OS TRÊS PILARES DO ANTICOMUNISMO NO BRASIL

Flávio B. Menezes, UFSCar, 2017

Faço ao leitor um texto que na realidade é um compilado de autores nacionais que visavam por suas pesquisas, estabelecer um paralelo entre o que levou o país a dois regimes ditatoriais (Estado Novo e Ditadura Militar) no séc. XX e os discursos anticomunistas, auxiliados pela investida estadunidense com medo de uma doutrinação socialista oriunda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) no Brasil.

Para que este compilado seja preciso, apontarei dentro dos trabalhos de Carla Simone Rodeghero (2002), Rodrigo Patto Motta (2002), João Henrique Botteri Negrão (2005) e Arthur S. Link (1965), um quarteto de autores que, unidos no livro “Comunismo Não! A influência do jornal ‘Correio de São Carlos’ na construção do anticomunismo no município entre 1934 e 1964” (2010), de João Paulo da Silva, explicam com clareza as bases do discurso anticomunista no país.

Como o propósito deste texto é resumir os pilares da formação e dissipação do anticomunismo no país, irei me ater apenas às duas primeiras partes do livro de Silva, deixando de lado o propósito principal de seu livro - que era mostrar como tudo isso ocorreu na cidade de São Carlos - SP.

São as duas primeiras partes intituladas “A construção do imaginário comunista” e “O anticomunismo no Brasil: católico, nacionalista, liberal, trabalhista e de esquerda”, respectivamente.

É importante ressaltar que a propagação do anticomunismo, primeiramente, é oriunda de uma tensão Estados Unidos-URSS que vem desde o final da 2ª Guerra Mundial, para entendermos a dissipação do anticomunismo no Brasil, precisamos, de maneira histórica, analisar os conceitos importantes que rodeiam o tema. O que Silva faz em sua obra é estruturar esse argumento de maneira que leve o leitor do macro para o micro, apontando as características da implantação do anticomunismo no país via os aparelhos ideológicos do Estado e de cunho privado (mídia, família, religião, etc.). Depois de apresentadas essas características, o autor nos leva para um recorte mais específico: o anticomunismo tipicamente brasileiro, com base na teoria das três matrizes - “Deus, família e liberdade” -, desenvolvida por Motta.

A OBRA

        Silva inicia seu livro explicando como se deu nas Américas e Europa Ocidental a dissipação do anticomunismo, numa batalha ideológica entre a afirmação capitalista estadunidense, maior potência bélica na 2ªG.M. e o crescimento quase irrefreável da URSS, notável participante nas derrotas que a Alemanha nazista teve; Silva aponta que “o anticomunismo é uma  prática social das mais relevantes para o entendimento da história”(p.13) e, ainda segundo ele, “é uma prática social no sentido lato. No sentido marxista, o termo não se adequa, pois pressupõe classes sociais agindo em contraposição”[editado]. Ainda sobre uma breve explicação do que é o anticomunismo, Silva cita Rodeghero, a autora aponta que “o fenômeno é uma postura anti aquilo que é identificado, por diferentes realidades, como ‘comunismo’”(p.13)[editado], demonstrando que a palavra “comunismo” se faz presente no imaginário do povo de maneira singular, à medida que a população - a grande massa - nunca de fato entrou em contato com os escritos de Marx.

        O autor aponta que durante a Guerra Fria, o termo “comunismo” era utilizado como um sinônimo de “terrorismo” e “anti-democracia”, o que fez com que os EUA conseguiram instaurar um pensamento coletivo de que países como a URSS, Cuba, China, Coreia do Norte, Venezuela e Brasil eram países antidemocráticos. Silva aponta que o anticomunismo nega tanto a realização histórica do comunismo quanto qualquer sentido doutrinário a ele ligado.  

“A doutrina anticomunista é representada por um conjunto de atividades construídas e realizadas por uma coletividade, com base na produção de propagandas, estratégias educacionais, pregações religiosas, controle e ação policial, entre outras maneiras. Os EUA foram os responsáveis pela disseminação global de uma visão maniqueísta de mundo, sobretudo a partir da década de 1950, apoiando políticas externas e internas de contenção do ‘espectro vermelho’ em diversos países. [...] já na década de 1910, o comunismo gerava medo nos americanos, devido a Revolução Russa de 1917. O ‘fardo’ americano era o de assumir a liderança em ‘defesa’ da democracia e do capitalismo, mesmo que para isso eles tivessem que apoiar políticas antidemocráticas e totalitárias[...]” (SILVA, 2010)

                Para que o anticomunismo surtisse efeito, os EUA apostaram em ações de “caça às bruxas”, como foi o Macartismo e a influência de John Birch e da Ku Klux Klan, que “apoiaram” o “anticomunismo doméstico”. Silva aponta a importância da religião no anticomunismo; como uma doutrina que era abertamente atea, o comunismo era facilmente combatido dentro de igrejas católicas e protestantes dos EUA, apoiadas ainda mais pelo ideal de trabalhador e conquistador do norte americano. O autor cita que nos EUA foi desenvolvida uma “religião civil”, católicos e protestantes unidos contra o comunismo.

Em outro plano, observa-se a propagação do anticomunismo no Estado Brasileiro, majoritariamente católico, com esse ideal americano de “caça às bruxas” e de perversão religiosa que o anticomunismo tinha, amontoou adeptos em pouco tempo no país. Silva demonstra que a lógica do anticomunismo não pode ser entendida como “pura e simplesmente uma ideologia transmitida para a sociedade ‘de cima para baixo’”(p.22), ele aponta que a sociedade brasileira trabalhou o anticomunismo como um jogo de reciprocidade entre os governantes, a mídia e a igreja. Segundo Motta, o anticomunismo no Brasil é a unção do catolicismo, nacionalismo e, em menor escala, o liberalismo:

“O anticomunismo é [...] uma frente reunindo grupos políticos e projetos diversos. O único ponto de união é a recusa ao comunismo, em tudo mais impera a heterogeneidade. Se esta diversidade muitas vezes passa despercebida, isto se deve ao fato de que, nos momentos de conflito agudo, os diversos tipos de anticomunismo uniram-se contra o inimigo comum [...]”(MOTTA, 2002)

O ANTICOMUNISMO CATÓLICO NO BRASIL

Silva cita o início do anticomunismo católico no Brasil com a encíclica papal Quod Apostolici Muneris, escrita por Leão XIII em 1878 - o primeiro documento oficial que condena o comunismo -, inicialmente a igreja católica pautava suas obras em prover aos menos afortunados não gerando insatisfações e assim os mantendo longe da doutrina socialista. “Todavia, essa missão não obteve êxito e a instituição partiu para alternativas mais pontuais e eficazes”(p.23)[editado]. A alternativa mais eficaz contra o comunismo encontrada pela igreja foram os sermões que fizeram do comunism algo “satânico”, nas palavras de Motta: “O demônio, encarnação do mal [...], vinha tentando o homem e provocando perturbações para enfraquecer as forças do bem [...] a provação final seria o comunismo, última artimanha engendrada pelo ‘antigo tentador’ para desviar o homem do bom caminho”(2002, p.49).

Além do demônio, a igreja ainda se utilizou da criação de corporações operárias cristãs, na década de 1920, visando manter estável a fé dos operários brasileiros, assim eles não iriam desenvolver a “consciência de classe” marxista e não iam haver revoluções.

Após 1940, com a ascensão do Partido Comunista do Brasil (PCB), a preocupação com o comunismo aumentou, o próprio PCB, para atrair adeptos, tentou abolir o ideal ateu de suas pautas.

Considerando que o Brasil é o maior país em número de católicos, Silva aponta que “é possível imaginar o tamanho do êxito obtido pela Igreja Católica”.

O ANTICOMUNISMO NACIONALISTA NO BRASIL

        Motta possuía em sua tese o argumento que apontava a importância do ultranacionalismo como uma arma contra o comunismo. Silva aponta que “os comunistas eram relacionados a agentes [...] vindos da URSS para disseminar a doutrina e colocar o país sob a tutela de Moscou”(p.26), ele ainda aponta que o Brasil é um país cujo nacionalismo é conservador e funciona na base das palavras da bandeira - “ordem e progresso” -, o que acabava servindo de sustentação ideológica para a perseguição.

        “Outro temor que era disseminado pela população era a substituição dos signos nacionais por signos comunistas”(SILVA, 2010. p.27), isto é, os brasileiros temiam que sua bandeira fosse vermelha e tivesse uma foice e um martelo. Houve, a partir dos anos 1940, uma incessante campanha de valorização dos símbolos nacionais, transformando o nacionalismo do brasileiro muito parecido com o do estadunidense na época.

        Com um pano de fundo que alegava “construir uma identidade nacional para o país”, o nacionalismo logo não vingou como esperava; com a não-realização de uma revolução socialista como era o temido, logo as instituições que investiram pesado no anticomunismo apenas mantiveram até o golpe de 64 seu discurso.

O ANTICOMUNISMO LIBERAL

        Quando se trata de liberalismo no Brasil, Silva aponta para o cuidado que se deve ter com esse termo, pois o país não possui um “cerne liberal”, é de construção católica, portanto, a filosofia lockeana não imperou tão forte no país - o que não exclui o liberalismo de um dos pilares do anticomunismo no país.

        Silva aponta que os liberais, por seu discurso, fizeram o comunismo se apresentar como uma oposição à democracia - e não ao capitalismo -, apontando que dentro do sistema, os brasileiros teriam que se desfazer de suas casas e compartilhar todos seus bens com mendigos e outras pessoas (pois “no comunismo não existe propriedade privada”). A deturpação do discurso do fim da propriedade privada - “dos meios de produção”, segundo Marx - foi a grande base dos liberais que depois, aliados aos militares nos períodos que antecederam o golpe de 64, trabalharam para passar a imagem que o Brasil ainda era um país democrático, com eleições em algumas esferas legislativas e mais de um partido.

        Silva ainda aponta que o discurso liberal visava fazer o cidadão brasileiro se acomodar com o capitalismo, em suas palavras: “o liberalismo e essa democracia representativa são o máximo ponto ao qual eles poderiam chegar”(p.30).

        Após a apresentação desses três pilares, Silva retorna à máxima de Motta quanto as matrizes do anticomunismo no Brasil. Não é atoa que o nome do maior movimento popular anti-comunista do país, a Marcha com Deus, pela Família e Liberdade, em março de 1964, é este.

        Silva ainda completa a segunda parte de seu livro citando mais dois pilares do anticomunismo: o anticomunismo trabalhista, estruturado pelo Estado Novo para que os trabalhadores se adequem ao capitalismo sem questionar a opressão e o anticomunismo de esquerda, liderado por partidos sociais-democratas e anarquistas, sendo o primeiro com uma visão da modificação do Estado e da economia e o segundo com a extinção deste, que pautavam-se em lembrar que a URSS havia se transformado em uma ditadura: “os anarquistas preferiam lutar por liberdade do que por igualdade social” (MOTTA, 2002).

        A obra Comunismo Não! prossegue demonstrando seu tema de pesquisa, citado no subtítulo do livro, a influência do jornal “Correio de São Carlos” na construção do anticomunismo no município. Porém a missão até aqui já está cumprida, apresentados os pilares que fizeram do comunismo algo abominável por boa parte do povo brasileiro.