Quarta - 30/01/2008 - 02h20

As primeiras horas de Gabriela (agonia e vida)

Mesmo com o silêncio cúmplice de muitos, a mentira canhestra de outros tantos, a cidade de Mossoró tem acompanhado o drama da recém-nascida prematura "Vitória Gabriela". Por este Blog e o Jornal Página Certa, o fato ganhou repercussão.

Um pouco depois, segmentos diversos da mídia se tocaram não apenas para esse caso em particular, mas à crise que envolve a falta de estrutura da "Casa de Saúde Dix-sept Rosado". O relato abaixo não é de um jornalista. É de um pai que, apesar do desespero, enxerga que muitas outras vidas estão sob ameaça e dezenas e centenas de outras já feneceram.

Leia com atenção. Difícil não se comover. 

Por mais que estivesse habituado a ouvir denúncias de pais desesperados por perderem seus filhos recém-nascidos, por falta de condições de atendimento e do não-funcionamento de uma UTI Neonatal, em Mossoró, jamais imaginei que a vida me preparasse tamanha surpresa e fatalidade. Descobri forças que não pensava possuir. 

De repente, a gravidez saudável de minha esposa, Cleilma Fernandes, foi interrompida na madrugada de sábado (19) por um descolamento de placenta de causa ainda não identificada. Entretanto, algo assinalado na literatura e ciência médica. 

Imediatamente a obstetra, doutora Verônica Meireles, foi comunicada e pediu que a paciente fosse encaminha à Maternidade Almeida Castro, da Casa de Saúde Dix-Sept Rosado. Não havia outra opção. Assim procedemos. 

Acompanhada do médico anestesista Ronaldo Fixina, doutora Verônica chegou rapidamente à maternidade. O procedimento foi feito com urgência e Cleilma, em poucos minutos, já estava na sala de parto. Pedi para entrar, o que foi permitido, graças a Deus. Não conseguiria ficar de fora, vendo minha mulher sob tamanha agonia, apesar da expectativa da chegada de nossa criança. 

Não havia pediatra assistindo o parto, apenas doutora Verônica, uma auxiliar de enfermagem e o anestesista Ronaldo Fixina - que ajudava no procedimento.

Embora tenha sabido depois que a pediatra de plantão se encontrava no hospital, em outro local, mas não no ambiente da sala de parto.  

HEROÌSMO 

Enquanto o bebê não nascia, tenso, eu olhava as coisas em volta. Não via nenhum equipamento de pediatria, como aparelhos de ressuscitação. No nascimento de outras filhas em Maceió (AL) e Recife (PE), eu testemunhara outro quadro e amplas condições técnicas, estruturais e de pessoal.

Descobri logo que muitos médicos, enfermeiros e pessoal de apoio que atuam na Casa de Saúde Dix-sept Rosado chegam ao extremo do heroísmo.  Não demorou muito e às 5h20 "Gabriela" nasceu. 

A auxiliar de enfermagem exclamou: "É uma menina! Está morta, vocês querem ver...?"

Eu e Cleilma, atordoados, dissemos que não. Ficamos tristes. Naquele momento, havia desabado todo projeto de vida que havíamos preparado para receber Gabriela. Daí, de chofre, a auxiliar de enfermagem saiu com a suposta "natimorta" para outra sala.  

De súbito, resolvi ver meu bebê mesmo que ele estivesse morto. Encontrei-a sozinha num quarto localizado na parte posterior à sala de parto. Aproximei-me e vi que respirava. Atônito, saí em busca de socorro ou explicação e entrei numa sala onde estavam cerca de cinco mulheres se contorcendo em dores. Sozinhas. 

Perdi-me no labirinto de salas por alguns instantes, sem ter visto nenhum médico ou auxiliar de enfermagem. Voltei ao local em que estava a pequenina Gabriela e vi doutor Fixina dando os primeiros socorros. Não me contive em olhar e, ao sair, cruzei com duas enfermeiras e ouvi quando uma delas comentou: "...ela não sobrevive mais que vinte minutos".

As poucas esperanças que eu tinha foram desmoronando.  Sabendo que Cleilma ficara bem-assistida aos cuidados de doutora Verônica, resolvi sair daquele ambiente e esperar do lado de fora. Isolado, fiz a minha oração e pedi conformação e forças para que pudesse confortar Cleilma que estava fragilizada.

Não demorou muito, doutor Fixina chegou com ar de espanto e felicidade. "A criança está viva..., respirando. Entre para vê-la. A pediatra quer falar com você". Ao chegar ao recinto novamente vi que Gabriela estava assistida por um pequeno aparelho de oxigênio, mexendo braços, pernas e chorando. Quase não acreditei. Minhas esperanças renasceram. 

Mas, a luta por sua sobrevivência apenas estava começando.

Com muita vontade de viver, Gabriela fazia a sua parte. Resistia a cada minuto de espera por socorro. Com semblante calmo e transmitindo a confiança de seus 34 anos de experiência a pediatra, doutora Ana Lopes disse: "Trata-se de um bebê prematuro extremo. Se tivéssemos aqui uma UTI Neonatal as chances dessa criança sobreviver seriam de mais de 90%. Sem a UTI Neonatal essa chance se reduz a quase zero".

A sensação de impotência nessa situação foi terrível.

Ver uma filha agonizando, quando poderia estar numa UTI Neonatal, que tanto alertei à sua prioridade, era um pesadelo. Por que aquilo chegara a mim, a Cleilma e àquela inocente? Só me lembrei das caras dos canalhas anunciando sorridentes que a UTI de Mossoró estava pronta, numa pura demagogia criminosa. 

Respirei fundo e perguntei-a como proceder e ela respondeu: "Somente a remoção urgente para Natal ou Fortaleza poderá salvar sua filha. É preciso providenciar uma UTI no ar. Em último caso uma ambulância UTI, mas, em Mossoró, não há nenhuma ambulância equipada para esses procedimentos de urgência. Mesmo assim, o risco da viagem terrestre é enorme". 

Comuniquei a Cleilma o que estava se passando, justifiquei a minha ausência e parti em busca de soluções imediatas. O que poderia ser um procedimento de rotina da maternidade da Casa de Saúde Dix-Sept Rosado, providenciar a logística dos pacientes de riscos, se transformou numa transferência de problemas. É como se dissessem: "Se vira que o filho é teu".

Tudo isso, num momento de alta fragilidade de pais e parentes que precisam justamente do apoio profissional de uma unidade de saúde.   

SAMU 

Tentei o SAMU em vão. Tinha que pedir iniciativa a alguém ligado à Gerência de Saúde ou ao próprio agitador cultural Gustavo Rosado, chefe de Gabinete da prefeita Fafá Rosado (DEM) e seu irmão. Ele, que é tido como "prefeito de fato" tem o poder sobre a vida e a morte em muitos casos.

Ambulância, se houver, só se movimenta com o "sim" ou o "não" dele.

Nascido em berço de ouro, o "prefeito" deve ter dificuldade de entender como o mundo funciona em favelas, nos cortiços e mocambos da cidade "da gente" e na maternidade dos seus primos, que até bem pouco tempo eram seus chefes político.  Acionei o Ministério Público Estadual, através do promotor de Saúde, Leonardo Nagashima, pouco antes das sete horas da manhã do sábado. Fui prontamente atendido. Sua agilidade e fôlego, com sentido humanístico, fizeram com que uma ambulância se deslocasse de Natal.

Mossoró, com seus quase 250 mil habitantes, orçamento municipal de quase R$ 300 milhões para 2008, não dispunha de equipamento adequado ao translado de minha filha em agonia.   Entre a vida e a morte.   Ao voltar à maternidade da Dix-sept  apareceu outro problema. O pediatra, doutor Jéferson, tinha dificuldade em conseguir um leito na UTI do Hospital Santa Catarina, em Natal.

Novamente tive que recorrer a amigos influentes e, finalmente, a vaga estava garantida. Gabriela respirava, há cerca de sete horas, apenas com o oxigênio e o procedimento médico feito pela pediatra Ana Lopes. Eles a sustentavam viva e, certamente, uma FORÇA superior. 

Cansada, Gabriela teve ainda que vencer outra etapa de quatro horas de viagem até dar entrada no Hospital Santa Catarina, às 16h do sábado. Ao todo, foram onze horas de resistência do bebê. "Foi quase um milagre ela chegar viva!", disse um neonatologista de plantão do Hospital Santa Catarina. 

O bebê de 955 gramas, prematuro, com gestação de pouco menos de seis meses, parecia destinada a ser não apenas uma filha, mas uma renovação de forças. Chegava para ratificar que seus pais e as pessoas de bem de Mossoró não podem se calar ou apostar na indiferença, para ver como é que fica. 

DEUS 

Até o fechamento dessa matéria (23h de sexta, 25), Gabriela se recuperava bem. Seu estado ainda é grave para um prematuro de 27 semanas, que sofreu com a demora do socorro. Mas graças a Deus, há uma boa evolução clínica. Agradeço ainda aos médicos e outros profissionais dedicados que a assistiram; aos amigos e à sua própria vontade de viver.

Os "20 minutos" que alguém previra para sua existência terrena, já foram superados em muito. Vai muito mais além. Tenho muita fé nisso.    Esse é o resumo da verdadeira história que aconteceu no episódio de "Vitória Gabriela."

Canalhas com perfil de assassinos tentam me desmentir através da imprensa.    É bom lembrar que tudo isso se passou a partir da maternidade da Casa de Saúde Dix-Sept Rosado, que tem o ex-deputado federal Laire Rosado como diretor clínico. Mas aqui não me reporto ao político, mas àquele homem que prestou juramento de zelo à vida.

Este relato não é uma peça de ataque politiqueiro e, sim, de louvação à justiça, à dignidade e à cidadania.

O que me aconteceu ganha notoriedade em face da exposição pública que minha atividade proporciona. Porém, não sou exceção ao lado de Cleilma e Vitória Gabriela. Somos a parte - agora visível, de um "iceberg" de frieza no tratamento de vidas humanas. Mortes são uma realidade na Casa de Saúde Dix-sept Rosado, onde mensalmente se amontoam cadáveres de pequenos inocentes, sem nome ou sobrenome  nobres.

Essa massa inconsciente, o povão, não sabe o mal que o banditismo engravatado lhe causa. Tão inocente que é como a minha Vitória Gabriela.

Carlos Duarte - Diretor do Jornal Página Certa

 

 

 

 

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
© Copyright Carlos Santos. Todos os direitos reservados.
É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte.
 
 
Domingo - 02/03/2008 - 06h00

Adeus, Vitória Gabriela!

A quem entregarei o ursinho de pelúcia cor-de-rosa comprado para lhe ser entregue quando você saísse do hospital e pudesse sentir a luz do sol aqui fora? Eu teria me aproximado perplexo com sua sobrevivência e depositado, entre seus braçinhos frágeis, essa oferenda singela por seu heroísmo.

Dado-lhe os parabéns e ficado comovido com o vai-e-vem errante de seus olhos agora livres do pesadelo da luta diária pela vida, ou com seu sono inocente, tão distante do mundo hostil, envolvida finalmente pelo carinho dos que rezaram por você.


Sabe, Vitória, minha angústia é com o que lhe foi tirado: seus primeiros passos errantes, suas primeiras palavras, sua primeira escola, seus primeiros amigos, seus primeiros namorados, suas primeiras conquistas pessoais, a vida, enfim. Imaginar que você não tomará banho de chuva, não brincará de boneca, não sorrirá banguela, não provará o fruto doce-amargo que é o amor...

Sentir que seremos privados de tudo quanto, ao longo de um espaço de tempo indefinido, iria lhe constituir enquanto ser humano ímpar, inigualável como qualquer outro, seus sorrisos, suas lágrimas, suas palavras, seus gestos, seus silêncios! E minha tristeza decorre da sensação de impotência que carrego comigo por não ter podido fazer algo que significasse a diferença entre você sobreviver ou não.

Impotência por não ter o dom de fazer milagres. Por não saber rezar com a fé que remove montanhas. Por não ter podido lhe levar a algum lugar especial, onde a esperança fizesse sentido. Por não depender de mim, apenas de mim, mudar as coisas que lhe fizeram refém de nossos defeitos, nossos vícios, nossos erros.

Impotência pela nossa condição humana de absoluta fraqueza ante os vícios sórdidos que contribuíram para seu sofrimento.

Talvez você estranhe essa despedida tão peculiar. Os outros perguntariam: por que somente para Vitória essas palavras, essa tristeza? Por que não para todas as outras Vitórias, Marias, Antonias, que estão nascendo e morrendo quando deveriam estar nascendo e sobrevivendo, crescendo, povoando este estranho, belo e difícil mundo de meu Deus? Por que esse adeus tão pessoal? Tantas não sofreram e sofrem o mesmo que Vitória sofreu? Tantas não passaram pelo seu calvário pessoal? 

Claro que sim, digo eu. Há tantas Vitórias mundo afora... Mas você Vitória, você, Vitória Gabriela, é um símbolo. Um exemplo. Uma lição. Em você, no seu corpo frágil, na sua existência breve, na sua historia curta, há tudo que diz o Homem: sua glória e sua maldição, o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto.

Em sua luta pela sobrevivência podemos encontrar o destino da humanidade e sua história, aquilo que nos aproxima dos deuses e tudo quanto Dele nos afasta. Em sua breve vida há tanta beleza... 

Então que Deus a tenha. Descanse em paz. Não lhe esqueceremos.

Honório de Medeiros é professor, advogado e ex-secretário de Recursos Humanos de Natal e do estado

* Crônica em homenagem à filha do casal Carlos Duarte-Cleílma Fernandes, que resistiu 37 dias numa UTI Neonatal (Hospital Santa Catarina-Natal), após falta de assistência mínima em Mossoró, na Casa de Saúde Dix-sept Rosado.
 
 
 
 

 

Carlos Duarte, vítima de Laíre Rosado Apamim

 

Ao ler o seu artigo 'Inacreditável - Não deixe ninguém da família só em hospital' não poderia deixar de recordar o triste episódio semelhante que, lamentavelmente, ocorreu comigo e minha esposa (Cleilma).

 

Minha filha (Vitória Gabriela) também foi dada como morta, ao nascer, na maternidade da Casa de Saúde Dix-Sept Rosado, em Mossoró, em 19 de janeiro de 2008. Minutos depois, encontrei-a agonizando, sozinha - largada para morrer - em uma sala contígua à de parto.

 

Isso aconteceu 15 dias após o quadrilheiro Laire Rosado - e sua trupe - ter anunciado com larga euforia, na imprensa, a inauguração de três leitos de UTI Neonatal, que sequer existiam fisicamente (existiam apenas no papel), e que só entraram em precário funcionamento, por pressão da repercussão do caso na mídia, alguns dias depois.

 

O mais grave nisso tudo é que as autoridades legalmente constituídas não cumprem adequadamente o seus papeis ou missões a que estão obrigadas.

 

1 Quem deveria prevenir e punir esse tipo de barbaridade, na verdade, se omite e/ou comente atos de conivências. Sabe-se lá, atendendo a que tipo de interesses... .

 

A Suvisa e o Ministério Público Estadual, por exemplo, - que demonstraram, recentemente, competência de sobra na articulação para fechamento do Hospital Duarte Filho - nunca se pronunciaram, no caso Vitória Gabriela, ou mesmo se dignaram a apurar os fatos.

 

Preferiram o silêncio cúmplice. Enquanto isso, vítimas anônimas fazem parte do cotidiano dos corredores de hospitais, cujas estatísticas beiram a um infanticídio consentido.

 

Causa asco a falta de escrúpulo de autoridades e gestores públicos (criminosos) que, voluntária ou involuntariamente, compactuam e/ou contribuem para ceifar pessoas inocentes e carentes.

 

E agora, doutor, quem vai pagar pela irresponsabilidade dos quadrilheiros que desviaram recursos federais destinados para compras de ambulâncias, medicamentos e outras finalidades à saúde, causando a morte de criancinhas e o infortúnio de seus pais?

 

Quem vai pagar pela omissão de socorro, que foi fatal para a morte de minha filha e de muitos outros inocentes?

 

Por que o Ministério Público, a Suvisa e a própria Justiça fazem vistas grossas para questões sérias como a que permeia a saúde pública? Por que será que nenhum gestor público é penalizado severamente pelos crimes cometidos ou até mesmo pela falta de eficácia de gestão?

 

Os 37 dias de sofrimento, angustias, esperanças e desesperanças, intensamente vividos por mim e Cleilma, estão indeléveis em nossa memória e se transformaram em “Dias Eternos” – título provisório do livro que estamos escrevendo.

 

No mais, rogamos a Deus que nos dê o equilíbrio emocional de sempre e não sejamos impelidos a cometer insanidades ao cruzarmos com esses criminosos impunes, que posam de bons moços para os holofotes da mídia.

 

(O TEXTO CONTINUA NO PRÓXIMO COMENTÁRIO)

Carlos Duarte | carlosduarte@veloxmail.com.br | Mossoró (RN) |  07/01/2009 09:23