Poesia nos Bosques
SESSÕES DE POESIA NOS BOSQUES I a Sessão de Poesia nos Bosques, Arrife do Moital, Freixo do Meio, 16 de Abril de 2022.
Manuel Calado:
Sete traços, quatro linhas,
Num céu de pedra, pintado.
Não sabes, mas adivinhas,
São mistérios do passado...
Sete dias, quatro fases.
És a Senhora dos Céus
És mentirosa, mas trazes,
Refletida, a luz do deus.
Sete silabas por verso,
E quatro versos em linha,
Para meter o Universo,
Numa quadra bem certinha…
…
Cresceram-te asas, amor,
Tu voas bem alto e longe.
Entre o prazer e a dor,
Entre o guerreiro e o monge.
Deixa-me voar contigo.
Sonhar contigo os caminhos,
Que tu segues e que eu sigo,
Entre as rosas e os espinhos.
As tuas penas, que as tens,
Macias, como o teu seio,
Vão do Alto de S. Gens,
Até ao Freixo do Meio.
…..
Cassandra:
Título: LARGAR,
Ontem as tais árvores falaram de mim
Logo, vou ver se me evado
Não há mais para onde viajar, assim
Se não para um seio mudo
e eu vou encontrar
o bosque que me sente
imenso, envolvente
Árvores seculares
vou ser aprendiz!
No rio dos avatares
permanece a raiz
Mesmo cercado pelo inominável vácuo surdo
Mesmo na viagem eterna do infinito mar, ar
LARGAR!
1980 / 1982
Título: Amar entre o mar
A tua presença espalha
uma teia sobre o mar
todos passam sem reparar
só meu coração encalha
Quando prestes a largar
vem o prender novamente
nas ondas duma corrente
onde o mar evoca o lar
Cose o meu coração crivo,
pescador do mar verde,
tecido na tua rede
enquanto eu ainda vivo
Onde lar chama-se mar
atira lá o meu coração
num enredo sem solução
onde lar significa amar
E finalmente descansar...
1983 a 1989
Título: Voar para além de Ícaro
Ter asas é delicado
Pode o Ícaro se perder
É aceitar todo o fado
Ou, antes lutar do que arder?
Ter asas no arvoredo
Faz de mim um passarinho
Pode até nem ser por medo
Custa-me a sair do ninho
Se a terra se povoar
De gente mais angelical
Acho que será bom voar
Mesmo entre o bem e o mal
Se a terra for tomada
Por gente bem mais malvada
Para achar a luz sagrada,
Melhor voar que parada
Queria voar contigo
Entre árvores e pedras
Se houver joio entre o trigo
Para quem ama não há perdas
Se voar é a condição
Para a gente se encantar
Mesmo sem passar do chão
As asas vão nos libertar!
Abril 2022
Maria Sarmento
Um poema que fosse macio e tenro
Como a polpa de uma maçã madura
Liso e sedoso como um bicho-da-seda
E dentro do casulo enrolado nas patas
O ar dumas asas vibrantes a futurar a luz.
E que para morrer o ovo só rompesse
a película finíssima do real sonhado
o velo de ouro, o giz, o osso, o desenho do arado.
E que fosse raiz de mandrágora,
e veneno engolido a esquecimento e a frio.
Um poema liso, escorregadio e ágil
como serpente de água
ou redonda e molhada pedra
de passado rio.
Um poema que fosse bicho prenhe e contorcido
gerasse a viva dor de uma animal ferido
E que à força de ser só um bicho moribundo
o poema cavasse no mar fundo
a pérola cuspida da boca da serpente.
Seria, então, dos dentes a voraz sede
de um diamantino e precioso colar
E que, por fim, não fosse senão a casca
folha seca que o homem, com prazer, pisasse.
Um escavado vazio do cálice sagrado
Escada de Jó, pedra do reino, anel, escaravelho
E que já sem forças ajoelhasse, pródigo,
filho bastardo de uma terra estranha.
Que ao ser poema fosse
não mais que o som cortante
de um golpe de espada numa rosa em fogo
Que o poema não fosse!
Ou fosse cego de uma visão que a si mesmo fulminasse
em sangue o escavado vazio do cálice sagrado
de onde bebem os deuses o entornado líquido
das entranhas jorrando.
E que nas mãos de um cego fosse vista clara
e nas do poeta fosse pó
de um cofre já vazio.
Um poema que fosse casa escura
casca varrida pelo vento sem caracol lá dentro
Destroços de um incêndio longe arrastados
por um anão corcunda e mal disposto.
Um poema -teia que imitasse o tempo e o tear
das habilidosas e caladas aranhas
Num tempo tecedeira
de onde os vermes, mil,
se alimentassem do buraco dos olhos.
Um poema que acabasse caveira
nas mãos de um rei desdentado, cego e louco.
Que sem cabeça fosse de Salomé repasto.
Espinho de uma rosa misteriosa e bela!
Atégina
Eis a que abre a estrada ao céu iluminado
com o seu manto brilhante de verdes e de bosques,
próximos e distantes. De montanhas e de prados,
de clareiras de aberto fogo no centro
dos passos e dos com.passos.
Ei-la que chega coroada do fio de luz da treva
antiquíssima de ser, a abrir passagem
ao rosto mutável do vento,
ao crescente lunar de uma meditação de rosas.
Ei-la, a de claro rosto voltado às múltiplas cores
das flores despidas de treva, de arrefecimento e de mundo!
Ei-la, a flor pagã, pendurada num fio de lua
com o Sol aos pés atapetado de flores e de renascimento.
Ei-la que volta, a deusa antiga dos Lusos,
Atégina, que regressa para a criação do novo. Do Ovo Solar
o Ovo Cósmico. A pedra de Sol e de Sal. De água dos ribeiros,
asas da luz a sacudir a treva. Noite de toda
a possível regeneração de tudo. Dia de toda a claridade feito,
Sombra vegetal dos rios, alvura das manhãs e prado santo.
Eis Perséphone, a que sempre regressa com o peito em fogo
a acender a clareira do céu. A que se abre em flor e dádiva
à Terra-Mater e às suas irmãs, as de grinaldas de silvestres rebentos,
cujo olhar rompe a fria treva.
O Sol lava-lhe o rosto e a lua a cobre do manto
cintilante de estrelas, sobre o seu corpo nu.
Ó Nut! Ó noite! Ó lua ardente!
De todas as mães, filhas e de todas as filhas, Mãe!
Vem cobrir de chamas sagradas o vasto corpo da Terra,
Semear de cores vibrantes os canteiros próximos e distantes.
Vem florir de palavras o caminho que te trouxe para cima
Para o alto de toda a fundura. Caminho de toda a Passagem;
Ovo de toda a regeneração, escuridão de toda a profunda morte.
Vem! Ó grácil e ágil deusa descalça! Trazes na mão
o Ovo Sagrado e a teus pés a terra, aberta em flor, germina
Germina o Amor, e a dor vem, coroada da Alegria do Regresso!
Vem, de todas as noites, noite Sagrada, de todos os Dias, claros Dias!
Vem! Ó Para-sempre-nascida da flor branca da Lua, do raio puro do Sol.
António Saias:
A Matéria do Poeta
.
diz-se do poeta que é um sonhador.
Erro erro – repito
o poeta não é um sonhador
porque é ele próprio
matéria do seu próprio sonho
.
poeta é sonho como cadeira ou mesa
ou cama são madeira como chuva é água
como trovoada é relâmpago e trovão.
.
pode pedir-se a um carpinteiro
que sonhe uma cadeira
uma mesa uma cama um canapé
não pode é pedir-se a um pinheiro
a um cedro do Líbano
a um eucalipto que sonhem ser madeira
.
eles já o são
quer dizer: são vésperas de madeira
antevésperas de cama de canapé cadeira.
.
ninguém espere portanto
de um poeta que ele sonhe
.
como do desenho de um melro
que ele cante
Cláudia Martins:
Sou semente
Sou semente do Tempo, em que o tempo e o espaço não existiam
Tudo o que foi, é e será, era apenas ideia concebida
Na mente do Eterno, aguardando sabiamente a grande Alquimia
Trago em mim centelha desse Universo pensado,
Que com o Som Primordial foi criado,
E neste materno útero cósmico acalentado,
Sou semente do passado e do futuro,
Vivendo o presente neste Mundo
Cumprindo o Eu, meu propósito mais profundo
Sou pó das estrelas, no continuum da Vida
Sou planta, animal e mineral, sou a noite e o dia
E acordo em cada instante, essa memória trazida
Olho o Céu dos Anciãos e a Terra, dos meus Irmãos
Saboreio a dádiva da Vida, em cada hora sorvida
Inspiro o Sopro Vital, expiro a transmutação do Mal
Abraço o Diferente, o que me falta, o que me torna mais Consciente
Escuto o Som da minha Essência e alcanço a Transcendência
Lanço sementes ao vento, como um dente de leão,
Em cada Pensamento, em cada Sentimento, em cada Acção
Sou semente de Ti, de Mim, sou intemporal semente da Vida!
Cláudia Martins, 2022-04-16 – Herdade do Freixo do Meio
II Sessão de Poesia nos Bosques
4/9/2022
Cassandra:
Fundo dos tempos
Venho do fundo dos tempos
Onde não há bem nem mal
A somar escolhas e ventos
Tornei-me, eu, desigual
Há males que vêm por bem
Há bens que vêm por mal
A eternidade tem
Sempre de dar o aval?
O que aflora desta espuma
Dança do tempo e do espaco?
Serei várias ou só uma
Conquistada passo a passo?
Queria ser árvore grande
Fugir da loucura humana
Erguer drupa, baga ou glande
Onde o cheiro a terra emana
Mas se em épocas remotas
Se pagava com a vida
Não tocar as mesmas notas
Que a divindade temida
Também quero ser quem sou
Libertando-me de enleios
Sentir bem o que alcançou
Quem ousou quebrar os freios
Vou para o fundo dos tempos
Onde não há mal nem bem
Semear escolhas e ventos
Junto o teu amor também!
2022-07-20
Aos abismos
A verde exuberância
Ditada por fototropismo
Desvanece a importância
Das profundezas de abismo
Ao abismo da prisão
Fechada num gabinete
Tomei, eu, a decisão
De escapar como um ginete
Ao abismo da razão
Quando nada faz sentido
Eu, pássaro, por evasão
Vou cantar ao teu ouvido
Ao abismo temporal
Onde tudo vem e passa
Semeio, broto, eu rural
Erguendo os ramos em taça
(2022-08-25)
Triângulo mágico
No mais antigo montado
Que me foi dado conhecer
Todo o tempo, se é contado
Perde-se em cada ser
Cada árvore é gigante
Fazendo de nós petizes
Com memória de elefante
Presa a profundas raízes
Como árvores tão imensas
Sobraram de tantas guerras?
Entre rochedos e crenças
Protecções de outras Eras?
Entrando nessas entranhas
Afastados de ignorâncias
Nascem sensações estranhas
Libertas de medo e ânsias
Nasce ânimo ao caminhar
Em rochedo rumo ao cume
Onde nos vamos aninhar
Fenix’s, depois do lume
Lesto subiste ao cimo
Como tão bem sabes fazer
Ar de menino que estimo
Sei que o fazes por prazer
Entre o Divor e a Valeira
Terra de deuses antigos
Fica, Amor, à minha beira
Longe da guerra e perigos
2022-06-01
Tecendo sebes
Tecelão tece a teia
Como aranha tecedeira
Tecer a vida é maneira
De a sentir muito cheia
Se é tecido faz sentido
Se é sentido é bem tecido
2022-03-24
Maria Sarmento
As árvores são a forma aérea do vento.
Somos a árvore, o vento, a folhagem
e o espaço infinito entre eles
A sua luz e a sua sombra
Somos uma estrela arrefecida
em grão de terra escura
Florimos de ser.
As folhas escurecem cedo o ar de prata cinza dos céus. Dão ao outono um rio de sombras de asas. Bebem dos dias, em golos suaves, as fontes murmurantes. De nostalgia cantam as doces águas. Escutam o vento as pontes e os arcos de infinitas arcadas. Anunciação da chuva ao rés da face, ao rés da erva rasa. Sustenta o ar um tremor de asas velozes. Passam, de incêndio rosa, as leves nuvens. Tão rara a brisa que visita as sementes! Saudir das vozes que o outono exala. Respiram as barcas a brancura das marés. O orvalho é flor que atravessa o silêncio. Respiração da água.
Eis que nos chega à janela da alma
O aroma azul dos sentidos
O amplo espelho do céu
O perfume da luz.
O mistério da terra revolvida
A semente do que é natural e justo e certo.
A imensa janela da planície
A mostrar o horizonte inteiro.
A curva da Terra a abraçar a cintura do dia!
Fátima Remédios
Alcatruz
Às vezes pasma-se a gente
Que te olha de soslaio
Em lento passo dolente
Sem lembrar da luz o raio...
Não queiras mundo doente
Mas sim o alegre gaio
O caminho é sempre em frente
Não tarda é o mês de Maio!
Fértil terreno apurado
Boa chispa que reluz
Expande a fé e o fado
Desperta a força alcatruz.
1. Ad Vento I
Que vento é este que soa?
Gélidos tons invernais
O troar agreste ecoa
Em bramidos guturais.
Vendavais trazem estrago?
Nesse caminho onde vais
De Bóreas, sente o afago
O sopro dos magistrais.
Vendados estão os destinos
A vós, Oh! comuns mortais
Velados por peregrinos
De templos esculturais.
Nesse lamento ululante
Que percorre os matagais
Oiço o anseio distante
Dos amores desiguais.
Inquieto pensar gerando
De estórias, dantes fatais
Secretamente evocando
Contos findos, temporais.
Ilusão perturbadora
Ao lembrar sentidos ais
Era o tempo da lavoura
Essa história, nunca mais!
Não sei dizer se era moura
Ou se erguiam catedrais
Era o tempo da peloura
Mas esse final, jamais!
Quem se deu assim inteiro
Qual de nós amou demais?
Ao ceder, o verdadeiro
Ouviu o Filho esses Pais?
Ainda que o peito doa
Que não se esqueça do cais
Alma que é grande perdoa
E por sofrer, não temais!
Sagradas eram chegadas
Outras núpcias se farão
Essas ninfas tão amadas
Os seus ventos acharão.
Basta já do triste fado
E de encantos sem perdão
No presente anunciado
A cada par, seu condão.
Que vento este que sopra?
Por desígnio divinal
É sua a obra, se cumpra!
Assim se fez Portugal.
Natural
(o tema da luminescência das árvores no lusco-fusco foi mencionado durante a manhã, perto da hora do erguer do menir, pela Cassandra. Achei fantástica a sintonia!)
O que é a Natureza,
Se tudo pode abarcar?
Com franqueza, lembrareis
A saudade de um lugar?
Reconheceis, em verdade
Que o céu espelha o mar?
No lusco-fusco encantado
Na copa daquele arbusto
Há um manto prateado
Feito de sonho, orvalhado
Tocá-lo, será pecado?
Como a curva do teu busto.
E a natureza do homem
Um doar com tal mestria
Que cinzel a apurou?
E a tristeza tamanha
Que, de antiga, não se estranha
Quem será que a pintou?
Haverá no rir fraqueza?
Ou suma sabedoria?
No despir, tal sinfonia
Digno só, de realeza
Do vinho e do pão na mesa
E do criado que cria.
E o que há então em mim?
Pedaço do universo
Ou este dizer em verso
Na pedra que atiro ao charco
Disperso o medo que abarco
Quero ir até ao fim!
Viagem
ou
Eu
Vindo do nada, pelo vento gerado
Acorre um pensamento, será meu?
A cada invento novo e inspirado
Por quem foi dado, que o fogo o prometeu?
Assim também, além, naquele dia
Brilhante me pareceu e mão à obra
E mal pensava eu que se seguia
Inferno e céu, a voz e dom da cobra.
Relatos similares, são sobejos
E tantos desses beijos que existiram,
Outros poetas cantaram, os ensejos
O que, de olhos fechados, assim viram.
Tais olhos, sim, fechados, que são frestas
Caminhos de giestas a crescer
Cimeiro, aqui, amanhecer em festa
E o amor primeiro pelo ser.
Houve tambores, o som primordial
E dos horrores, que o vento levou
A mão, em tom cadente, magistral
As dores, e os rancores, aparou.
Encontrei a vilã, a maltratada,
A fera dos primórdios, exigente
A criatura chã, justificada
Para se ver, de Si, um diferente.
E distingui também o riso leve
Estrada breve da suma salvação
E a força motriz, ousada neve
Do mais sacro lugar, libertação.
Ali eu fui só uma e tantos mais
Em movimentos mil extasiada
Aqui não há dizer daqueles ais
Fui por demais, inteira e não fui nada.
Sentir-me assim sem forças, esvaída
Se agora canto e sei da comunhão
Não há valor maior do que o da vida
Sarou a ferida e vivo em gratidão.
Mara Rosa:
Alentejo, o meu (Revisitado)
No Alentejo o tempo é azul,
Azul-ultramarino e tem chagas de morte,
De fugas, fendas e abismos
No Alentejo o tempo queima e abre
Acidulento um botão de laranjeira
No Alentejo a acidez é apenas o primeiro estágio
da doçura, a laranja da guerra que se desfaz
Suculenta entre os dedos
Da guerra do esquecimento, dos barros
planos e áridos e vermelhos
Dessa guerra que rega com espera a boca
da saudade onde uma papoila efémera e vulcânica
desabrocha num asfalto derretido pelo sol
No Alentejo chacinam-se os pardais
entre oliveiras transgénicas, plastificadas,
e musealizam-se oliveiras centenárias
No Alentejo limpa-se o cu com eucaliptais
E (holy gringo!) louva-se o turismo.
Ah, que saudades dos campos de girassóis,
onde voávamos e comíamos sementes, e terra.
Críamos então na justiça, e na inocência, do mundo.
De ouro é o esquecimento sobre o ultramar que
sangra nos alvos rodapés caiados de Alentejo!
III Sessão de Poesia nos Bosques
10/12/2022
Cassandra:
Título: Metáfora ao Amor, em lua e mar, eterno
No Alentejo de Vagar
Amo-te! Tu, metáfora do concreto
Como se a amar a lua e o mar
Pudesse ascender ao saber secreto
De não prender marés, nem raios de luar
Mesmo consubstanciada e inundada
Na mesma luz, fluindo, na mesma água
Onde o infinito conduz tudo ou nada
Esta fusão é minha, e tua, trago-a!
As estrelas a despejarão na rua
Porque o espanto é o lugar de amar
Não é claro, nem verdade nua e crua
O condão vem subtil, sabe nos acalmar
Devolvendo ao luar a luz que é sua
E nós, líquidos somos, de volta ao mar
12/2022
Ser fungo, rede tecida do micélio, da Terra, entre raízes, responsável do retorno, em toda a parte.
Título: Ser fungo
Busco a libertação
Não ganhar nem derrotar
Viver os dias em gestação
Num ventre a transmutar
Voltar ao solo ao lugar
Onde vim de entre estrelas
Eu! .como ser a convocar
Eu! que imagino tê-las
Ter todos os seres do mundo
Sem possuir mesmo nenhum
Estar em cima ou bem no fundo
Irmanada unida, um!
12/2022
Pedra do início
Toda a pedra é a imagem
Que o vagar tudo pode
Parece até que não agem
Mas são para a terra o molde
Nenhum fim a vai parar
Os extremos dão-lhe morada
Do inferno, magma a jorrar
À fé, montanha sagrada
Mesmo que nada a detenha
E se todo o mundo a tem
É na flora, de água prenha
Que tem o seu maior bem
Na superfície vibrante
Da pele da terra aflora
De amor, fecundo, amante
Gera seres que adora
Do musgo até à sequóia
Entre a pedra vão irromper
Qual um cavalo de Tróia
Nada os poderá deter
Não se engane quem pensar
Que resulta sofrimento
Quando se for pulverizar
Vai dar à terra alimento
Pois, pedra, venha a mudança !
Roda a Terra e os seus seres
Eu e tu estamos na dança
Deixa fluir, basta SERES!
(07/04/2022)
Primatas da humanidade
A floresta nos foi legar
Mãos para prender aos ramos
Com o oponível polegar
Damos, amamos, matamos
Da floresta veio vontade
De nos dar olhos frontais
A medir profundidade
A admirar ou ser letais
A floresta moldou braços
Para ramos entrelaçar
Pudemos unir, criar laços
A ninar, ou a maçar
Da floresta e p'ra além dela
Conquistámos toda a Terra!
Longe zela o prédio-cela
Estrangulando como a hera
Procura-se a quimera!!! Nesta Era
2022-10-28
IV Sessão de Poesia nos Bosques
25/3/2023
Maria Sarmento
Dobrado sobre a folha branca, o poeta repousa as mãos e a cabeça
Tacteia a água, busca pérolas, areia e alguma flor de sal.O poeta abisma-se de não haver ali nada de tanto ali poder haver
E ser o que lá não está.
Mergulha mais fundo
O poeta, agora, é um peixe vermelho
uma barbatana de luz veloz
Baixam sobre os seus olhos nuvens e sinais
Constelações perdidas no silêncio das letras
Que se cruzam devagar com o infinito correr dos rios
que a sua mão navega.
Cristais de uma galáxia de pontos de luz
Para coroar um céu de vias-lácteas.
Um caçador vertiginoso cai na fundura de um lago
O poeta sobressalta-se, mergulha mais fundo, ainda
E traz nas mãos de verde água uma fonte para nascer
Uma fonte de onde se veja o mundo
e todas as vidas que lá estão e não estão
Como pontos no espaço
Coordenadas de uma geografia de transparências e de sinais
Clepsidras de vento.
O poeta engole o ar entre as palavras
para poder voar acima delas
Das árvores das palavras.
*
Nossa Mãe, que estais na Terra
E que sorris na pequena flor amarela
no sopro alto da montanha
No verde prado da nossa vida No campo devastado e deserto
No simples gesto de gratidão
Na sombra esguia da árvore grande… Dai-nos a graça de sermos como tu:
Um fundo vale, uma montanha longe
Uma Saudade, uma vontade, um ser
Coroado de Milagre de fazer e de Acontecer.
Amém!
Isolina:
Título: UNIVERSIDADE
De cursos e percursos
De abraços e cansaços
De alegrias e razias
De séculos de história
De esquecimentos e memórias
De ruídos e silêncios
De aparências e demências
De passos perdidos
De passos encontrados…
A vida continua…
Dos claustros a grande rua
Que já foi minha e já foi tua
Que continua nua, em cada um que a veste
Cada escolha é uma prece
Um caminho, uma jornada
Em cada terminar uma alvorada
Um fim e um começo
Situada em cada tempo
Para uns de encantamento e sonho
Para outros, tristonho.
Mas para todos…Passa…Passa…
A Universidade fica, ficou, e vai ficando…
Através dos séculos, longe do olhar de quem a fez nascer.
Presente em cada ser
Dos que estendem a mão, e dos que a dão…
Porque ser professor é uma missão
Transversal ao tempo e à instituição. ( Julho de 2018, isolina lages)
Título: Leva-me ao colo Amor… ( 3ª Versão)
Leva-me ao colo Amor...
Não nos braços que todos abraçam
Mas no olhar cintilante com que me olhas…
Senta-me num dos teus ouvidos...
Não nos ouvidos que tudo ouvem
Mas nos ouvidos que escutam o que nem sempre sei dizer…
Deixa-me brincar com o marteio , a bigorna e o estribo…
Não para passar o tempo
Mas para te encantar…
E de vez em quando fazer música para ti…
Não por saber de música
Mas porque a Natureza me inspira…
Depois quando já não ouvires nada porque eu adormeci…
Não de cansaço!
Mas porque o sono permite um sonho mais vasto…
Traz-me de novo ao colo...
Para uma nova caminhada
Para me redescobrir noutra alvorada..
Para eu sonhar a eternidade…
Para saber quem és e saber de mim
Sem ter princípio, nem ter fim…
11.06.2018
Cassandra:
Vogar no maior rio
A raiz resiste
O vento põe-na à prova
Cria força insiste
Ou parte à aventura!
Risca o manto de água nova
Errante lonjura
Porventura em trova?
Barlavento, sotavento...
Só vento a renova
Sonho-ar e alimento
Água, mastro, cabos, vela,
Tudo move o vento
Rio Amazonas, Outubro 2022
2022-11-12
Rainha sumaumeira em tempestade de lua cheia
Tempestade amazónica
Relâmpagos e trovoada
Com a lua hegemónica
Água jorra abençoada
O vento traz sussurrada
Das folhas toda expressão
Lua redonda velada
Noite de revelação
Pela floresta, pirilampos
Luzentes, intermitentes
Guiaram-nos rumo aos mantos
Das árvores, reverentes
À mafumeira é rainha
Foi na mata adorada
Entre a semente fofinha
E o cheiro a terra molhada
A glória das catedrais
E a sua complexidade
Caiem dos seus pedestais
Por estas árvores de idade
Catedrais dos seus sentidos
No odor quente a floresta
Urucum, frutos garridos
Cipós, texturas em festa
Este verde dominante
Resistente à enxurrada
É a paixão, é amante
Com a lua desnudada
2022-12-05
Janela de fada
Tudo morre a cada instante
Fénix de cinzas que voa
Centelha purificante
Que à alma toda se doa
Eu gosto que assim seja
Evito ser fogo-fátuo
Haja vagar que sobeja
De todo o instante que mato
Ajeito com o coração
É o meu fio de prumo
O peso, a recordação
Das experiências que arrumo
Venha o vagar ajudar
A minha longa missão
De vencer sem derrotar
Nem pregar qualquer lição
2022-12-15
A vida é incerta e curta
Mas nós podemos honrá-la
Busca aromas! Flor da murta!
Do instante é que se fala!
3/2023
V Sessão de Poesia nos Bosques
2/7/2023
Cassandra:
Pó de argila minha
Se busco no fundo deste mistério
Em mim continuamente a roer
Desfeita sou, matéria, pronta a moer
Espraiada na pedra em piso térreo
Se fujo à dureza do gume férreo
Embora saiba que é para doer
Mesmo esgrimindo o céu para o colher
É puro que se resgata ao império!
É porque o meu fim é gostar de viver
É porque da revolta ergo Paz
A terra que me sabe antever
Pede-me: mostra-me do que és capaz!
Irei sempre tentar me reaver
Da força das ondas que este mar traz
Este moer de grão até ser pó
Não serve a fazer comigo farinha
Mas solo de uma argila minha
Não vem daí tormenta de ter dó
Por isso me entrego a essa mó
Perseguindo vida, oculta, linha
Devoro-a, como "A raposa e a vinha"
E faminta, olhando o górdio nó
Não é a terra fértil, leve e boa
A sinfonia de toda a floresta?
Dá chão, dá verbo, dá vida que soa!
A substância que quero ser é esta!
Onde a água pura se filtra e coa
Sangue que a fluir se manifesta
Se cavo fundo à procura de Ser
É para te encontrar, a ti, Amor
A águia que voa colora a dor
E segue pó de estrelas, por merecer
Se todo o instante que vai perecer
Vem atrás de outro no seu novo alvor
Ergue castelos de um rubro fulgor
Irá, no remanso, outro ser nascer
É de pó de argila que se constrói
Casa moldada em abraço tão rica!
Que renasça, aqui, quando se destrói!
Que o pó embarcado, alma se fica
De água esmeralda de azenha que mói
Seja o Amor de que não se abdica!
2023-04-22
Título: Ataegina renascida
O dia acordou florido
Ameixeira, amendoeira
Flores e abelhas, zumbido
Néctar do polén, poeira
Promessa de estar contigo
Cálice de mel, Graal da flor
De amado ou de amigo
A essência de todo o amor
Ninguém fica indiferente
Voa alto o pensamento
Borboleta feita gente
Vem, mágica, ao chamamento
Tão leve e tão contente
Por estar tudo a despertar
Tu fluis nesta corrente
No abraço que te apertar
3/2023
Título: Verbo, Canto primeiro
Hoje queria gritar aos quatro ventos
Em olhar presente, em olhar futuro
Que consigo achar todos os alentos!
Saboreando o momento, fruto maduro
Palmilhando o sentir por caminhos lentos
Pois pulei para trás do velho muro
Onde alimentos se oferecem aos atentos
Que espreitam o mundo, velado obscuro
Revelam, incerta a quase certeza
De que nós vivemos bem com tão pouco
Todos juntos em redor da mesma mesa
Vem canto tão cristalino quanto rouco!
Esta chama foi por todos nós acesa!
Num sonho ancestral cruzado e louco…
3/2023
A insustentável beleza do Ser
Nesta abertura a mim
Onde tu cabes tão bem
Domestiquei-me por fim
Sou mais selvagem também
Cada canto do teu corpo
Canta cá, na minha alma
Sabendo que a cada sopro
Do frenesim nasce a calma
Cativaste como ninguém
Um ser vítreo feito a fogo
Cativa, mas não refém
Do universo onde vogo
Prendeste sem me prender
Porque ambos bem sabemos
À liberdade render
O espaço onde cabemos
17-05-2023
Maria Sarmento
(Texto lido por Manuel Calado)
Aos AMIGOS
(À memória de Luís Carmelo e na “passagem” de Margarida Morgado)
Os candeeiros tinham janelas quando o céu se abria em arcos de muitas cores a girar em múltiplos sentidos.
Era decerto Verão. Os olhos dos gatos lambiam o coração da noite. E os corpos eram cortinas que oscilavam ao vento dos ramos altos e dos poemas.
As paisagens atravessavam os olhos de todos os dias, de todas as noites, de todos os impossíveis. Dançávamos e riamos muito alto contra os muros. Éramos jovens atados uns aos outros à cintura dos dias e das noites que se abriam em astros e giravam no tapete que não havia na sala. Éramos invencíveis e não tínhamos medo. Todas as gerações dos ousados, dos poetas e dos profetas dormiam connosco na cama larga da imaginação.
A revolução era nossa filha e bebia-se em chás e álcool pela noite dentro. A noite ficava a olhar-nos de olhos muito abertos.
Acreditávamos que a cidade tinha labirintos subterrâneos que iam dar ao centro de todas as praças em labaredas.
E ninguém morria. Nunca morríamos no caminho. A estrada do poema nunca terminava num ponto exacto. Não havia ponto exacto nas praças de todas as metrópoles que percorríamos.
O uivo de Ginsberg era a nossa fala comum. “Eu vi as melhores mentes da minha geração…” E Sartre nunca parava de morrer.
Germinávamos flores e corpos e músculos muito antes das cidades se afundarem e dos rios secarem nos leitos de plásticos e imundície. Abraçávamos todas as árvores dos jardins de Lisboa, de Paris e do mundo. Lembras-te? … A natureza ainda não definhava nas aguarelas do Quartier Latin, do ‘Dam e do Café Portugal.
Os pés percorriam caminhos surreais dentro das solas e dos cafés. Maria Lisboa continuava a desfiar o seu/nosso Erro Próprio, o seu “Rêve Oublié” “Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas/neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim/nesta minha mania de te dar o que tu gostas/e depois de/e esquecer-me irremediavelmente de ti”.
Éramos dos canteiros das palavras, e do Jazz da loucura, e dos ritmos velozes, antes das guerras serem do nosso tempo. Lembras-te?... Éramos imortais e amorais nos relógios suspensos e morávamos nos olhos abertos das mulheres seminuas e geladas dos caminhos-de-ferro de Delvaux.
Éramos de Guernica para nunca mais. E dançávamos nus nas carpetes vermelhas das salas de espelhos. Nascíamos continuamente na nossa geração. Éramos poderosamente fiéis às coisas que nasciam sem cessar na nossa imaginação.
Nesse tempo, ninguém morria. Era impossível interromper o fluxo de um carrossel a transbordar de vida. Vivíamos os bosques no centro das cidades. Éramos vertiginosos e loucos com muitas almas dentro de uma alma grande, de um sonho grande, de uma vida grande. Acontecíamos como a luz e não havia anoitecer mais claro do que o brilho dos cabelos deitados e adormecidos. E não havia memória nem história.
Éramos só nós.
Maria Sarmento
(Escrito em 15-05-2023. Rectificado e acrescentado em 28-05 do mesmo ano e mês.)
Cláudia Martins
Sentidos
Schiu… sente o Sussurro suave da Brisa
Escuta… embala em ti a melodia da Vida
Beija… bebe o néctar do Sol, saboreia
Olha, Observa a Obra Divina que te rodeia
Toca, tacteia o tronco rugoso das árvores
E de tudo o que é a Vida, enche-te das suas cores!
Cláudia Martins, Freixo do Meio – 2023.03.25 (para ser escutado de olhos fechados :))
VI Sessão de Poesia nos Bosques, 8/10/2023
Tema: Abundância
Cassandra:
A abundância é felina
Caça as estrelas no céu
Vê muito p'ra além do véu
Avança feita menina
A abundância é menina
Brinca na espuma das ondas
Ondulantes anacondas
É toda a mãe a nina
A abundância é mãe que nina
Nos seus braços cabe o mar
Nú manto a confiar
Onde baila a ondina
Abundância é ondina
Ser quimérico irreal
Musa oculta do ideal
Guardiã da pedra fina
Abundância é pedra fina
Do solo que dá o fruto
É tudo por o que luto
Vale mais que ouro de mina
Pedra fina da ondina
Safra de um chão astuto
Mãe que nina a menina
Cuidando do seu reduto
É a sina da felina!
A abundância é seu fruto
Se começa, se termina...
Germina!!!
A abundância já a tenho
É tudo no meu entorno!
Colorido é o desenho
Quente o pote no forno
A abundância é uma arte
A lidar com desperdício
Tanto chega como parte
Pode voltar ao início
Sem um coração propício...
A abundância é um sentir
É no repartir que vence
Dando riqueza ao devir
Tempo que a ninguém pertence
Palavra que é, sem mentir...
Simples, é boa abundância!
Mesmo com pouco engenho
Se é sentida dance-a!
A abundância já a tenho…
5/10/2023
A abundância existe
Sem plenitude?
Resfolham, ondulantes, árvores
Hierofantes da eternidade
Oiço!
Alegre e triste
Que atitude?
Lonjura e altitude
Que direcção terá um fim
Partindo do centro, de mim?
Sou esboço...
E esforço
Num vai e vem sem idade
Em eterna saudade
Cosmos por dispersar
Onde a semente medra
Junto da pedra
Vou te amar
Se confiar...
Procuro estrelas para conversar
De mim...
De todos
Poder olhá-las uma a uma
Que são, do infinito, a espuma
Tantas que não consigo contar
Mas devia lhes contar, segredos
Degredos
Engodos
Lodos
Levem-me inteira!
Para me ninar ao deitar
Eu gigante à minha maneira
Tenho tudo à minha beira!
E medos...
A rodos...
Mas vou olhar!
Antes de me entregar
Entrando no mar...
De frente...
Ninguém mente!
Abundância de céu e terra
Cabe lá a guerra?
Se o mundo é finito...
O vento que ressoa nas folhas tem dito:
Cresçamos!
Sim! Cresçam folhas, cresça ar
Cresçamos bem dentro!
Onde nos possamos encontrar
Sem ver noutro o inimigo!
Tirando o Homem do centro
Podes contar comigo!
Sem amos
Vamos!
Na suavidade do gamo
Vencida pelo lobo
Nenhum caiu no lodo...!
Amor, como amo
As duas partes do todo!
10/2023
Cláudia Martins
Gratidão
Pedra Erguida para o Céu,
Vontade do Homem feito Deus
Pedra pródiga de regresso a Casa
No auspício momento, em que o Sol a Lua abraça
Regressa o saber dos Antigos,
Dão as mãos os Amigos
E no nosso Eu mais profundo
Renova-se a esperança no Mundo
Celebra-se a Vida, nutrindo o solo com lágrimas de Alegria
E a sábia Azinheira, de braços abertos ternamente sorria
E o Futuro aguarda-nos, com novos Caminhos
Obrigada ao Céu, à Terra, obrigada meus Amigos
Cláudia Martins - 08.10.2023 – Montado do Freixo do Meio
Fátima:
Para a minha família e amigos,
Um dia muito feliz!
Obrigada a todos!
Quero dar-te, quero dar-te um terno abraço
O mais terno, o mais terno que eu puder
E manter-te, e manter-te no regaço
Como flor que por ti eu vi nascer.
Quero dar-te, e buscar-te no meu braço
E brindar-te este versejar de espuma
E dizer, e dizer sem embaraço
Do orvalho, da beleza, pela bruma.
Quero dar-te, quero dar-te esta frescura
De colher da alvorada o malmequer
E dizer-te, e dizer-te com voz pura
Quero amar-te, quero amar-te com ternura
Como o faz qualquer peito de mulher.
Nos pedacinhos da Deusa
Nobre Natureza espanta
Há retalhos de beleza
E destreza, tanta, tanta.
Pelos caminhos da Deusa
A fraqueza se quebranta
No rosto o rio, fortaleza
Que a si mesmo se suplanta.
Nesses caminhos da Deusa
Em que a alma se agiganta
O pão de novo na mesa
E o povo que se levanta.
Nos pergaminhos da Deusa
Onde a história se escreve
Nada lhe deve a franqueza
Feitos só de pura neve.
E toda a luz que é secreta
Indiscreta não destoa
E toda a obra é completa
E toda a hora é tão boa.
♡
A bolota traiçoeira
Roda e no chão se rebola
Quer ela ser a primeira
A chegar de novo à escola?
A bolota mensageira
E no coração já rola
Com um tom de brincadeira
Já te ponho na sacola
A promessa verdadeira
Não destoa nem amola
A bolota é pioneira
Oh luz boa
Abunda a …
Isolina:
Título: ABUNDÂNCIA
Abundância é um tema
Para escrever, um desafio
Neste tempo encontra chama
Rima com fio a pavio
Abundância todos queremos
Na nossa vida encontrar
Venha do sol ou da chuva
Venha no vento ou luar
Abundância no amor
Quem a não quer encontrar
Ela aí tudo transforma
Ilumina o nosso olhar
A abundância é sagrada
Na sua manifestação
Tudo dá e tudo tira
Para tudo há uma razão.
A abundância deste espaço
Do seu mentor inspirada
Tudo o que aqui acontece
Seja vida abençoada.
8.10.2023, isolina lages
Título : Freixo do Meio
O freixo do meio é monte
Monte no meio do montado
Um lugar encantador
Pelo seu Senhor amado
Azinheiras e sobreiros
São uma perfeita união
Guardam vidas distantes
Só eles sabem quais são
A Natureza divina
Está presente em cada olhar
Mas neste lugar sagrado
Ouvem-se espíritos cantar
O montado é um mistério
À vista de toda a gente
Para o poder descobrir
É preciso ser um crente
Demos graças ao momento
Hoje e sempre com razão
Saudações aos presentes
Grata ao seu anfitrião.
8.010.2023, isolina lages
VII Sessão de Poesia nos Bosques
7/1/2024
Cassandra:
Título: Décimas à lua cheia aureolada da noite.
Somos todos tão, tão, frágeis!
De vidro, de tela fina
Sem saber a nossa sina
Pesados, caindo ágeis
De asas inexoráveis
No cimo de uma quimera
Voando do céu p'ra Terra
Quando o castigo apraz
Quantas vezes satisfaz
Amar a paz e a guerra
Onde está a tua magia?
Lua que terás os mares
Das marés que navegares
Cheia, redonda, macia
Tão forte se evidencia
Essa corrente que dás
Rega, da água que traz...
Mas o coração só treme
Nem sempre segura o leme
Pulsando em guerra e paz
Verdes ficam estes campos
Regados do teu olhar
Um mundo a abrolhar
Doces vão os figos lampos
Luzentes os pirilampos
Na planície ou na serra
É a vida que próspera
Dizendo a toda a gente:
De cuidar bem da semente
Vive o homem nesta terra!
Somos todos tão, tão, fortes!
Aguentando o que é vil
De homens de triste perfil
No meio de tantos desnortes
Entre vidas, entre mortes
O que nos tornou assim?
A eles, como a mim?
A competição sem tréguas?
Procurar nas sete Léguas?
Com o mal e o bem que faz...
Amar a paz e a guerra
Pulsando em guerra e paz
Vive o homem nesta terra
Com o mal e o bem que faz…
28-10-2023
As palavras uma a uma
Poderiam me exprimir
Saco-as por entre a bruma
Mas não querem emergir
Tirá-las do esconderijo
É trazer-me sentimento
Nada mais de mim exijo
Que abrir o peito ao vento
Tenho vida tenho morte
Tenho um circo de guerra
Ando no fio da sorte
Ou na lâmina da fera
Somos todos encobertos
Senda de Sebastião
A caminho de desertos
Ou de qualquer rendição
Entre brumas, vento e terra
A pedra fica coesa
Âmago de átomo à espera
Da eterna chama acesa
O escultor tem a paixão
Torna tudo diferente
Importa o coração
Aprender a fazer frente
Palavras a burilar
A escultura que sou eu
Entre o sol a raiar
E a escuridão de breu
Nova árvore já nasceu...
2023/12
Título: Décimas ao Manuel Calado
Cruzei-me, foi o destino
Com o teu ser singular
Faz pensar este caminho
Luz na terra, água e ar
Poderia não ter sido
O meu ser a arriscar
Neste mundo a brincar
Com um tão sério sentido
Neste sentir ter cedido
Cada um ao seu cantinho
Não querer outro destino
Na sua paz de menino
Com tanto para aprender
Desde o nascer ao morrer
Cruzei-me, foi o destino
O que me diz cada passo
Caminhando sem cessar?
Interessa é parar
Na doçura de um regaço
Alma com que me enlaço
A crescer e partilhar
No meu coração morar
Com luz que me ilumina
Fui me encontrar, eu, menina
Com o teu ser singular
Gostamos de liberdade
De viver a aprender
Uma calma de viver
Talvez ganha com a idade
Espírito que se evade
Sublimado num cadinho
Tem desejo, tem carinho
Desalinho e empatia
Distância, telepatia
Faz pensar este caminho
Sem perder e sem ganhar
A paisagem é sorvida
Enebriante bebida
Onde vamos mergulhar
Tem espinhos para arranhar
Estrelinha a nos guiar
Sem fiar nem enlear
Perto, sem te prender
Pois eu quero conhecer
Luz na terra, água e ar
2023-12-27
Título: Tempo Ser
Cada ano passa em mim
Como se ontem começasse
Estou no início ou no fim?
Uno as pontas num enlace...
De mala sempre aviada
Como todo o saltimbanco
Não conheço a jornada
Pinto uma página em branco
Peço só um pouco mais
De tempo para viver
Sob o céu dos animais
Ser é o único dever!
Ser-se toda, plenitude!
Igual entre outros seres
Ser árvore na atitude
Dá chão ao mundo que leres
Voando sem te perderes
Veres...
2024-01-0
Maria Sarmento
1.
Renascer!
Da sombra sair
a luz una
que há-de cumprir
o círculo perfeito.
Da esfera do império
matéria mais subtil.
2.
Brindemos ao Sol
antes que a lua espalhe
a prata dos seus verso
no espelho da noite.
A clara sílaba do vento
no teu ventre,
Terra
o sopro de um Deus que se reparte.
3.
De palavras, sim!
Que o vento espalhe
O que a alma reuniu.
Pegadas na neve
Estrume de silêncio.
Renascer nos bosques
(Em dedicatória a Manuel Calado e Cassandra Querido)
Se renascer e morrer
São coisas do mesmo dar
Qual a razão de viver
Sem bosques para semear?
Semear e não colher
Não me parece acertado
É o mesmo que morder
O ar sem ser “cultivado”.
Semeias bosques de flores
De malmequeres e jasmim
Lembras bem os teus amores
Só não te lembras de mim.
O bosque dá o que tem
À mão que o faz brotar
Tu tens no sonho o teu bem
Que mais podes desejar?
Se vires a árvore com sede
Dá-lhe água da tua fonte
Dá-te a sombra, olhai e vede
A fonte brota de onde?
Da raiz do teu cantar
Fiz um bosque de romãs
Amor que sabes brindar
Não brindes a coisas vãs.
Vede bem o que eu vos digo
Da cidade brota o medo
É na paz do bosque antigo
Que tu dormes em sossego.
António Saias:
GOSTO DAS PALAVRAS
gosto das palavras vivas
observá-las nas suas corridinhas
libertá-las
dos carris em que eram obrigadas a correr
em papel de uma
ou mesmo duas linhas
brincar com elas
pegá-las pelas costas
na cabeça
junto das antenas
como se fossem lavagantes
ou lagostas
ou formas outras de vida
mais pequenas
gosto das palavras vivas
sem conotações semânticas
sejam elas gigantes elefantes
ou minúsculas formigas
todas as palavras para mim são
vivas
e românticas
….
Quadras que integraram os cantos das Janeiras:
FREIXO do MEIO teve gente
há bem mais de 6 mil anos
inda hoje é frequente
ver seus vestígios arcanos
fulanas teve e fulanos
e bébés naturalmente
há bem mais de 6 mil anos
Freixo-do Meio teve gente
antas - dolmenes presentes
como antigas sepulturas
são provas que teve gente
Freixo do Meio assegura
Isolina Lages:
Neste dia de poesia,
Em que o fogo
É chama ardente
Neste local preparado
É bom estar, por entre a gente.
O fogo que nos reune
É em si um chamamento
Podemos chamar sagrado
Elevação do momento
Seja o fogo, fogo posto
Quem no sono quer sonhar
Seja luz em cada rosto
Cada alma iluminar
..............................................
A poesia nos bosques
Faz acender a fogueira
Em cada um que a partilha
Lembrará a vida inteira.
Título: Azinheira /Degebe
Minha Querida Árvore
Como estás serena e calma!
Assim estivesse a minha alma
E tu e eu seríamos só uma…
Um dia dir-me-ás porque aqui estás…
E eu saberei sem qualquer crença
Que entre nós não há diferença.
Junto ao rio
Esteja ele cheio ou vazio,
Apenas a minha forma deambula…
A tua, firme e bem segura
o vento oscila os ramos quando passa…
E tu, com toda a tua graça
Permaneces como quem está a meditar
Enquanto se funde, no teu o meu olhar…
10.08.2017, isolina lages
P.S. –Publicado na ASSPE (Associação de Professores)
Título: Sem abrigo
Encontrei um sem abrigo
Estava dormindo ao relento
Representava Jesus
Deitado naquele assento
Sem abrigo é qualquer um
Quando perde o seu caminho
Quando deixa de ter luz
Fica perdido e sozinho…
5.01.2024, isolina lages, in Facebook
Fátima:
Poemas VII Sessão
1.
Um dia sim voltarei
Na orla quente do mar
A crosta ardente sarei
A costa e gente serei
Sentada à mesa do rei
Onde é o meu lugar
Contarei tudo o que sei
Um dia eu vou voltar.
6-01-2023
2.
Nessa ravina escarpada
Nesse caminho comprido
E se aquilo por que gemes
E se aquilo que mais temes
For o lugar prometido?
Nessa esquina encantada
Nesse universo perdido
Se aquilo que perdeste
Se aquilo esqueceste
Fosse a hora anunciada
Fosse o tempo prometido?
Haja o rio por onde remes
Haja o gentio no olvido
Haja Hermes haja fado
O profano e o sagrado
Pelo poder investido
Nessa rota alumiada
Nesse carrocel cumprido
E se o grão que então colheste
E se o pão que ofereceste
For esse pão compartido?
Ama, ama, por quem ames
Na chama o chão aquecido
E se o amor que acolheres
E se a onda que chamares
For o tempo do mar ido?
Amada, só aprendeste
Hoje o fruto está maduro
Olhai bem quanto cresceste
E recebeste e me deste
Aurora fresca, chão puro.
Agora e sempre o futuro.
6-01-2023
3.
Morremos quando nascemos
Diletos filhos do ar
Nascemos quando morremos
Vivemos porque sabemos
Eterna a onda do mar.
Nada mais acrescentar.
6-01-2023
4.
Parte I
O navio que no rio navegava
Luzidio o lençol a correr
Era o globo que lento acordava
No macio rodopio começava
No macio luzidio ele dava
Era a forma do mundo a nascer.
Já no rio o navio deslizava
E dançava o corpo de mulher
Com a força que o vento lhe dava
Com a forma o tempo criava
E o bastão era a forma de ser.
Era a voz do profundo a vencer.
O navio que no rio já navega
Numa entrega já deixa saber
E ao fundo o horizonte não nega
Já não cega quem quer conhecer
É a força do mundo a crescer.
O navio que no rio já navega
Já navega e desdenha da bruma
Doce fio ondulante de entrega
Quase nada se vê mas navega
Quase nada precisa de ser.
Parte II
Vai pelo rio o navio que navega
Vai já sem medo lembrando outro mar
E vendo ao longe o esguio arvoredo
Vai e suplanta o temível rochedo
Que se agiganta na orla do olhar.
Vai já no rio o navio que te espera
Passando agora vingou noutro mar
Oh rosa branca jardim de quimera
Oh brisa franca da luz prima e vera
Outro viera e quisera passar.
Vai pelo rio o navio em segredo
E já sem medo na orla do olhar
Diz do segredo, da estrela e da vela
Diz inocente que o presente é dela
Diz de quem sente diferente e do lar.
Ora quem dera o tempo de amar.
Parte III
Gémeas colunas colinas de bruma
Duas nenhumas no porto vazio
Quais braços lentos em um quase abraço
Qual nulo tempo perdido no traço
Vai navegando tão forte no rio
Abraço terno, limiar do espaço.
6-01-2023
VIII Sessão de Poesia nos Bosques
(24 Março 2024)
António Saias
neste DIA MUNDIAL da POESIA em 2017
poesia é não ter pernas
e correr
ter vontade de vencer
como PISTORIUS
e acreditar
no poder das próteses
ser pesado
trôpego
e sentir-se leve
como Rodolfo
NUREYEV
POESIA é cada um
saber-se
pé de chumbo
ser minorcas
e sentir-se GRANDE
como se fosse
JUMBO
mais forte
que ARQUIMEDES
:
mesmo sem alavanca
sentir-se capaz
de endireitar
o pesado oblíquo
eixo do MUNDO
Cassandra:
Titulo: Um quase haiku para o Oriente
O Oriente, enfim!!!
Onde todo o céu nasce
E a lua dá-se...
Orientei-me lá
Onde há um horizonte
Fui direita à fonte
Sou fundo de mim
Sou vida onde há morte
Vou atrás da sorte!
Ergui-me ou caí?
Na verdade não se sabe
No todo se cabe...
2024-03-19
Título: Oriente
Todo o Oriente que li
Místico e delicado
É outra parte de ti...
Tu, ser sempre inacabado
Há música para sentir
Da cítara ao alaúde
Deixa o corpo fluir
E dar à alma saúde
Todas as cores garridas
Dão-te vida e tempero
Mil sensações envolvidas
Onde morre o desespero
Bem perto de Zarastustra
Mas com maior abrangência
Toda a luz que em ti lustra
É mais que inteligência
Todos os credos narrados
Orientados a nascente
Têm uns locais sagrados
Onde corre rios de gente
Esoterismo vivido
Na repetição de um mantra
Corpo e mente envolvidos
Na ascensão em Tantra
Todo o Oriente que li
Tem várias realidades
Zen, Nirvana ou Hilali
Sofrimentos e vaidades
E quantas são as verdades?
2024-03-21
Título: Trovoada
Reconheço este som
Que assombra a minha alma
Vou buscar aos céus o dom
De tornar tumulto em calma
Do raio de luz que o precede
Tive a clarividência
Há um medo que não cede
Raiz da sobrevivência
Altura de recolher
Dizes para ti baixinho
Muita água vai correr
Pelas pás deste moinho
Águas mil e desejadas
Desçam velozes do céu !
De árvores são convocadas
Nuvens espessem mais o véu!
Tintila por todo o lado
Enche-se de som o mundo
Silêncio tão perturbado...
Rio onde eu me inundo
Rompe fundo pelo solo
Âmago a nutrir a Terra
Com os seus seres ao colo
Gira toda a biosfera
Da tempestade à bonança
Toda a água já desceu
No céu o azul avança
E a esperança renasceu
2024-03-11
Maria Cravo:
Título: Equinócio
O sol cumpriu o ritual
E Equinócio é noite igual.
A vida encheu-se de pujança
E há serenidade em mim
Vigor e solene mudança.
Olho a primeira estação
Com os olhos de criança.
Os campos respiram as cores,
E ouço cânticos tagarelas.
Pinto árvores, desenho amores,
Rejubilo em campos de flores.
Na glória da alegria natural,
Tudo me lembra uma aguarela,
Um milagre de divino pintor,
Que em felicidade celebrou
E pintou o dia igual à noite
E feliz, assim se libertou.
Fátima Remédios
Poemas da sessão
1
Cavalo branco à solta peregrino
Seguindo o seu destino rumo ao sol
E este vento forte ecoa o sino
E a luz gira incessante no farol.
Amá-lo sempre e em dia menino
Cavalo negro atroa em esplendor
E este tempo agreste entoa o hino
E a cruz mostra inclemente o tom do amor.
Buscá-lo no furor em temperança
Assim faz quem avança, sente a hora
No puro olhar como o de criança.
Se o céu diz em segredo e assim cora
O solo sente o passo e a esperança
Na marca indelével de um agora.
2
Before the fall
The wall was dark
And that was all
And then the ball
And then the spark.
3.
Não gosto das navalhas afiadas
Mas gosto das ruelas sempre em flor
E das frutas maduras orvalhadas
Mas gosto de beijar o meu amor.
Eu gosto das roseiras tão garbosas
Mimosas num secreto amanhecer
Eu gosto das estrelas gloriosas
Que sabem do poder de se esconder
As glórias de vindouras manjedouras
O voo quente e discreto da ousadia
O bailado dolente dessas mouras
Que velam o olhar até ser dia.
Eu gosto das entregas encarnadas
Da espada a reluzir, justo fulgor
De colinas de tempo enamoradas
Só de tempo encimadas, meu amor.
Eu quero as madrugadas milagrosas
Eu quero o pé de chumbo se convém
Eu quero esse silêncio das formosas
Vitórias vigilantes do além.
E nas tardes repletas de talentos
Em gestos ensaiados pela mão
Nascem recados, fados e momentos
Num manto de carmim exaltação.
Num doce embalo à terra, faz tão bem
Ouvir o arvoredo ledo e forte
Regidos pelo céu que nos sustém
No dia em que a vida entrega a morte.
Fátima, 24.03.24
VIII Encontro da Poesia dos Bosques
Inspirado na frase “ O Oriente tem para dar ao ocidente, mais do que o Ocidente pensa”
I
Quem assim ousou pensar,teria alguma certeza
Que no Oriente havia, espírito de muita Grandeza
Seus pensadores ancestrais, deram grandes leis ao mundo
Mostraram que os nossos ais, habitam no eu profundo
2
Quem em si se aprofundar, em cada dia que tem
Descobrirá que afinal, faz parte dum maior bem
E se ao Oriente for, aprender a meditar
Trará para o ocidente, boa forma de estar
3
A Natureza a seu modo, é igual em todo o lado
Tudo o que na terra gira, tem o destino traçado
Oriente e ocidente, faces da mesma moeda, yin, yung unidade
Em si formam a verdade, a mentira é quem a nega
4
Aprender é sempre o lema que traz para o viver Beleza
No oriente ou ocidente, só há a mãe Natureza
É essa que nos embala, nos revela e faz nascer
Mas também é quem nos cala, no momento de morrer.
21.03.2024, isolina lages
VIII Encontro da poesia dos Bosques
I
Eu sou da Primavera a força da razão
Que não sabe do que fala, nem o que é…
Eu sou as flores que brotam pelo chão, são o que são
São do que estão ao pé!
2
Eu sou o que não sou, quando estou sendo
Pensando ser só pensamento
Isso que passa pela minha mente,
Depressa se desfez…levou o vento.
3
Eu sou a Primavera que volta no seu tempo
Imperiosa força da manifestação
Que durante o Inverno adormece na espera
De ver chegado o seu momento de eleição
4
Do que estava adormecido tudo acorda
Se tudo o que a envolve está a seu favor
Na explosão de cada forma
Está presente a força do Amor
5
Eu sou a Primavera, mas se o não for
Porque o que me rodeia é adverso
Ficarei na espera do alvor
Que me fará nascer em cada verso.
Dia mundial da mulher, 8.03.2024, isolina lages
IX SESSÃO DE POESIA NOS BOSQUES
Cassandra:
Canto:
Canto a vida e resisto
Porque viver me alegra
Canto a morte e insisto:
Cada extremo se integra
Canto a luz que há de vir
Iluminar os meus passos
Canto à sombra que a seguir
Lhe mostrará lados baços
Canto a tudo e canto nada
Haja música no espaço
No leve ar caia a espada
Voltemos para o regaço!
2024-06-14
À árvore:
Em cada árvore gigante
Nasce um tecto do mundo
Celeste, aconchegante
Verde, onde me inundo
Delicado, rendilhado
Cores de folhas e ramos
O céu não fica selado
Abre-se em outros planos
É aqui que me reúno
Comigo e com outros seres
Verdade de que me muno
Lá nos confins dos saberes
Onde a vida fez-se enorme
Aos seus ramos nos acolhe
Um tronco que nunca dorme
Só faz sonhar quem o olhe…
E à sombra se recolhe
2024-06-27
Do ponto para o infinito:
Este muro levou cal
É branco imaculado
O meu caminho, banal
É por ele limitado
Salto o muro, corro o espaço
Mesmo a medo, em desafio
O campo onde me enlaço
É o mundo em que confio
Avanço por entre flores
Entre gamos e escorpiões
Sei que há lá todas as cores
Dores e ressurreições
Lanço-me ou vou andando
Pé ante pé em surpresa
Num mundo onde não mando
Posso colher ou ser presa...
Espero sempre, cada dia
Com sol a nascer de novo
Aprender como irradia
Ou fugir dentro do ovo
Onde me movo?
No ponto ou no infinito?
Sou povo, absorvo...
Se honrar o legado...
O caminho é canto ou grito?
Cala, ser amado?
Este muro é caiado
Poderia não o ser
Bastava ter-se manchado
Nas cores do alvorecer
2024-06-05
Fátima Remédios
Poemas - lX Sessão de Poesia nos Bosques
1.
I
Sou deste mundo e não sou
Sou desta terra primeva
Sou o que fui e ficou
Sou do que veio e voltou
Sou de quem ve(m) e me escreva.
Sou quem no mundo restou
Do sol fecundo e que(m) deva
Ver no olhar do avô
O roçagar, fosse voo
Antes de Adão veio Eva.
E haja alguém que se atreva!
Sou do futuro o amado
Sou o cruzado maduro
Sou o filho malogrado
Eu vim tirar o pecado
Vejo por cima do muro.
Sou alto olhar do condor
No alto mar consagrado
Sou do cajado o pastor
Sou do amado o amor
O destino a mão o fado.
II
Sou o vestido lavado
Sou cornucópia perfeita
O traidor atraiçoado
Fruto sem eira nem lado
Vela anelante desfeita.
Cume que o vento apagou
Caracol que a luz espreita
Manto que a meda amagou
A noite que amor deitou
Estrada torta direita.
Sou tule jarro abaulado
De lilás fresco imbuído
Sou pergaminho sagrado
O linho leve lacrado
O barro lento cozido.
Sou do que sou investido
Mesmo à beira do passado
O outro lado parido
As covas do prometido
Eu sou o que sou cantado.
III
Sou do amor o amado
Do ninho nesto razou
Sou aqui o outro lado
Trinado teu e sagrado
Eu sou aquele que sou.
2.
O sol quando nasce é para todos
O sol quando brilha tem mestria
Quando irradia o sol recresce a rodos
E sem saber a quem só alumia.
Desavisado olhar, secretos modos
Os tectos consagrados inebria
O Sol ao despertar deleita todos
No mar está a sonhar a ousadia.
Ao velho, ao novo, ao puro e inocente
O som do seu vibrar traz alegria
À ave, à flor, ao louco e ao doente.
É inocente a cor sua magia
E dos diletos raios imanente
O sol os verdes gaios inicia.
3
O nove traz o fim e recomeço
No nove é que Ela se compraz
No nove deixo a curva ser esqueço
O rosto inesquecível, Tua Paz.
Fátima, 29.06.24
IX Encontro da Poesia dos Bosques
Isolina Lages
Título: BENDITO
Bendito seja o ar que me enche os pulmões
Que me permite respirar, viver
e fazer bater todos os corações.
Bendito seja este caminho
Que me permite ir caminhando
Benditas as pernas com que vou andando.
Benditos os olhos que por mim vão olhando
Bendito o rio que está à minha espera
Sem por mim estar a esperar…
Bendito seja este lugar
Que tem árvores e pássaros a cantar…
Bendito seja este encontro de poesia
Benditos o Manuel, a Cassandra, a Fátima, a Maria…
Benditos todos os que aqui estão
Benditos todos os que cada um tem no coração
Bendita seja a Alegria
De estarmos celebrando este dia
Bendita seja a GRATIDÃO
27.05.2024 I.L.
Titulo : POESIA
Quando a poesia vem ao meu encontro
Essa deus amada que em meu peito mora
Caminha comigo no silêncio
Só me toca quando chega a hora
Sem ela sou igual a toda a gente
Que canta e ri, que sofre e chora
Com ela atinjo um estado que não mente
Num patamar que é sempre agora.
E nesse instante que não passa
Porque é o que é sem eu saber
Não há palavras para o definir
Não há como dizer…
9.06.2024 I.L.
Maria Sarmento
Nove velas de moinho,
nove cofres de silêncio
Nove dos lenços de linho
E no momento propício
Nove flores do verde pinho
Sete mós e sete luas
Sete frascos de licor
Sete cordões, sete rios
em que flutuas
Sete correntes de dor
Nove velas a primor
atadas com nós de amar
Nove centelhas de amor
Num céu de cor do pomar.
Sete Luas, sete luas
Sete contas do colar...
Maria Cravo
À noite
À noite, quando adormeço
faltam-me estrelas nos sonhos,
falta-me conhecer o começo,
falta-me apagar o que penso,
falta-me lembrar o berço
E matar monstros medonhos.
Falta-me o cheiro do cabelo
Que em bandós caía
Por sobre o livro que lias.
Falta-me o sopro ondeado
Que eu guardava e absorvia.
Falta tanto e não há sono
Que acalme este sossegar,
Por isso me posiciono
Na lenta espera de madrugar.
Sesimbra, 9 setembro, 2022
Quando te quero recordar,
Contigo estar e ficar,
Procuro esse aroma no mar.
E as ondas, para meu assombro,
Percebem o meu ensejo.
Como um artista a pintar,
Desmancham-se a desenhar,
Gravando as espigas de trigo.
Assim, eu me mantenho contigo,
Assim, estou no monte e no mar.
Sesimbra, 8 de julho, 2023
IX Sessão d
António Saias
HOJE EU FUI VISITAR A MORTE
alguém me enviou uma mensagem anunciando que a Morte o tinha escolhido para me contactar e comunicar-me que ELA queria
que eu a visitasse
conheci a Morte ainda jovem
menina
púbere
à beira Índico
já lá vão algumas dezenas de anos
era bonita
usava soquetes cor-de-rosa
e laçarotes na cabeça
-não andava
esvoaçava como as borboletas
a Vida separou-me dela
como o joio do trigo
que por mais que se separem
voltam sempre a encontrar-se
fez-se mulher
casou
teve filhos
realizou-se na sua profissão
-não tanto quanto pensaria-
como a esmagadora maioria
das mulheres da sua condição
voltei a encontrá-la volvidos muitos anos
a sua vida esfrangalhada
à semelhança
do que também acontece a tanta gente
a Morte
envelheceu antes do tempo
reencontrei-a
ainda com alguma juventude
aproximámo-nos
partilhámos mesa e cama
com a regularidade de um par amadurecido
talvez com a força
da casualidade
que junta
o joio e o trigo
agora a Morte
está próxima do fim
vou visitá-la
na sua cama de Hospital
vejo-a recusar a refeição da tarde
- a sopinha da tarde -
com um franzir de testa
pretextando que está quente
cospe - rejeita com uma nesga de olhar
semi-cerrado
a primeira colher de sopa
que a enfermeira
lhe faz chegar à boca
eu digo-lhe – Morte amiga
eu estou aqui - trouxe estas rosas para ti
das minhas
não gostas que eu te traga rosas?
- vim também para ver se tu comias
e a Morte sorri
com a mesma displicência
com que rejeita
a primeira colher de sopa
que a enfermeira
lhe faz chegar à boca
não quero beijá-la
nem tocar-lhe
com receio de que o seu livor
me gele
a carne que a toque
abandono o quarto
deixo a Morte
profundamente adormecida
recostada em três espessas almofadas
com os olhos entreabertos
vagamente virados
para o espaço
onde a enfermeira tinha posto
as minhas rosas
abandono a Morte
- adormecida-
sem coragem
de lhe dizer
um adeus de despedida"
António Saias
X Encontro da Poesia dos Bosques
21 de Setembro de 2024
Foi sugerido, como base para esta sessão de poesia, olhar para os ditados populares. Mas, como é habitual, permaneceu o espaço para os temas livres, contando com a inspiração dos bosques.
Cassandra Querido
Breve (con)tributo aos ditados populares
Quando se fecha uma porta
Abre-se uma janela
Seja bela ou seja torta
Há de se pular por ela
Cada terra com seu uso
Cada roca com seu fuso
Cada roca suas gentes
Cada terra suas sementes
Cada tacho tem seu testo
Cada apanha tem seu cesto
Vou desta para melhor
Não fico para semente
Mas procuro um Eu maior
Entre a foz e a nascente
Nem só de pão vive o homem
Nem se vive só do vento
Há palavras que se colhem
No sonho e pensamento
2024-09-21
8 quadras, ∞ in-finito
Mais um dia que começa
Tento alinhar o cabelo
Entrançando uma promessa
Desenrolando o novelo
Fio-me nas encruzilhadas
Dos caminhos retraçados
Perco os fios às meadas
No horizonte encontrados
A linha com que me coso
Bordei-a em ponto cruz
Num tapete onde repouso
Ou voo em busca de luz
Busco tecer perfeição
Em cada linha que escrevo
Ouso a reinvenção
E amo o antigo acervo
As múltiplas línguas mortas
Pode alguém tê-las escrito
Direito por linhas tortas
Pertencem ao infinito
Sigo o fio dos pensamentos
Uns vão no fio da navalha
Outros em fios de água, bentos
Ligados na mesma malha
Todos em linha de conta
Ou todos desnecessários
Enfio na agulha a ponta
Do fio de longos rosários
Mais um dia que termina
Seguem-se dias a fio
Reinvento o fim da linha
Do destino em que confio
(Nas duas faces da linha do horizonte com a lua cheia nascendo).
2024-08-26
Maria Sarmento:
Cosmogonias
Não é o Fogo que faz emergir a lava que irrompe e se faz mundo e pedra e chão do olhar. O filósofo e o Poeta disseram: “do nada, nada se faz” “ex nihilo nihili fit.” Onde, então, a Fonte? a Origem de tudo vir a ser?!...
Antes, eram as águas primordiais…
A matéria das águas e da língua!
Cuspo do que há-de ser mundo! Calor e chama. Palavra incendiada! Escravelho que separa a Terra do Céu. Abismo aquático sobre o qual vagueia o Criador (in)criado!
Verbo emprestado pelos deuses para o Poeta criar mundos outros, mundos novos. Verbo, Logos divino, Fogo. A primeira matéria da fala de Deus.
Fala sagrada, em beleza atravessa tudo quanto existe: o firmamento, as pedras e os astros! O mar grande e o estreito de Bósforo. A fuga e o Amor.
E o Homem que é lama e sangue de um desafio e de uma luta.
Princípio criador e fonte de si mesmo. Sangue de uma ferida eterna
do vazio surgido. Irrupção a partir do nada. Pedra levitada da matéria da luz e da morte de Deus.
Ovo cósmico que se divide nos seus contrários. Combate perpétuo de deuses para o equilíbrio instável de tudo o que existe e há.
“Enuma Elish!” “Quando no Alto o céu ainda não tinha sido nomeado e a terra firme em baixo não tinha sido chamada pelo nome, nada existia senão o primordial Apsu, seu progenitor, e a Mãe Tiamat, geradora de todos eles” As águas misturadas: o mar salgado e o doce rio!…
Cesse o ruído que não deixa dormir Apsu …
A criação do homem manchada por um crime!
Também o Poeta recebe, por empréstimo, o Fogo dos deuses, o fogo da Palavra. E aspira ao Silêncio para se libertar do silêncio ruidoso do mundo.
A deusa primordial descansa da letargia do nada e o homem surge do sangue de todos os combates, desde o princípio do mundo, para recuperar esse Silêncio que se crê no eterno firmamento celeste. E no espaço entre as águas faz seu leito.
Tal como o descanso do Poeta surge depois da agitação e do Fogo cuspido da Palavra. Ansiando, de novo, um mundo de quando não havia, ainda, nome para as coisas. E Deus disse: “Que haja uma vastidão do céu no meio das águas que separe as águas das águas.”
Deus é oleiro da sua mesma obra, moldando no barro que semeia a constante perturbação, rebeldia e combate.
O Poeta diz: O Céu é a água entre as águas. O intervalo. A pausa!
O espaço de repouso na eternidade do instante!
O céu é um milagre que o não é.
O Céu… ?
O Céu é uma pedra que voa!
(17-09-2024)
Maria Sarmento:
(12 quadras ao gosto popular, inspiradas em ditados, segundo o mote …)
“Devagar que tenho pressa”
Não há pressa no vagar
Se calhar eu cair nessa
É só para te ver passar.
Passaste no ribeirinho
Ficou-te o pé bem molhado
Se passares devagarinho
Leva o teu amor ao lado.
Arriscaste neste mote
Um verso muito singelo
Vás de barco ou vás de bote
O teu jeito é sempre belo.
Ponho o pé e molho a meia
Quando passo o rio baixinho
O amor que a mim me queira
Chega sempre de mansinho.
Quem tem amores não dorme
Quem tem um bem que lhe quer
Dorme um sonho p’ra que torne
Quem a si bem lhe quiser.
Água dura em pedra mole
Vai o mundo assim virado
Da cabeça aos pés m’assole
Um vento desatinado.
Depressa, tenho vagar
De chegar aonde não for
As contas do verbo amar
São feitas p’lo meu amor
Perde o tempo e ganha a vida
Tudo o que ganha é engano
Ao deitar contas à vida
Sobra sempre o que faz dano.
Mas é um dano gostoso
É como o mel que se adoça
Espera que o dedo guloso
Lamba os lábios de uma rosa.
Um dia, Santa Luzia
Fez da preguiça vagar
Se não fazes nesse dia
Outro dia há-de chegar.
Há tempo p’ra tudo ser
E o tempo tarda em passar
Só o meu amor não quer
Estar a tempo de chegar.
Segue o mote, segue o mote!
Não sei se o segui, não sei…
Não sei se caí do bote
Se calhar, descarrilei !...
(12-09-2024)
Isolina Lages, Setembro de 2024:
Título: O guarda rios
Trago no olhar a tua cor, azul, azul da cor do mar
Dourado o teu peito de veludo, quase castanho de encantar
Trago no olhar a tua cor, o teu movimento de embalar
Trago no olhar a tua cor, trago no ouvido o teu cantar
Trago no olhar as tuas asas, que te servem para voar
Trago no olhar o voo rasante, por entre as folhas num instante
Dão-me a capacidade de sonhar… 7.06.2024, Isolina Lages
“ Ò lua que vais tão alta ( Título: A lua ) Redonda como um tamanco Ò Maria trás a escada Que não chego com o banco”
Quem à lua quer chegar Tem uma tarefa arrojada Ora se encontra como sol Ora se torna apagada
A lua na sua rota Diz o povo que ela mente Quando tem forma de D É quando é quarto crescente
A lua no seu silêncio E no pouco iluminar Influência a essência Da terra o seu bem estar
Cantam poetas à lua Belas canções de embalar “Não é minha nem é tua É de quem a apanhar”
E quem apanha o luar Em noites de lua cheia Tem o poder de encantar Tem um poder que rareia. 7.09.2024 Isolina Lages
Título : Haiku
És da poesia um doce Haiku De encanto paz e alento Dos teus papás encantamento Do olhar Divino a sua luz
És deste lugar a brisa fresca O vento norte, pura estação És ao nosso olhar a alegria Tua presença a união
Serás do futuro um tempo novo Aquele a onde não chegarei Serás rainha do teu povo Serás tudo o que não serei
Sejas quem fores, a Deus pertence Vieste da Vida sua matriz Que sejas dessa Vida doce esperança Seja o teu viver sempre feliz
30.06.2024 Isolina Lages ( à Menina Glorinha do Freixo do Meio )
Fátima Remédios
🍂🍁🍂
Despe-te de tudo, menos da jornada
Enche-te de nada, num colo qualquer
Vai passando o tempo, qual suma balada
Em lentos acordes de um puro mester.
Enche-te de paz pela madrugada
Despe-te de sizo num sonho qualquer
Vem balindo a neve na noite fechada
Vai erguendo o vento que tanto te quer.
E na hora queda, de deslumbre tanto
Presa nesse encanto por alvorecer
É a orvalhada que enternece o manto
E na abalada ouve-se dizer
Oh beleza rara, entretece o espanto
E o céu implora, falta acontecer.
Ditados populares
Parte I
Quem tudo quer, tudo perde?
E quem arrisca, arreceia?
Largo o firme solo verde?
Ponho o pé e molho a meia?
Na ceia o bem se lhe segue!
Suponho que quem passeia
No prado e a gosto o regue
O sol seu seio incendeia.
Pois quem muito quer consegue
Mesa farta, casa cheia
A quem, por fé, não se negue
Premeia o céu, que o semeia.
Quem muito dá, terá fome?
Quem pouco tem, terá frio?
Se a vontade consome
Serve melhor o fastio?
Entre provas e demandas
Aqueces ou arrefeces?
Diz-me lá com quem tu andas
Dir-te ei com quem pareces.
Pela boca morre o peixe
Vale mais usar do sizo
Está outro a falar, pois deixe
Nem sempre o tom é preciso.
Quem desdenha, quer comprar?
E o fruto proibido?
Quem simula é de fiar?
E se ficar, já olvido?
Anda o macaco no galho
Cada qual sua sentença
E, se sei, não me baralho
Não arranja a gente ofensa.
Diz se da pressa rasteira
Da maestria inimiga
E da paciência cimeira
A perfeição o obriga.
Há quem diga claramente
Ser o fim a dianteira
Doutra maneira, a semente
Será a história primeira?
O mundo visto ao contrário
Será como andar a ré?
Até à foz o estuário
Sobe fazendo banzé?
O ovo ou a galinha?
Outra vez o tira-teimas!
Mas é a certeza minha?
Não jures, que ‘inda te queimas!
E quem se cala consente
Pobre boca assim fechada
Como quem dá de presente
A traição anunciada.
Giram na roda gemidos
Como lentos carrocéis
Ficam os dedos erguidos
Se lhes tiram os anéis.
Vai-se ao longe devagar
Vem o perto à nossa beira
Nem tanto à terra ou ao mar
E por mais que um homem queira…
Dos fracos não reza a história
Muito menos no lugar
Honre a terra e a memória
Esta gente e o vagar!
Trazida a lenha num feixe
Investe o sol e o luar
Se tu és filho de peixe
Logo te pões a nadar.
Colunas, brumas de seixo
Vale à distância a chamar
Não deixo, amor, não deixo
Que se afaste o som do mar!
E se és homem prevenido
Terás sempre ocasião
Mas atenção ao bramido
Há lá belo sem senão?!
Cai nódoa no melhor pano
Mas se o canto é cristalino
Nenhum dano, em peito humano
Rega impoluto o divino.
No meio está a virtude
E quem a tem tudo aguenta
Já não se perde amiúde
E nem oito nem oitenta.
Torna a casa o bom filho
É recebido em banquete
Não há pastor sem cadilho
No balir, o som remete…
Para a força da montanha
A coragem de uma espiga
A fortaleza tamanha
Da rama que a pomba siga.
Forte e linda rapariga!
Parte II
A Deus pertence o futuro
Não o queiras apressar
Comanda o fruto maduro
Que deixou de perguntar.
O que tem de ser tem força
É bom dizer e com tino
Com a destreza da corça
Faz do prazer o destino.
E eu cumpro o que me cabe
Tendo por guia o conselho
Vigia aquele que sabe
Seguro morreu de velho.
Dizem outros no lugar
Seguros do sorvo e via
Se a Virgem for de fiar
Para quê a correria?
Mais vale bem navegar
Disfrutar da maresia
Cada dia há de chegar
Cada onda e cada cria.
Correr por gosto não cansa
Afiança o corredor
No olhar de uma criança
Um mundo cheio de cor.
Rodam no giro entendidos
Como eternos corcéis
Os universos cumpridos
A rodos pelos tonéis.
Junto ao junco da ribeira
Ouvi a rã coaxar
E soube com fé certeira
O melhor está p´ra chegar!
Colhe o bem, a alegria
Um retoque de alecrim
Por verniz a ousadia
Debruada de jasmim.
Colhe além da ventania
O tom que a terra clareia
O favor da fonte fria
Hoje a ribeira vai cheia!
Sol que nasce é para todos
E o prometido é devido
Por entre céus e engodos
Doura o fruto concedido.
Só quem sobe é fornecido
Só quem desce tem razão
Para baixo, é bem sabido
Os santos dão uma mão.
Se as águas são passadas
E as nuvens são futuras
Há promessas inquebradas
Águas moles, pedras duras.
Digo dos deuses que ouvem
E dos campos que apregoam
Das papoilas que comovem
Das giestas juras soam.
Digo do cravo encarnado
Da rosa feita doçura
Peito a peito, lado a lado
Ama quem canta e quem cura.
O mundo será ordeiro
E o destino cumprido
Nada há mais verdadeiro
Que um vaso cheio e garrido.
Fátima Remédios, Abril de 2014
Mário Ceia:
O primeiro poema é uma adaptação dos salmos 148 do antigo testamento, um hino ou Loas à natureza, aos animais, às plantas e ao Homem.
O segundo é uma alusão aos meses equinociais.
###############
Salmos:
LOUVAI
Louvai o sol e a lua;
louvai todas as estrelas luzentes.
Louvai os céus dos céus e as águas que estão sob os céus.
Louvai as baleias e todos os seres dos abismos
Louvai o fogo e a geada, a neve, as nuvens e o vento tempestuoso
Louvai as montanhas e colinas, as árvores de fruto e todos os cedros
Louvai as feras e todos os gados, répteis e aves voadoras,
Louvai os rapazes e donzelas, velhos e crianças
#################
SETEMBRO
(ou podia ser MARÇO, outro mês equinocial)
Agora é setembro
Um dia qualquer deste mês
Em que se encontram
Os dourados brincos
E a prata dos anéis.
São os amarelos
Do campo
Que despertam entre
O verde da erva
Onde se estendem
Os amantes em pose ardente
E onde as formigas se afadigam
No seu laborioso trabalho.
Aquela doce melancolia
Dada pelo leve doirado
Sol que se deita
Lentamente
Na linha
Lá ao fundo
Do horizonte.
É o fogo da tarde
E o orvalho matinal
Que devagar se vai
E permanece
Sem a pressa estival.
Um breve rumor
Estende-se na planície
E permanece só
Num murmúrio
Que entontece.
É setembro
Num dia qualquer deste mês
Sete, treze ou vinte e um!
Sérgio das Neves
21/09/24 ( X Sessão)
Entre ditos e desditos ao vento
Diz-me quem és, direi onde vais,
quem nunca se molhou, não sabe do cais,
quem com ferro fere, com fogo se cala,
e o que os olhos não veem, o peito embala.
Quem tudo quer, mal vê o que tem.
Caminha às cegas, tropeça em sonhos,
e o que não cai ao chão, dissolve-se no ar.
Água por onde passa não é a mesma,
nem o rio, nem a sombra que o abraça.
Não se banha duas vezes no mesmo engano.
Quem avisa, às vezes exagera,
mas quem cala, morre afogado em tempestades.
A pressa é inimiga do tempo,
mas quem cedo madruga, aprisiona o vento.
Rios de palavras correm em bocas secas,
quem muito fala, cria pontes em veias abertas.
Dá-me tua mão, que a fé te guie.
Mas olha — a fé também tropeça.
Quem espera sempre alcança,
mas alcança o quê?
O tempo é teimoso, não tem pressa
de provar que a roda gira,
mas o moinho já secou.
Quando o sábio aponta o céu,
há quem conte estrelas em dedos trémulos,
outros plantam astros no chão de barro,
e um dia colherão luas em campos de sarro.
Mente quem diz que o silêncio é de ouro.
A pedra quieta não guarda segredos,
é o eco que revela,
e o eco, meu caro, só sabe repetir.
Água mole em pedra dura
não rasga montanhas — só tinge de loucura.
Quem espera sempre alcança,
mas o trem que tarda não perde a dança.
Quem não tem cão caça com o vento.
E o vento, esse ladrão de vozes,
leva consigo as promessas de ontem,
as mentiras ditas com afeto,
e as verdades que nos rasgam.
Quem te viu, quem te vê,
já foi outro, já não é o mesmo.
Troca o ouro da fala pelo chumbo do ouvido,
e quem ri por último só espia o abrigo.
Casa de ferreiro, o aço se esvai,
olhos de tigre, sede de paz.
Quem tudo quer, perde a mira,
e quem nada teme, caminha na mentira.
Cada macaco no seu galho,
mas a selva não se importa com limites.
Somos todos forasteiros em galhos alheios,
enquanto o leão dorme e sonha com a própria fome.
Nem tudo que balança está em queda.
Nem tudo que permanece está firme.
Mais vale o risco do abismo
que o conforto da margem.
Quem não arrisca, mal sabe o sabor
da queda ou do voo.
Mas a sorte, essa coisa traiçoeira,
sabe sorrir com dentes afiados.
Mais vale um pássaro voando,
que duas asas presas, chorando.
Lobos em pele de cordeiro
escutam o pranto no silêncio certeiro.
Filho de peixe, onda sem fim,
mas quem com lobo anda, não chega ao jardim.
O que cai na rede vira sombra em maré,
e quem não arrisca, ainda morre de fé.
Diz-me o que come,
e te direi o que tem fome.
A fome do homem não é de pão,
é de sombra, de seiva, de raízes.
Quem planta vento não colhe nada,
mas desenha tempestades no horizonte.
Pau que nasce torto,
sombra que dança,
mas quem bate na madeira,
esconde a esperança.
Pau que nasce torto é tronco retorcido
que o tempo amolece,
e na curva do destino, vira chama.
Quem ama o perigo vive à beira,
mas não vê que a beira também cansa.
O que é do homem, o bicho não come,
mas a sorte, caprichosa, ri entre os gnomos.
No fim, quem semeia ventos colhe abraços,
e o barco, à deriva, naufraga nos laços.
Quem não tem medo da morte
não entende o valor da espera.
Não adianta correr atrás do futuro,
ele já está à tua frente, rindo,
fazendo-te tropeçar em sapatos apertados.
Ninguém morre de véspera,
mas quem canta seu pranto, de saudade se apressa.
Nem tudo que reluz é ouro,
mas o brilho nos olhos vale o tesouro.
Ninguém dá ponto sem nó,
mas quem tece a trama?
A vida, essa tecelã míope,
costura os fios como bem quer.
E no fim, quando a linha acaba,
somos apenas pedaços soltos
nos ditos e desditos do mundo.
Quem não chora, engole o silêncio,
quem vive de orgulho, tranca-se por dentro.
E assim, entre pedras, barcos, e ventos,
os ditados, vivos, vão criando novos momentos.
XI SESSÃO DE POESIA NOS BOSQUES
2024-12-21 dia do Equinócio, em redor de uma fogueira, com visita poética ao bosque ancestral do futuro.
Luísa Dunas
O verão chegava ao seu termo. Caminhando por um vale desde cedo, Perséfone não sabia onde estava nem para onde ía mas não estava perdida. Virou-se para ver quem a acompanhava, atrás de si. Quando lhe encontrou os olhos tudo escureceu na entrada de uma gruta. Encostou-se à rocha uterina, sobre as suas mãos pousou o guardador as suas, de viril fundura. A olhá-la no escuro, disse-lhe, O equinócio é amanhã. Irrompeu-lhes uma febre, fecharam os olhos, estavam descalços, vestes de cor clara, de uma infância.
Cassandra Querido
Neste Antropoceno duro
Tentarei manter-me una
Trazer à tona o puro
Que é a minha fortuna
A grande via não é
Límpida em tons de azul
Nesta arca de Noé
Sofre-se de Norte a Sul
O Homem é desmedido
Como tudo tem retorno
Agride e é agredido
Mesmo tentando o suborno
Pelo retorno eterno
Perpassa o infinito
Passa também o inferno
Onde mora o nosso grito
Canto também a esperança
No meio dos atropelos
Num dos pratos da balança
Há um Amor entre novelos
Maria Sarmento
Tardes iluminadas
(XI Sessão de Poesia nos bosques – Freixo-do-Meio, 21/12/2024)
(Dedicado ao meu Amigo António Saias, que acabou de completar as 85 voltas ao Sol. Também uma saudação especial de aniversário a Luísa Dunas e a José Rodrigues dos Santos.)
Trago em chama que ilumina
A tarde que vai chegando
Guardada em arca divina
Por onde o sol vai entrando.
Um pássaro traz no bico
Um som de luz a arder
A floresta é chão que pinto
Num retábulo de infinito
De flocos do entardecer.
São preciosos luzeiros
Chegados ao sol do peito
São cristais e são veleiros
São falsos e verdadeiros
Os sonhos com que me enfeito
Aves doidas sem paragem
Suspensas no céu do olhar
As nuvens dessa viagem
Lugares cruzados na imagem
Da prata azul que há no mar.
Caminho de velas tantas!
Sem remos, são naus que dançam
São nós, a sós, caravelas…
Paradas no meio das estrelas
Entre os dias fazem mós
As tantas tranças que há nelas.
Trago em chama nas mãos altas
Montanhas que baixas são
São as mesmas que voltaram
As mesmas mãos as tragaram
No mesmo beijo queimaram…
Co’as chamas da tarde vão
As bocas que ali moraram
Em altos voos, voadas
As tardes doces, paradas,
Na luz de um dia que vem
Espreitar, por entre as vagas,
As naus agora puxadas
Pelas tardes de um desvão.
De tanta sede que há nelas
De tanto mar que ali está
Árvores tão altas carregadas
Da luz que está no porão.
São abrigo das janelas
Soltam-se as barcas, as belas
Um dia sim, outro não!
(12-12-2024)
Vozes de Solstício
(Abrigados do frio, limpam a chuva às folhas, as asas dos pássaros. Espreitam o sol pelo piscar do seu olho miúdo. São aves da cidade, dentro dos limoeiros. E são ruas de folhas coladas à água que segue na correnteza do tempo. Num dia assim, varrem-se as folhas e seca-se o pátio da alma, esse deserto a arder!)
-- A mulher está sentada de costas para as nuvens e para o vidro líquido da rosácea do sol. Como se fora vento, os dedos esvoaçam em dédalos de luz e de veias. Vias. Volta ao tempo dos lábios de cera liquefeita. Roçam as asas de uma transfiguração do sol. Há, em cada pedra gasta do tempo, um sinal que se lê sem olhos, um céu de violetas entornadas no frasco da noite sorvida gota-a-gota pelas amáveis musas.
(A noite sopra véus no ar húmido das águas. Havia uma cidade nascida do espaço entre a hora e o som. Desaparecia na boca vegetal dos rios. Chegavam, quando as sombras pintavam os ramos de escuro e ocultavam, pouco a pouco, a vista às árvores. Troncos de madeira e flor aberta, em canto, revelavam a barca que deslizava por ali, esquecida da luz, sob o portal dos céus. Acendedor de estrelas, o céu abria-se de noite em véus, espelho de múltiplas faces. Cristais. Caleidoscópio de gargantas e desfiladeiros de luz e de vindas.)
-- Vem! Por esse pequeno raio de sol desenhar os pés na terra fria do Inverno! Vem, por esse precipício de ar, golpear a luz com a navalha do vento! Vem, desvairada! Ferida! Tocada de luz, por esse átrio e portal. E Fica! Fica! Por entre as aves do frio como uma estátua de sal. Uma estátua de gelo dentro dos portais da sombra. Cresce, com os cabelos em labareda pela aguarela do céu adentro. Esperando o sol que vem e virá doirar caminhos e vias. Desviar as sombras. Lavar as águas dos rios. Purificar o ar e dar à escuridão a sua face gémea, em alta labareda. Depois, guardas a luz na tua boca fechada em redenção, Ó Rei!
(12-12-2024)
José Rodrigues dos Santos:
O Viajante
Envolto em ramos verdes
que denso lhe estende o bosque
vai o viajante montado
em seu sonho espantadiço
como égua virgem árabe
que águas paradas teme
Do que resta de saber
Das coisas outrora amadas
Dos metais das tardes calmas
Das camas e dos perfumes
Dos fôlegos agitados
Da calma respiração
Suspiros perto do peito
De lábios e framboesas
Já nada sabe o viajante
Envolto em ramos verdes
claros verdes escuros claros
escuros quase azuis de seiva
na poeira da luz de outono
a irrequieto sonho entregue
que a mão de leve mal segura
mas o corpo liga e leva
Vai o viajante montado
O enigma de passo largo
a cada curva do caminho
seu rosto lhe mostra e ri
de mares interiores
náufragas madeiras traz
com marcas de canivetes
e de dentes e de unhas
e a cada passo lhe opõe
sempre a mesma pergunta
Mão no peito bem no meio
onde pára o coração e a veia
salto de lobo que brinca
vida incerta morte certa
a pergunta lhe coloca e logo ri
treme a égua entre as coxas
tão calmas do viajante
silencioso
José Rodrigues dos Santos. Évora, Dezembro de 2024
Petrificações
Estava eu um dia no meu quintal
lembro-me que foi o meu quintal
que te quis mostrar primeiro
a falar com uma pedra que ali tenho
naquele dia primo de novembro,
dia do nosso primeiro beijo
há uma severidade nas pedras,
a hermenêutica do 'quintal'
a preceder o beijo é ofuscante
e a confidência hieroglífica
tu sentada naquela cadeira
minha companheira subtil
Dos dias ásperos e dos anos
Sentada à mesa da cozinha,
os meus dedos a segurarem-te a crina,
marcas-me, eu cavalo tomado,
tu égua aflita por me voares das planícies.
Os pequenos cristais da minha pedra
Luminosos de mica e quartzo
Vibram contigo bruscos e solidários
Quando vos ofereço em braille
As sempre tremendas,
Verdes escuras e inesgotáveis
perguntas sem resposta
Que trago a tiracolo noite e dia
No dia seguinte, voltar-me-ías
insuspensa pelo entardecer
passando o arco das cores
e as chuvas, breves, torrenciais
as doze respostas verdadeiras
e a impossível evidência do enigma
daquela pedra, incisam-me
Foi quando no ar raro como a felicidade
Um alarido metálico dos melros
Atirou sobre nós estilhaços
de alarmes de perigos invisíveis.
Cortaram o fio da conversa.
Ficámos em silêncio, tu e eu.
E a pedra, até hoje
José Rodrigues dos Santos, Évora, Dezembro de 2024
XII SESSÃO DE POESIA NOS BOSQUES
2025-03-23, Centro Interpretativo do Montado, Freixo do Meio
Homenagem a Florbela Espanca
Mário Ceia :
AZUL
Oh, azul celestial!
martírios fendidos
em rosa incandescente
amarelo espacial
para além do infinito
alimento da alma
vermelho cá, para além da mente!
Oh, azul celestial
nuvem cristalina
transparência de mim!
Demente
de mim mesmo!
transparente!
aparente...
...mente!
AZUL celestial
Cassandra Querido :
Queria saber-te eterno
Coração, força motriz
Pulsar interno e externo
Preso à mesma raiz
Nunca soube te prender
Coração desconhecido
Procurar-te é um dever
Ou é só tempo perdido?
Hoje já é outro dia
Em infinitos instantes
Vai mudando a melodia
Já nada é como dantes
Um segundo tudo altera
Surfando a onda do mundo
Vou subir à pele da terra
Ou descer ao mar profundo?
Para te encontrar
No fundo do amar...
2024-01-22
Terra onde derramei sonhos
E amei como ninguém
De anjos a seres medonhos
Contrários, como convém
Venham rosas! Venham espinhos!
Conduzir-nos, feitos gente
Por veredas e caminhos
Onde colher a semente...
Nesta terra enriquecida
Sem químicos, sem venenos
Ao meu sonho dou a vida
Não posso fazer por menos!
Venham cravos! Venham rosas!
E os dejectos do fim!
Venham poemas e prosas!
Adubar o meu jardim...
2025-01-28
Vida oferecida
No futuro em que mergulho
Cada segundo que passa
Náufraga, me desatolo
E rasgo a própria mordaça
Grito um grito das entranhas
Ou um canto de trabalho
Religando coisas estranhas
Entre os ilhéus onde encalho
Este fio é condutor
Da água que corre mansa
Um perfeito sedutor
Prende qualquer pé de dança
A confiar no fiar do fio
Das malhas deste destino
Vão naus de fio a pavio
Sem cargas... não as domino!
Nenhuma sentença assino...
Em tempo de alienação
Fiando, o mundo se liga
À falsa informação
Um NÃO tem que se lhe diga!
Água mole em pedra dura
O tempo tece bonança
A pedra sempre perdura
Ao furo coso mudança
Hei-de LÁ plantar o fruto
Devolver-lhe a floresta
Num pequeno contributo
Pelo tempo que me resta
Dou ao Universo a gesta!
2025-02-29
Guerra da eternidade
Eu, no eterno retorno
Sou uma conta enfiada
No rosário um adorno
No conto, não sou a fada
Ouvi crepitar no forno
O pão que o diabo amassou
Agora que já está morno
Já a guerra o caçou
Esse bafo infernal
Que se aproxima... se sente
Vai dar um fim invernal
À vida de tanta gente!
Dois lados de oposição
Depois de tanto desnorte
Ambos querem ter razão
Só quem ganha, é a morte
2025-03-17
Isolina Lages
( Homenagem a Florbela Espanca, inspirada no seu poema Évora.)
O tempo nos separa, eterna Bela
O espaço nos junta com diferente olhar
As ruas por onde andaste são as mesmas que continuo a palmilhar…
No colégio onde outrora lessionaste
Também eu por lá andei perdida
Ficaste na lembrança dos que encontraste
Como sendo diferente nesta vida.
Foste da moda pioneira
Quando ao fumo te entregavas
Discretamente através duma viseira
As tuas alunas te espreitavam.
Dos teus sentires dos teus amores
Que um dia aqui viveste como um crente
Partilho contigo a mesma dor
A mesma saudade de quem me está ausente.
Não entreguei à morte a mocidade
Continuo a somar anos à idade
Por mais que grite e ninguém me ouça
Também como tu às vezes…
Ainda me sinto “ passar menina e moça”... 18.05.2013
Isolina Lages
Poemas de 12 palavras.
1- Fala, escreve, sonha a poesia, irradia em cada dia, sintonia, doce magia.
2- Chama-se o que lhe quiseres chamar…Canta-se se o quiseres cantar…Poema.
3- Doze um número composto, um mais dois somados são três, uma vez…
4- O silêncio não se vê, sente no sonho o que não existe.
5- São rezadas, repartidas, reforçadas, cantadas, afastam o mal, as doze palavras ditas.
23.03.2025
Fátima Remédios
Poema 1
Se da janela há tristezas
Inda, amor por desdobrar
Debalde, não esmoreças
É bom, mulher, que não esqueças
O cheiro vindo do mar.
Se do postigo há fraquezas
Inda, amor, por franquear
Debalde, não desfaleças
É bom, mulher, que não esqueças
O som do vento ao passar.
Se na barra há ventania
E pano por defraldar
Belo, o nascer do dia
Bela a fonte, como eu queria
O dom do tempo no ar.
Se há no longe nevoeiro
E dano por clarear
Não desdenhes, vê primeiro
Nas manhãs forças, luzeiro
Das novas por desvendar.
E se nas tuas entranhas
Num encanto de pasmar
Deslindas, moves, sem manhas
As romãs fremem, risonhas
Ouves de novo o luar.
É bom, mulher, que te lembres
Dos navios o sussurar
Se na barra há todavia
Antes do céu, acalmia
P'ra se poder navegar.
É bom, mulher, que acauteles
Ouve bem o que te digo
O grito franco da serra
O canto fresco da terra
É tão belo o tom do trigo.
É bom, mulher, que me chames
Que reclames teu lugar
No ar há novas, façanhas
E trovas santas, tamanhas
Lembrando o bramir do mar.
Oh saias tão bem rodadas
Num rodopio de louvar
Garridos sonhos, cambraias
Também tu, sanas, desmaias
Lembrando o cair do mar.
E à tarde, quais princesas
Roçam suaves o ar
Belas estevas, proezas
As velas de novo acesas
Presas do teu respirar.
Rutilantes, quais donzelas
Roçam suaves o mar
Tocam, leves, caravelas
Tocam breves, tocam elas
Na noite leve ao passar.
Navegantes fortalezas
Luminares, paladar
De singular, quando venhas
Nas ondas onde desenhas
À noite, tu, o luar.
Ao sol, cozem sobremesas
As rocas do teu tear
É bom, mulher, que te aqueças
É bom, mulher, que aconteças
Sou eu quem vem a chegar.
Poema 2
Sessão nobre contenta
Ao pobre nada negar
De ternura se alimenta
A gordura do lugar.
De novo a erva rebenta
Num eterno balouçar
A água há-de passar.
Era o doze que buscava
Num profundo mergulhar
E o ouro que ela me dava
O mesmo sol a chegar.
Fátima, 28.03.25
XIII SESSÃO DE POESIA NOS BOSQUES
2025-06-28, cantina do Freixo do Meio
Tema: a água (curiosamente num dia de estio, um dos mais quentes do ano)
Cassandra Querido :
Desde quando, o rouxinol
Encheu, puro, o espanto
Às noites claras, deu sol
Com o brilho do seu canto?
Até quando irei ouvi-lo
Em cada noite que passa
No coro da rã, do grilo
Com tanto encanto e graça?
A sorte que vem e vai
Voltará a confiar
Sabor à noite que cai
Noites claras ao luar?
O vai e vem entre a sorte
Trará nele a melodia
Tudo o que me faz mais forte
Voando entre a noite e o dia?
Quando o canto mata o sono
Acorda a sede de amar
Nasce Amor, largo, sem dono
Aberto de par em par
Quando o canto é fecundante
Morre o tempo e o lugar
Volta do inferno de Dante
A paixão pelo vagar
Abro no bosque um carreiro
Procuro a minha verdade
Está no canto derradeiro
O preço da liberdade
Que Eurídice não disse?
2025-05-09
Quadra para exposição de Portalegre:
Humanidade aos quatro elementos
Rasgo-te vento inquieto
Raios de sol que intercepto
Já quase sem solos sãos
Lavo daí as minhas mãos
2025-05-07
Enquanto desfolho a sorte
Sem planear, nem prever
Desnudo o fim da morte
Tecendo um novo viver
Enquanto desfolho o azar
Procurando o esquecimento
Com o instante vou casar
Tecendo um novo momento
Folhas que servem p'ra vida
Às causas que eu acudo
Teço Terra Prometida
Enquanto desfolho tudo
2025-06-25
Manuel Calado
A mão da deusa e do deus,
A mão do arco e da espada,
Como um punho erguido aos céus,
São uma mão cheia de nada.
Tenho tanto mundo à mão,
Que se me esvai entre os dedos...
E a mão morta, meu irmão,
É uma mão cheia de medos.
Com mãos se fala sem voz
Com mãos se grita e se agride.
Uma mão chama por nós
Sem que a outra nos convide
Estas mãos com que te toco
Navegam, fazendo velas...
Posso dá-las, não as troco:
O que seria eu sem elas?
Com as mãos, manobramos,
Manipulos, manivelas,,,
Se recebemos e damos,
Como seria sem elas?
As mãos cheias, por magias,
Da santa mãe natureza,
Volta e meia, estão vazias:
A liberdade é leveza.
2025-06
Fátima:
Pelos que sofrem
Povo lavado de mágoa
F'rido destino consome
Oxalá te venha a frágua
Oxalá te abrace a água
Tu sabes o que é a fome?
Oh Mulher forte, da vida
Amiga, grande valor
Se cure a tua ferida
Seja a paisagem varrida
Tu sabes o que é a dor?
Oh orgulhoso e alçado
Polo mundo que há de vir
Nas ribeiras mergulhado
E pelo sonho alcançado
Tu sabes o que é cair?
Oh bom garboso mancebo
Que chegaste pelo estio
Por esse fogo que bebo
Pelo dom que assim concebo
Tu sabes o que é o frio?
Doce entrega do gemido
Levanta e traz a coragem
Parido foi, conseguido
Tremulamente vestido
Só pelas mãos da coragem.
(Fátima Remédios, 28.06.25)
Momentos c'ria que não Acabassem
Ficar por AQUI SORVENDO O AMOR
E mais , de uma dor de uma vez deixassem
Os tonéis partir com todo o rigor.
Qu' é a felicidade?, perguntam os céus
As aves respondem num azul trinado
É esquecer a noite em que tu partiste
Escolher amor os céus que subiste
Em volver de dia o novo chegado.
Não mais o cinzento trovão do gemido
Desolado unguento urdiu uma flor
E ela altiva no tempo parido
E ela a missiva diz do mar já ido
D'ouro serpenteia festiva e em cor.
Eclode o orvalho e assim me valho
Outrora sabido do jarro caído
Benzido em Janeiro de Janus molhado
Ungido cordeiro de joelhos dado
De jade bordado tão enamorado
Hoje vai erguido com todo o rigor
Hoje vem vestido de fogo esplendor.
(Fátima Remédios)
Maria Sarmento
Ela é a Fonte
a água primeira
a Origem da vida
entre pedras rolantes
e rios a correr entre os dedos.
Ela é a líquida promessa
a clara transparência das águas
as ondulantes luzes que reflecte
a solaridade das raízes
Ela é a fonte primeva
o jorro, o jarro, o choro
a luz da treva
a luz da terra azul
a toda a volta da circularidade
da maçã da romã e do cravo
do travo e do som que escorre
pela garganta dos vales
pelas pedras pelos prados
Ela é a água bebida em taça
de palavras sagradas
de femininas águas transparentes
que a deusa dá aos lábios sedentos
dos peregrinos da luz
dos indigentes dos loucos dos poetas
nas grutas nos desertos na montanha
Ela é a água da palavra
a larva dessedentada
a lava líquida larga
o Fogo que lavra na palavra sede
na palavra mágoa.
(Maria Sarmento, 20-06-25)
(Dedicado a Cassandra no dia do seu aniversário no bosque dos Poetas)
Entre os ramos finos das árvores mais verdes
escorre a seiva dos olhos de Cassandra
Pela verdade que se ergue em copa
Pelo copo da sede, pelo céu estreito
Pela multidão dos insectos, das flores
das cigarras, crescem horizontes de planura.
A terra é berço e ventre. O céu é leite
derramado nos vales, nos lagos, nos regaços.
Entre o brilho das estrelas e o coração dos montes
criam raízes as palavras e deus não disse
de que cor são os olhos, de que renda, as mãos.
Bordados de sombra nas veias do mar
Sorriso gentil onde é suave naufragar a barca
Caravela de luz entre os dedos das aves.
Solaríssima lava nos cabelos da tarde que arde
de frescura e de zelo, coração de Alexandra,
gémea de Heleno, as serpentes lhe deram
O dom de ser a Verdade em que ninguém crê
Mulher! profetisa de Apolo, de seu nome Cassandra.
(Maria Sarmento, 22-06-2025)