, para ser preso num caixote sem poder se mover por 4-5 meses, para então ser abatido. Sua carne, a tal “vitela” ou babybeef, é branca e macia porque o bezerro foi propositalmente deixado anêmico e sem poder desenvolver músculos. Além da carne e dos laticínios, componentes de diversos produtos têm origem na exploração dos bois e das vacas. Por exemplo, a gelatina nada mais é que ossos e tendões triturados de bois e porcos. A glicerina que está presente em alguns sabonetes e colas também pode ter sido obtida a partir desses animais.

Galináceos: São mortos ainda bebês, na sétima semana de vida, se destinadas apenas ao corte (os chamados “frangos”). Outras galinhas são destinadas também à produção de ovos. Nascem em chocadeiras elétricas, e seus irmãozinhos machos são mortos logo no primeiro dia de vida, por não terem utilidade para o explorador. Por volta de um ano e meio de idade, após darem uns duzentos ovos, são mortas por causa de sua carne. Sua expectativa de vida seria de 15-20 anos. Tudo isso vale tanto para granjas industriais ou familiares.

Suínos: Logo que dão à luz, as porcas matrizes são novamente inseminadas. Seus bebês, que normalmente são desdentados e castrados a sangue-frio, são desmamados muito antes do tempo normal, a um mês de vida. Dali a alguns meses, são içados pelas patas e esfaqueados no coração. No dia seguinte, já viraram presunto, mortadela e torresmo.

Peixes: Têm talvez a morte mais terrível de todas: a morte por asfixia, que pode durar alguns minutos, depois que foram puxados para fora da água. É a espécie com o maior número de indivíduos transformados em propriedade dos humanos.

Abelhas: Roubamos os alimentos que as próprias abelhas fabricam exclusivamente para proveito de sua comunidade: o mel e a geléia real. Destruímos também suas construções para retirada de própolis, uma proteção da colméia.

Entretenimento

Zoológicos e aquários: Para satisfazer a curiosidade humana, animais das mais diversas espécies são retirados de seu habitat natural e encarcerados para virarem objeto de observação, como que numa vitrine.

Circos: Animais não-humanos são forçados a apresentar números humilhantes para divertir os humanos.

Cães, gatos, peixes e pássaros: São reproduzidos em “fábricas de filhotes” para depois serem vendidos em pet shops. Quando não mais desejados são abandonados nas ruas. De lá vão parar no Centro de Controle de Zoonoses local, onde geralmente são mortos em nome do “controle populacional”. Quanto aos pássaros e peixes, estão destinados a serem esquecidos em uma gaiola ou aquário pelo resto de sua vida. Isso porque, com a domesticação, os indivíduos de algumas espécies perdem a capacidade de procurar seu próprio alimento e não podem ser reintroduzidos na natureza.

Rodeios e vaquejadas: Vacas, bois, bezerros e cavalos são incitados a agir agressivamente através de dispositivos de tortura, para em seguida serem “domados” por seres humanos que se vangloriam por sua suposta valentia.

Caça e pesca: Animais são caçados e pescados para diversão humana. Depois de retirados da água, os peixes morrem de asfixia e descompressão. Estudos demonstram que a sensibilidade do aparelho bucal dos peixes é similar aos órgãos genitais humanos. Na modalidade “pesque e solte” os animais, após serem soltos, morrem devido aos ferimentos das iscas. Na caça são utilizadas armadilhas que podem fraturar gravemente animais, e alguns chegam a se automutilar na tentativa frustrada de fuga

Vestuário, higiene e cuidados pessoais

Couro: É a pele da vaca ou do boi, geralmente proveniente da Índia ou do Brasil.

Lã: Manipuladas geneticamente para o aumento de sua produção de lã, ovelhas são tosquiadas, perdendo assim a proteção de suas delicadas peles. Mais tarde, são mortas por causa de sua carne.

Seda: Destruímos as construções do “bicho-da-seda”, a larva de uma espécie de mariposa, que depois é morto por desidratação ou em água fervente.

Produtos diversos que podem ter sido testados em animais, como sabonetes, perfumes, xampus, loções, pastas de dente, batons, cremes, protetores solares etc.: Para se medir a irritabilidade de determinada substância, ela é aplicada tanto na pele quanto nos olhos de alguns animais, como cães, gatos e coelhos (são os testes do tipo Draize). O teste LD 50, Dose Letal 50%, é feito para se determinar que concentração de determinada substância é necessária para matar metade dos animais selecionados para esses testes. Mesmo não se tratando de métodos eficazes para se determinar se um produto é ou não seguro para seres humanos, os testes para produtos de higiene e cuidados pessoais continuam sendo feitos, principalmente como garantia das empresas contra o consumidor, no caso da abertura de um processo judicial. Alguns desses produtos ainda podem conter cera de abelha, gordura animal, glicerina de origem animal, corante vermelho carmim/cochonilha (insetos esmagados) e outros produtos de origem animal. Olhar bem o rótulo e enviar um e-mail para o fabricante podem ser boas opções para se conferir se o produto provém ou não da exploração.

Medicamentos

Estes certamente foram ou testados em animais ou tiveram a fórmula copiada de um medicamento que foi testado em animais. A lei brasileira da ANVISA exige que qualquer medicamento comercializado deve ser previamente testado em animais.

Produtos do lar

Detergentes, desinfetantes, limpadores multiuso, esponjas e tintas: Estes e outros produtos do lar podem ter sido testados em animais. Alguns podem também conter glicerina de origem animal, feita a partir de ossos de animais.

 

Cursos superiores

Cursos de Ciências Biológicas, Psicologia, Medicina humana e veterinária: Estudantes, funcionários(as) e professores(as) podem ser impelidos a praticar vivissecção em aulas práticas. É possível, porém, recorrer à objeção de consciência, um direito garantido pela constituição brasileira.


A prática dos direitos animais: o veganismo

Se você gostou da teoria dos direitos animais, vai adorar a prática: o veganismo. Ser vegano(a) significa respeitar os animais, isto é, buscar não incentivar sua escravidão. Pouco importa se você gosta ou deixa de gostar de animais não-humanos. O mínimo que lhes devemos (assim como aos humanos) não é o nosso amor, mas o nosso respeito.

Veganismo não tem nada a ver com santidade ou pureza, apenas com ética e respeito. E não é apenas a única maneira de levarmos os animais a sério, é também a única maneira de levarmos nossos próprios princípios morais a sério.

O que é?

Veganismo é a aplicação da teoria dos direitos animais à nossa vida. Ou seja, é o modo de vida de quem reconhece que os animais não-humanos possuem o direito moral de não serem considerados propriedade dos humanos. Veganos e veganas podem ser caracterizados pela sua recusa em comprar ou usar produtos oriundos da escravidão, como os produtos de origem animal ou os que foram testados em animais.

Qualquer centavo que destinemos à compra desses produtos é um aval que damos à escravidão, um voto para que ela continue. O mesmo acontece quando usamos esses produtos, pois assim também incentivamos sua compra e produção. É uma declaração do tipo “não estou nem aí, para mim os animais não-humanos me pertencem, mesmo”. Enquanto essa for a declaração da grande maioria das pessoas, a escravidão continuará firme e forte.

Mas nós podemos fazer a diferença. Cada um de nós, pessoas comuns e críticas, pode trazer ao fim pelo menos o seu patrocínio à instituição escravocrata. Por exemplo, veganos(as) são vegetarianos(as), o que significa que em particular não usam produtos alimentícios de origem animal. A recusa em comer um queijo-quente faz sentido não como pesar pela vaca que já foi explorada para a feitura deste sanduíche, mas como não-incentivo à exploração de mais vacas. São esses os animais que estão sendo salvos por cada vegano e cada vegana do mundo: os que não têm de vir a essa triste e indecente existência de servidão aos propósitos humanos.

Veganos(as) também são antivivisseccionistas, já que não há como se justificar eticamente a apropriação de um ser senciente na tentativa de se melhorar a vida de outro ser. Ainda que alguém considerasse que a pesquisa médica com não-humanos fosse uma maneira de salvarmos vidas humanas, ele teria que perceber que a vivissecção é a legitimação e institucionalização da ação imoral do vizinho no exemplo dado aqui. Se é errado instrumentalizarmos humanos, isso é porque eles têm interesse de não serem feitos propriedade – exatamente como qualquer animal.

Se tiver maior interesse nesse tópico, veja a seção pode a ciência ser ética?, onde você pode conferir que na verdade o exemplo do vizinho inclui diversas colheres de chá que costumamos dar aos vivisseccionistas (aqueles que ainda hoje defendem a vivissecção – normalmente estes acabam sendo os próprios vivissectores), que não encontram qualquer paralelo na realidade. Na verdade, a vivissecção está longe de ser responsável por mais vidas do que mortes, está longe de ser responsável pela descoberta de curas, e muitas vezes foca no tratamento de doenças que podem ser prevenidas com hábitos de vida saudáveis. Mas, claro, independentemente dos resultados alcançáveis com a vivissecção, esta é imoral e tem de ser abolida. Toda a humanidade condena as experiências que os nazistas fizeram com judeus no Holocausto, e não precisamos (nem devemos) perguntar quais os resultados de tais experiências para chegarmos a esse julgamento moral. Basta considerar que o direito mais básico dos judeus, o direito de não serem considerados propriedade, estava sendo violado. E a vivissecção de não-humanos consegue ser ainda pior, pelo número de vítimas envolvido (dezenas, talvez centenas de milhões por ano), por ser institucionalizada (legalizada e regulamentada) nos quatro cantos do mundo, e, o mais triste: por ainda ser considerada aceitável nos quatro cantos do mundo.

Cada vegano ou vegana é responsável por um pequeno mas real deslocamento para baixo na demanda por produtos oriundos da escravidão. Caso você não seja vegano(a) e decida se tornar, é claro que o número anual de animais não-humanos usados pelos humanos continuará na casa das centenas de bilhão. Mas você estará efetivamente salvando aqueles animais que não precisarão mais ser escravizados para a produção dos produtos que você anteriormente consumia. Para muitas pessoas, esse número chega a superar a marca de cem animais por ano. Assim, veganas são as pessoas que verdadeiramente libertam animais – não os condenando à escravidão. E para cada um desses animais, fazemos toda a diferença do mundo.

O que precisamos fazer?

Na prática, o que precisamos fazer é verificar quais produtos oriundos da escravidão fazem parte do nosso dia-a-dia, e eliminá-los de nossa cesta de consumo. Seguindo o mapeamento que fizemos em por dentro da escravidão, os principais produtos que merecem nossa atenção são: alimentos produzidos com carnes, laticínios, ovos, mel, gelatina ou corante cochonilha; cães, gatos, peixes e pássaros “de estimação”, ingressos de zoológicos ou espetáculos que fazem uso de animais; roupas ou acessórios feitos com lã, couro, camurça ou seda; e produtos de higiene e de cuidados pessoais testados em animais (veja nossa lista de empresas sádicas (aguarde), que são as que fazem testes em animais mesmo não sendo obrigadas por lei) ou com ingredientes de origem animal.

Nenhum desses produtos pode – nem de longe – ser considerado necessário para o ser humano. Segundo a American Dietetic Association, maior organização de nutricionistas dos Estados Unidos, a dieta vegetariana (a que não apresenta nenhum produto que vem dos animais) “é apropriada para todas as fases do ciclo vital, incluindo gestação, lactação, infância e adolescência”. Você pode ver mais detalhes a respeito na seção uma pitada de nutrição. Seja para fins de alimentação, entretenimento, vestuário, higiene ou cuidados pessoais, estamos comparando o interesse mais básico que um ser pode possuir – o de não ser considerado propriedade – com um interesse nem um pouco fundamental: um gosto específico que gostaríamos de sentir na boca, uma risada por algum motivo específico que gostaríamos de dar, um material específico que gostaríamos de vestir, um perfume específico que gostaríamos de passar etc.

Já os remédios não podem receber de pronto o rótulo de desnecessários. Algumas pessoas precisam até fazer uso regular deles. A saída mais eficaz para essa questão é a prevenção: podemos minimizar nossa dependência de remédios com hábitos alimentares saudáveis (veja uma pitada de nutrição) e a prática regular de exercícios físicos. O que são realmente desnecessários são os testes em animais, pois, como você pode ver na seção pode a ciência ser ética?, as verdadeiras cobaias serão sempre os primeiros humanos que recebem a droga.

É bom sempre ter em mente que não é o passado que podemos mudar, mas sim o futuro. Por mais que gostaríamos que a tortura descrita na seção medicamentos cessasse de imediato, não é deixando de tomar um remédio quando precisamos que vamos fazer com que menos animais venham à existência para nos servir. Quando compramos um queijo-quente, sabemos estar dando um incentivo direto a que mais animais venham à existência para serem explorados para produzirmos queijo. Já quando compramos um medicamento, o incentivo à exploração é muito mais difuso. No máximo, alguém pode argumentar que ao fazermos isso estamos inflando o setor farmacêutico da economia, o que pode fazer mais empresários resolverem entrar nesse setor e produzir novos medicamentos, que necessitarão de mais testes.

Mas mesmo se você quiser levar esse efeito em conta, lembre-se: veganismo não se trata de pureza, mas sim de respeito. Em casos em que não existe um conflito de interesses fundamentais com outros seres sencientes, é nosso dever agir com respeito para com eles. Já quando esse tipo de conflito existe (como no exemplo do vizinho), é absolutamente natural que tendamos a dar prioridade para nós mesmos. Felizmente, esses casos de verdadeiro conflito não são tão comuns assim em nosso cotidiano. O simples boicote aos produtos alimentícios de origem animal já representa o nosso apoio à libertação de cerca de 99% dos escravos de hoje.

Uma pitada de nutrição

Você quer ser vegano(a), mas tem receio de que o vegetarianismo (dieta de quem segue a filosofia de vida vegana) te deixe fraco(a)? Não há o que temer. Tampouco você precisa comprar alimentos exóticos e caros para conseguir se manter saudável e respeitando seus princípios morais. Todos os macronutrientes (proteínas, carboidratos e gorduras) e todos os micronutrientes (vitaminas e minerais) –exceção importante feita para a vitamina B12 – podem ser facilmente obtidos pela vegetariana brasileira de qualquer classe sócio-econômica (se ela dispõe do mínimo para conseguir se alimentar). A regra geral é procurar diversificar os alimentos, dando preferência aos mais integrais que aos muito processados, e numa quantidade que te satisfaça. Esse é o básico. Se quiser saber onde encontrar determinados nutrientes, é só seguir a leitura. Só tenha em mente que isto é apenas um guia geral; se você quiser uma orientação personalizada, procure um profissional de saúde atualizado e que não desmereça de pronto sua decisão de ser vegetariano(a).

Em relação à proteína, é interessante notar a recomendação que o Ministério da Saúde (que não tem qualquer intenção de promover o respeito aos animais não-humanos) traz em seu Guia Alimentar para a População Brasileira: “Coma feijão com arroz todos os dias ou, pelo menos, 5 vezes por semana. Esse prato brasileiro é uma combinação completa de proteínas e bom para a saúde.”. É isso mesmo, os alimentos de origem vegetal contêm todos nossos aminoácidos essenciais (aqueles que o organismo humano não consegue fabricar) em quantidade adequada. A frase “Vegetarianos têm deficiência de proteína” não passa de uma lenda urbana, uma das histórias mais mal contadas de todos os tempos. E claro, não há por que ficar só no arroz-feijão. Cereais (arroz, milho, aveia, trigo, etc.) e leguminosas no geral (ervilha, feijão, lentilha, soja, amendoim etc.) são ótimas fontes protéicas; nozes e sementes também.

O cálcio pode ser obtido de verduras verde-escuras, nozes e sementes. Apenas a título de ilustração: enquanto a ricota apresenta 181 mg de cálcio por 100 quilocalorias, o brócolis cozido tem 204 mg Ca / 100 kcal (cálculos feitos com base na Tabela Brasileira de Composição de Alimentos, 2.a edição, 2006). Isso sem contar que a biodisponibilidade (porção do cálcio que deverá ser efetivamente absorvida pelo organismo) do primeiro é de 32%, enquanto a do segundo é de 61%.(4) É válido ainda lembrar que nossa saúde óssea não depende apenas do cálcio, mas também de atividade física regular, exposição adequada ao sol para absorção de vitamina D, ingestão de proteínas em nível moderado (como é usual no vegetarianismo), e outros nutrientes que vegetarianos(as) costumam ingerir mais do que não-vegetarianos(as), como vitamina K (nas folhas), magnésio e potássio (nas frutas) e a vitamina C, que também favorece a absorção do cálcio.

Leguminosas são excelentes fontes de ferro. Enquanto um contra-filé grelhado, já sem a gordura aparente, apresenta 1,24 g de ferro por 100 quilocalorias, o feijão preto cozido apresenta 1,95 g Fe / 100 kcal (calculados com base nos dados da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos). Não é verdade que o ferro dos vegetais é absorvido em menor intensidade que o ferro das carnes. O que acontece é que parte do ferro da carne (até 40%), o chamado ferro heme, pode apresentar maior taxa de absorção do que o ferro não-heme, que é o único presente nos vegetais (a taxa de absorção do primeiro vai de 10% a 40%, enquanto a do segundo vai de 2% a 20%). A vitamina C, que vegetarianos costumam ingerir em maior quantidade que não-vegetarianos, potencializa a absorção do ferro, contanto que ingerida na mesma refeição. A incidência de anemia ferropriva em vegetarianos é a mesma que em não-vegetarianos (Craig, W. J. “Iron Status of Vegetarians,” American Journal of Clinical Nutrition, 1994 (maio); 59: 1233s-1237s).

É bom lembrar que vegetarianos não são super-heróis, eles também podem contrair doenças se não se cuidarem. Mas, segundo resenha da literatura científica sobre vegetarianismo feita pela American Dietetic Association, “O vegetarianismo oferece diversos benefícios nutricionais, incluindo níveis mais baixos de gordura saturada e colesterol e níveis mais elevados de carboidratos, fibras, magnésio, potássio, folato e antioxidantes como vitaminas C, E e fitoquímicos. Vegetarianos apresentam menor índice de massa corpórea que não-vegetarianos, menor índice de mortalidade por doenças cardíacas, menor nível de colesterol, menor pressão sangüínea, menores índices de hipertensão, diabetes do tipo 2, e cânceres de cólon e de próstata.”.

Além do vegetarianismo, outra coisa comprovadamente boa para a saúde do coração é a ingestão de gorduras do tipo ômega-3, em especial as chamadas DHA e EPA. Vegetarianos(as) contam com diversas boas fontes de ômega-3: algas (a fonte que também é dos peixes), linhaça (a mais concentrada de todas as fontes), nozes e óleo de canola, por exemplo. Com exceção das algas, que contém DHA, as outras contém um outro tipo de ômega-3, o ALA. Nosso organismo transforma ALA em DHA e EPA. Como as gorduras ômega-6 atrapalham o processo de transformação do ALA em DHA e EPA, e também porque estudos clínicos mostram que a proporção ômega-6:ômega-3 está negativamente correlacionada com a saúde cardiovascular, a recomendação médica é priorizarmos fontes de ômega-3 com menor proporção ômega-6:ômega-3, de preferência de até 4:1. Ou seja, se possível, use óleo de canola (proporção 2:1) ao invés dos óleos de soja (7:1) e de milho (46:1). Mas se você quiser simplificar, pelo menos guarde isto: uma colher de sopa de semente de linhaça (batida na vitamina, por exemplo), ou uma colher de chá de óleo de linhaça (proporção 0,25:1, a melhor de todas) já supre a recomendação diária de ômega-3.

A vitamina B12 é importante na manutenção do sistema nervoso. Ela é o único nutriente que não pode ser obtido diretamente na alimentação vegetariana, e deve ser suplementada (normalmente basta uma única injeção anual, intramuscular e indolor, mas há quem prefira suplementação oral diária ou semanal). Antes de concluir que o vegetarianismo não é uma dieta completa, lembre que mesmo quem não é vegetariano pode precisar fazer uso de um ou outro suplemento nutricional. Por exemplo, se o iodo não fosse acrescentado ao sal, também haveria uma recomendação de suplementação do iodo. Quando existirem mais vegetarianos no Brasil, talvez possamos fazer alguma pressão para que essa vitamina seja acrescida à farinha de trigo, assim como o ferro e o ácido fólico já o são. Aliás, oInstitute of Medicine, ONG que aconselha o povo e governo estadunidenses em questões da área de saúde, recomenda a suplementação de B12 não só para vegetarianos(as), mas também para qualquer um a partir dos cinqüenta anos de idade. Vegetarianos(as) começam a seguir essa recomendação médica algumas décadas antes, só isso. É bom notar que a vitamina B12 presente em suplementos alimentares não é de origem animal, já que não são os animais que fabricam essa vitamina, mas sim as bactérias. Os animais herbívoros não-humanos não têm nenhum problema com essa vitamina porque, além de suas especificidades fisiológicas, não têm as mesmas preocupações de higiene que nós temos. Eles podem ingerir B12 de folhas contaminadas com fezes, por exemplo – algo que nós não queremos fazer.

Tornando-me vegano(a)

Para se tornar vegano(a), você não precisa virar um(a) especialista em nutrição, não precisa ser rico(a) nem pertencer à classe média, não precisa gastar horas do seu dia lendo rótulos, não precisa comer em lugares especiais nem comer comida especial, não precisa cheirar mal ou deixar de escovar os dentes, não precisa se desligar da sua igreja... O único requisito que você precisa preencher é ser uma pessoa que acha essencial respeitar às outras e a si mesmo. E se você chegou até aqui, não há dúvida de que esse é exatamente o seu caso.

A fase de adaptação ao vegetarianismo (a dieta do(a) vegano(a), a que exclui todo e qualquer produto oriundo da escravidão, como mel, laticínios, ovos e carnes) é curta e indolor. Provavelmente após duas semanas, seu corpo já estará bem acostumado. Então se há um momento ideal para começar, esse momento é agora.

Só lembre que o vegetarianismo é uma dieta, e não um regime. É algo que vai acompanhá-lo(a) para sempre (ou ao menos enquanto você for ser essa pessoa consciente e respeitosa que é hoje, e normalmente isso não muda). Então coma bem, nada de ficar só na saladinha. E diversifique! Uma alimentação que respeita os animais conta com uma variedade enorme de cereais, feijões, verduras, castanhas, legumes e frutas, disponíveis na maioria dos restaurantes por quilo brasileiros. Você pode dar uma olhada em uma pitada de nutrição se quiser algumas informações gerais sobre nutrição vegetariana. Depois de algum tempo, você vai acabar notando que não só o seu corpo mas também o seu bolso agradece.

Quanto a seus antigos artefatos de couro e outros tipos de pele, lã ou seda, você pode substituí-los por produtos sintéticos, e talvez os queira dar para alguém sem condição financeira mínima de comprar suas próprias coisas.

Quanto aos produtos de higiene e cuidados pessoais, é só procurar seu próximo sabonete, xampu, pasta de dente, loção, creme ou batom de empresas que não aparecem na lista de empresas sádicas (aguarde), e sem ingredientes produzidos à base da escravidão (veja decifrando rótulos - aguarde). Dá, sim, um pouquinho de trabalho no início. Mas felizmente esse não é o tipo de consumo que temos que fazer todo dia, e uma vez que identificamos os produtos e as respectivas marcas que mais nos agradam, a pesquisa já está feita para sempre (ou até que a empresa mude a fórmula).

A questão do uso de animais para entretenimento é bastante simples. Basta não comprar (tenha você feito isso no passado ou não) animais “de estimação” (sejam cães, gatos, hamsters, peixes, pássaros ou o que quer que seja), não ir a zoológicos, aquários, circos que usam animais, rodeios, vaquejadas, denunciar rinhas e qualquer uso de animais para fins de entretenimento que já seja ilegal em sua cidade. Se você mora com um animal não-humano, quando precisar comprar produtos para ele, dê preferência a uma pet shop que não movimente dinheiro sujo (do ponto de vista moral), isto é, uma pet shop que não venda animais. Se o animal que mora com você é um cão, é interessante notar que já existe uma marca de ração vegetariana balanceada para cães no Brasil, chamada Fridog.

Caso você tenha espaço e tempo na sua vida para cuidar de um animal não-humano, é fácil adotar um (infelizmente, há muitos cães e gatos nas ruas de qualquer grande cidade brasileira). Estes ou foram abandonados ou descendem de um animal que foi abandonado (que por sua vez descende de um escravo num criatório comercial). Passados muitos séculos de domesticação, esses animais se tornaram extremamente dependentes de nós. A castração é uma medida necessária para rompermos com esse ciclo de escravidão e dependência.

Feito isso, você já pode e deve se considerar um(a) respeitador(a) de animais, um(a) vegano(a)! Há alguns lugares na internet em que você pode encontrar veganos e veganas mais experientes que podem te ajudar pessoalmente, trocando experiências, idéias, informações e dicas.

Pode a ciência ser ética?

Sim! Geralmente os(as) cientistas e professores(as) não se preocupam com a não-utilização dos animais em pesquisas e no ensino, portanto desenvolvem metodologias e didáticas que requerem o uso de animais. Muitas vezes somos levados(as) a crer que a única metodologia condizente com o avanço das pesquisas e com o entendimento dos organismos seja aquela que utiliza animais. Porém, se o(a) cientista e professor(a) tiver a preocupação inicial de desenvolver um método em que animais não são utilizados isso é perfeitamente possível. Só é preciso uma preocupação prévia, estudo e criatividade.

Nenhum vegano e vegana é contra o estudo, a prática e os avanços científicos. O que somos contra e não aceitamos é a falta de ética na ciência.

Além disso, os resultados obtidos de uma espécie não podem ser extrapolados para outras espécies (dados obtidos de ratos não podem ser aplicados a seres humanos). Cada organismo responde de uma maneira diferente a determinado estímulo o que torna a extrapolação de dados entre diferentes espécies um grande risco. Esta extrapolação já trouxe diversos problemas para nós, humanos. Este é o caso do medicamento da talidomida, que foi amplamente testado em animais. Constatado que não causava problemas nos mesmos, foi liberado para consumo humano e recomendado principalmente para mulheres gestantes para a diminuição de enjôos. O problema é que este medicamento nunca poderia ter sido liberada para mulheres gestantes pois possui efeitos teratogênicos, ou seja, causa diversas anomalias e malformações no feto. Centenas de bebês nasceram com problemas devido a este triste fato.

Pesquisas

Atualmente consideramos anti-ético induzir uma doença em seres humanos para então buscar a cura. Tecnicamente isso também não é justificável, pois uma pessoa induzida a um estado de doença pode não desenvolver a doença da mesma forma que uma pessoa que a desenvolveu de maneira natural. No entanto, parece correto que a ciência se ocupe de tentar buscar a cura para seres humanos já doentes, desenganados por outros tratamentos. É natural que essas pessoas aceitem participar de pesquisas, isso é de seu interesse. Da mesma forma, centros de pesquisa que tenham interesse no estudo de determinada doença podem oferecer tratamento veterinário gratuito a tutores de animais desenganados por doenças. Dessa forma, seguindo um rígido protocolo de pesquisa, o paciente ou seu tutor legal podem consentir participar da pesquisa, desde que essa vise sua cura.

Outras formas de pesquisas éticas são:

Ensino

Os alunos e alunas podem aprender através de modelos e simuladores computadorizados, realidade virtual, observação em campo e até mesmo a auto-experimentação. Existem pesquisas científicas comprovando que estes e estas estudantes que aprendem através de métodos éticos absorvem o conteúdo de forma similar ou superior aos que utilizaram animais experimentalmente. Isso acontece porque o animal em sala de aula é um fator de distração para os(as) estudantes. O(a) estudante deixa de se concentrar nos objetivos da disciplina e se desvia para outros fatores como se é correto utilizar aquele animal, se o animal está sofrendo, se ele irá acordar da anestesia, se ele irá morrer, etc. Outro exemplo são as caixas de invertebrados nos cursos de Ciências Biológicas. Os alunos e alunas podem pegar também insetos e outros animais que morreram naturalmente, é só ficarem de olho no chão!


Perguntas e respostas

 

Como vocês podem falar em nome dos animais? Como vocês podem afirmar saber o que eles querem ou deixam de querer?

De fato, nós não conhecemos as preferências de ninguém. Nós não sabemos se você gosta de rock, axé ou música gospel. Mas sabemos que não deseja ser dominado(a) por ninguém, e que isso você não troca por nada. Sabemos disso mesmo sem conhecê-lo(a), e o sabemos por você ser um ser senciente. Não faria sentido que alguém dotado da capacidade de sentir dor não prezasse a própria vida. E não faria sentido que alguém que preza a própria vida admitisse sem qualquer problema que sua vida fosse entregue a outro, que pudesse fazer com ele o que quisesse.

 

Serão só os sencientes os carregadores do direito de não ser considerado propriedade?

Em quem tem o direito de não ser propriedade?, vimos que todo ser senciente possui esse direito. E quanto aos não-sencientes? É um tanto ilógico imaginar que o processo evolucionário tivesse privado um ser que preza a própria vida de um mecanismo básico de preservação da mesma, como a capacidade de sentir dor. Assim, é bastante natural enxergarmos seres sencientes como os únicos que prezam sua própria vida, logo os únicos que carregam o direito moral de não serem considerados propriedade.

 

Plantas não prezam a própria vida? Se prezam, isso quer dizer que as pessoas têm que ser não só vegetarianas, mas frutarianas?

Nada indica que plantas sejam sencientes. Como elas não possuem sistema nervoso, seria necessária uma explicação metafísica para dar conta de seu potencial de sentir dor. Mas isso não tem nada a ver com o que é um fato consumado: animais são seres sencientes. Administra-se anestesia a cães antes de uma cirurgia – mas não se administra anestesia a plantas antes de uma poda. Não há qualquer estudo científico concluindo que as plantas são seres sencientes.

 

Existem animais não-sencientes? Existem indivíduos que não são animais, mas são sencientes?

Esponjas são classificadas como animais, mas não são sencientes, pois, assim como as plantas, não possuem nenhum resquício de sistema nervoso. Não se conhecem seres sencientes que não pertencem ao reino animal. De qualquer modo, não há dúvida de que os animais que exploramos cotidianamente são sencientes. Conseqüentemente, é nosso dever respeitá-los.

 

Insetos são sencientes? Como isso afeta a prática do veganismo?

Sim. Insetos claramente prezam sua própria vida, e devem ser respeitados por nós. Isso significa, por exemplo, que não devemos roubar a comida que as abelhas fabricam para sua comunidade, o mel. Também que podemos afastar as baratas que porventura surjam em nossas casas simplesmente as cobrindo com uma lata, passando uma folha de papel embaixo, e liberando-as do lado de fora. Quanto às formigas que andam na rua, é lamentável, mas inevitável, que acabemos matando algumas. Só não precisamos pisoteá-las de maneira intencional. Não é porque não conseguimos fazer tudo que não vamos fazer o que está absolutamente ao nosso alcance.

 

As pragas das lavouras não prezam a própria vida? E aí, como fica?

Sim! Se é essa sua preocupação, você pode tentar priorizar frutas, verduras, legumes e tubérculos produzidos sem inseticidas (orgânicos), e de preferência, em uma fazenda de alguém que respeita os animais. O(a) fazendeiro(a), se quiser, pode fazer uso de espantalhos, homeopatia, barreiras físicas, usar repelentes sonoros, e também pode fazer rotação e planejamento agroecológico das suas culturas como medida preventiva para que outros animais não se fixem ali e se aproveitem de sua produção. É impossível reduzir o número desses animais a zero – mas isso tampouco é necessário. Também seria interessante se as ferramentas desse(a) fazendeiro(a) fossem desenhadas para não matar minhocas. E, mais importante, que o adubo não contenha esterco. Se você conhece um(a) produtor(a) com essa preocupação, por favor nos avise! O(a) produtor(a), ou mesmo você que quer praticar horta urbana no seu quintal, pode encontrar recomendações e critérios para uma lavoura vegana orgânica em www.veganorganic.net.

 

Vocês dizem que o problema todo é que enxergamos os animais como nossa propriedade, de modo que os humanos podem fazer virtualmente qualquer coisa com os não-humanos. Mas e quanto aos animais na natureza, estes também são nossa propriedade?

Sim. E por dois motivos. Um deles é que eles pertencem ao governo (humano, claro) do país em que se encontram. O governo pode mandar que qualquer coisa seja feita ou deixada de fazer com eles. O segundo motivo é que a primeira pessoa que conseguir dominá-los será considerada sua proprietária. É assim, por exemplo, com a caça e pesca esportiva. Se queremos reconhecer o direito mais básico dos outros – o direito de não serem considerados nossa propriedade – nós temos que simplesmente deixá-los em paz, deixá-los viver a sua vida naturalmente, de acordo com suas próprias preferências.

 

Se nós não explorássemos os animais, talvez eles sequer existiriam. Por exemplo, se todas as pessoas do mundo virarem veganas, bois e cachorros provavelmente entrarão em extinção. Isso não será uma maldade que fazemos com eles?

Você está com a razão em relação ao fato de que o número de indivíduos dessas espécies ficará extremamente reduzido. Então provavelmente algumas pessoas se dirão preocupadas com a extinção dessas espécies. Mas é bom notar, em primeiro lugar, que animais que foram afastados da natureza (caso dos bovinos), bem como aqueles que foram inventados pelo ser humano e nunca tiveram uma natureza (caso dos cachorros “domésticos”), não têm qualquer função na natureza. Salvo um ou outro touro selvagem e cachorro-do-mato, os indivíduos dessas espécies não estão mais na natureza, de modo que sua extinção não desequilibrará o meio ambiente. Em segundo lugar, é bom lembrar que espécies não têm direitos. Só pode ter direito um ente que possui um interesse a ser protegido por tal direito. E só têm interesses os indivíduos, não as espécies. Assim, não há nenhuma maldade na proposta vegana (muito pelo contrário, há um profundo respeito por todos os indivíduos). Em terceiro, lembremos que o mundo vai se tornando vegano aos poucos, cada vez que uma pessoa decide se tornar vegana. À medida que isso acontece, a oferta de produtos animais também vai diminuindo, e menos escravos vão sendo trazidos à existência. Mas, num caso absurdo em que todos os(as) não-veganos(as) do mundo num belo dia tivessem um despertar de consciência e decidissem se tornar veganos(as) na mesma hora, teríamos que cuidar de todos os bois e cachorros já existentes para que tivessem uma vida digna até sua morte natural. Alguns animais possivelmente ainda poderiam ser reintroduzidos na natureza, outros não. Mas o que lhes importa não é se sua espécie entrará ou não em “extinção”, mas sim se eles mesmos continuarão existindo para satisfazer aos outros ou se suas preferências começarão a ser levadas em conta.

Aliás, cuidado para não cair no engodo da “extinção”! Esse termo costuma ser empregado por alguns ambientalistas como sinônimo perfeito de “escassez”. O objetivo dessas pessoas ao buscar regular (ou coibir em determinados períodos) a matança, apropriação e/ou venda de animais de determinadas espécies é que esses “recursos” naturais dos seres humanos (os animais não-humanos) não se percam. Isso garante o “direito natural” das futuras gerações humanas de se aproveitarem dos animais como nos aproveitamos hoje em dia (ou também de outras maneiras que ainda não foram descobertas). Para eles, o que importa é o número de exemplares da espécie,e não cada indivíduo dela.

 

Eu concordo que devemos evitar o uso de animais, mas às vezes esse uso é tradicional dentro de uma cultura. O que é pior, sacrificar uma galinha ou sacrificar uma cultura?

Sacrificar uma galinha. Os hábitos da humanidade têm que evoluir à medida que sua moralidade evolui. Se somos contra matar galinhas, não as matemos. Nós temos que incorporar, e não moldar, nossos princípios à nossa cultura. É bom lembrar que a cultura não é estática, é dinâmica.

 

Mas e quanto a culturas que ainda vivem de caça e pesca, como esquimós e índios? Elas devem ser orientadas para abolirem as práticas envolvendo animais?

A resposta da pergunta anterior vale para todos igualmente, mas devemos pensar primeiro no que nós devemos fazer, para depois pensar no que os outros podem fazer. Mas sem dúvida, a exploração de animais, assim como de mulheres ou de prisioneiros de guerra não pode ser justificada com frases como “Sempre foi assim”. Deveremos chegar num momento em que seja necessário o diálogo entre culturas – o que nada tem a ver com imposição cultural.

 

Já ouvi dizer que, nos primórdios, nosso cérebro evoluiu graças a nossa alimentação onívora. Será que eliminarmos a carne do cardápio neste estágio não vá resultar numa involução da nossa espécie, no longo prazo?

É impossível comprovar a teoria de que comer carne desenvolveu nosso cérebro. Como dizer que não foi a necessidade de inventarmos novas armas ou planos para capturar animais para comermos que o desenvolveu? Mas, mesmo se acreditássemos nessa teoria, não poderíamos dizer que, se o homem se tornar vegetariano, ele ou seus descendentes poderão ficar menos inteligentes. Como explicadoem uma pitada de nutrição, hoje é possível obtermos facilmente todos os nutrientes de que precisamos a partir da dieta vegetariana – o que era bem menos fácil na pré-História.

 

É dificílimo eliminar por completo da minha lista de compras produtos de empresas que fazem testes em animais. Isso significa que não posso me considerar vegana, ou pelo menos não 100%?

Não! Ser vegano significa buscar não colaborar com a escravidão. Não conseguimos fazer isso em 100% das situações, mas isso não nos torna menos veganos(as). O importante é termos clareza das implicações de tudo o que consumimos, e sempre buscarmos melhorias. Em geral, aprendemos bastante com outras pessoas veganas, que podem conhecer um substituto mais ético para um produto que estávamos acostumados a consumir. Temos que estar sempre de olhos e ouvidos bem abertos.

 

É impossível ser vegano 100% do tempo. Ouvi dizer que até na borracha do pneu do ônibus que eu tomo vai gelatina.

É verdade. Mas, se você deixar de tomar esse ônibus, a empresa de pneus vai entender que você não quer que ela use gelatina no pneu? Bem pouco provável. Por outro lado, quando deixamos de consumir laticínios (por exemplo), o recado que estamos dando para o explorador é direto. Se as vendas de queijo diminuem hoje, a produção diminuirá amanhã, e menos animais terão de ser trazidos à existência para nos servir. Toda e qualquer iniciativa no sentido de boicotar a escravidão é positiva – mas há de se relevar a efetividade desse boicote, ou seja, se a idéia dos direitos animais está realmente sendo transmitida e absorvida.

 

Se algum dia eu for atropelado, devo pesar igualmente os meus interesses e os interesses dos animais que foram torturados para a fabricação das drogas que vão me aplicar no hospital? Isto é, simplesmente recusar o tratamento, e morrer? Até onde deve ir o nosso respeito pelos outros?

É absolutamente compreensível que, em casos em que algum interesse fundamental nosso esteja em conflito com o de outros (sejam não-humanos ou humanos), tendamos a priorizar o nosso. Mas nem por isso que somos a favor da exploração institucionalizada dos outros. A única situação moralmente aceitável seria se ninguém tivesse sido sacrificado para se desenvolverem as drogas que poderão te salvar no caso do atropelamento (como no exemplo do vizinho, aqui). Mas, infelizmente, você não pode mudar o passado, apenas o futuro. Assim, não há nenhuma incoerência em você, por um lado, aceitar o medicamento que vai aliviar sua dor e salvar sua vida, e por outro, lutar para que cessem já os testes em animais. A melhor maneira de fazer isso é simplesmente se cuidar, para que o seu uso cotidiano de remédios seja o menor possível.

 

Vocês devem saber que nem todos acreditam em direitos. Para alguns filósofos morais, o que importa é apenas a minimização da dor em todos aqueles que podem senti-la. O que vocês têm a dizer sobre isso?

Que é claro que menos dor é melhor do que mais dor, qualquer um sabe disso. Se as questões concernentes à nossa relação com os demais animais não envolvessem interesses que de outra dimensão que o interesse em não sentir dor, nós realmente não precisaríamos falar de direitos, apenas de maximização de bem-estar. Mas esse não é o caso, como explicado em o que são direitos animais?. Sob uma ótica utilitarista (uma que desconsidere direitos, por considerar que todos os interesses são comensuráveis), diversas violações abomináveis de direitos podem ser justificadas, não só entre humanos e não-humanos, mas também entre humanos e humanos. Não podemos aceitar que o utilitarismo seja a matriz ética da nossa sociedade.

 

Às vezes vemos pessoas e grupos que se dizem defensores dos animais, mas não os vemos procurando romper com esse paradigma da propriedade, apenas buscando regulamentar como os animais podem ser explorados por nós. Isso não vai contra toda a teoria de vocês, de respeito pelos animais?

Sim. Esses tais “defensores dos animais” não questionam o uso em si dos animais, mas sim o tomam como uma premissa. Na verdade, eles são tudo com que poderia sonhar o explorador. Nada melhor que pessoas e grupos que posam de “defensores dos animais” colocando para a sociedade que existem maneiras erradas (e, conseqüentemente, uma maneira correta) de usarmos os animais. Essa é a maneira mais segura de garantir a perpetuação da escravidão. Basta fazer pequenos ajustes de tempos em tempos nos seus detalhes para que as pessoas sempre renovem sua percepção de que ela é natural e aceitável.

 

Eu concordo com vocês que devemos respeitar os animais, mas minha situação financeira não acomoda bem o vegetarianismo. O que fazer?

Se sua situação financeira não acomoda bem o vegetarianismo, ela também não deve acomodar bem o onivorismo. Ou talvez você ainda não tenha se dado conta de como é fácil e barato ser vegetariano(a). Quando uma pessoa se torna vegetariana, ela começa a descobrir todas as gostosuras que estava perdendo quando era onívora. Mas nenhum(a) vegetariano(a) é obrigado(a) a comer carne de soja, tofu, ou alimentos vegetais exóticos. A porção vegana da culinária brasileira, além de usualmente barata, é riquíssima do ponto de vista nutricional, como você pode ver em uma pitada de nutrição.

 

Eu como na rua quase todo dia, assim ficando quase impossível de eu não comer produtos de origem animal. Alguma dica?

É muito fácil encontrar restaurantes por quilo não-vegetarianos em que vegetarianos(as) podem se deliciar. A primeira pergunta costuma ser se o feijão leva carne. Se eles te assegurarem que não (lembre a eles que bacon, por exemplo, é um tipo de carne), e que não foi nem “só cozido” com carne, nem levou algum caldo ou gordura animal, você deve estar num lugar confiável. Mas não tenha medo de perguntar quando tiver dúvida. Às vezes alguma coisa pode levar manteiga ou ovo e não aparentar. O importante é sentir confiança nas respostas dos funcionários e funcionárias da casa.

 

Animais matam animais na natureza, essa é a ordem natural das coisas. Por que vocês querem romper com isso? Por acaso vocês também propõem ao leão parar de explorar a leoa e de comer a zebra?

Se nós somos agentes morais, não há por que basearmos nossa ética nos princípios morais do leão em detrimento dos nossos. Aliás, um leão nem pode ser vegetariano na natureza, pois, diferentemente de nós, alguns dos aminoácidos que lhe são essenciais (seu organismo não os consegue produzir) não são obteníveis a partir dos vegetais. Como colocamos emo que precisamos fazer?, o fato de que as pessoas podem ser vegetarianas sem qualquer prejuízo à sua saúde é fundamental para que o vegetarianismo seja considerado a prática alimentar do indivíduo vegano, aquele que respeita os animais.

 

Concordo com a idéia de que os animais devem ser bem tratados, mas acho um tanto exagerada a idéia de que não devemos sequer tratá-los. Eu mesmo crio alguns animais, e posso lhes assegurar que eles têm uma ótima vida.

Qualquer criação de animais não-humanos, seja ou não voltada para o comércio, tem como motivação única o bem-estar de algum humano. Não há nada pior que domesticar um animal. Se o ser humano resolveu se separar da natureza e viver numa selva de pedra, tudo bem – mas nem por isso os outros animais têm que fazer o mesmo. Deixemo-los livres de uma vez por todas – não forçando sua procriação para que suas crias sirvam algum interesse nosso. É lógico que é melhor sermos senhores(as) de escravos bonzinhos do que senhores(as) de escravos vis – mas mesmo nesta situação não deixamos de ser senhores(as) de escravos.

 

E quanto a ter animais domésticos, isso é errado?

A existência de animais “domésticos” sem dúvida é um grande problema. Não importa o quão bem nós os tratemos, eles sempre estarão limitados por nossas vontades. Diferentemente das crianças humanas, eles para sempre comerão na hora em que nós quisermos, farão suas necessidades na hora em que nós quisermos, sairão para passear (no caso de cães) na hora em que nós quisermos. Sem exceção, sejam cães, gatos, pássaros ou peixes, ou sua liberdade lhes foi roubada (no caso em que eles foram capturados de um ambiente natural), ou a liberdade de seus pais foi roubada (no caso em que eles nasceram em cativeiro). Nesse último caso, laços familiares também foram rompidos. E não temos que continuar dando nosso dinheiro a gente que faz barbaridades como essas. Por isso, não devemos comprar animais.

Mas é lógico que, quando adotamos um animal abandonado, não estamos dando nenhum suporte à escravidão, mas sim nos comprometendo a dar uma vida o mais decente possível a um indivíduo que já se encontra numa situação de dependência – e isso é ótimo. É importante não nos esquecermos de castrá-lo, a fim de frearmos o uso de animais para entretenimento humano.

 

A carne que eu compro é de um bicho que já foi explorado e morto. Não fui eu quem o escravizou e matou. Assim, não sou eu quem tem de mudar, mas sim os exploradores!

Na verdade, a responsabilidade maior deve recair sobre o consumidor, não sobre o produtor. O último é apenas o executor do crime moral – o primeiro é o mandante. Os(as) produtores(as) só exploram animais porque é o que precisa ser feito se nós queremos continuar tendo a possibilidade de ter animais “de estimação”, queijos-quentes ou gravatas de seda. No momento em que nós não quisermos mais essas coisas e quisermos outros produtos que não envolvem desrespeito, gradualmente ocorrerá um deslocamento do setor escravocrata da economia para setores não-escravocratas, ou mesmo uma mudança dentro do setor até então escravocrata (hoje, no Brasil, grandes cadeias de alimentos a base de carne animal já possuem linhas a base de carne de soja).

 

O que cada um come é uma opção pessoal. Vocês não têm o direito de me dizer o que devo e o que não devo comer!

É verdade, não temos esse direito. Apenas note que, se você se opõe à escravidão, seria uma grande incoerência você comprar ou usar alimentos de origem animal, já que estes necessariamente provêm da escravidão. Logo, coma o que você quiser – mas seja vegetariano(a).