Lembranças e esquecimentos:  professores da rede pública e sua formação para o uso das tecnologias

 

Joana Peixoto

Instituto Federal de Goiás (IFG), Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO)

Moema Gomes Moraes

Universidade Federal de Goiás (UFG), PUC-GO, CAPES/PROSUP

 

Resumo:                                                                           

Este texto discute dados oriundos de uma pesquisa em andamento, financiada pelo CNPq, edital n. 14/2012 e conduzida pelo Kadjót - Grupo de Estudos e Pesquisas sobre as relações entre as tecnologias e a educação. A pesquisa tem como objetivo analisar, com relação aos programas oficiais de integração das tecnologias à educação, as percepções de professores da rede pública da educação básica do estado de Goiás sobre o papel das tecnologias na educação e a trajetória de suas práticas. A pesquisa adota o materialismo histórico e dialético como método para a análise dos dados observados, destacando as categorias: trabalho e contradição. Os sujeitos são os professores que atuam nas escolas estaduais da educação básica do estado de Goiás que fizeram os cursos de formação. São professores de escolas vinculadas aos 12 NTE criados na implantação do programa de informática na educação no estado. A análise das relações que se estabelecem nas práticas que se configuram por meio do uso pedagógico das tecnologias está sendo realizada por meio de entrevistas semiestruturadas e análise documental. Até o momento foram visitados três NTE e entrevistados professores de escolas vinculadas aos NTE dos municípios de Goiânia e de Anápolis. A análise das relações que permeiam os eixos da pesquisa indicam a necessidade de olhar com atenção para as contradições que se revelam por meio das falas dos professores. A avaliação da própria trajetória de formação e de prática coloca os professores entrevistados num processo auto-reflexivo. Este processo nos parece indicar, para além das tensões e lógicas divergentes que o atravessam, a possibilidade de um projeto de formação, hipótese que continuaremos a explorar.

 

Palavras-chave: Práticas docentes; tecnologias e educação; processos formativos.

 

As ações governamentais referentes à tecnologia informática no Brasil foram iniciadas por meio do Programa de Ação Imediata em Informática na Educação de 1o e 2o Graus, proposto em 1986. A partir daí, observa-se a implantação de outros Planos e Programas até a mais recente proposição do Programa Nacional de Tecnologia Educacional (ProInfo), em 2007.

Tais ações adotam como um dos focos principais a preparação dos professores para a utilização pedagógica das tecnologias. No entanto, a cada novo Programa, o modelo de formação proposto sofreu alterações significativas sem que se tenha acesso a justificativa de tais alterações.

A partir de suas primeiras versões, as políticas educacionais no campo das tecnologias na educação são propostas por instâncias centrais do governo federal, não submetidas ao debate de educadores e da sociedade civil organizada. Na verdade, os Programas oficiais da área da tecnologia na educação se sucedem sem a análise dos dados referentes aos resultados das ações formativas que propõem.

Desde as primeiras iniciativas que dizem respeito à tecnologia educacional no Brasil até o ProInfo-2007 as políticas públicas da área se coadunam com demandas econômicas, em detrimento das finalidades próprias ao sistema educacional. Assim como o sistema educacional como um todo tem se submetido à lógica do mercado globalizado, as políticas para a tecnologia na educação também visam a formação de recursos humanos para atender ao mercado, sem colocar em questão o modelo econômico vigente (CYSNEIROS, 2003; MORAES, 2006, QUARTIERO, 2002).

Observa-se então que, os principais atores das políticas públicas para a tecnologia na educação (professores das unidades escolares ou aqueles lotados nos Núcleo de Tecnologia Educacional – NTE – no momento identificados como EsFor) recebem formação marcada por determinações extra-educacionais e fundamentadas numa lógica instrumental.

O mapeamento das pesquisas sobre as políticas públicas na área da tecnologia e educação e formação de professores que tomam o estado de Goiás como campo empírico (1996-2011), revelou uma preocupação prevalente sobre a questão da formação de professores, embora pouco tenha dado voz aos principais responsáveis pela utilização pedagógica das tecnologias nas escolas públicas brasileiras, os professores, alvo das formações propostas.

Assim, ao considerar: o caráter economicista das políticas públicas brasileiras para o campo da tecnologia na educação que exclui os atores (professores) de sua elaboração; a quantidade restrita de pesquisas acadêmicas sobre a formação de professores por meio de ações do ProInfo, tomam como referência a visão desses professores; o número reduzido (11%) de pesquisas acadêmicas sobre o ProInfo se baseiam em dados provenientes da realidade goiana; a presente pesquisa propõe-se a analisar as percepções de professores da rede pública da educação básica do estado de Goiás sobre o papel das tecnologias na educação e a trajetória de suas práticas pedagógicas, tomando como referência os programas oficiais de integração das tecnologias à educação.

Algumas considerações metodológicas

As trajetórias formativas e as práticas docentes mediadas pelas tecnologias serão objeto de análise da presente proposta de pesquisa, à luz do materialismo histórico-dialético. Para tal, pretende-se tomar como base empírica os professores da rede pública de educação básica do estado de Goiás, considerados como sujeitos históricos que são determinados, mas também determinantes das relações que se estabelecem e das práticas que se configuram por meio do uso pedagógico das tecnologias.

O método materialista histórico-dialético aqui adotado, exercita o pensamento através da materialidade histórica da vida dos homens em sociedade. A partir de tal referencial, a contradição e o trabalho são tomados como categorias de análise (SANFELICE, 2008). No presente artigo, a contradição será a categoria norteadora da discussão.

Como instrumento principal de coleta de dados, até o momento, foram realizadas entrevistas coletivas com professores de 3 dos 12 primeiros NTE criados no estado de Goiás. A entrevista semiestruturada tomou como base o objetivo geral da pesquisa, qual seja, analisar, com relação aos programas oficiais de integração das tecnologias à educação, as percepções de professores da rede pública da educação básica do estado de Goiás sobre: o papel das tecnologias na educação e a trajetória de suas práticas pedagógicas.

 

Estágio atual da pesquisa

Apresentamos um recorte das entrevistas coletivas realizadas com 25 professores dos municípios de Goiânia (10 professores de 3 escolas) e Anápolis (15 entrevistados de 2 escolas). Destaca-se neste pôster, aspectos que são comuns aos grupos observados.

As entrevistas são realizadas a partir de três eixos norteadores, que são basilares para análise da problemática desta investigação: formação recebida, prática com uso das tecnologias e papel atribuído ao uso da tecnologia na educação. O primeiro está relacionado à identificação e análise dos cursos destinados à formação docente para o uso das tecnologias em ambientes educacionais. Estes cursos, promovidos pelos NTE, foram realizados nestas unidades ou nas escolas estaduais. A análise deste eixo inicia-se com a identificação dos cursos que os professores fizeram no NTE destinados a formação para o uso das TIC na educação. Além desta identificação, outros aspectos perpassam as falas dos professores durante as entrevistas e que se mostram relevantes para a análise dos dados. Um fator recorrente é a forma como os professores negam lembrar do processo de formação. No entanto, no decorrer da entrevista, a medida que algum dos professores relata suas lembranças, os demais confirmam a participação no curso citado. Verifica-se o esquecimento da carga horária, do ano em que foi realizado e das referências bibliográficas do curso, apesar de muitos lembrarem-se de fatos que marcaram sua participação, como o incentivo dado por uma professora ou a distribuição de “uma pasta verde” que pode ser consultada na escola.

O segundo eixo diz respeito à identificação do uso das tecnologias nas práticas docentes. A ideia é identificar a apropriação docente das tecnologias no espaço escolar, observando também, o uso pessoal que os professores fazem das tecnologias pertencentes ao seu contexto. Prevalece o relato do uso de recursos tais como o projetor multimídia para a apresentação de conteúdos e informações aos alunos por meio de apresentações em slides ou vídeos, “para tornar as aulas mais interessantes”. Os professores fazem alusão às dificuldades de uso dos recursos com os alunos devido à ausência do dinamizador nos laboratórios e ao sucateamento dos mesmos. Considerando precariedade dos meios disponibilizados pela escola, alguns relatos de experiência revelam o uso de recursos dos alunos e dos próprios professores, tais como: celular, tablet ou laptop. Neste caso, nos deparamos com experiências que articulam diversos destes recursos para a pesquisa e produção de trabalhos.

O terceiro eixo refere-se à forma como os professores percebem o papel das tecnologias na educação. As tecnologias são percebidas como instrumentos de comunicação, de acesso à informação e de ‘transmissão’ dos conteúdos escolares. E seu efeito mais citado é a motivação dos alunos. De acordo com os docentes, o uso do computador nas diferentes ações humanas é irreversível, exemplificam então que está cada vez mais presente em suas rotinas o uso das redes sociais, o acesso à internet para pesquisas, leitura de notícias, planejamento e elaboração das aulas. Além disto, boa parte dos entrevistados acredita na necessidade de inovar as práticas pedagógicas e no potencial transformador destas tecnologias.

Por fim, os professores são questionados quanto às relações entre a formação realizada nos NTE, suas práticas e a visão que possuem do uso pedagógico das tecnologias. Nos grupos até então entrevistados os professores responderam negativamente, justificando que a experiência que eles possuíam antes dos cursos, ou buscaram em outros ambientes de formação é que contribui para a integração das tecnologias à prática docente. Em suas respostas a esta questão, muitos professores apontam para outros aspectos que interferem no cotidiano do trabalho docente, dentre estas destacam a precariedade de condições para o trabalho nas escolas e para a participação nos cursos.

A análise das relações que permeiam os eixos da pesquisa indicam a necessidade de olhar com atenção para as contradições que se revelam nas falas dos professores. O esquecimento pode representar uma manifestação de luta contra-hegemônica docente em relação às políticas formativas historicamente impostas. Os professores dizem não se lembrar das reflexões teóricas e se angustiam diante de uma série de aspectos que são citados no decorrer das entrevistas. De acordo com os docentes, é necessário aprofundar sobre as questões metodológicas e didáticas referentes aos distintos conteúdos disciplinares, mas esta tarefa é dificultada diante da falta de tempo para formação continuada. A maioria possui uma jornada de trabalho superior a 40 horas semanais. Este fator traz dificuldades para a locomoção até o local dos cursos oferecidos. Sugerem então, que a realização da formação aconteça na própria escola. Além disto, a imersão no próprio ambiente de trabalho facilitaria a adequação da formação à realidade concreta de trabalho.

Como nos explica Charlot (2008) as contradições enfrentadas pelos professores em sua prática não são “simples reflexo das contradições sociais” (p. 21). As práticas colocam em jogo, pelo menos, dois sistemas de pensamento: um oriundo da ação e outro dos conhecimentos. Estes interagem mas podem entrar em oposição ou mesmo em contradição.

A avaliação da própria trajetória de formação e de prática coloca os professores entrevistados num processo auto-reflexivo. As constantes reclamações quanto à  precariedade das condições de trabalho e de formação aparece muito fortemente no desejo por parte de alguns professores em compreender outras formas de uso das tecnologias em ambientes escolares. Este processo nos parece indicar, para além das tensões e lógicas divergentes que o atravessam, a possibilidade de um projeto de formação, hipótese que continuaremos a explorar.

 

Referências

CHARLOT, B. O professor na sociedade contemporânea: um trabalhador da contradição. Revista FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 17, n. 30, p. 17-31, jul./dez, 2008.

CYSNEIROS, P. G. Programa Nacional de Informática na Educação: novas tecnologias, velhas estruturas. In: BARRETO, R. G. (Org.) Tecnologias educacionais e educação a distância: avaliando políticas e práticas. Rio de Janeiro: Quartet, 2003, p. 120-144.

QUARTIERO, E. M. As tecnologias da informação e comunicação no espaço escolar: o Programa Nacional de Informática na Educação (PROINFO) em Santa Catarina. 2002. 253 fls. Tese (Doutorado em Engenharia da Produção). Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2002.

SANFELICE, J. L. Dialética e pesquisa em educação. In: LOMBARDI, J. C.; SAVIANI, D. (org.). Marxismo e educação: debates contemporâneos. Campinas: Autores Associados: HISTEDBR, 2008, p. 69-94.