Aos chaverim do grupo,

Recentemente fui espantado, embora não surpreendido, por seguidas tentativas de ligar Jabotinsky - e o movimento juvenil judaico-sionista BETAR - ao fascismo. Um exemplo recorrentemente utilizado é a escola naval de betarím na Itália, criada na década de 1930. Venho aqui desmantelar tudo isso. Afinal, não é uma boa ideia, e tampouco inteligente, discutir a história do Betar com betarím.

Nós sabemos que se aproximam as eleições do Congresso sionista mundial, e, por isso, é essencial trabalharmos com a verdade - e somente a verdade - em situações como essa.

Ignorância, idiotice e compactuação com fake news foram algumas das propriedades atribuídas a todo um grupo, de forma generalizada. Grupo esse defensor dos ideais de Jabotinsky, aparentemente enxergado pelos opositores como fascistas. Seríamos nós fascistas ou seria necessária uma lente de contato àqueles que nos tentam difamar?

Sobre mim, especificamente, não estou acostumado a informações provindas de fake news. Pelo contrário, sou cético e busco me informar a fundo antes de defender qualquer posicionamento. Para nossa sorte, conheço a fundo a história da Academia Naval do Betar em Civitavecchia, e inclusive utilizo esse episódio como exemplo do Hadar em minhas peulot - princípio que deve ser incorporado em todo betarí, apresentando majestosidade e ética em todas as suas atitudes. Em anexo, mostro uma exemplar carta escrita por Jabotinsky, também transmitida nas peulot do Betar, aos betarím de Civitavvechia, com ordens explícitas de não-envolvimento em política local - assim como fazemos até hoje. A não ser em casos como alguém queimando a bandeira de Israel. Daí, sim, podem contar com o nosso envolvimento total. Como fizemos há alguns poucos anos. E como faríamos novamente, sem perdão ou  hesitação. No entanto, venho aqui não para falar sobre a vida de Jabotinsky em si - cuja incrível biografia foi disponibilizada pela revista Menorah, presente no post do dia 3 de Junho do Felipe da Costa - mas sobre outro tema: a filosofia jabotinskiana e mentiras desde sempre jogadas em cima dela e de seus seguidores.

Um ponto claro: NÃO É COMPATÍVEL COM O FASCISMO UMA FILOSOFIA BASEADA NA FRASE “TODO INDIVÍDUO É UM REI.”

Em primeiro lugar, a incompatibilidade com o fascismo dentro dos seguidores da ideologia betarí é tamanha, como vocês observarão a seguir, que qualquer tentativa falaciosa de associação do Betar ao fascismo faz o nosso sangue  ferver. A seguir, alguns trechos de comentários da discussão de betarím brasileiros que sustentam o ponto de que nada temos q ver com fascismo. Pelo contrário, acusações como essa são uma falha tentativa de utilização do argumento do espantalho (“aquele que não concorda comigo, é, necessariamente, desumano”) e exemplos da mais pura desonestidade intelectual.

“Ele nunca foi admirador do fascismo. Como você pode ler no texto, ele era um liberal e extremamente contra ideias coletivistas como o fascismo e o socialismo. As negociações que ele tentou articular com os governos fascistas tinha como objetivo salvar judeus, pois, como dito no texto, ele percebeu que esses regimes tinham como uma de suas bases ideológicas o antissemitismo.” - sobre o episódio em que Jabotinsky profetizou o Holocausto na década de 30 e elaborou um plano de fuga para a região da Palestina, boicotado pela liderança da época, que salvaria 1,5 milhões de judeus.

“Já dizia ele que repudiava os “Polizei-Staat” (Estados Policiais) e que em todo embate entre o indivíduo e uma força coletiva coercitiva, estaria sempre ao lado do indivíduo. Defensor feroz da liberdade individual, de imprensa, econômica, e qualquer outra. Enxergado como o mais influentes filósofos liberais nacionalistas sionistas. Não à toa que seu sobrenome é o nome de rua mais comum em Israel. Jabotinsky era tão fascista quanto Borojov - acredito eu que ainda menos, dado que sua ideologia era essencialmente anti-coletivista.“

“É desonestidade intelectual extrema comparar o Sionismo Revisionista com o Nazismo. (...) Parafraseando Jabo: ‘A primeira consequência de todo indivíduo ser um rei é, obviamente, a igualdade universal: a essência da minha ou da sua realeza é que não pode haver ninguém acima de você em dignidade ou status. A segunda consequência é a liberdade individual: um rei não é servo de ninguém.’(..)”

Dita a divergência da ideologia jabotinskiana do fascismo, é importante ressaltar a origem da Academia Naval do Betar na Civitavvechia, argumento falacioso trazido repetidamente por aqueles que por tudo tentam enquadrar seus opositores ideológicos como “fascistas”. Fácil, é claro, afinal eles tem evidências, correto? “Uma escola naval do Betar na Itália fascista. Cheque-mate! São fascistas.” Incorreto. O senso-comum, muitas vezes, engana.

A Academia Naval do Betar em Civitavvechia foi estabelecida em 1934, em acordo com o governo italiano. Os revisionistas garantiam em suas diretrizes que seus recrutas aprendizes deveriam EVITAR lidar com políticas fascistas locais. A pergunta, portanto, deve ser: Por que a Itália?

Para respondê-la, deve-se lembrar do panorama geopolítico daquele então. Nos primeiros anos da década de 30, as políticas inglesas demonstravam comportamento contrário ao que havia sido prometido aos judeus e acordado na declaração Balfour, 13 anos antes, e pela Conferência de San Remo: a formação de um Lar Nacional Judaico em toda a área do Mandato Britânico da Palestina. Nesse contexto, a desconfiança sobre os ingleses estava em seu ápice, e chegou-se à brilhante conclusão de que o Reino Unido não deveria mais ser confiado para o avanço da causa Sionista, e que a Itália, uma potência ainda crescente, seria capaz de desafiar os britânicos no domínio sobre a região. Assim como os britânicos frente aos turcos, os italianos frente aos ingleses pareciam a Jabotinsky aliados naturais, apesar de suas discordâncias ideológicas, ainda não excludentes de qualquer relação entre ambos. Gradativamente, após o desenvolvimento das políticas totalitárias e alianças feitas pelo governo italiano, a relação da direita sionista com esse grupo foi naturalmente desgastada, até tornar-se insustentável. Foi em 1938, após a instauração das políticas antissemitas do governo italiano e a consolidação da aliança nazi-fascista que a academia naval logicamente encerrou suas operações na Itália. Sua herança, no entanto, é tamanha: a academia treinou grupos de cadetes de toda a Europa, Palestina e até mesmo da África, dos quais alguns integrantes viriam a ser futuros comandantes da Marinha do Estado de Israel.

Das poucas vezes em que dissidentes revisionistas se aproximaram minimamente do pensamento fascista, Jabotinsky demonstrava sua repulsão, como observado no caso de Abba Ahmeir, fundador do partido judaico fascista “Brit HaBirionim”. Jabotinsky consistentemente dizia que não havia espaço para o Fascismo dentro de seu movimento Revisionista e descartava a retórica de Ahmeir. Segue abaixo uma fala de Jabotinsky, também mencionado como “o homem que é para os judeus o que Garibaldi foi para os italianos”,  sobre o episódio:

“Em nosso mundo, hoje, especialmente entre a geração jovem, o sonho de uma ditadura se tornou uma epidemia. Vou tomar essa oportunidade para declarar mais uma vez de que eu sou absolutamente contra esse sonho. Eu acredito na herança ideológica do século XIX, o século de Garibaldi e Lincoln, de Gladstone e Hugo. A moda ideológica de hoje em dia é que o homem é naturalmente desonesto e tolo, e que portanto não deveria ter o direito de ser seu próprio soberano; a liberdade leva à destruição, igualdade à falsidade, então a sociedade precisa de líderes, ordens e cassetetes… Eu não quero esse tipo de crença. É melhor não estar vivo de qualquer forma do que viver abaixo desse tipo de regime. Eu preferiria desaparecer e morrer do que estar de acordo com uma visão do mundo que vê meu filho e o filho de meu vizinho como seres de diferente valor, ou meu filho e o filho do sapateiro como desiguais. Eu defendo com toda a minha força a natureza democrática do nosso movimento. - Ze’ev Jabotinsky”

A escola do Betar em Civitavvechia nada tem a ver com aproximações ideológicas com o fascismo - pelo contrário, aqueles que tentam pintar isso na História, nada entenderam da ideologia de Jabotinsky e de diplomacia sionista. Tampouco entenderam o que significa a importância da preservação da memória do povo judeu e da História da civilização, que não pode ser deturpada em detrimento da verdade por conta do favorecimento de uma narrativa política ideológica. Nós, do Betar, recorrentemente passamos por situações assim. Inclusive, neste link, há um caso pelo qual passamos extremamente similar, porém dentro de uma instituição judaica oficial:

https://m.facebook.com/notes/betar-rio-de-janeiro/carta-pela-verdade/1351221848408866/

Mas voltemos para a preservação histórica, dever nosso não somente como betarím, mas como humanos. Afinal, a transmissão dos acontecimentos de acordo com sua veracidade, de forma objetiva, deve ser um fim maior. Na realidade, a origem da Escola Naval na Itália provém de aproximações político-diplomáticas: chamar Jabotinsky de fascista por tentar tirar vantagens de laços diplomáticos com a Itália é como chamar Herzl de genocida pan-islâmico por haver tentado tirar vantagens de laços diplomáticos com o Sultão Abdul Hamid, o Sultão Sangrento, líder Otomano durante o domínio turco da região da Palestina e responsável pela repressão hamidiana sobre os armenos. Inclusive, os opositores do sionismo tentam pintar a imagem de um Herzl genocida justamente por esses laços, assim como os antirevisionistas até hoje tentam pintar essa imagem sobre Jabotinsky. Só que ao ler 5 linhas do que escreveu Jabotinsky, isso simplesmente não cola. Como já explicitamos, Jabotinsky era um ávido individualista, crítico dos “Polizei-Staat”, dentre outras vários posicionamentos já esclarecidos por aqui.

Em detalhes maiores, os sionistas revisionistas, liderados por Jabotinsky, baseavam sua visão em um sionismo político e diplomático, algo não muito comentado na atualidade, considerado pelo próprio Ze’ev como um prosseguimento do legado de Herzl, fundador do Sionismo Político Moderno. Era também visto pelos revisionistas da época uma herança hertzliana abandonada por outras correntes, extremamente essencial para sua atuação na formação do Estado Judeu, como observado no trecho: “Noventa porcento do Sionismo pode consistir em trabalho tangível de assentamento; e somente dez porcento política; mas esses dez porcento são uma precondição para o sucesso.”

Mais uma vez, não acho ideal lecionar aulas por meio de comentários e posts facebook. Minha sugestão, já ignorada, ainda é válida: convido os opositores da ideologia betarí a uma conversa, democrática e baseada numa realidade objetiva, via chamada. Que tal conversarmos, como homens, sobre o assunto? Imagino eu que seria muito mais produtivo do que me fazer refutar cada peça de desinformação posta aqui no grupo. Deixo abaixo como recomendação um dos melhores livros que já li em minha vida: A filosofia política e social de Ze’ev Jabotinsky. Chevre, agora é um momento de união. Já estamos todos separados fisicamente, e esse embate só serve para aumentar ainda mais o abismo entre nós. Que sigamos lutando, juntos, pela verdade, com respeito e, como diria um betarí, com Hadar. Um grande abraço e boa leitura. Aos betarím e simpatizantes, tel chai.

Lamut o’lichbosh et ha’ar.

⛰💪🇮🇱 — thinking about Zionism with Betar Rio.

Theodor Fuchs, 5 de Junho de 2020.

NAO HÁ QUANTIDADE DE EVIDENCIA SUFICIENTE, NEM QUE SEJA COLHIDA EM ESCALA PLANETARIA, QUE CONVINÇA UMA MENTE DECIDIDA.