Questões sobre o Compromisso e sobre o boicote cultural a Israel e os seus objectivos

 

1. O Compromisso exige o boicote total aos fotógrafos israelitas?

Não existe boicote completo aos fotógrafos israelitas. O apelo palestiniano ao boicote foca-se em ligações ao Estado israelita. O compromisso é uma recusa em aceitar convites do Estado israelita ou de instituições que trabalhem com o Estado, ou que sejam silenciosas e cúmplices da ocupação e das políticas associadas. Por isso nada impede os assinantes do Compromisso de irem a Israel/Palestina se forem convidados por grupos que explicitamente apoiem os direitos palestinianos, ou pelas próprias organizações palestinianas.

 

2. Sou fotógrafo/a artista e não controlo quem compra a fotografia que produzo, nem a circulação da mesma uma vez vendida. Estou em posição de assinar o Compromisso?

Sim, está. O Compromisso não implica que o trabalho dos fotógrafos nunca vá a Israel. Pode considerar tomar providências para tornar o seu trabalho indisponível em Israel, se conseguir fazê-lo. Mas obviamente nenhum indivíduo pode controlar a circulação de produtos culturais num mercado global. Por exemplo, em alguns casos, um fotógrafo que apoia o boicote, pode ser impedido de controlar a distribuição dos seus livros de fotografia. Mas ele deverá recusar convites para apresentar o seu trabalho em Israel sob o actual regime político. No entanto, pode disponibilizar as suas fotos livremente  para, por exemplo, um grupo de activistas.

É importante reconhecer que as pessoas que trabalham na fotografia têm diferentes níveis de poder e controlo em diferentes pontos das suas carreiras. Quando os fotógrafos conseguirem reter o seu trabalho, pede-se que o façam.

 

3. Gostaria de assinar o Compromisso mas o meu livro de fotografia já foi publicado em Israel / minhas fotografias já estão numa galeria / já aceitei um convite lá há apenas seis meses.

Os últimos assaltos a Gaza resultaram em que muita gente tenha mudado a sua posição sobre o boicote. Muitos querem agora fazer parte de uma recusa colectiva e pública em aceitar actuais e futuros convites para Israel, ou colaborar com instituições israelitas. Claro que isto não funciona rectroactivamente e a adesão pública ao Compromisso hoje é um acto político positivo por si só.

 

4. E se eu inadvertidamente receber dinheiro “ligado ao Estado israelita” através de uma entidade para a qual trabalho?

Assinar o compromisso significa não aceitar comissões, prémios, residências, directamente da embaixada israelita, de um órgão oficial, órgão municipal ou instituição cultural que não se oponha explicitamente às políticas de Israel relativas aos palestinianos. Significa dizer “não”, quando convidado. Pode tomar providências para evitar fluxos de dinheiro mais indirectos, no entanto o objectivo do boicote não é sentir-se “puro” (quem o é?) por não ser manchado pelo contacto com um regime de que não se gosta, mas antes estabelecer alguns princípios cuja aplicação irá registar-se como um protesto colectivo e uma rejeição da cumplicidade dos nossos governos. Apela-se às pessoas que boicotem de acordo com a sua consciência, e a PACBI faculta directivas que as pessoas podem querer seguir e que os organizadores deste compromisso se comprometem a seguir.

 

Porquê Israel?

Muitos Estados têm políticas terríveis. Geralmente contamos com a pressão que a opinião pública mundial exerce sobre eles, expressa em termos práticos pelos nossos governos. No caso de Israel isto não funciona. Há quase 70 anos que os palestinianos, vítimas de limpeza étnica e expulsos das suas vilas e aldeias em 1948 para abrir caminho ao estabelecimento do Estado de Israel, têm vivido como refugiados ou pessoas internamente deslocadas. Mais de 45 anos depois de ter ocupado a faixa ocidental da Palestina (incluindo Jerusalém Leste), a Faixa de Gaza e o Golan Sírio, Israel continua a construir e expandir os colonatos exclusivamente judeus em terras palestinianas, a desalojar à força famílias palestinianas e a negar direitos civis, políticos ou humanos a todos os palestinianos. Israel estabeleceu, e continua a aplicar, um sistema de expropriação e discriminação que foi descrito pelo Arcebispo Desmond Tutu como apartheid.

As violações de Israel da lei internacional, dos direitos humanos e das inúmeras resoluções das Nações Unidas sobre a ocupação e construção ilegal de colonatos, são ignoradas. Os nossos governos permitem que Israel aja com impunidade, sem sofrer consequências do que faz.

Esta situação torna de facto Israel um caso único e coloca particular responsabilidade na sociedade civil mundial. Cento e setenta organizações de todos os espectros da sociedade palestiniana emitiram um apelo ao boicote, desinvestimento e sanções (BDS). E artistas e trabalhadores culturais palestinianos apelaram a um boicote cultural dos seus congéneres internacionais. O boicote é uma forma moralmente sã e não violenta de pressionar Israel a resolver as reivindicações legítimas dos palestinianos. O que Israel tem de fazer é:

1. Acabar com a ocupação e colonização de todos os territórios árabes ocupados em 1967 e desmantelar o Muro;

2. Reconhecer os direitos fundamentais dos cidadãos árabo-palestinianos de Israel à igualdade plena; e

3. Respeitar, proteger e facilitar o direito dos refugiados palestinianos ao regresso às suas casas e propriedades, como estipulado pela resolução 194 das Nações Unidas.

 

Porquê o boicote cultural?

Israel utiliza as visitas de artistas internacionais para produzir e divulgar uma imagem cultural de si próprio, quando de facto é um regime militarizado que mantém um povo inteiro sob uma ocupação brutal e permanente e aplica um sistema de discriminação e expropriação. Quando artistas e agentes culturais recusam legitimar com a sua presença ou actividades culturais um Estado que comete abusos de direitos humanos, a sua recusa tem poder moral. O boicote cultural é um modo de tornar visível a crueldade e exclusão que os palestinianos sofrem. Cada artista que participa em projectos culturais oficiais de Israel reforça o sentimento do governo de Israel de que é impune. Cada recusa envia uma mensagem clara de que existe um preço a pagar pela ocupação.

 

Não ir a Israel

O sofrimento dos palestinianos pode não ser a preocupação dos responsáveis pelos media, negócios e política israelitas, mas o crescente boicote internacional é-o certamente – a campanha está a surtir efeito. Só no Reino Unido, inúmeras figuras da cultura recusam actuar em Israel ou apoiam o boicote: o cientista Stephen Hawking, Roger Waters dos Pink Floyd, Brian Eno, o violinista Nigel Kennedy, Massive Attack, Elvis Costello, Faithless e os Gorillaz de Damon Albarn; os realizadores Ken Loach e Mike Leigh, os actores Emma Thompson, Mark Rylance e Miriam Margoyles, a lenda do teatro Peter Brook, a dramaturga Caryl Churchill, e os autores Iain Banks e China Mieville.

Estes são exemplos de perfis de destaque, mas o boicote é o modo como as pessoas que trabalham em todos os campos culturais no mundo podem expressar o seu apoio prático aos palestinianos. Em vez de ficarem indiferentes à injustiça da opressão de Israel aos palestinianos, o boicote dá-nos uma chave que pode em última análise destrancar os portões da prisão.