GUERRILHA URBANA

 

 

 

 

Clemente Vicentino filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro em março de 1964. Segunda-feira, 23 de março de 1964. Trabalhava numa fábrica de laminados na Cidade Industrial, em Contagem, tinha vinte anos e morava no bairro Aarão Reis, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Camaradas operários, vós, mais do que ninguém, tendes o direito de sobreviver, pois é nos vossos ombros que se apóia a economia deste país. E se os vossos patrões não sabem disso, forçoso é que alguém lhes diga. E se eles não escutarem, forçoso é que o sintam na carne, como vós, agora, sentis a fome. O discurso durou mais de três horas, mas Clemente gostou de escutar as palavras do orador. É isso mesmo, mermão. Eu ganho salário mínimo, quarenta e dois mil cruzeiros por mês, pego três conduções e o tubarão do meu patrão gasta milhões e milhões em sacanagens. Não tá certo.

A greve não vingou, apenas dois setores da fábrica pararam por um dia, mas Clemente sentiu que ali estava o seu caminho. E decidiu-se. Procurou a organização de base da fábrica, filiou-se e começou a pichar paredes. Meio ano depois, preso num jogo de ronda na porta da fábrica, foi despedido. Mas continuou e fez dos biscates profissão. Pichar paredes, distribuir cartazes e, na falta dos oradores oficiais, discursar nos comícios relâmpagos pipocados nas portas das fábricas da grande Belo Horizonte.

Jânio Quadros renunciou à Presidência da República no dia 25 de agosto de 1961, sexta-feira. No dia 25 de agosto de 1967, também sexta-feira, comemorando seis anos da renúncia e a coincidência dos dias, Clemente fez um discurso no Clube Céu Azul, convidado pela Associação dos Moradores. Com a maior convicção, esconjurou as forças ocultas que tinham imposto a renúncia do homem que, além de proibir as corridas de cavalos nos dias úteis e os desfiles de misses com maiôs muito cavados, também não teve medo de condecorar Che Guevara e de não apoiar a invasão de Cuba pelos Estados Unidos. Foi aplaudidíssimo.

Hoje, dez anos após a filiação ao Partido Comunista Brasileiro, Clemente é o orador oficial de uma organização de base na Cidade Nova. O nosso partido, camaradas, é o único partido político do Brasil que tem verdadeira estrutura partidária. É o único que sobrevive sozinho e na clandestinidade, sem coligações nem conchavos, sem arranjos e sem mamatas e, principalmente, sem apoios multinacionais. O Partido Comunista Brasileiro, camaradas, sois vós. Vós, os trabalhadores deste imenso e sofrido país, que só se ajoelha diante do imperialismo americano porque a hora da caça aos tubarões ainda não chegou. Mas está para chegar, disso ninguém duvide. Ninguém. Os companheiros acham que Clemente fala bem e Clemente acha que os companheiros estão certos, e todos se sentem satisfeitos. O que eu faço, fazendo bem feito, faz bem a mim, faz bem ao meu povo e faz bem ao meu partido. Clemente levanta os braços, agradecendo as palmas. É isso aí, cambada. Um dia vocês ainda vão reconhecer o meu valor e eu ainda vou ser troço paca nesta joça.

 

 

Clemente e Mena sobem a rua Carangola. Mena mora na rua São João Evangelista, no Santo António, e Clemente vai levá-la em casa. Caminham devagar pela calçada e conversam. Mena estuda artes cênicas no Teatro Universitário e Clemente conheceu-a na apresentação de um espetáculo da escola, entrada franca, e achou que dava para fincar uma bandeira. Fez-se encontrado e, agora, faz uma semana que a busca todos os dias no fim das aulas, mas a bandeira ainda está por fincar. Clemente olha Mena, os cabelos louros amarrados num rabo de cavalo e os seios balançando na cadência do andar, e sorri. Que baita mulher. Balança a cabeça, satisfeito. Mas eu chego lá. Ah, chego. Vamo que vamo, que um dia ainda boto ela num motel. Ah, boto. Mena pára de repente e volta-se para Clemente.

- Sabe? Eu só tou agüentando aquele papo de política estudantil do Barbosa porque a gente estuda junto, somos amigos, essas coisas, você sabe como é que é, né? Porque, o que eu gosto mesmo é de teatro, você sabe.

Mena cala-se. Clemente olha-a. Continua. Continua, que a gente chega lá. Mena começa andando.

- Lá na escola, por exemplo, todo dia tem caras que vão lá fazer discurso. Que a gente devia era fazer isto, que a gente devia era fazer aquilo, que a gente devia era matar, que a gente devia era esfolar, mas a gente sente, pelo menos eu sinto, que não é uma coisa assim bem organizada, tá entendendo? Tem um, então, o Azevedo, não sei se você conhece o Azevedo?

Clemente acena com a cabeça. Continua. Continua, que tá quase. Vai. Vai.

- Ainda hoje tava lá, você deve ter visto.

- Hum, hum.

- Pois é, ele agora não estuda mais, diz que trancou a matrícula, mas por ele a gente já tinha até botado fogo naquilo tudo. Mas tá na cara que é tudo papo furado, entende? Coisa mesmo de esquerda festiva, né, não?

Mena cala-se. Clemente acena com a cabeça e sorri. Vai. Vai. Continua, continua, que daqui a pouco, ó... Mena acende um cigarro e puxa uma tragada profunda.

- Eu não entendo muito disso, sabe?, mas um cara que fala do jeito que o Azevedo fala, entende?, eu acho que não pode ser do partido, conforme ele diz que é.

Mena cala-se de novo e puxa outra tragada. Clemente olha-a e acena com a cabeça. Continua. Continua. Bota pra fora. Bota pra fora, que depois eu entro. Ah, entro, se entro.

- Por isso eu fiquei satisfeita em ter conhecido você, sabe? Eu nunca tinha visto ninguém assim do partido e...

Clemente pára, pega o braço de Mena e fala como se ambos fossem conjurados numa conspiração. Com a maior solenidade.

- Tem uma coisa, o Azevedo foi que disse que eu era do partido, certo?

Mena olha Clemente, a mão com o cigarro a meio caminho da boca e os olhos arregalados de espanto.

- Você não tá pensando que eu...

- Não. Não. Quê que há? Só que, você entende, né? Aliás, conforme você mesma disse, por causa do Azevedo falar demais é que você acha que ele...

Mena joga o cigarro no chão, pega a mão de Clemente e começam andando. Clemente, olha Mena de lado e aperta-lhe os dedos da mão. Mena não tira a mão. Clemente sorri. Isso. Isso. Vai, vai, que comer e coçar, tudo vai do começar.

- Você já teve preso?

- Eu? Você tá brincando.

- Tou só perguntando.

Clemente sorri. Mais um tico e, ó, tá no ponto.

- Claro que eu já tive preso. Mena, qualquer membro do partido, assim com um pouco mais de projeção, tá entendendo?, já teve preso. Agora...

- É fácil a gente ser?

- Ser o quê?

- Do partido?

Clemente aperta mais os dedos da mão de Mena e sorri. Já tá que tá.

- Você gostaria de ser?

- Eu acho que gostaria, sim. Pelo menos seria diferente, sabe? Porque pra mim o partido, pra ser do jeito que ele é, quer dizer, pra ele ser do jeito que o pessoal fala que ele é, deve tar muito bem organizado e as coisas devem ser todas muito bem feitas, né, não?

Clemente pára e olha Mena. Chegou no ponto, mermão. Chegou mesmo. Mais um nicle e, ó...

- Sabe, Mena, não é fácil ser do partido. Primeiro, porque a polícia dá em cima toda hora e, segundo, porque a gente só quer gente boa, gente fina. Gente de absoluta confiança, tá entendendo?

Clemente coloca as mãos nos ombros de Mena e olha-a durante alguns momentos. O busto de Mena oscila com a cadência da respiração. Que beleza, e tá que tá, mermão. Tá que tá.

- Agora, quando alguém de dentro, assim com um pouco mais de projeção, se responsabiliza, aí é diferente.

Faz uma pausa. Eu sou mais eu. Eu sou mais eu, mermão.

- Mena, você sabe por quê que o Brasil precisa do partido? Porque somos nós que vamos botar essa milicada toda pra correr e salvar o Brasil, tá entendendo? E não tarda muito, você vai ver, a gente começa a guerrilha urbana. A guerrilha urbana é que vai arrumar o dinheiro pra começar a guerrilha rural, tá entendendo? E a guerrilha rural é que vai despertar os camponeses. Depois, os camponeses é que vão despertar os operários. E, depois, os operários é que vão despertar todo mundo, tá entendendo? Por isso é que eu ainda tou aqui, na guerrilha urbana, senão, ah, já há muito que tava no mato. Mas eu sou um soldado da democracia, entende, e tenho que esperar a minha vez, tá entendendo?

Puxa Mena de encontro ao corpo. Mena deixa o corpo ir. Isso. Deixa. Deixa, que vai.

- Agora, se você quiser entrar...

Mena solta-se e começa andando.

- Você acha que há mesmo condições de se fazer alguma coisa?

Clemente passa um braço em volta da cintura de Mena. Pô, cara, tu nasceu mesmo virado prá lua, cacilda. Um mulherão destes te dando a maior sopa... Mena pára e olha Clemente.

- Hem?

- Quê que há, Mena? Nós não botamos o Lacerda pra correr? Hem? O partido não é um bando de amadores, não, Mena. Ou você pensa que o Jânio Quadros se trumbicou por quê? Fomos nós que denunciamos o golpe dele, quê que há?

Faz uma pausa e olha Mena, solene.

- Me diga uma coisa, mas fale com sinceridade. Você me acha com cara de amador? Hem?

Mena não responde e começa andando. Clemente aperta mais o braço em volta da cintura dela.

- Você quer ver? Olhe só. Condenaram o Prestes, não condenaram? Obrigaram ele a fugir, não obrigaram? Pois bem, apesar de tudo que a gente vê por aí, a gente bota o Prestes onde a gente quiser, tá entendendo? No Palácio da Liberdade, no Palácio do Planalto, onde a gente quiser, tá entendendo?

Param na esquina da rua São João Evangelista. Mena mora a pouco mais de cinqüenta metros.

- A milicada, essa direita que taí, é uma piada. Não tem a menor organização. Se não fosse a CIA botar milhões e milhões aqui dentro, babau. Mas na hora H, a gente bota eles pra correr. Ah, bota. E vai ser logo, logo, você vai ver.

Mena olha Clemente.

- E ele volta?

- Ele, quem?

- O Luís Carlos Prestes.

- Claro que o Luís Carlos Prestes vai voltar. Ele só tá assim meio na sombra porque interessa ao partido que ele teja assim meio na sombra, tá entendendo? Mas na hora H...

- Você conhece ele?

- Se eu conheço ele? Ô Mena, é claro que eu conheço ele. Quem não conhece Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, hem?

- Mas ele não teve sempre fugido? Eu sempre escutei falar que...

Clemente tira o braço da cintura de Mena e gesticula.

- Ô Mena, Prestes sempre teve onde foi preciso. Ou você pensa que os congressos do partido são feitos ali na praça Sete, hem? Uma vez, eu quase fui a Moscou.

Mena acende um cigarro, puxa uma tragada profunda e começa andando. Clemente volta a colocar o braço em volta da cintura de Mena.

- Mena, o Partido Comunista Brasileiro não vai morrer nunca. E você sabe por quê? Em 1922, quando ele foi fundado em Niterói por nove delegados, sabe quantos membros ele tinha? Setenta e três. E você sabe quantos tem hoje?

Clemente faz uma pausa e olha Mena.

- Quantos brasileiros, mas brasileiros mesmo, tem no Brasil, hem, Mena?

Mena pára.

- Chegamos.

Clemente olha a porta do edifício e, depois, olha Mena. E agora? Falar em política é uma merda. A gente se entusiasma, não pára, e a vaca vai pro brejo.

- Escute.

- Sim.

- Você dei... Quer dizer, o que eu queria...

Clemente cala-se e olha Mena. E agora, que merda!?! Mena puxa uma tragada, joga o cigarro no chão, esmaga-o com o tênis e aponta uma janela iluminada no terceiro andar.

- Mamãe já chegou. Vamos subir e tomar um cafezinho?

Clemente respira fundo e mete as mãos nos bolsos. Ah, dane-se. Já que tá, tá, pô. Agora, ou vai ou racha.

- Sabe o é que é que eu queria mesmo? Era dar um beijo em você. Você deixa?

 

 

              Cunha de Leiradella

              Escritor

              leiradella@sapo.pt