Poesia nos Bosques

SESSÕES DE POESIA NOS BOSQUES I a Sessão de Poesia nos Bosques, Arrife do Moital, Freixo do Meio, 16 de Abril de 2022.

Manuel Calado:

Sete traços, quatro linhas,

Num céu de pedra, pintado.

Não sabes, mas adivinhas,

São mistérios do passado...

Sete dias, quatro fases.

És a Senhora dos Céus

És mentirosa, mas trazes,

Refletida, a luz do deus.

Sete silabas por verso,

E quatro versos em linha,

Para meter o Universo,

Numa quadra bem certinha…

Cresceram-te asas, amor,

Tu voas bem alto e longe.

Entre o prazer e a dor,

Entre o guerreiro e o monge.

Deixa-me voar contigo.

Sonhar contigo os caminhos,

Que tu segues e que eu sigo,

Entre as rosas e os espinhos.

As tuas penas, que as tens,

Macias, como o teu seio,

Vão do Alto de S. Gens,

Até ao Freixo do Meio.

…..

Cassandra:

Título: LARGAR,

 

Ontem as tais árvores falaram de mim

Logo, vou ver se me evado

Não há mais para onde viajar, assim

Se não para um seio mudo

 

e eu vou encontrar

o bosque que me sente

imenso, envolvente

 

Árvores seculares

vou ser aprendiz!

No rio dos avatares

permanece a raiz

 

Mesmo cercado pelo inominável vácuo surdo

Mesmo na viagem eterna do infinito mar, ar

LARGAR!

1980 / 1982

 

Título: Amar entre o mar

 

A tua presença espalha

uma teia sobre o mar

todos passam sem reparar

só meu coração encalha

 

Quando prestes a largar

vem o prender novamente

nas ondas duma corrente

onde o mar evoca o lar

 

Cose o meu coração crivo,

pescador do mar verde,

tecido na tua rede

enquanto eu ainda vivo

 

Onde lar chama-se mar

atira lá o meu coração

num enredo sem solução

onde lar significa amar

 

E finalmente descansar...

1983 a 1989

Título: Voar para além de Ícaro

Ter asas é delicado

Pode o Ícaro se perder

É aceitar todo o fado

Ou, antes lutar do que arder?

Ter asas no arvoredo

Faz de mim um passarinho

Pode até nem ser por medo

Custa-me a sair do ninho

Se a terra se povoar

De gente mais angelical

Acho que será bom voar

Mesmo entre o bem e o mal

Se a terra for tomada

Por gente bem mais malvada

Para achar a luz sagrada,  

Melhor voar que parada

Queria voar contigo

Entre árvores e pedras

Se houver joio entre o trigo

Para quem ama não há perdas

Se voar é a condição

Para a gente se encantar

Mesmo sem passar do chão

As asas vão nos libertar!

Abril 2022

Maria Sarmento

Um poema que fosse macio e tenro

Como a polpa de uma maçã madura

Liso e sedoso como um bicho-da-seda

E dentro do casulo enrolado nas patas

O ar dumas asas vibrantes a futurar a luz.

E que para morrer o ovo só rompesse

a película finíssima do real sonhado

o velo de ouro, o giz, o osso, o desenho do arado.

E que fosse raiz de mandrágora,

e veneno engolido a esquecimento e a frio.

 

Um poema liso, escorregadio e ágil

como serpente de água

ou redonda e molhada pedra

de passado rio.

Um poema que fosse bicho prenhe e contorcido

gerasse a viva dor de uma animal ferido

E que à força de ser só um bicho moribundo

o poema cavasse no mar fundo

a pérola cuspida da boca da serpente.

Seria, então, dos dentes a voraz sede

de um diamantino e precioso colar

E que, por fim, não fosse senão a casca

folha seca que o homem, com prazer, pisasse.

 Um escavado vazio do cálice sagrado

Escada de Jó, pedra do reino, anel, escaravelho

E que já sem forças ajoelhasse, pródigo,

filho bastardo de uma terra estranha.

Que ao ser poema fosse

não mais que o som cortante

de um golpe de espada numa rosa em fogo

 

Que o poema não fosse!

Ou fosse cego de uma visão que a si mesmo fulminasse

em sangue o escavado vazio do cálice sagrado

de onde bebem os deuses o entornado líquido

das entranhas jorrando.

E que nas mãos de um cego fosse vista clara

e nas do poeta fosse pó

de um cofre já vazio.

 

Um poema que fosse casa escura

casca varrida pelo vento sem caracol lá dentro

Destroços de um incêndio longe arrastados

por um anão corcunda e mal disposto.

Um poema -teia que imitasse o tempo e o tear

das habilidosas e caladas aranhas

Num tempo tecedeira

de onde os vermes, mil,

se alimentassem do buraco dos olhos.

Um poema que acabasse caveira

nas mãos de um rei desdentado, cego e louco.

Que sem cabeça fosse de Salomé repasto.

Espinho de uma rosa misteriosa e bela!

 

Atégina

 

Eis a que abre a estrada ao céu iluminado

com o seu manto brilhante de verdes e de bosques,

próximos e distantes. De montanhas e de prados,

de clareiras de aberto fogo no centro

dos passos e dos com.passos.

Ei-la que chega coroada do fio de luz da treva

antiquíssima de ser, a abrir passagem

ao rosto mutável do vento,

ao crescente lunar de uma meditação de rosas.

 

Ei-la, a de claro rosto voltado às múltiplas cores

das flores despidas de treva, de arrefecimento e de mundo!

Ei-la, a flor pagã, pendurada num fio de lua

com o Sol aos pés atapetado de flores e de renascimento.

Ei-la que volta, a deusa antiga dos Lusos,

Atégina, que regressa para a criação do novo. Do Ovo Solar

o Ovo Cósmico. A pedra de Sol e de Sal. De água dos ribeiros,

asas da luz a sacudir a treva. Noite de toda

a possível regeneração de tudo. Dia de toda a claridade feito,

Sombra vegetal dos rios, alvura das manhãs e prado santo.

 

Eis Perséphone, a que sempre regressa com o peito em fogo

a acender a clareira do céu. A que se abre em flor e dádiva

à Terra-Mater e às suas irmãs, as de grinaldas de silvestres rebentos,

cujo olhar rompe a fria treva.

O Sol lava-lhe o rosto e a lua a cobre do manto

cintilante de estrelas, sobre o seu corpo nu.

Ó Nut! Ó noite! Ó lua ardente!

De todas as mães, filhas e de todas as filhas, Mãe!

Vem cobrir de chamas sagradas o vasto corpo da Terra,

Semear de cores vibrantes os canteiros próximos e distantes.

 

Vem florir de palavras o caminho que te trouxe para cima

Para o alto de toda a fundura. Caminho de toda a Passagem;

Ovo de toda a regeneração, escuridão de toda a profunda morte.

Vem! Ó grácil e ágil deusa descalça! Trazes na mão

o Ovo Sagrado e a teus pés a terra, aberta em flor, germina

Germina o Amor, e a dor vem, coroada da Alegria do Regresso!

Vem, de todas as noites, noite Sagrada, de todos os Dias, claros Dias!

Vem! Ó Para-sempre-nascida da flor branca da Lua, do raio puro do Sol.

António Saias:

A Matéria do Poeta

.

diz-se do poeta que é um sonhador.

Erro erro – repito

o poeta não é um sonhador

porque é ele próprio

matéria do seu próprio sonho

.

poeta é sonho como cadeira ou mesa

ou cama são madeira como chuva é água

como trovoada é relâmpago e trovão.

.

pode pedir-se a um carpinteiro

que sonhe uma cadeira

uma mesa uma cama um canapé

não pode é pedir-se a um pinheiro

a um cedro do Líbano

a um eucalipto que sonhem ser madeira

.

eles já o são

quer dizer: são vésperas de madeira

antevésperas de cama de canapé cadeira.

.

ninguém espere portanto

de um poeta que ele sonhe

.

como do desenho de um melro

que ele cante

Cláudia Martins:

Sou semente

Sou semente do Tempo, em que o tempo e o espaço não existiam

Tudo o que foi, é e será, era apenas ideia concebida

Na mente do Eterno, aguardando sabiamente a grande Alquimia

Trago em mim centelha desse Universo pensado,

Que com o Som Primordial foi criado,

E neste materno útero cósmico acalentado,

Sou semente do passado e do futuro,

Vivendo o presente neste Mundo

Cumprindo o Eu, meu propósito mais profundo

Sou pó das estrelas, no continuum da Vida

Sou planta, animal e mineral, sou a noite e o dia

E acordo em cada instante, essa memória trazida

Olho o Céu dos Anciãos e a Terra, dos meus Irmãos

Saboreio a dádiva da Vida, em cada hora sorvida

Inspiro o Sopro Vital, expiro a transmutação do Mal

Abraço o Diferente, o que me falta, o que me torna mais Consciente

Escuto o Som da minha Essência e alcanço a Transcendência

Lanço sementes ao vento, como um dente de leão,

Em cada Pensamento, em cada Sentimento, em cada Acção

Sou semente de Ti, de Mim, sou intemporal semente da Vida!

Cláudia Martins, 2022-04-16 – Herdade do Freixo do Meio

II Sessão de Poesia nos Bosques

4/9/2022

Cassandra:

Fundo dos tempos

Venho do fundo dos tempos

Onde não há bem nem mal

A somar escolhas e ventos

Tornei-me, eu, desigual

Há males que vêm por bem

Há bens que vêm por mal

A eternidade tem

Sempre de dar o aval?

O que aflora desta espuma

Dança do tempo e do espaco?

Serei várias ou só uma

Conquistada passo a passo?

Queria ser árvore grande

Fugir da loucura humana

Erguer drupa, baga ou glande

Onde o cheiro a terra emana

Mas se em épocas remotas

Se pagava com a vida

Não tocar as mesmas notas

Que a divindade temida

Também quero ser quem sou

Libertando-me de enleios

Sentir bem o que alcançou

Quem ousou quebrar os freios

Vou para o fundo dos tempos

Onde não há mal nem bem

Semear escolhas e ventos

Junto o teu amor também!

2022-07-20

Aos abismos

 

A verde exuberância

Ditada por fototropismo

Desvanece a importância

Das profundezas de abismo

 

Ao abismo da prisão

Fechada num gabinete

Tomei, eu, a decisão

De escapar como um ginete

 

Ao abismo da razão

Quando nada faz sentido

Eu, pássaro,  por evasão

Vou cantar ao teu ouvido

 

Ao abismo temporal

Onde tudo vem e passa

Semeio, broto, eu rural

Erguendo os ramos em taça

 

(2022-08-25)

Triângulo mágico

 

No mais antigo montado

Que me foi dado conhecer

Todo o tempo, se é contado

Perde-se em cada ser

 

Cada árvore é gigante

Fazendo de nós petizes

Com memória de elefante

Presa a profundas raízes

 

Como árvores tão imensas

Sobraram de tantas guerras?

Entre rochedos e crenças

Protecções de outras Eras?

 

Entrando nessas entranhas

Afastados de ignorâncias

Nascem sensações estranhas

Libertas de medo e ânsias

 

Nasce ânimo ao caminhar

Em rochedo rumo ao cume

Onde nos vamos aninhar

Fenix’s, depois do lume

 

Lesto subiste ao cimo

Como tão bem sabes fazer

Ar de menino que estimo

Sei que o fazes por prazer

 

Entre o Divor e a Valeira

Terra de deuses antigos

Fica, Amor, à minha beira

Longe da guerra e perigos

 

2022-06-01

Tecendo sebes

 

Tecelão tece a teia

Como aranha tecedeira

Tecer a vida é maneira

De a sentir muito cheia

 

Se é tecido faz sentido

Se é sentido é bem tecido

 

2022-03-24

Maria Sarmento



As árvores são a forma aérea do vento.

Somos a árvore, o vento, a folhagem

e o espaço infinito entre eles

A sua luz e a sua sombra

Somos uma estrela arrefecida

em grão de terra escura

Florimos de ser.

 

As folhas escurecem cedo o ar de prata cinza dos céus. Dão ao outono um rio de sombras de asas. Bebem dos dias, em golos suaves, as fontes murmurantes. De nostalgia cantam as doces águas. Escutam o vento as pontes e os arcos de infinitas arcadas. Anunciação da chuva ao rés da face, ao rés da erva rasa. Sustenta o ar um tremor de asas velozes. Passam, de incêndio rosa, as leves nuvens. Tão rara a brisa que visita as sementes! Saudir das vozes que o outono exala. Respiram as barcas a brancura das marés. O orvalho é flor que atravessa o silêncio. Respiração da água.

 

 

 

Eis que nos chega à janela da alma
O aroma azul dos sentidos
O amplo espelho do céu
O perfume da luz.
O mistério da terra revolvida
A semente do que é natural
e justo e certo.
A imensa janela da planície
A mostrar o horizonte inteiro.
A curva da Terra
a abraçar a cintura do dia!

Fátima Remédios

Alcatruz

 

Às vezes pasma-se a gente

Que te olha de soslaio

Em lento passo dolente

Sem lembrar da luz o raio...

 

Não queiras mundo doente

Mas sim o alegre gaio

O caminho é sempre em frente

Não tarda é o mês de Maio!

 

Fértil terreno apurado

Boa chispa que reluz

Expande a fé e o fado

Desperta a força alcatruz.

 

 

1.     Ad Vento I

 

 

Que vento é este que soa?

           Gélidos tons invernais

           O troar agreste ecoa

Em bramidos guturais.

 

Vendavais trazem estrago?

Nesse caminho onde vais

De Bóreas, sente o afago

O sopro dos magistrais.

 

Vendados estão os destinos

A vós, Oh! comuns mortais

Velados por peregrinos

De templos esculturais.

 

Nesse lamento ululante

Que percorre os matagais

Oiço o anseio distante

Dos amores desiguais.

 

 

Inquieto pensar gerando

De estórias, dantes fatais

Secretamente evocando

Contos findos, temporais.

 

 

Ilusão perturbadora

Ao lembrar sentidos ais

Era o tempo da lavoura

Essa história, nunca mais!

 

 

Não sei dizer se era moura  

Ou se erguiam catedrais

Era o tempo da peloura

Mas esse final, jamais!

 

Quem se deu assim inteiro

Qual de nós amou demais?

Ao ceder, o verdadeiro

Ouviu o Filho esses Pais?

 

Ainda que o peito doa

Que não se esqueça do cais

Alma que é grande perdoa

E por sofrer, não temais!

 

Sagradas eram chegadas

Outras núpcias se farão

Essas ninfas tão amadas

Os seus ventos acharão.

 

Basta já do triste fado

E de encantos sem perdão

No presente anunciado

A cada par, seu condão.

 

Que vento este que sopra?

Por desígnio divinal

É sua a obra, se cumpra!

Assim se fez Portugal.

 

 

Natural

(o tema da luminescência das árvores no lusco-fusco foi mencionado durante a manhã, perto da hora do erguer do menir, pela Cassandra. Achei fantástica a sintonia!)

 

O que é a Natureza,

Se tudo pode abarcar?

Com franqueza, lembrareis

A saudade de um lugar?

Reconheceis, em verdade

Que o céu espelha o mar?

 

No lusco-fusco encantado

Na copa daquele arbusto

Há um manto prateado

Feito de sonho, orvalhado

Tocá-lo, será pecado?

Como a curva do teu busto.

 

E a natureza do homem

Um doar com tal mestria

          Que cinzel a apurou?

E a tristeza tamanha

Que, de antiga, não se estranha

Quem será que a pintou?

 

 Haverá no rir fraqueza?

 Ou suma sabedoria?

 No despir, tal sinfonia

 Digno só, de realeza

 Do vinho e do pão na mesa

 E do criado que cria.

           

 E o que há então em mim?

 Pedaço do universo

 Ou este dizer em verso

           Na pedra que atiro ao charco

       Disperso o medo que abarco

 Quero ir até ao fim!

 

Viagem

ou

Eu

 

Vindo do nada, pelo vento gerado

Acorre um pensamento, será meu?

A cada invento novo e inspirado

Por quem foi dado, que o fogo o prometeu?

 

Assim também, além, naquele dia

Brilhante me pareceu e mão à obra

E mal pensava eu que se seguia

Inferno e céu, a voz e dom da cobra.

 

Relatos similares, são sobejos

E tantos desses beijos que existiram,

Outros poetas cantaram, os ensejos

O que, de olhos fechados, assim viram.

 

Tais olhos, sim, fechados, que são frestas

Caminhos de giestas a crescer

Cimeiro, aqui, amanhecer em festa

E o amor primeiro pelo ser.

 

Houve tambores, o som primordial

E dos horrores, que o vento levou

A mão, em tom cadente, magistral

As dores, e os rancores, aparou.

 

Encontrei a vilã, a maltratada,

A fera dos primórdios, exigente

A criatura chã, justificada

Para se ver, de Si, um diferente.

 

E distingui também o riso leve

Estrada breve da suma salvação

E a força motriz, ousada neve

Do mais sacro lugar, libertação.

 

Ali eu fui só uma e tantos mais

Em movimentos mil extasiada

Aqui não há dizer daqueles ais

Fui por demais, inteira e não fui nada.

 

Sentir-me assim sem forças, esvaída

Se agora canto e sei da comunhão

Não há valor maior do que o da vida

Sarou a ferida e vivo em gratidão.

 

Mara Rosa:

Alentejo, o meu (Revisitado)

No Alentejo o tempo é azul,

Azul-ultramarino e tem chagas de morte,

De fugas, fendas e abismos

 

No Alentejo o tempo queima e abre

Acidulento um botão de laranjeira

 

No Alentejo a acidez é apenas o primeiro estágio

da doçura, a laranja da guerra que se desfaz

Suculenta entre os dedos

 

Da guerra do esquecimento, dos barros

planos e áridos e vermelhos

 

Dessa guerra que rega com espera a boca

da saudade onde uma papoila efémera e vulcânica

desabrocha num asfalto derretido pelo sol

 

No Alentejo chacinam-se os pardais

entre oliveiras transgénicas, plastificadas,

e musealizam-se oliveiras centenárias

 

No Alentejo limpa-se o cu com eucaliptais

E (holy gringo!) louva-se o turismo.

 

Ah, que saudades dos campos de girassóis,

onde voávamos e comíamos sementes, e terra.

Críamos então na justiça, e na inocência, do mundo.

 

De ouro é o esquecimento sobre o ultramar que

sangra nos alvos rodapés caiados de Alentejo!

 III Sessão de Poesia nos Bosques

10/12/2022

Cassandra:

Título: Metáfora ao Amor, em lua e mar, eterno

No Alentejo de Vagar

Amo-te! Tu, metáfora do concreto

Como se a amar a lua e o mar

Pudesse ascender ao saber secreto

De não prender marés, nem raios de luar

Mesmo consubstanciada e inundada

Na mesma luz, fluindo,  na mesma água

Onde o infinito conduz tudo ou nada

Esta fusão é minha, e tua, trago-a!

As estrelas a despejarão na rua

Porque o espanto é o lugar de amar

Não é claro, nem verdade nua e crua

O condão vem subtil, sabe nos acalmar

Devolvendo ao luar a luz que é sua

E nós, líquidos somos, de volta ao mar

12/2022

Ser fungo, rede tecida do micélio, da Terra, entre raízes, responsável do retorno, em toda a parte.

Título: Ser  fungo

Busco a libertação

Não ganhar nem derrotar

Viver os dias em gestação

Num ventre a transmutar

Voltar ao solo ao lugar

Onde vim de entre estrelas  

Eu! .como ser a convocar

Eu! que imagino tê-las

Ter todos os seres do mundo

Sem possuir mesmo nenhum

Estar em cima ou bem no fundo

Irmanada  unida, um!

12/2022

Pedra do início

 

Toda a pedra é a imagem

Que o vagar tudo pode

Parece até que não agem

Mas são para a terra o molde

 

Nenhum fim a vai parar

Os extremos dão-lhe morada

Do inferno, magma a jorrar

À fé, montanha sagrada

 

Mesmo que nada a detenha

E se todo o mundo a tem

É na flora, de água prenha

Que tem o seu maior bem

 

Na superfície vibrante

Da pele da terra aflora

De amor, fecundo, amante

Gera seres que adora

 

Do musgo até à sequóia

Entre a pedra vão irromper

Qual um cavalo de Tróia

Nada os poderá deter

 

Não se engane quem pensar

Que resulta sofrimento

Quando se for pulverizar

Vai dar à terra alimento

 

Pois, pedra, venha a mudança !

Roda a Terra e os seus seres

Eu e tu estamos na dança

Deixa fluir, basta SERES!

 

(07/04/2022)

Primatas da humanidade

 

A floresta nos foi legar

Mãos para prender aos ramos

Com o oponível polegar

Damos, amamos, matamos

 

Da floresta veio vontade

De nos dar olhos frontais

A medir profundidade

A admirar ou ser letais

 

A floresta moldou braços

Para ramos entrelaçar

Pudemos unir, criar laços

A ninar, ou a maçar

 

Da floresta e p'ra além dela

Conquistámos toda a Terra!

Longe zela o prédio-cela

Estrangulando como a hera

             Procura-se a quimera!!! Nesta Era

 

2022-10-28

IV Sessão de Poesia nos Bosques

25/3/2023


Maria Sarmento


Dobrado sobre a folha branca, o poeta repousa as mãos e a cabeça
Tacteia a água, busca pérolas, areia e alguma flor de sal.O poeta abisma-se de não haver ali nada de tanto ali poder haver
E ser o que lá não está.
Mergulha mais fundo
O poeta, agora, é um peixe vermelho
uma barbatana de luz veloz
Baixam sobre os seus olhos nuvens e sinais
Constelações perdidas no silêncio das letras
Que se cruzam devagar com o infinito correr dos rios
que a sua mão navega.
Cristais de uma galáxia de pontos de luz
Para coroar um céu de vias-lácteas.
Um caçador vertiginoso cai na fundura de um lago
O poeta sobressalta-se, mergulha mais fundo, ainda
E traz nas mãos de verde água uma fonte para nascer
Uma fonte de onde se veja o mundo
e todas as vidas que lá estão e não estão
Como pontos no espaço
Coordenadas de uma geografia de transparências e de sinais
Clepsidras de vento.
O poeta engole o ar entre as palavras
para poder voar acima delas
Das árvores das palavras.

 

 

*

 

 

Nossa Mãe, que estais na Terra
E que
sorris na pequena flor amarela
no sopro alto da montanha
No verde prado da nossa vida No campo devastado e deserto
No simples gesto de gratidão
Na sombra esguia da árvore grande… Dai-nos a graça de sermos como tu:
Um fundo vale, uma montanha longe
Uma Saudade, uma vontade, um ser
Coroado de Milagre de fazer e de Acontecer.
Amém!

 

Isolina:

Título: UNIVERSIDADE

De cursos e percursos

De abraços e cansaços

De alegrias e razias

De séculos de história

De esquecimentos e memórias

De ruídos e silêncios

De aparências e demências

De passos perdidos

De passos encontrados…

A vida continua…

Dos claustros a grande rua

Que já foi minha e já foi tua

Que continua nua, em cada um que a veste

Cada escolha é uma prece

Um caminho, uma jornada

Em cada terminar uma alvorada

Um fim e um começo

Situada em cada tempo

Para uns de encantamento e sonho

Para outros, tristonho.

Mas para todos…Passa…Passa…

A Universidade fica, ficou, e vai ficando…

 Através dos séculos, longe do olhar de quem a fez nascer.

Presente em cada ser

Dos que estendem a mão, e dos que a dão…

Porque ser professor é uma missão

Transversal ao tempo e à instituição.                               ( Julho de 2018, isolina lages)

Título: Leva-me ao colo Amor… ( 3ª Versão)

 Leva-me ao colo Amor...

Não nos braços que todos abraçam

Mas no olhar cintilante com que me olhas…

 

Senta-me num dos teus ouvidos...

Não nos ouvidos que tudo ouvem

Mas nos ouvidos que escutam o que nem sempre sei dizer…

 

Deixa-me brincar com o marteio , a bigorna e o estribo…

Não para passar o tempo

Mas para te encantar…

 

E de vez em quando fazer música para ti…

Não por saber de música

Mas porque a Natureza me inspira…

 

Depois quando já não ouvires nada porque eu adormeci…

Não de cansaço!

Mas porque o sono permite um sonho mais vasto…

 

Traz-me de novo ao colo...

Para uma nova caminhada

Para me redescobrir noutra alvorada..

 

Para eu sonhar a eternidade…

Para saber quem és e saber de mim

Sem ter princípio, nem ter fim…

                                                      11.06.2018

Cassandra:

Vogar no maior rio

 

A raiz resiste

O vento põe-na à prova

Cria força insiste

 

Ou parte à aventura!

Risca o manto de água nova

Errante lonjura

 

Porventura em trova?

Barlavento, sotavento...

Só vento a renova

 

Sonho-ar e alimento

Água, mastro, cabos, vela,

Tudo move o vento

 

Rio Amazonas, Outubro 2022

 

2022-11-12

Rainha sumaumeira em tempestade de lua cheia

 

Tempestade amazónica

Relâmpagos e trovoada

Com a lua hegemónica

Água jorra abençoada

 

O vento traz sussurrada

Das folhas toda expressão

Lua redonda velada

Noite de revelação

 

Pela floresta, pirilampos

Luzentes, intermitentes

Guiaram-nos rumo aos mantos

Das árvores, reverentes

 

À mafumeira é rainha

Foi na mata adorada

Entre a semente fofinha

E o cheiro a terra molhada

 

A glória das catedrais

E a sua complexidade

Caiem dos seus pedestais

Por estas árvores de idade

 

Catedrais dos seus sentidos

No odor quente a floresta

Urucum, frutos garridos

Cipós, texturas em festa

 

Este verde dominante

Resistente à enxurrada

É a paixão, é amante

Com a lua desnudada

 

2022-12-05

Janela de fada

 

Tudo morre a cada instante

Fénix de cinzas que voa

Centelha purificante

Que à alma toda se doa

 

Eu gosto que assim seja

Evito ser fogo-fátuo

Haja vagar que sobeja

De todo o instante que mato

 

Ajeito com o coração

É o meu fio de prumo

O peso, a recordação

Das experiências que arrumo

 

Venha o vagar ajudar

A minha longa missão

De vencer sem derrotar

Nem pregar qualquer lição

 

2022-12-15

 A vida é incerta e curta

Mas nós podemos honrá-la

Busca aromas! Flor da murta!

Do instante é que se fala!

3/2023

V Sessão de Poesia nos Bosques

2/7/2023

Cassandra:

Pó de argila minha

 

Se busco no fundo deste mistério

Em mim continuamente a roer

Desfeita sou, matéria, pronta a moer

Espraiada na pedra em piso térreo

 

Se fujo à dureza do gume férreo

Embora saiba que é para doer

Mesmo esgrimindo o céu para o colher

É puro que se resgata ao império!

 

É porque o meu fim é gostar de viver

É porque da revolta ergo Paz

A terra que me sabe antever

Pede-me: mostra-me do que és capaz!

Irei sempre tentar me reaver

Da força das ondas que este mar traz

 

Este moer de grão até ser pó

Não serve a fazer comigo farinha

Mas solo de uma argila minha

Não vem daí tormenta de ter dó

 

Por isso me entrego a essa mó

Perseguindo vida, oculta, linha

Devoro-a, como "A raposa e a vinha"

E faminta, olhando o górdio nó

 

Não é a terra fértil, leve e boa

A sinfonia de toda a floresta?

Dá chão, dá verbo, dá vida que soa!

A substância que quero ser é esta!

Onde a água pura se filtra e coa

Sangue que a fluir se manifesta

 

Se cavo fundo à procura de Ser

É para te encontrar, a ti, Amor

A águia que voa colora a dor

E segue pó de estrelas, por merecer

 

Se todo o instante que vai perecer

Vem atrás de outro no seu novo alvor

Ergue castelos de um rubro fulgor

Irá, no remanso, outro ser nascer

 

É de pó de argila que se constrói

Casa moldada em abraço  tão rica!

Que renasça, aqui, quando se destrói!

Que o pó embarcado, alma se fica

De água esmeralda de azenha que mói

Seja o Amor de que não se abdica!

 

2023-04-22

Título: Ataegina renascida

O dia acordou florido

Ameixeira, amendoeira

Flores e abelhas, zumbido

Néctar do polén, poeira

Promessa de estar contigo

Cálice de mel, Graal da flor

De amado ou de amigo

A essência de todo o amor

Ninguém fica indiferente

Voa alto o pensamento

Borboleta feita gente

Vem, mágica, ao chamamento

Tão leve e tão contente

Por estar tudo a despertar

Tu fluis nesta corrente

No abraço que te apertar

3/2023

Título: Verbo, Canto primeiro

Hoje queria gritar aos quatro ventos

Em olhar presente, em olhar futuro

Que consigo achar todos os alentos!

Saboreando o momento, fruto maduro

Palmilhando o sentir por caminhos lentos

Pois pulei para trás do velho muro

Onde alimentos se oferecem aos atentos

Que espreitam o mundo, velado obscuro

Revelam, incerta a quase certeza

De que nós vivemos bem com tão pouco

Todos juntos em redor da mesma mesa

Vem canto tão cristalino quanto rouco!

Esta chama foi por todos nós acesa!

Num sonho ancestral cruzado e louco…

3/2023

A insustentável beleza do Ser

Nesta abertura a mim

Onde tu cabes tão bem

Domestiquei-me por fim

Sou mais selvagem também

Cada canto do teu corpo

Canta cá, na minha alma

Sabendo que a cada sopro

Do frenesim nasce a calma

Cativaste como ninguém

Um ser vítreo feito a fogo

Cativa, mas não refém

Do universo onde vogo

Prendeste sem me prender

Porque ambos bem sabemos

À liberdade render

O espaço onde cabemos

17-05-2023

Maria Sarmento

(Texto lido por Manuel Calado)

Aos AMIGOS


(À memória de Luís Carmelo e na “passagem” de Margarida Morgado)

Os candeeiros tinham janelas quando o céu se abria em arcos de muitas cores a girar em múltiplos sentidos.

Era decerto Verão. Os olhos dos gatos lambiam o coração da noite. E os corpos eram cortinas que oscilavam ao vento dos ramos altos e dos poemas.

As paisagens atravessavam os olhos de todos os dias, de todas as noites, de todos os impossíveis. Dançávamos e riamos muito alto contra os muros. Éramos jovens atados uns aos outros à cintura dos dias e das noites que se abriam em astros e giravam no tapete que não havia na sala. Éramos invencíveis e não tínhamos medo. Todas as gerações dos ousados, dos poetas e dos profetas dormiam connosco na cama larga da imaginação.

A revolução era nossa filha e bebia-se em chás e álcool pela noite dentro. A noite ficava a olhar-nos de olhos muito abertos.

Acreditávamos que a cidade tinha labirintos subterrâneos que iam dar ao centro de todas as praças em labaredas.

E ninguém morria. Nunca morríamos no caminho. A estrada do poema nunca terminava num ponto exacto. Não havia ponto exacto nas praças de todas as metrópoles que percorríamos.

O uivo de Ginsberg era a nossa fala comum. “Eu vi as melhores mentes da minha geração…” E Sartre nunca parava de morrer.

Germinávamos flores e corpos e músculos muito antes das cidades se afundarem e dos rios secarem nos leitos de plásticos e imundície.  Abraçávamos todas as árvores dos jardins de Lisboa, de Paris e do mundo. Lembras-te? … A natureza ainda não definhava nas aguarelas do Quartier Latin, do ‘Dam e do Café Portugal.

Os pés percorriam caminhos surreais dentro das solas e dos cafés. Maria Lisboa continuava a desfiar o seu/nosso Erro Próprio, o seu “Rêve Oublié” “Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas/neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim/nesta minha mania de te dar o que tu gostas/e depois de/e esquecer-me irremediavelmente de ti”.

Éramos dos canteiros das palavras, e do Jazz da loucura, e dos ritmos velozes, antes das guerras serem do nosso tempo. Lembras-te?...  Éramos imortais e amorais nos relógios suspensos e morávamos nos olhos abertos das mulheres seminuas e geladas dos caminhos-de-ferro de Delvaux.

Éramos de Guernica para nunca mais. E dançávamos nus nas carpetes vermelhas das salas de espelhos. Nascíamos continuamente na nossa geração. Éramos poderosamente fiéis às coisas que nasciam sem cessar na nossa imaginação.

Nesse tempo, ninguém morria. Era impossível interromper o fluxo de um carrossel a transbordar de vida. Vivíamos os bosques no centro das cidades. Éramos vertiginosos e loucos com muitas almas dentro de uma alma grande, de um sonho grande, de uma vida grande. Acontecíamos como a luz e não havia anoitecer mais claro do que o brilho dos cabelos deitados e adormecidos. E não havia memória nem história.

Éramos só nós.

                                                                                                                                           Maria Sarmento

(Escrito em 15-05-2023. Rectificado e acrescentado em 28-05 do mesmo ano e mês.)

Cláudia Martins

Sentidos

Schiu… sente o Sussurro suave da Brisa

Escuta… embala em ti a melodia da Vida

Beija… bebe o néctar do Sol, saboreia

Olha, Observa a Obra Divina que te rodeia

Toca, tacteia o tronco rugoso das árvores

E de tudo o que é a Vida, enche-te das suas cores!

 

Cláudia Martins, Freixo do Meio – 2023.03.25 (para ser escutado de olhos fechados :))

VI Sessão de Poesia nos Bosques, 8/10/2023

Tema: Abundância

Cassandra:

A abundância é felina

Caça as estrelas no céu

Vê muito p'ra além do véu

Avança feita menina

A abundância é menina

Brinca na espuma das ondas

Ondulantes anacondas

É toda a mãe a nina

A abundância é mãe que nina

Nos seus braços cabe o mar

Nú manto a confiar

Onde baila a ondina

Abundância é ondina

Ser quimérico irreal

Musa oculta do ideal

Guardiã da pedra fina

Abundância é pedra fina

Do solo que dá o fruto

É tudo por o que luto

Vale mais que ouro de mina

Pedra fina da ondina

  Safra de um chão astuto

    Mãe que nina a menina

      Cuidando do seu reduto

    É a sina da felina!  

  A abundância é seu fruto

Se começa, se termina...

     

          Germina!!!

A abundância já a tenho

É tudo no meu entorno!

Colorido é o desenho

Quente o pote no forno

A abundância é uma arte

A lidar com desperdício

Tanto chega como parte

Pode voltar ao início

    Sem um coração propício...

A abundância é um sentir

É no repartir que vence

Dando riqueza ao devir

Tempo que a ninguém pertence

    Palavra que é, sem mentir...

Simples, é boa abundância!

Mesmo com pouco engenho

Se é sentida dance-a!

A abundância já a tenho…

5/10/2023

A abundância existe

Sem plenitude?

Resfolham, ondulantes, árvores

Hierofantes da eternidade

  Oiço!

Alegre e triste

Que atitude?

Lonjura e altitude

Que direcção terá um fim

Partindo do centro, de mim?

  Sou esboço...

    E esforço

Num vai e vem sem idade

Em eterna saudade

Cosmos por dispersar

  Onde a semente medra

     Junto da pedra

        Vou te amar

            Se confiar...

Procuro estrelas para conversar

  De mim...

     De todos

Poder olhá-las uma a uma

Que são, do infinito, a espuma

Tantas que não consigo contar

Mas devia lhes contar, segredos

  Degredos

     Engodos

        Lodos

Levem-me inteira!

Para me ninar ao deitar

Eu gigante à minha maneira

Tenho tudo à minha beira!

   E medos...

      A rodos...

Mas vou olhar!

   Antes de me entregar

      Entrando no mar...

          De frente...

              Ninguém mente!

Abundância de céu e terra

Cabe lá a guerra?

Se o mundo é finito...

O vento que ressoa nas folhas tem dito:

  Cresçamos!

Sim! Cresçam folhas, cresça ar

Cresçamos bem dentro!

Onde nos possamos encontrar

Sem ver noutro o inimigo!

Tirando o Homem do centro

Podes contar comigo!

  Sem amos

     Vamos!

Na suavidade do gamo

  Vencida pelo lobo

     Nenhum caiu no lodo...!

Amor, como amo

  As duas partes do todo!

10/2023

Cláudia Martins

Gratidão

 Pedra Erguida para o Céu,

Vontade do Homem feito Deus

Pedra pródiga de regresso a Casa

No auspício momento, em que o Sol a Lua abraça

 

Regressa o saber dos Antigos,

Dão as mãos os Amigos

E no nosso Eu mais profundo

Renova-se a esperança no Mundo

 

Celebra-se a Vida, nutrindo o solo com lágrimas de Alegria

E a sábia Azinheira, de braços abertos ternamente sorria

E o Futuro aguarda-nos, com novos Caminhos

Obrigada ao Céu, à Terra, obrigada meus Amigos

 

Cláudia Martins - 08.10.2023 – Montado do Freixo do Meio

Fátima:

Para a minha família e amigos,

Um dia muito feliz!

Obrigada a todos!

Quero dar-te, quero dar-te um terno abraço

O mais terno, o mais terno que eu puder

E manter-te, e manter-te no regaço

Como flor que por ti eu vi nascer.

Quero dar-te, e buscar-te no meu braço

E brindar-te este versejar de espuma

E dizer, e dizer sem embaraço

Do orvalho, da beleza, pela bruma.

Quero dar-te, quero dar-te esta frescura

De colher da alvorada o malmequer

E dizer-te, e dizer-te com voz pura

Quero amar-te, quero amar-te com ternura

Como o faz qualquer peito de mulher.

Nos pedacinhos da Deusa

Nobre Natureza espanta

Há retalhos de beleza

E destreza, tanta, tanta.

Pelos caminhos da Deusa

A fraqueza se quebranta

No rosto o rio, fortaleza

Que a si mesmo se suplanta.

Nesses caminhos da Deusa

Em que a alma se agiganta

O pão de novo na mesa

E o povo que se levanta.

Nos pergaminhos da Deusa

Onde a história se escreve

Nada lhe deve a franqueza

Feitos só de pura neve.

E toda a luz que é secreta

Indiscreta não destoa

E toda a obra é completa

E toda a hora é tão boa.

A bolota traiçoeira

Roda e no chão se rebola

Quer ela ser a primeira

A chegar de novo à escola?

A bolota mensageira

E no coração já rola

Com um tom de brincadeira

Já te ponho na sacola

A promessa verdadeira

Não destoa nem amola

A bolota é pioneira

Oh luz boa

Abunda a …

Isolina:

Título: ABUNDÂNCIA

Abundância é um tema

Para escrever, um desafio

Neste tempo encontra chama

Rima com fio a pavio

Abundância todos queremos

Na nossa vida encontrar

Venha do sol ou da chuva

Venha no vento ou luar

Abundância no amor

Quem a não quer encontrar

Ela aí tudo transforma

Ilumina o nosso olhar

A abundância é sagrada

Na sua manifestação

Tudo dá e tudo tira

Para tudo há uma razão.

A abundância deste espaço

Do seu mentor inspirada

Tudo o que aqui acontece

Seja vida abençoada.        

8.10.2023, isolina lages

 Título : Freixo do Meio

O freixo do meio é monte

Monte no meio do montado

Um lugar encantador

Pelo seu Senhor amado

Azinheiras e sobreiros

São uma perfeita união

Guardam vidas distantes

Só eles sabem quais são

A Natureza divina

Está presente em cada olhar

Mas neste lugar sagrado

Ouvem-se espíritos cantar

O montado é um mistério

À vista de toda a gente

Para o poder descobrir

É preciso ser um crente

Demos graças ao momento

Hoje e sempre com razão

Saudações aos presentes

Grata ao seu anfitrião.

 8.010.2023, isolina lages

VII Sessão de Poesia nos Bosques

7/1/2024

Cassandra:

Título: Décimas à lua cheia aureolada da noite.

Somos todos tão, tão, frágeis!

De vidro, de tela fina

Sem saber a nossa sina

Pesados, caindo ágeis

De asas inexoráveis

No cimo de uma quimera

Voando do céu p'ra Terra

Quando o castigo apraz

Quantas vezes satisfaz

Amar a paz e a guerra

Onde está a tua magia?

Lua que terás os mares

Das marés que navegares

Cheia, redonda, macia

Tão forte se evidencia

Essa corrente que dás

Rega, da água que traz...

Mas o coração só treme

Nem sempre segura o leme

Pulsando em guerra e paz

Verdes ficam estes campos

Regados do teu olhar

Um mundo a abrolhar

Doces vão os figos lampos

Luzentes os pirilampos

Na planície ou na serra

É a vida que próspera

Dizendo a toda a gente:

De cuidar bem da semente

Vive o homem nesta terra!

Somos todos tão, tão, fortes!

Aguentando o que é vil

De homens de triste perfil

No meio de tantos desnortes

Entre vidas, entre mortes

O que nos tornou assim?

A eles, como a mim?

A competição sem tréguas?

Procurar nas sete Léguas?

Com o mal e o bem que faz...

Amar a paz e a guerra

Pulsando em guerra e paz

Vive o homem nesta terra

Com o mal e o bem que faz…

28-10-2023

As palavras uma a uma

Poderiam me exprimir

Saco-as por entre a bruma

Mas não querem emergir

Tirá-las do esconderijo

É trazer-me sentimento

Nada mais de mim exijo

Que abrir o peito ao vento

Tenho vida tenho morte

Tenho um circo de guerra

Ando no fio da sorte

Ou na lâmina da fera

Somos todos encobertos

Senda de Sebastião

A caminho de desertos

Ou de  qualquer rendição

Entre brumas, vento e terra

A pedra fica coesa

Âmago de átomo à espera

Da eterna chama acesa

O escultor tem a paixão

Torna tudo diferente

Importa o coração

Aprender a fazer frente

Palavras a burilar

A escultura que sou eu

Entre o sol a raiar

E a escuridão de breu

   Nova árvore já nasceu...

2023/12

Título: Décimas ao Manuel Calado

Cruzei-me, foi o destino

Com o teu ser singular

Faz pensar este caminho

Luz na terra, água e ar

Poderia não ter sido

O meu ser a arriscar

Neste mundo a brincar

Com um tão sério sentido

Neste sentir ter cedido

Cada um ao seu cantinho

Não querer outro destino

Na sua paz de menino

Com tanto para aprender

Desde o nascer ao morrer

Cruzei-me, foi o destino

O que me diz cada passo

Caminhando sem cessar?

Interessa é parar

Na doçura de um regaço

Alma com que me enlaço

A crescer e partilhar

No meu coração morar

Com luz que me ilumina

Fui me encontrar, eu, menina

Com o teu ser singular

Gostamos de liberdade

De viver a aprender

Uma calma de viver

Talvez ganha com a idade

Espírito que se evade

Sublimado num cadinho

Tem desejo, tem carinho

Desalinho e empatia

Distância, telepatia

Faz pensar este caminho

Sem perder e sem ganhar

A paisagem é sorvida

Enebriante bebida

Onde vamos mergulhar

Tem espinhos para arranhar

Estrelinha a nos guiar

Sem fiar nem enlear

Perto, sem te prender

Pois eu quero conhecer

Luz na terra, água e ar

2023-12-27

Título: Tempo Ser

Cada ano passa em mim

Como se ontem começasse

Estou no início ou no fim?

Uno as pontas num enlace...

De mala sempre aviada

Como todo o saltimbanco

Não conheço a jornada

Pinto uma página em branco

Peço só um pouco mais

De tempo para viver

Sob o céu dos animais

Ser é o único dever!

Ser-se toda, plenitude!

Igual entre outros seres

Ser árvore na atitude

Dá chão ao mundo que leres

   Voando sem te perderes

           Veres...

2024-01-0


Maria Sarmento

1.
Renascer!
Da sombra sair
a luz una
que há-de cumprir
o círculo perfeito.

Da esfera do império
matéria mais subtil.

2.
Brindemos ao Sol
antes que a lua espalhe
a prata dos seus verso
no espelho da noite.

A clara sílaba do vento
no teu ventre,
Terra
o sopro de um Deus que se reparte.

 

3.
De palavras, sim!
Que o vento espalhe
O que a alma reuniu.

Pegadas na neve
Estrume de silêncio.

Renascer nos bosques


(Em dedicatória a Manuel Calado e Cassandra Querido)

Se renascer e morrer
São coisas do mesmo dar
Qual a razão de viver
Sem bosques para semear?

Semear e não colher
Não me parece acertado
É o mesmo que morder
O ar sem ser “cultivado”.

Semeias bosques de flores
De malmequeres e jasmim
Lembras bem os teus amores
Só não te lembras de mim.

O bosque dá o que tem
À mão que o faz brotar
Tu tens no sonho o teu bem
Que mais podes desejar?

 

Se vires a árvore com sede
Dá-lhe água da tua fonte
Dá-te a sombra, olhai e vede
A fonte brota de onde?

Da raiz do teu cantar
Fiz um bosque de romãs
Amor que sabes brindar
Não brindes a coisas vãs.

Vede bem o que eu vos digo
Da cidade brota o medo
É na paz do bosque antigo
Que tu dormes em sossego.

António Saias:

GOSTO  DAS  PALAVRAS

gosto das palavras vivas

observá-las nas suas corridinhas

libertá-las

dos carris em que eram obrigadas a correr

em papel de uma

ou mesmo duas linhas

brincar com elas

pegá-las pelas costas

na cabeça

junto das antenas

como se fossem lavagantes

ou lagostas

ou formas outras de vida

mais pequenas

gosto das palavras vivas

sem conotações semânticas

sejam elas gigantes elefantes

ou minúsculas formigas

todas as palavras para mim são

vivas

e românticas

….

Quadras que integraram os cantos das Janeiras:

FREIXO do MEIO teve gente

há bem mais de 6 mil anos

inda hoje é frequente

ver seus vestígios arcanos

fulanas teve e fulanos

e bébés naturalmente

há  bem mais de 6 mil anos

Freixo-do Meio teve gente

antas - dolmenes presentes

como antigas sepulturas

são provas que teve gente

Freixo do Meio assegura

Isolina Lages:

Neste dia de poesia,

Em que o fogo

É chama ardente

Neste local preparado

É bom estar, por entre a gente.

O fogo que nos reune

É em si um chamamento

Podemos chamar sagrado

Elevação do momento

Seja o fogo, fogo posto

Quem no sono quer sonhar

Seja luz em cada rosto

Cada alma iluminar

..............................................

A poesia nos bosques

Faz acender a fogueira

Em cada um que a partilha

Lembrará a vida inteira.

Título: Azinheira /Degebe

Minha Querida Árvore

Como estás serena e calma!

 

Assim estivesse a minha alma

E tu e eu seríamos só uma…

 

Um dia dir-me-ás porque aqui estás…

E eu saberei sem qualquer crença

Que entre nós não há  diferença.

 

Junto ao rio

Esteja ele cheio ou vazio,

Apenas a minha forma deambula…

 

A tua, firme e bem segura

o vento oscila os ramos quando passa…

 

E tu, com toda a tua graça

Permaneces como quem está a meditar

Enquanto se funde, no teu o meu olhar…

                                                     10.08.2017, isolina lages

 

P.S. –Publicado na ASSPE (Associação de Professores)

Título: Sem abrigo

Encontrei um sem abrigo

Estava dormindo ao relento

Representava Jesus

Deitado naquele assento

Sem abrigo é qualquer um

Quando perde o seu caminho

Quando deixa de ter luz

Fica perdido e sozinho…

                      5.01.2024, isolina lages, in Facebook

Fátima:

Poemas VII Sessão

1.

Um dia sim voltarei

Na orla quente do mar

A crosta ardente sarei

A costa e gente serei

Sentada à mesa do rei

Onde é o meu lugar

Contarei tudo o que sei

Um dia eu vou voltar.

6-01-2023

2.

Nessa ravina escarpada

Nesse caminho comprido

E se aquilo por que gemes

E se aquilo que mais temes

For o lugar prometido?

Nessa esquina encantada

Nesse universo perdido

Se aquilo que perdeste

Se aquilo esqueceste

Fosse a hora anunciada

Fosse o tempo prometido?

Haja o rio por onde remes

Haja o gentio no olvido

Haja Hermes haja fado

O profano e o sagrado

Pelo poder investido

Nessa rota alumiada

Nesse carrocel cumprido

E se o grão que então colheste

E se o pão que ofereceste

For esse pão compartido?

Ama, ama, por quem ames

Na chama o chão aquecido

E se o amor que acolheres

E se a onda que chamares

For o tempo do mar ido?

Amada, só aprendeste

Hoje o fruto está maduro

Olhai bem quanto cresceste

E recebeste e me deste

Aurora fresca, chão puro.

Agora e sempre o futuro.

6-01-2023

3.

Morremos quando nascemos

Diletos filhos do ar

Nascemos quando morremos

Vivemos porque sabemos

Eterna a onda do mar.

Nada mais acrescentar.

6-01-2023

4.

Parte I

O navio que no rio navegava

Luzidio o lençol a correr

Era o globo que lento acordava

No macio rodopio começava

No macio luzidio ele dava

Era a forma do mundo a nascer.

Já no rio o navio deslizava

E dançava o corpo de mulher

Com a força que o vento lhe dava

Com a forma o tempo criava

E o bastão era a forma de ser.

Era a voz do profundo a vencer.

O navio que no rio já navega

Numa entrega já deixa saber

E ao fundo o horizonte não nega

Já não cega quem quer conhecer

É a força do mundo a crescer.

O navio que no rio já navega

Já navega e desdenha da bruma

Doce fio ondulante de entrega

Quase nada se vê mas navega

Quase nada precisa de ser.

Parte II

Vai pelo rio o navio que navega

Vai já sem medo lembrando outro mar

E vendo ao longe o esguio arvoredo

Vai e suplanta o temível rochedo

Que se agiganta na orla do olhar.

Vai já no rio o navio que te espera

Passando agora vingou noutro mar

Oh rosa branca jardim de quimera

Oh brisa franca da luz prima e vera

Outro viera e quisera passar.

Vai pelo rio o navio em segredo

E já sem medo na orla do olhar

Diz do segredo, da estrela e da vela

Diz inocente que o presente é dela

Diz de quem sente diferente e do lar.

Ora quem dera o tempo de amar.

Parte III

Gémeas colunas colinas de bruma

Duas nenhumas no porto vazio

Quais braços lentos em um quase abraço

Qual nulo tempo perdido no traço

Vai navegando tão forte no rio

Abraço terno, limiar do espaço.

6-01-2023

VIII Sessão de Poesia nos Bosques 

(24 Março 2024)

António Saias 

neste DIA  MUNDIAL  da POESIA em 2017

poesia é não ter pernas

e correr

ter vontade de vencer

como PISTORIUS

e acreditar

no poder das próteses

ser pesado

trôpego

e sentir-se leve

como Rodolfo

NUREYEV

POESIA é cada um

saber-se

pé de chumbo

ser minorcas

e sentir-se GRANDE

como se fosse

JUMBO

mais forte

que ARQUIMEDES

:

mesmo sem alavanca

sentir-se capaz

de endireitar

o pesado oblíquo

eixo do MUNDO

Cassandra:

Titulo: Um quase haiku para o Oriente

O Oriente, enfim!!!

Onde todo o céu nasce

E a lua dá-se...

Orientei-me lá

Onde há um horizonte

Fui direita à fonte

Sou fundo de mim

Sou vida onde há morte

Vou atrás da sorte!

Ergui-me ou caí?

Na verdade não se sabe

No todo se cabe...

2024-03-19

Título: Oriente

Todo o Oriente que li

Místico e delicado

É outra parte de ti...

Tu, ser sempre inacabado

Há música para sentir

Da cítara ao alaúde

Deixa o corpo fluir

E dar à alma saúde

Todas as cores garridas

Dão-te vida e tempero

Mil sensações envolvidas

Onde morre o desespero

Bem perto de Zarastustra

Mas com maior abrangência

Toda a luz que em ti lustra

É mais que inteligência

Todos os credos narrados

Orientados a nascente

Têm uns locais sagrados

Onde corre rios de gente

Esoterismo vivido

Na repetição de um mantra

Corpo e mente envolvidos

Na ascensão em Tantra

Todo o Oriente que li

Tem várias realidades

Zen, Nirvana ou Hilali

Sofrimentos e vaidades

        E quantas são as verdades?

2024-03-21

Título: Trovoada

Reconheço este som

Que assombra a minha alma

Vou buscar aos céus o dom

De tornar tumulto em calma

Do raio de luz que o precede

Tive a clarividência

Há um medo que não cede

Raiz da sobrevivência

Altura de recolher

Dizes para ti baixinho

Muita água vai correr

Pelas pás deste moinho

Águas mil e desejadas

Desçam velozes do céu !

De árvores são convocadas

Nuvens espessem mais o véu!

Tintila por todo o lado

Enche-se de som o mundo

Silêncio tão perturbado...

Rio onde eu me inundo

Rompe fundo pelo solo

Âmago a nutrir a Terra

Com os seus seres ao colo

Gira toda a biosfera

Da tempestade à bonança

Toda a água já desceu

No céu o azul avança

E a esperança renasceu

2024-03-11

Maria Cravo:

Título: Equinócio

 

O sol cumpriu o ritual

E Equinócio é noite igual.

A vida encheu-se de pujança

E há serenidade em mim

Vigor e solene mudança.

Olho a primeira estação

Com os olhos de criança.

Os campos respiram as cores,

E ouço cânticos tagarelas.

Pinto árvores, desenho amores,

Rejubilo em campos de flores.

Na glória da alegria natural,

Tudo me lembra uma aguarela,

Um milagre de divino pintor,

Que em felicidade celebrou

E pintou o dia igual à noite

E feliz, assim se libertou.

Fátima Remédios 

Poemas da sessão

1

Cavalo branco à solta peregrino

Seguindo o seu destino rumo ao sol

E este vento forte ecoa o sino

E a luz gira incessante no farol.

Amá-lo sempre e em dia menino

Cavalo negro atroa em esplendor

E este tempo agreste entoa o hino

E a cruz mostra inclemente o tom do amor.

Buscá-lo no furor em temperança

Assim faz quem avança, sente a hora

No puro olhar como o de criança.

Se o céu diz em segredo e assim cora

O solo sente o passo e a esperança

Na marca indelével de um agora.

2

Before the fall

The wall was dark

And that was all

And then the ball

And then the spark.

3.

Não gosto das navalhas afiadas

Mas gosto das ruelas sempre em flor

E das frutas maduras orvalhadas

Mas gosto de beijar o meu amor.

Eu gosto das roseiras tão garbosas

Mimosas num secreto amanhecer

Eu gosto das estrelas gloriosas

Que sabem do poder de se esconder

As glórias de vindouras manjedouras

O voo quente e discreto da ousadia

O bailado dolente dessas mouras

Que velam o olhar até ser dia.

Eu gosto das entregas encarnadas

Da espada a reluzir, justo fulgor

De colinas de tempo enamoradas

Só de tempo encimadas, meu amor.

Eu quero as madrugadas milagrosas

Eu quero o pé de chumbo se convém

Eu quero esse silêncio das formosas

Vitórias vigilantes do além.

E nas tardes repletas de talentos

Em gestos ensaiados pela mão

Nascem recados, fados e momentos

Num manto de carmim exaltação.

Num doce embalo à terra, faz tão bem

Ouvir o arvoredo ledo e forte

Regidos pelo céu que nos sustém

No dia em que a vida entrega a morte.

Fátima, 24.03.24

VIII Encontro da Poesia dos Bosques

Inspirado na frase “ O Oriente tem para dar ao ocidente, mais do que o Ocidente pensa”

I

Quem assim ousou pensar,teria alguma certeza

Que no Oriente havia, espírito de muita Grandeza

Seus pensadores ancestrais, deram grandes leis ao mundo

Mostraram que os nossos ais, habitam no eu profundo

2

Quem em si se aprofundar, em cada dia que tem

Descobrirá que afinal, faz parte dum maior bem

E se ao Oriente for, aprender a meditar

Trará para o ocidente, boa forma de estar

3

A Natureza a seu modo, é igual em todo o lado

Tudo o que na terra gira, tem o destino traçado

Oriente e ocidente, faces da mesma moeda, yin, yung unidade

Em si formam a verdade, a mentira é quem a nega

4

Aprender é sempre o lema que traz para o viver Beleza

No oriente ou ocidente, só há a mãe Natureza

É essa que nos embala, nos revela e faz nascer

Mas também é quem nos cala, no momento de morrer.

                                                          21.03.2024, isolina lages

 VIII Encontro da poesia dos Bosques

I

Eu sou da Primavera a força da razão

Que não sabe do que fala, nem o que é…

Eu sou as flores que brotam pelo chão, são o que são

São do que estão ao pé!

2

Eu sou o que não sou, quando estou sendo

Pensando ser só pensamento

Isso que passa pela minha mente,

Depressa se desfez…levou o vento.

3

Eu sou a Primavera que volta no seu tempo

Imperiosa força da manifestação

Que durante o Inverno adormece na espera

De ver chegado o seu momento de eleição

4

Do que estava adormecido tudo acorda

Se tudo o que a envolve está a seu favor

Na explosão de cada forma

Está presente a força do Amor

5

Eu sou a Primavera, mas se o não for

Porque o que me rodeia é adverso

Ficarei na espera do alvor

Que me fará nascer em cada verso.

                         Dia mundial da mulher, 8.03.2024, isolina lages

IX SESSÃO DE POESIA NOS BOSQUES 

Cassandra:

Canto:

Canto a vida e resisto

Porque viver me alegra

Canto a morte e insisto:

Cada extremo se integra

Canto a luz que há de vir

Iluminar os meus passos

Canto à sombra que a seguir

Lhe mostrará lados baços

Canto a tudo e canto nada

Haja música no espaço

No leve ar caia a espada

Voltemos para o regaço!

2024-06-14

À árvore:

Em cada árvore gigante

Nasce um tecto do mundo

Celeste, aconchegante

Verde, onde me inundo

Delicado, rendilhado

Cores de folhas e ramos

O céu não fica selado

Abre-se em outros planos

É aqui que me reúno

Comigo e com outros seres

Verdade de que me muno

Lá nos confins dos saberes

Onde a vida fez-se enorme

Aos seus ramos nos acolhe

Um tronco que nunca dorme

Só faz sonhar quem o olhe…

     E à sombra se recolhe

2024-06-27

Do ponto para o infinito:

Este muro levou cal

É branco imaculado

O meu caminho, banal

É por ele limitado

Salto o muro, corro o espaço

Mesmo a medo, em desafio

O campo onde me enlaço

É o mundo em que confio

Avanço por entre flores

Entre gamos e escorpiões

Sei que há lá todas as cores

Dores e ressurreições

Lanço-me ou vou andando

Pé ante pé em surpresa

Num mundo onde não mando

Posso colher ou ser presa...

Espero sempre, cada dia

Com sol a nascer de novo

Aprender como irradia

Ou fugir dentro do ovo

            Onde me movo?

            No ponto ou no infinito?

            Sou povo, absorvo...

            Se honrar o legado...

            O caminho é canto ou grito?

            Cala, ser amado?

Este muro é caiado

Poderia não o ser

Bastava ter-se manchado

Nas cores do alvorecer

2024-06-05

Fátima Remédios

Poemas - lX Sessão de Poesia nos Bosques

1.

I

Sou deste mundo e não sou

Sou desta terra primeva

Sou o que fui e ficou

Sou do que veio e voltou

Sou de quem ve(m) e me escreva.

Sou quem no mundo restou

Do sol fecundo e que(m) deva

Ver no olhar do avô

O roçagar, fosse voo

Antes de Adão veio Eva.

E haja alguém que se atreva!

Sou do futuro o amado

Sou o cruzado maduro

Sou o filho malogrado

Eu vim tirar o pecado

Vejo por cima do muro.

Sou alto olhar do condor

No alto mar consagrado

Sou do cajado o pastor

Sou do amado o amor

O destino a mão o fado.

II

Sou o vestido lavado

Sou cornucópia perfeita

O traidor atraiçoado

Fruto sem eira nem lado

Vela anelante desfeita.

Cume que o vento apagou

Caracol que a luz espreita

Manto que a meda amagou

A noite que amor deitou

Estrada torta direita.

Sou tule jarro abaulado

De lilás fresco imbuído

Sou pergaminho sagrado

O linho leve lacrado

O barro lento cozido.

Sou do que sou investido

Mesmo à beira do passado

O outro lado parido

As covas do prometido

Eu sou o que sou cantado.

III

Sou do amor o amado

Do ninho nesto razou

Sou aqui o outro lado

Trinado teu e sagrado

Eu sou aquele que sou.

2.

O sol quando nasce é para todos

O sol quando brilha tem mestria

Quando irradia o sol recresce a rodos

E sem saber a quem só alumia.

Desavisado olhar,  secretos modos

Os tectos consagrados inebria

O Sol ao despertar deleita todos

No mar está a sonhar a ousadia.

Ao velho, ao novo, ao puro e inocente

O som do seu vibrar traz alegria

À ave, à flor, ao louco e ao doente.

É inocente a cor sua magia

E dos diletos raios imanente

O sol os verdes gaios inicia.

3

O nove traz o fim e recomeço

No nove é que Ela se compraz

No nove deixo a curva ser esqueço

O rosto inesquecível,  Tua Paz.

Fátima,  29.06.24

IX Encontro da Poesia dos Bosques

Isolina Lages

Título: BENDITO

Bendito seja o ar que me enche os pulmões

Que me permite respirar, viver

e fazer bater todos os corações.

Bendito seja este caminho

Que me permite ir caminhando

Benditas as pernas com que vou andando.

Benditos os olhos que por mim vão olhando

Bendito o rio que está à minha espera

Sem por mim estar a esperar…

Bendito seja este lugar

Que tem árvores e pássaros a cantar…

Bendito seja este encontro de poesia

Benditos o Manuel, a Cassandra, a Fátima, a Maria…

Benditos todos os que aqui estão

Benditos todos os que cada um tem no coração

Bendita seja a Alegria

De estarmos celebrando este dia

Bendita seja a GRATIDÃO

27.05.2024 I.L.

Titulo : POESIA

Quando a poesia vem ao meu encontro

Essa deus amada que em meu peito mora

Caminha comigo no silêncio

Só me toca quando chega a hora

Sem ela sou igual a toda a gente

Que canta e ri, que sofre e chora

Com ela atinjo um estado que não mente

Num patamar que é sempre agora.

E nesse instante que não passa

Porque é o que é sem eu saber

Não há palavras para o definir

Não há como dizer…

9.06.2024 I.L.

Maria Sarmento

Nove velas de moinho,

nove cofres de silêncio

Nove dos lenços de linho

E no momento propício

Nove flores do verde pinho

Sete mós e sete luas

Sete frascos de licor

Sete cordões, sete rios

em que flutuas

Sete correntes de dor

Nove velas a primor

atadas com nós de amar

Nove centelhas de amor

Num céu de cor do pomar.

Sete Luas, sete luas

Sete contas do colar...

Maria Cravo

À noite

À noite, quando adormeço

faltam-me estrelas nos sonhos,

falta-me conhecer o começo,

falta-me apagar o  que penso,

falta-me lembrar o berço

E matar monstros medonhos.

Falta-me o cheiro do cabelo

Que em bandós caía

Por sobre o livro que lias.

Falta-me o sopro ondeado

Que eu guardava e absorvia.

Falta tanto e não há sono

Que acalme este sossegar,

Por isso me posiciono

Na lenta espera de madrugar.

                                                                                              Sesimbra, 9 setembro, 2022

Quando te quero recordar,

Contigo estar e ficar,

Procuro esse aroma no mar.

E as ondas, para meu assombro,

Percebem o meu ensejo.

Como um artista a pintar,

Desmancham-se a desenhar,

Gravando as espigas de trigo.

Assim, eu me mantenho contigo,

Assim, estou no monte e no mar.

Sesimbra, 8 de julho, 2023

IX Sessão d

António Saias

HOJE EU FUI VISITAR A MORTE

alguém me enviou uma mensagem anunciando que a Morte o tinha escolhido para me contactar e comunicar-me que ELA queria

que eu a visitasse

conheci a Morte ainda jovem

menina

púbere

à beira Índico

já lá vão algumas dezenas de anos

era bonita

usava soquetes cor-de-rosa

e laçarotes na cabeça

-não andava

esvoaçava como as borboletas

a Vida separou-me dela

como o joio do trigo

que por mais que se separem

voltam sempre a encontrar-se

fez-se mulher

casou

teve filhos

realizou-se na sua profissão

-não tanto quanto pensaria-

como a esmagadora maioria

das mulheres da sua condição

voltei a encontrá-la volvidos muitos anos

a sua vida esfrangalhada

à semelhança

do que também acontece a tanta gente

a Morte

envelheceu antes do tempo

reencontrei-a

ainda com alguma juventude

aproximámo-nos

partilhámos mesa e cama

com a regularidade de um par amadurecido

talvez com a força

da casualidade

que junta

o joio e o trigo

agora a Morte

está próxima do fim

vou visitá-la

na sua cama de Hospital

vejo-a recusar a refeição da tarde

- a sopinha da tarde -

com um franzir de testa

pretextando que está quente

cospe - rejeita com uma nesga de olhar

semi-cerrado

a primeira colher de sopa

que a enfermeira

lhe faz chegar à boca

eu digo-lhe – Morte  amiga

eu estou aqui - trouxe estas rosas para ti

das minhas

não gostas que eu te traga rosas?

- vim também para ver se tu comias

e a Morte sorri

com a mesma displicência

com que rejeita

a primeira colher de sopa

que a enfermeira

lhe faz chegar à boca

não quero beijá-la

nem tocar-lhe

com receio de que o seu livor

me gele

a carne que a toque

abandono o quarto

deixo a Morte

profundamente adormecida

recostada em três espessas almofadas

com os olhos entreabertos

vagamente virados

para o espaço

onde a enfermeira tinha posto

as minhas rosas

abandono a Morte

- adormecida-

sem coragem

de lhe dizer

um adeus de despedida"

António Saias

X Encontro da Poesia dos Bosques

21 de Setembro de 2024

Foi sugerido,  como base para esta sessão de poesia, olhar para os ditados populares. Mas, como é habitual, permaneceu o espaço para os temas livres, contando com a inspiração dos bosques.

Cassandra Querido 

Breve (con)tributo aos ditados populares

Quando se fecha uma porta

Abre-se uma janela

Seja bela ou seja torta

Há de se pular por ela

Cada terra com seu uso

Cada roca com seu fuso

Cada roca suas gentes

Cada terra suas sementes

Cada tacho tem seu testo

Cada apanha  tem seu cesto

Vou desta para melhor

Não fico para semente

Mas procuro um Eu maior

Entre a foz e a nascente

Nem só de pão vive o homem

Nem se vive só do vento

Há palavras que se colhem

No sonho e pensamento

2024-09-21

8 quadras,  in-finito 

Mais um dia que começa

Tento alinhar o cabelo

Entrançando uma promessa

Desenrolando o novelo

Fio-me nas encruzilhadas

Dos caminhos retraçados

Perco os fios às meadas

No horizonte encontrados

A linha com que me coso

Bordei-a em ponto cruz

Num tapete onde repouso

Ou voo em busca de luz

Busco tecer perfeição

Em cada linha que escrevo

Ouso a reinvenção

E amo o antigo acervo

As múltiplas línguas mortas

Pode alguém tê-las escrito

Direito por linhas tortas

Pertencem ao infinito

Sigo o fio dos pensamentos

Uns vão no fio da navalha

Outros em fios de água, bentos

Ligados na mesma malha

Todos em linha de conta

Ou todos desnecessários

Enfio na agulha a ponta

Do fio de longos rosários

Mais um dia que termina

Seguem-se dias a fio

Reinvento o fim da linha

Do destino em que confio

(Nas duas faces da linha do horizonte com a lua cheia nascendo).

2024-08-26


Maria Sarmento:

Cosmogonias

Não é o Fogo que faz emergir a lava que irrompe e se faz mundo e pedra e chão do olhar. O filósofo e o Poeta disseram: “do nada, nada se faz” “ex nihilo nihili fit.” Onde, então, a Fonte? a Origem de tudo vir a ser?!...

Antes, eram as águas primordiais…
A matéria das águas e da língua!
Cuspo do que há-de ser mundo! Calor e chama. Palavra incendiada! Escravelho que separa a Terra do Céu.  Abismo aquático sobre o qual vagueia o Criador (in)criado!

Verbo emprestado pelos deuses para o Poeta criar mundos outros, mundos novos. Verbo, Logos divino, Fogo. A primeira matéria da fala de Deus.

Fala sagrada, em beleza atravessa tudo quanto existe: o firmamento, as pedras e os astros! O mar grande e o estreito de Bósforo. A fuga e o Amor.

E o Homem que é lama e sangue de um desafio e de uma luta.
Princípio criador e fonte de si mesmo. Sangue de uma ferida eterna
do vazio surgido. Irrupção a partir do nada. Pedra levitada da matéria da luz e da morte de Deus.

Ovo cósmico que se divide nos seus contrários. Combate perpétuo de deuses para o equilíbrio instável de tudo o que existe e há.
“Enuma Elish!” “Quando no Alto o céu ainda não tinha sido nomeado e a terra firme em baixo não tinha sido chamada pelo nome, nada existia senão o primordial Apsu, seu progenitor, e a Mãe Tiamat, geradora de todos eles” As águas misturadas: o mar salgado e o doce rio!…

Cesse o ruído que não deixa dormir Apsu …

A criação do homem manchada por um crime!

Também o Poeta recebe, por empréstimo, o Fogo dos deuses, o fogo da Palavra. E aspira ao Silêncio para se libertar do silêncio ruidoso do mundo.
A deusa primordial descansa da letargia do nada e o homem surge do sangue de todos os combates, desde o princípio do mundo, para recuperar esse Silêncio que se crê no eterno firmamento celeste. E no espaço entre as águas faz seu leito.

Tal como o descanso do Poeta surge depois da agitação e do Fogo cuspido da Palavra. Ansiando, de novo, um mundo de quando não havia, ainda, nome para as coisas.  E Deus disse: “Que haja uma vastidão do céu no meio das águas que separe as águas das águas.”

Deus é oleiro da sua mesma obra, moldando no barro que semeia a constante perturbação, rebeldia e combate.

O Poeta diz: O Céu é a água entre as águas. O intervalo. A pausa!
O espaço de repouso na eternidade do instante!
O céu é um milagre que o não é.

O Céu… ?
O Céu é uma pedra que voa!

(17-09-2024)

Maria Sarmento:

(12 quadras ao gosto popular, inspiradas em ditados, segundo o mote …)

 

“Devagar que tenho pressa”
Não há pressa no vagar
Se calhar eu cair nessa
É só para te ver passar.

 

Passaste no ribeirinho
Ficou-te o pé bem molhado
Se passares devagarinho
Leva o teu amor ao lado.  

 

 Arriscaste neste mote
Um verso muito singelo
Vás de barco ou vás de bote
O teu jeito é sempre belo.

Ponho o pé e molho a meia
Quando passo o rio baixinho
O amor que a mim me queira
Chega sempre de mansinho.


Quem tem amores não dorme
Quem tem um bem que lhe quer
Dorme um sonho p’ra que torne
Quem a si bem lhe quiser.


Água dura em pedra mole
Vai o mundo assim virado
Da cabeça aos pés m’assole
Um vento desatinado.

 

 
Depressa, tenho vagar
De chegar aonde não for
As contas do verbo amar
São feitas p’lo meu amor

Perde o tempo e ganha a vida
Tudo o que ganha é engano
Ao deitar contas à vida
Sobra sempre o que faz dano.

Mas é um dano gostoso
É como o mel que se adoça
Espera que o dedo guloso
Lamba os lábios de uma rosa.


Um dia, Santa Luzia
Fez da preguiça vagar
Se não fazes nesse dia
Outro dia há-de chegar.

Há tempo p’ra tudo ser
E o tempo tarda em passar
Só o meu amor não quer
Estar a tempo de chegar.

 

Segue o mote, segue o mote!
Não sei se o segui, não sei…
Não sei se caí do bote
Se calhar, descarrilei !...

 

 

 

   (12-09-2024)

Isolina Lages, Setembro de 2024:

Título: O guarda rios

Trago no olhar a tua cor, azul, azul da cor do mar

Dourado o teu peito de veludo, quase castanho de encantar

Trago no olhar a tua cor, o teu movimento de embalar

Trago no olhar a tua cor, trago no ouvido o teu cantar

Trago no olhar as tuas asas, que te servem para voar

Trago no olhar o voo rasante, por entre as folhas num instante

Dão-me a capacidade de sonhar…                                                              7.06.2024, Isolina Lages

“ Ò lua que vais tão alta                            ( Título: A lua )                                                                                              Redonda como um tamanco                                                                                            Ò Maria trás a escada                                                                                               Que não chego com o banco”

Quem à lua quer chegar                                                                                         Tem uma tarefa arrojada                                                                                                    Ora se encontra como sol                                                                                                   Ora se torna apagada

A lua na sua rota                                                                                                     Diz o povo que ela mente                                                                                            Quando tem forma de D                                                                                             É quando é quarto crescente

A lua no seu silêncio                                                                                                        E no pouco iluminar                                                                                                  Influência a essência                                                                                                 Da terra o seu bem estar

Cantam poetas à lua                                                                                                             Belas canções de embalar                                                                                                “Não é minha nem é tua                                                                                                         É de quem a apanhar”

E quem apanha o luar                                                                                                      Em noites de lua cheia                                                                                                     Tem o poder de encantar                                                                                                        Tem um poder que rareia.    7.09.2024 Isolina Lages

Título : Haiku

És da poesia um doce Haiku                                                                                                    De encanto paz e alento                                                                                                       Dos teus papás encantamento                                                                                    Do olhar Divino a sua luz

És deste lugar a brisa fresca                                                                                                 O vento norte, pura estação                                                                                                 És ao nosso olhar a alegria                                                                                                       Tua presença a união

Serás do futuro um tempo novo                                                                                    Aquele a onde não chegarei                                                                                                    Serás rainha do teu povo                                                                                                       Serás tudo o que não serei

Sejas quem fores, a Deus pertence                                                                                       Vieste da Vida sua matriz                                                                                                      Que sejas dessa Vida doce esperança                                                                                       Seja o teu viver sempre feliz

30.06.2024 Isolina Lages ( à Menina Glorinha do Freixo do Meio )

Fátima Remédios
🍂🍁🍂

Despe-te de tudo, menos da jornada

Enche-te de nada, num colo qualquer

Vai passando o tempo, qual suma balada

Em lentos acordes de um puro mester.

Enche-te de paz pela madrugada

Despe-te de sizo num sonho qualquer

Vem balindo a neve na noite fechada

Vai erguendo o vento que tanto te quer.

E na hora queda, de deslumbre tanto

Presa nesse encanto por alvorecer

É a orvalhada que enternece o manto

E na abalada ouve-se dizer

Oh beleza rara, entretece o espanto

E o céu implora, falta acontecer.

Ditados populares

Parte I

Quem tudo quer, tudo perde?

E quem arrisca, arreceia?

Largo o firme solo verde?

Ponho o pé e molho a meia?

Na ceia o bem se lhe segue!

Suponho que quem passeia

No prado e a gosto o regue

O sol seu seio incendeia.

Pois quem muito quer consegue

Mesa farta, casa cheia

A quem, por fé, não se negue

Premeia o céu, que o semeia.

Quem muito dá, terá fome?

Quem pouco tem, terá frio?

Se a vontade consome

Serve melhor o fastio?

Entre provas e demandas

Aqueces ou arrefeces?

Diz-me lá com quem tu andas

Dir-te ei com quem pareces.

Pela boca morre o peixe

Vale mais usar do sizo

Está outro a falar, pois deixe

Nem sempre o tom é preciso.

Quem desdenha, quer comprar?

E o fruto proibido?

Quem simula é de fiar?

E se ficar, já olvido?

Anda o macaco no galho

Cada qual sua sentença

E, se sei, não me baralho

Não arranja a gente ofensa.

Diz se da pressa rasteira

Da maestria inimiga

E da paciência cimeira

A perfeição o obriga.

Há quem diga claramente

Ser o fim a dianteira

Doutra maneira, a semente

Será a história primeira?

O mundo visto ao contrário 

Será como andar a ré?

Até à foz o estuário

Sobe fazendo banzé?

O ovo ou a galinha?

Outra vez o tira-teimas!

Mas é a certeza minha?

Não jures, que ‘inda te queimas!

E quem se cala consente

Pobre boca assim fechada

Como quem dá de presente

A traição anunciada.

Giram na roda gemidos

Como lentos carrocéis

Ficam os dedos erguidos

Se lhes tiram os anéis.

Vai-se ao longe devagar

Vem o perto à nossa beira

Nem tanto à terra ou ao mar

E por mais que um homem queira…

Dos fracos não reza a história

Muito menos no lugar

Honre a terra e a memória

Esta gente e o vagar!

 

Trazida a lenha num feixe

Investe o sol e o luar

Se tu és filho de peixe

Logo te pões a nadar.

 

Colunas, brumas de seixo

Vale à distância a chamar

Não deixo, amor, não deixo

Que se afaste o som do mar!

 

E se és homem prevenido

Terás sempre ocasião

Mas atenção ao bramido

Há lá belo sem senão?!

 

Cai nódoa no melhor pano

Mas se o canto é cristalino

Nenhum dano, em peito humano

Rega impoluto o divino.

 

No meio está a virtude

E quem a tem tudo aguenta

Já não se perde amiúde

E nem oito nem oitenta.

 

Torna a casa o bom filho

É recebido em banquete

Não há pastor sem cadilho

No balir, o som remete…

 

Para a força da montanha

A coragem de uma espiga

A fortaleza tamanha

Da rama que a pomba siga.

Forte e linda rapariga!

Parte II

A Deus pertence o futuro

Não o queiras apressar

Comanda o fruto maduro

Que deixou de perguntar.

 

O que tem de ser tem força

É bom dizer e com tino

Com a destreza da corça

Faz do prazer o destino.

 

E eu cumpro o que me cabe

Tendo por guia o conselho

Vigia aquele que sabe

Seguro morreu de velho.

 

Dizem outros no lugar

Seguros do sorvo e via

Se a Virgem for de fiar

Para quê a correria?

 

Mais vale bem navegar

Disfrutar da maresia

Cada dia há de chegar

Cada onda e cada cria.

Correr por gosto não cansa

Afiança o corredor

No olhar de uma criança

Um mundo cheio de cor.

Rodam no giro entendidos

Como eternos corcéis

Os universos cumpridos

A rodos pelos tonéis.

 

Junto ao junco da ribeira

Ouvi a rã coaxar

E soube com fé certeira

O melhor está p´ra chegar!

Colhe o bem, a alegria

Um retoque de alecrim

Por verniz a ousadia

Debruada de jasmim.

Colhe além da ventania

O tom que a terra clareia

O favor da fonte fria

Hoje a ribeira vai cheia!

Sol que nasce é para todos

E o prometido é devido

Por entre céus e engodos

Doura o fruto concedido.

Só quem sobe é fornecido

Só quem desce tem razão

Para baixo, é bem sabido

Os santos dão uma mão.

Se as águas são passadas

E as nuvens são futuras

Há promessas inquebradas 

Águas moles, pedras duras.

Digo dos deuses que ouvem

E dos campos que apregoam

Das papoilas que comovem

Das giestas juras soam.

Digo do cravo encarnado

Da rosa feita doçura

Peito a peito, lado a lado

Ama quem canta e quem cura.

O mundo será ordeiro

E o destino cumprido

Nada há mais verdadeiro

Que um vaso cheio e garrido.                                                   

Fátima Remédios,  Abril de 2014

Mário Ceia:

O primeiro poema é uma adaptação dos salmos 148 do antigo testamento, um hino ou Loas à natureza, aos animais, às plantas e ao Homem.

O segundo é uma alusão aos meses equinociais.

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Salmos:

LOUVAI

Louvai o sol e a lua;

louvai todas as estrelas luzentes.

Louvai os céus dos céus e as águas que estão sob os céus.

Louvai as baleias e todos os seres dos abismos

Louvai o fogo e a geada, a neve, as nuvens e o vento tempestuoso

Louvai as montanhas e colinas, as árvores de fruto e todos os cedros

Louvai as feras e todos os gados, répteis e aves voadoras,

Louvai os rapazes e donzelas, velhos e crianças

#################

SETEMBRO

(ou podia ser MARÇO, outro mês equinocial)

Agora é setembro

Um dia qualquer deste mês

Em que se encontram

Os dourados  brincos

E a prata dos anéis.

São os amarelos

Do campo

Que despertam entre

O verde da erva

Onde se estendem

Os amantes em pose ardente

E onde as formigas  se afadigam

No seu laborioso trabalho.

Aquela doce melancolia

Dada pelo leve doirado

Sol que se deita

Lentamente

Na linha

Lá ao fundo

Do horizonte.

É o fogo da tarde

E o orvalho matinal

Que devagar se vai

E permanece

Sem a pressa estival.

Um breve rumor

Estende-se na planície

E permanece só

Num murmúrio

Que entontece.

É setembro

Num dia qualquer deste mês

Sete, treze ou vinte e um!

Sérgio das Neves

21/09/24 ( X Sessão)

Entre ditos e desditos ao vento

Diz-me quem és, direi onde vais,

quem nunca se molhou, não sabe do cais,

quem com ferro fere, com fogo se cala,

e o que os olhos não veem, o peito embala.

Quem tudo quer, mal vê o que tem.

Caminha às cegas, tropeça em sonhos,

e o que não cai ao chão, dissolve-se no ar.

Água por onde passa não é a mesma,

nem o rio, nem a sombra que o abraça.

Não se banha duas vezes no mesmo engano.

Quem avisa, às vezes exagera,

mas quem cala, morre afogado em tempestades.

A pressa é inimiga do tempo,

mas quem cedo madruga, aprisiona o vento.

Rios de palavras correm em bocas secas,

quem muito fala, cria pontes em veias abertas.

Dá-me tua mão, que a fé te guie.

Mas olha — a fé também tropeça.

Quem espera sempre alcança,

mas alcança o quê?

O tempo é teimoso, não tem pressa

de provar que a roda gira,

mas o moinho já secou.

Quando o sábio aponta o céu,

há quem conte estrelas em dedos trémulos,

outros plantam astros no chão de barro,

e um dia colherão luas em campos de sarro.

Mente quem diz que o silêncio é de ouro.

A pedra quieta não guarda segredos,

é o eco que revela,

e o eco, meu caro, só sabe repetir.

Água mole em pedra dura

não rasga montanhas — só tinge de loucura.

Quem espera sempre alcança,

mas o trem que tarda não perde a dança.

Quem não tem cão caça com o vento.

E o vento, esse ladrão de vozes,

leva consigo as promessas de ontem,

as mentiras ditas com afeto,

e as verdades que nos rasgam.

Quem te viu, quem te vê,

já foi outro, já não é o mesmo.

Troca o ouro da fala pelo chumbo do ouvido,

e quem ri por último só espia o abrigo.

Casa de ferreiro, o aço se esvai,

olhos de tigre, sede de paz.

Quem tudo quer, perde a mira,

e quem nada teme, caminha na mentira.

Cada macaco no seu galho,

mas a selva não se importa com limites.

Somos todos forasteiros em galhos alheios,

enquanto o leão dorme e sonha com a própria fome.

Nem tudo que balança está em queda.

Nem tudo que permanece está firme.

Mais vale o risco do abismo

que o conforto da margem.

Quem não arrisca, mal sabe o sabor

da queda ou do voo.

Mas a sorte, essa coisa traiçoeira,

sabe sorrir com dentes afiados.

Mais vale um pássaro voando,

que duas asas presas, chorando.

Lobos em pele de cordeiro

escutam o pranto no silêncio certeiro.

Filho de peixe, onda sem fim,

mas quem com lobo anda, não chega ao jardim.

O que cai na rede vira sombra em maré,

e quem não arrisca, ainda morre de fé.

Diz-me o que come,

e te direi o que tem fome.

A fome do homem não é de pão,

é de sombra, de seiva, de raízes.

Quem planta vento não colhe nada,

mas desenha tempestades no horizonte.

Pau que nasce torto,

sombra que dança,

mas quem bate na madeira,

esconde a esperança.

Pau que nasce torto é tronco retorcido

que o tempo amolece,

e na curva do destino, vira chama.

Quem ama o perigo vive à beira,

mas não vê que a beira também cansa.

O que é do homem, o bicho não come,

mas a sorte, caprichosa, ri entre os gnomos.

No fim, quem semeia ventos colhe abraços,

e o barco, à deriva, naufraga nos laços.

Quem não tem medo da morte

não entende o valor da espera.

Não adianta correr atrás do futuro,

ele já está à tua frente, rindo,

fazendo-te tropeçar em sapatos apertados.

Ninguém morre de véspera,

mas quem canta seu pranto, de saudade se apressa.

Nem tudo que reluz é ouro,

mas o brilho nos olhos vale o tesouro.

Ninguém dá ponto sem nó,

mas quem tece a trama?

A vida, essa tecelã míope,

costura os fios como bem quer.

E no fim, quando a linha acaba,

somos apenas pedaços soltos

nos ditos e desditos do mundo.

Quem não chora, engole o silêncio,

quem vive de orgulho, tranca-se por dentro.

E assim, entre pedras, barcos, e ventos,

os ditados, vivos, vão criando novos momentos.

XI SESSÃO DE POESIA NOS BOSQUES

2024-12-21 dia do Equinócio,  em redor de uma fogueira, com visita poética ao bosque ancestral do futuro.

Luísa Dunas

O verão chegava ao seu termo. Caminhando por um vale desde cedo, Perséfone não sabia onde estava nem para onde ía mas não estava perdida. Virou-se para ver quem a acompanhava, atrás de si. Quando lhe encontrou os olhos tudo escureceu na entrada de uma gruta. Encostou-se à rocha uterina, sobre as suas mãos pousou o guardador as suas, de viril fundura. A olhá-la no escuro, disse-lhe, O equinócio é amanhã. Irrompeu-lhes uma febre, fecharam os olhos, estavam descalços, vestes de cor clara, de uma infância.

Cassandra Querido 

Neste Antropoceno duro

Tentarei manter-me una

Trazer à tona o puro

Que é a minha fortuna

A grande via não é

Límpida em tons de azul

Nesta arca de Noé

Sofre-se de Norte a Sul

O Homem é desmedido

Como tudo tem retorno

Agride e é agredido

Mesmo tentando o suborno

Pelo retorno eterno

Perpassa o infinito

Passa também o inferno

Onde mora o nosso grito

Canto também a esperança

No meio dos atropelos

Num dos pratos da balança

Há um Amor entre novelos

Maria Sarmento
Tardes iluminadas
 (XI Sessão de Poesia nos bosques – Freixo-do-Meio, 21/12/2024)

(Dedicado ao meu Amigo António Saias, que acabou de completar as 85 voltas ao Sol. Também uma saudação especial de aniversário a Luísa Dunas e a José Rodrigues dos Santos.)


Trago em chama que ilumina
A tarde que vai chegando
Guardada em arca divina
Por onde o sol vai entrando.

Um pássaro traz no bico
Um som de luz a arder
A floresta é chão que pinto

Num retábulo de infinito

De flocos do entardecer.



São preciosos luzeiros
Chegados ao sol do peito
São cristais e são veleiros
São falsos e verdadeiros
Os sonhos com que me enfeito


Aves doidas sem paragem
Suspensas no céu do olhar
As nuvens dessa viagem
Lugares cruzados na imagem
Da prata azul que há no mar.

 


Caminho de velas tantas!
Sem remos, são naus que dançam
São nós, a sós, caravelas…
Paradas no meio das estrelas
Entre os dias fazem mós

As tantas tranças que há nelas.

Trago em chama nas mãos altas
Montanhas que baixas são
São as mesmas que voltaram
As mesmas mãos as tragaram

No mesmo beijo queimaram…
Co’as chamas da tarde vão
As bocas que ali moraram




Em altos voos, voadas
As tardes doces, paradas,
Na luz de um dia que vem
Espreitar, por entre as vagas,
As naus agora puxadas
Pelas tardes de um desvão.


De tanta sede que há nelas
De tanto mar que ali está
Árvores tão altas carregadas
Da luz que está no porão.
São abrigo das janelas
Soltam-se as barcas, as belas
Um dia sim, outro não!

(12-12-2024)

Vozes de Solstício

 (Abrigados do frio, limpam a chuva às folhas, as asas dos pássaros. Espreitam o sol pelo piscar do seu olho miúdo. São aves da cidade, dentro dos limoeiros. E são ruas de folhas coladas à água que segue na correnteza do tempo. Num dia assim, varrem-se as folhas e seca-se o pátio da alma, esse deserto a arder!)

 

-- A mulher está sentada de costas para as nuvens e para o vidro líquido da rosácea do sol. Como se fora vento, os dedos esvoaçam em dédalos de luz e de veias. Vias. Volta ao tempo dos lábios de cera liquefeita. Roçam as asas de uma transfiguração do sol. Há, em cada pedra gasta do tempo, um sinal que se lê sem olhos, um céu de violetas entornadas no frasco da noite sorvida gota-a-gota pelas amáveis musas.

 

 (A noite sopra véus no ar húmido das águas. Havia uma cidade nascida do espaço entre a hora e o som. Desaparecia na boca vegetal dos rios. Chegavam, quando as sombras pintavam os ramos de escuro e ocultavam, pouco a pouco, a vista às árvores. Troncos de madeira e flor aberta, em canto, revelavam a barca que deslizava por ali, esquecida da luz, sob o portal dos céus. Acendedor de estrelas, o céu abria-se de noite em véus, espelho de múltiplas faces. Cristais. Caleidoscópio de gargantas e desfiladeiros de luz e de vindas.)

 

-- Vem! Por esse pequeno raio de sol desenhar os pés na terra fria do Inverno! Vem, por esse precipício de ar, golpear a luz com a navalha do vento! Vem, desvairada! Ferida! Tocada de luz, por esse átrio e portal. E Fica! Fica! Por entre as aves do frio como uma estátua de sal. Uma estátua de gelo dentro dos portais da sombra. Cresce, com os cabelos em labareda pela aguarela do céu adentro. Esperando o sol que vem e virá doirar caminhos e vias. Desviar as sombras. Lavar as águas dos rios. Purificar o ar e dar à escuridão a sua face gémea, em alta labareda. Depois, guardas a luz na tua boca fechada em redenção, Ó Rei!

(12-12-2024)

José Rodrigues dos Santos:

O Viajante

Envolto em ramos verdes

que denso lhe estende o bosque

vai o viajante montado

em seu sonho espantadiço

como égua virgem árabe

que águas paradas teme

Do que resta de saber

Das coisas outrora amadas

Dos metais das tardes calmas

Das camas e dos perfumes

Dos fôlegos agitados

Da calma respiração

Suspiros perto do peito

De lábios e framboesas

Já nada sabe o viajante

Envolto em ramos verdes

claros verdes escuros claros

escuros quase azuis de seiva

na poeira da luz de outono

a irrequieto sonho entregue

que a mão de leve mal segura

mas o corpo liga e leva

Vai o viajante montado

O enigma de passo largo

a cada curva do caminho

seu rosto lhe mostra e ri

de mares interiores

náufragas madeiras traz

com marcas de canivetes

e de dentes e de unhas

e a cada passo lhe opõe

sempre a mesma pergunta

Mão no peito bem no meio

onde pára o coração e a veia

salto de lobo que brinca

vida incerta morte certa

a pergunta lhe coloca e logo ri

treme a égua entre as coxas

tão calmas do viajante

silencioso

 

   José Rodrigues dos Santos. Évora, Dezembro de 2024

Petrificações

Estava eu um dia no meu quintal

lembro-me que foi o meu quintal

que te quis mostrar primeiro

a falar com uma pedra que ali tenho

naquele dia primo de novembro,

dia do nosso primeiro beijo

há uma severidade nas pedras,

a hermenêutica do 'quintal'

a preceder o beijo é ofuscante

e a confidência hieroglífica

tu sentada naquela cadeira

minha companheira subtil

Dos dias ásperos e dos anos

Sentada à mesa da cozinha,

os meus dedos a segurarem-te a crina,

marcas-me, eu cavalo tomado,

tu égua aflita por me voares das planícies.

Os pequenos cristais da minha pedra
Luminosos de mica e quartzo
Vibram contigo bruscos e solidários

Quando vos ofereço em braille

As sempre tremendas,
Verdes escuras e inesgotáveis
 perguntas sem resposta
Que trago a tiracolo noite e dia

No dia seguinte, voltar-me-ías

insuspensa pelo entardecer

passando o arco das cores

e as chuvas, breves, torrenciais

as doze respostas verdadeiras

 e a impossível evidência do enigma

daquela pedra, incisam-me
Foi quando no ar raro como a felicidade
Um alarido metálico dos melros
Atirou sobre nós estilhaços
de alarmes de perigos invisíveis.
Cortaram o fio da conversa.
Ficámos em silêncio, tu e eu.
E a pedra, até hoje

                                                                     José Rodrigues dos Santos, Évora, Dezembro de 2024

 XII SESSÃO DE POESIA NOS BOSQUES

2025-03-23, Centro Interpretativo do Montado, Freixo do Meio

Homenagem a Florbela Espanca

Mário Ceia :

AZUL

Oh, azul celestial!

martírios fendidos

em rosa incandescente

amarelo espacial

para além do infinito

alimento da alma

vermelho cá,  para além da mente!

Oh, azul celestial

nuvem cristalina

transparência de mim!

Demente

de mim mesmo!

transparente!

aparente...

...mente!

AZUL celestial

Cassandra Querido :

Queria saber-te eterno

Coração, força motriz

Pulsar interno e externo

Preso à mesma raiz

Nunca soube te prender

Coração desconhecido

Procurar-te é um dever

Ou é só tempo perdido?

Hoje já é outro dia

Em infinitos instantes

Vai mudando a melodia

Já nada é como dantes

Um segundo tudo altera

Surfando a onda do mundo

Vou subir à pele da terra

Ou descer ao mar profundo?

  Para te encontrar

  No fundo do amar...

2024-01-22

Terra onde derramei sonhos

E amei como ninguém

De anjos a seres medonhos

Contrários, como convém

Venham rosas! Venham espinhos!

Conduzir-nos, feitos gente

Por veredas e caminhos

Onde colher a semente...

Nesta terra enriquecida

Sem químicos, sem venenos

Ao meu sonho dou a vida

Não posso fazer por menos!

Venham cravos! Venham rosas!

E os dejectos do fim!

Venham poemas e prosas!

Adubar o meu jardim...

2025-01-28

Vida oferecida

No futuro em que mergulho

Cada segundo que passa

Náufraga, me desatolo

E rasgo a própria mordaça

Grito um grito das entranhas

Ou um canto de trabalho

Religando coisas estranhas

Entre os ilhéus onde encalho

Este fio é condutor

Da água que corre mansa

Um perfeito sedutor

Prende qualquer pé de dança

A confiar no fiar do fio

Das malhas deste destino

Vão naus de fio a pavio

Sem cargas... não as domino!

        Nenhuma sentença assino...

Em tempo de alienação

Fiando, o mundo se liga

À falsa informação

Um NÃO tem que se lhe diga!

Água mole em pedra dura

O tempo tece bonança

A pedra sempre perdura

Ao furo coso mudança

Hei-de LÁ plantar o fruto

Devolver-lhe a floresta

Num pequeno contributo

Pelo tempo que me resta

   Dou ao Universo a gesta!

2025-02-29

Guerra da eternidade

Eu, no eterno retorno

Sou uma conta enfiada

No rosário  um adorno

No conto, não sou a fada

Ouvi crepitar no forno

O pão que o diabo amassou

Agora que já está morno

Já a guerra o caçou

Esse bafo infernal

Que se aproxima... se sente

Vai dar um fim invernal

À vida de tanta gente!

Dois lados de oposição

Depois de tanto desnorte

Ambos querem ter razão

Só quem ganha, é a morte

2025-03-17

 Isolina Lages

( Homenagem a Florbela Espanca, inspirada no seu poema Évora.)

O tempo nos separa, eterna Bela

O espaço nos junta com diferente olhar

As ruas por onde andaste são as mesmas que continuo a palmilhar…

No colégio onde outrora lessionaste  

Também eu por lá andei perdida

Ficaste na lembrança dos que encontraste

Como sendo diferente nesta vida.

Foste da moda pioneira

Quando ao fumo te entregavas

Discretamente através duma viseira

As tuas alunas te espreitavam.

Dos teus sentires dos teus amores

Que um dia aqui viveste como um crente

Partilho contigo a mesma dor

A mesma saudade de quem me está ausente.

Não entreguei à morte a mocidade

Continuo a somar anos à idade

Por mais que grite e ninguém me ouça

Também como tu às vezes…

Ainda me sinto “ passar menina e moça”...               18.05.2013

Isolina Lages

Poemas de 12 palavras.

1- Fala, escreve, sonha a poesia, irradia em cada dia, sintonia, doce magia.

2- Chama-se o que lhe quiseres chamar…Canta-se se o quiseres cantar…Poema.

3- Doze um número composto, um mais dois somados são três, uma vez…

4- O silêncio não se vê, sente no sonho o que não existe.

5- São rezadas, repartidas, reforçadas, cantadas, afastam o mal, as doze palavras ditas.

                                                                                                                        23.03.2025

Fátima Remédios

Poema 1

Se da janela há tristezas

Inda, amor por desdobrar

Debalde,  não esmoreças

É bom, mulher,  que não esqueças

O cheiro vindo do mar.

Se do postigo há fraquezas

Inda, amor, por franquear

Debalde,  não desfaleças

É bom, mulher, que não esqueças

O som do vento ao passar.

Se na barra há ventania

E pano por defraldar

Belo, o nascer do dia

Bela a fonte, como eu queria

O dom do tempo no ar.

Se há no longe nevoeiro

E dano por clarear

Não desdenhes,  vê primeiro

Nas manhãs forças, luzeiro

Das novas por desvendar.

E se nas tuas entranhas

Num encanto de pasmar

Deslindas, moves, sem manhas

As romãs fremem, risonhas

Ouves de novo o luar.

É bom,  mulher, que te lembres

Dos navios o sussurar

Se na barra há todavia

Antes do céu, acalmia

P'ra se poder navegar.

É bom,  mulher,  que acauteles

Ouve bem o que te digo

O grito franco da serra

O canto fresco da terra

É tão belo o tom do trigo.

É bom, mulher,  que me chames

Que reclames teu lugar

No ar há novas, façanhas

E trovas santas, tamanhas

Lembrando o bramir do mar.

Oh saias tão bem rodadas

Num rodopio de louvar

Garridos sonhos, cambraias

Também tu, sanas, desmaias

Lembrando o cair do mar.

E à tarde, quais princesas

Roçam suaves o ar

Belas estevas, proezas

As velas de novo acesas

Presas do teu respirar.

Rutilantes, quais donzelas

Roçam suaves o mar

Tocam, leves, caravelas

Tocam breves, tocam elas

Na noite leve ao passar.

Navegantes fortalezas

Luminares, paladar

De singular, quando venhas

Nas ondas onde desenhas

À noite,  tu, o luar.

Ao sol, cozem sobremesas

As rocas do teu tear

É bom,  mulher,  que te aqueças

É bom, mulher,  que aconteças

Sou eu quem vem a chegar.

Poema 2

Sessão nobre contenta

Ao pobre nada negar

De ternura se alimenta

A gordura do lugar.

De novo a erva rebenta

Num eterno balouçar

A água há-de passar.

Era o doze que buscava

Num profundo mergulhar

E o ouro que ela me dava

O mesmo sol a chegar.

Fátima,  28.03.25

XIII SESSÃO DE POESIA NOS BOSQUES

2025-06-28, cantina do Freixo do Meio

Tema: a água (curiosamente num dia de estio, um dos mais quentes do ano)

Cassandra Querido :

Desde quando, o rouxinol

Encheu, puro, o espanto

Às noites claras, deu sol

Com o brilho do seu canto?

Até quando irei ouvi-lo

Em cada noite que passa

No coro da rã, do grilo

Com tanto encanto e graça?

A sorte que vem e vai

Voltará a confiar

Sabor à noite que cai

Noites claras ao luar?

O vai e vem entre a sorte

Trará nele a melodia

Tudo o que me faz mais forte

Voando entre a noite e o dia?

Quando o canto mata o sono

Acorda a sede de amar

Nasce Amor, largo, sem dono

Aberto de par em par

Quando o canto é fecundante

Morre o tempo e o lugar

Volta do inferno de Dante

A paixão pelo vagar

Abro no bosque um carreiro

Procuro a minha verdade

Está no canto derradeiro

O preço da liberdade

         Que Eurídice não disse?

2025-05-09

Quadra para exposição de Portalegre:

Humanidade aos quatro elementos

Rasgo-te vento inquieto

Raios de sol que intercepto

Já quase sem solos sãos

Lavo daí as minhas mãos

2025-05-07

Enquanto desfolho a sorte

Sem planear, nem prever

Desnudo o fim da morte

Tecendo um novo viver

Enquanto desfolho o azar

Procurando o esquecimento

Com o instante vou casar

Tecendo um novo momento

Folhas que servem p'ra vida

Às causas que eu acudo

Teço Terra Prometida

Enquanto desfolho tudo

2025-06-25

Manuel Calado

A mão da deusa e do deus,
A mão do arco e da espada,
Como um punho erguido aos céus,
São uma mão cheia de nada.

Tenho tanto mundo à mão,

Que se me esvai entre os dedos...

E a mão morta, meu irmão,

É uma mão cheia de medos.

Com mãos se fala sem voz

Com mãos se grita e se agride.

Uma mão chama por nós

Sem que a outra nos convide

Estas mãos com que te toco

Navegam, fazendo velas...

Posso dá-las, não as troco:

O que seria eu sem elas?

Com as mãos, manobramos,

Manipulos, manivelas,,,

Se recebemos e damos,

Como seria sem elas?

As mãos cheias, por magias,

Da santa mãe natureza,

Volta e meia, estão vazias:

A liberdade é leveza.

2025-06

Fátima:

Pelos que sofrem

Povo lavado de mágoa

F'rido destino consome

Oxalá te venha a frágua

Oxalá te abrace a água

Tu sabes o que é a fome?

Oh Mulher forte, da vida

Amiga, grande valor

Se cure a tua ferida

Seja a paisagem varrida

Tu sabes o que é a dor?

Oh orgulhoso e alçado

Polo mundo que há de vir

Nas ribeiras mergulhado

E pelo sonho alcançado

Tu sabes o que é cair?

Oh bom garboso mancebo

Que chegaste pelo estio

Por esse fogo que bebo

Pelo dom que assim concebo

Tu sabes o que é o frio?

Doce entrega do gemido

Levanta e traz a coragem

Parido foi, conseguido

Tremulamente vestido

Só pelas mãos da coragem.


(Fátima Remédios,  28.06.25)

Momentos c'ria que não Acabassem

Ficar por AQUI SORVENDO O AMOR

E mais , de uma dor de uma vez deixassem

Os tonéis partir com todo o rigor.

Qu' é a felicidade?,  perguntam os céus

As aves respondem num azul trinado

É esquecer a noite em que tu partiste

Escolher amor os céus que subiste

Em volver de dia o novo chegado.

Não mais o cinzento trovão do gemido

Desolado unguento urdiu uma flor

E ela altiva no tempo parido

E ela a missiva diz do mar já ido

D'ouro serpenteia festiva e em cor.

Eclode o orvalho e assim me valho

Outrora sabido do jarro caído

Benzido em Janeiro de Janus molhado

Ungido cordeiro de joelhos dado

De jade bordado tão enamorado

Hoje vai erguido com todo o rigor

Hoje vem vestido de fogo esplendor.

(Fátima Remédios)










Maria Sarmento

Ela é a Fonte
a água primeira
a Origem da vida
entre pedras rolantes
e rios a correr entre os dedos.
Ela é a líquida promessa
a clara transparência das águas
as ondulantes luzes que reflecte
a solaridade das raízes
Ela é a fonte primeva
o jorro, o jarro, o choro
a luz da treva
a luz da terra azul
a toda a volta da circularidade
da maçã   da romã e do cravo
do travo e do som que escorre
pela garganta dos vales
pelas pedras   pelos prados
Ela é a água bebida em taça
de palavras sagradas
de femininas águas transparentes
que a deusa dá aos lábios sedentos
dos peregrinos da luz

dos indigentes   dos loucos   dos poetas

nas grutas   nos desertos   na montanha

Ela é a água da palavra

a larva dessedentada
a lava líquida larga

o Fogo que lavra na palavra sede

na palavra mágoa.

 (Maria Sarmento, 20-06-25)


(Dedicado a Cassandra no dia do seu aniversário no bosque dos Poetas)

Entre os ramos finos das árvores mais verdes

escorre a seiva dos olhos de Cassandra

Pela verdade que se ergue em copa

Pelo copo da sede, pelo céu estreito

Pela multidão dos insectos, das flores

das cigarras, crescem horizontes de planura.

A terra é berço e ventre. O céu é leite

derramado nos vales, nos lagos, nos regaços.

Entre o brilho das estrelas e o coração dos montes

criam raízes as palavras e deus não disse

de que cor são os olhos, de que renda, as mãos.

Bordados de sombra nas veias do mar

Sorriso gentil onde é suave naufragar a barca

Caravela de luz entre os dedos das aves.

Solaríssima lava nos cabelos da tarde que arde

de frescura e de zelo, coração de Alexandra,

gémea de Heleno, as serpentes lhe deram

O dom de ser a Verdade em que ninguém crê

Mulher! profetisa de Apolo, de seu nome Cassandra.

(Maria Sarmento, 22-06-2025)