On Behalf Of Pedro Vaz Pinto
Sent: 12 September 2009 22:56
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2009

06. Relatório Palanca - Julho e Agosto

 

VERSÃO PORTUGÊS

 

Caros amigos,

 

Meses de preparativos finalmente culminaram na tão necessária operação de captura, e os resultados foram extraordinários e acima das expectativas. Um enorme sucesso!

 

Nas últimas duas semanas antes da operação, terminámos mais alguns acabamentos nos 8km de vedação (que delimita o santuário de 400 hectares) e lidámos com todos os necessários aspectos burocráticos e logísticos. As queimadas sazonais tinham chegado mais tarde que em anos anteriores, mas a mata parecia em boa condição para os nossos objectivos – boa visibilidade aérea com a maior parte das árvores sem folhagem, e pouco capim acumulado no solo. Entretanto, o Luís Veríssimo, baseado nos EUA, tinha vindo a monitorar as queimadas na Cangandala e Luando através do satélite MODIS, e produzindo mapas semanais com a evolução destas em ambas as reservas.

Os últimos registos nas câmaras ocultas mostraram a manada das palancas/ híbridos a meados de Julho (Foto 01), e sem surpresa na zona da salina S3C, habitualmente a salina preferida durante o cacimbo. Igualmente importante, foram os resultados laboratoriais no ADNmt às fezes que tinham sido colhidas numa certa anhara no Luando no mês anterior, confirmaram o que já suspeitávamos: tratavam-se de Hippotragus niger variani – palanca negra gigante!

 

No final do mês tudo estava pronto, e a operação começou oficialmente no dia 24 de Julho com a chegada a Malanje do Barney O’Hara no seu bem equipado Helicóptero Hughes 500 (Foto 02), vindo do Botswana. O Pete Morkel veio mais uma vez como o veterinário para coordenar todo a captura e manuseio dos animais, tendo chegado uns dias antes. Mais tarde, o Jeremy Andersen e o Richard Estes, também passaram uns dias na Cangandala para nos auxiliar com os seus enormes conhecimentos relativamente às palancas. A operação de captura foi financiada pelo Bloco petrolífero 15 (Sonangol como concessionária, Esso como operadora, e restantes empresas associadas), mas uma menção especial deve ser dada a diversas pessoas que gentilmente ajudaram a assegurar a logística no parque como a Henriette Koning, e à empresa Oceaneering e às FAA - Forças Armadas Angolanas, que facilitaram a aquisição e transporte do combustível e sua disponibilização no terreno. A operação foi ainda totalmente filmada em vídeo HD - alta definição para produção futura de um documentário, pelo nosso amigo Kalunga Lima da empresa Angolana LS Produções, e ele acabou por obter sequências espectaculares. E a televisão nacional TPA também manteve uma equipa no terreno durante duas semanas, pelo que igualmente gravou imagens informativas de grande impacto, que foram posteriormente difundidas a nível nacional, tendo gerado grande entusiasmo.

 

Ao longo das três semanas e meia que durou a operação ficámos baseados no parque da Cangandala e fazendo voos de helicóptero todas as manhãs. O principal objectivo era o de capturar o máximo número possível das fêmeas puras sobreviventes na Cangandala, e transportá-las para o santuário de 400 hectares. Em segundo lugar e o que era ainda mais ambicioso, pretendíamos localizar mais palancas no Luando e, se tivéssemos sorte, imobilizar com dardo e trazer um macho para a Cangandala. Um dos preparativos cruciais durante a primeira semana foi, sob a exigente e perfeccionista supervisão do Pete Morkel, a construção de uma “boma” -  zona temporária de adaptação (Foto 14), uma espécie de área de quarentena onde esperávamos manter as fêmeas em período de adaptação sob a nossa monitorização, por uns dias antes de libertadas.

 

Tipicamente começávamos a voar tão pronto as condições climatéricas o permitissem, sempre entre as 06h30 e as 8h30, dependendo das neblinas matinais, e cada voo durava de duas a quatro horas, por vezes com paragens rápidas para reabastecer, para manusear animais ou para verificar algo no terreno. Em cada voo, o Barney ia à frente de onde pilotava talentosamente o helicóptero sentando-me eu à sua direita como navegador; o Pete, sendo canhoto, posicionava-se directamente atrás do Barney, de onde obtinha o melhor ângulo para apontar e alvejar os animais. Ocasionalmente um quarto passageiro sentar-se-ia ao lado do Pete.

 

Sempre que um animal era avistado e decidíamos que deveria ser imobilizado, mantínhamos o contacto visual à distância por um par de minutos enquanto o Pete preparava o dardo – basicamente juntando um cocktail de drogas que introduzia dentro do dardo. Uma vez pronto o dardo, o Barney conduzia suavemente o animal até o levar a entrar numa zona aberta próxima (geralmente uma anhara), ao que se seguia imediatamente uma perseguição vertiginosa que culminava com o Pete a disparar o dardo a poucos metros “em cima” do animal. A perseguição propriamente dita na maior parte dos casos levava menos de um minuto mas era sempre um momento de grande adrenalina, e de onde sobressaía de forma espectacular as capacidades do piloto.

 

Uma vez o animal atingido pelo dardo (e muito poucos foram os tiros falhados pelo Pete), afastávamo-nos rapidamente e controlávamos então o animal à distância, esperando que a droga fizesse efeito, levando entre 3 a 7 minutos até cair prostrado. Nessa altura o helicóptero aterrava o mais próximo possível, para que acorrêssemos rapidamente ao local, onde o animal seria manuseado prontamente. O procedimento standard era avaliar a condição geral do animal, removendo o dardo e tratando a ferida, registando a presença ou não de carraças e tratar a pele com insecticida, e ainda injectar um antibiótico de largo espectro e desparasitante. A dentição seria verificada para estimar a idade, e as fêmeas eram observadas para ver se tinham qualquer sinal de reprodução. Os cornos dos machos eram medidos, e nas fêmeas que foram transportadas para o santuário, serrou-se a ponta dos cornos para evitar ferimentos derivados de interacção social dentro da área de quarentena. Nos animais que foram imobilizados no Luando, pintou-se com tinta de spray as pontas dos cornos para que nos dias seguintes pudessem ser mais facilmente identificados a partir do ar. Todos os animais imobilizados foram marcados com brincos coloridos nas orelhas, e nalguns foram colocadas coleiras de transmissão VHF e/ou GPS/GSM.

 

O manuseamento durava apenas alguns minutos, após o que o animal estava pronto para a última fase: ser libertado ou transportado para a boma. A libertação do animal era um processo muito simples, sendo-lhe injectado o antídoto, e literalmente em segundos o animal recuperava totalmente e afastava-se, um pouco confuso e com nada mais a recordar que uma pequena ressaca.

Já a translocação de animais era uma estória bastante diferente e um exercício impressionante. As palancas eram transportadas pelo helicóptero, suspensas pelas patas 30 metros abaixo, até uma zona intermédia onde os participantes e visitas estavam à espera. Aqui as palancas eram descidas directamente em cima de uma maca, e então conduzidas na caixa aberta de uma carrinha até á zona de quarentena, onde finalmemnte lhe era ministrado o antídoto. Durante todo o processo, o animal estava drogado, com os olhos vendados e os ouvidos bloqueados com algodão, de forma a que estivesse totalmente insensível a toda a excitação envolvente.

 

No primeiro dia de voos dirigimo-nos à área primordial na Cangandala, e após cinco minutos de voo deparámo-nos com o macho dominante de palanca vermelha (sim, o desavergonhado macho liberal que tem andado metido com as fêmeas de palanca negra há tanto tempo!), mas após um momentânea hesitação, decidimos não o capturar já (para ser castrado), dessa forma salvando a sua masculinidade. Apesar de nunca mais o termos tornado a ver, aquela revelou-se ter sido uma boa decisão, já que umas centenas de metros mais à frente encontrámos a manada principal. O grupo era maior que o antecipado, totalizando 16-17 animais, entre fêmeas puras e híbridos. Escolhemos então uma fêmea híbrida (Fotos 03, 04), que foi imobilizada sem problema e rapidamente libertada já com uma coleira VHF. Mantendo-nos fiéis ao plano inicial, a ideia era usar esta fêmea nos próximos dias, de forma a levar-nos até às fêmeas puras, uma a uma. Esta híbrida era, como esperado, um animal já bem conhecido; de facto era um dos híbridos mais velhos e precisamente a fêmea que tinha sobrevivido por pouco a uma armadilha de laço em Dezembro de 2007. A ferida estava já sarada, mas o animal mantinha uma cicatriz muito feia, e a pata direita traseira ficou em consequência inchada e deformada (Foto 05).

De todas as formas, e ao longo das semanas seguintes, esta pobre híbrida revelou-se como um Judas muito competente e foi crucial para o sucesso da operação, levando-nos a cada 1-2 dias a todas as fêmeas puras.

 

No total identificámos 9 fêmeas puras no grupo, e conseguimos capturá-las todas (Fotos 17 – 41)! Este foi um resultado claramente acima das nossas conservadoras expectativas. Estávamos bastante seguros que haveria menos de 10 palancas puras na Cangandala, mas receava-se que não fossem mais de 5 ou 6, pelo que encontrar mais e capturá-las todas foi sensacional. Não podemos excluir completamente a possibilidade de existirem mais uma ou duas palancas puras algures no parque, mas neste momento parece duvidoso. Em todo o caso, as câmaras ocultas continuarão a vigilância, como sempre.

Já não foi surpresa verificar que todas as fêmeas eram relativamente velhas, com idades estimadas entre os 8 e 14 anos, a mais nova sendo nascidas em 2001. Apesar de bem maduras, todas as fêmeas se encontravam em excelente condição física, de boa saúde e bem alimentadas, com pelagem macia e brilhante e sem carraças. Para tudo isto concorrem as condições anormais da Cangandala, com baixíssima pressão de predadores, baixos níveis de competição, e uma bizarra taxas reprodutiva quase nula. Apenas uma das fêmeas apresentava sinais (tetas com leite) de ter uma cria (híbrida pois claro) com alguns meses. Todas as restantes fêmeas não apresentavam qualquer sinal de crias ou gravidez.

Apesar da sua relativa idade mais avançada, o Pete estima que mesmo as mais velhas ainda deverão poder produzir duas a três crias, antes que os seus dentes fiquem de tal forma desgastados ao ponto de condenar o animal a morrer de fome (considerando-se que morre “de velhice”).

 

O súbito sucesso na Cangandala marcou o tom para ainda maiores e mais excitantes surpresas no Luando, onde nos concentrámos enquanto deixámos o Judas sem perturbação durante alguns dias para se juntar ao grupo. Tal como na Cangandala, saiu-nos logo o Jackpot, pois ao voarmos pela primeira vez direitos ao local de onde tínhamos recolhido as fezes em Junho, mal queríamos acreditar no que víamos quando, na orla da anhara, nos deparámos com a inconfundível silhueta negra – um macho de palanca negra gigante! Ele foi imobilizado com toda a limpeza e manuseado apropriadamente no terreno, o que claro está, proporcionou um momento especial e inesquecível ao poder segurar e sentir aqueles poderosos cornos nas mãos pela primeira vez. Já não era apenas uma criatura mitológica – ali estava ele, carne, ossos e cornos (Foto 06). E que belo exemplar ele era!

 

Meia hora mais tarde e não muito distante daquele local, imobilizámos de seguida uma fêmea adulta (Foto 07). Ela estava aparentemente sozinha, mas o úbere cheio indicava que tinha parido recentemente, pelo que a jovem cria deveria estar escondida num local próximo. Uns dias mais tarde viemos a encontrá-la já com a cria, uma semana depois também com outra fêmea, e duas semanas depois eram já três fêmeas adultas, duas pequenas crias, dois jovens e um macho (este já antes marcado). Este parece ser o comportamento normal para a época do ano em que as fêmeas acabam de parir sozinhas, e vão depois reagrupando-se gradualmente e restabelecendo os laços sociais. Mais uma vez, em claro contraste com a situação na Cangandala, onde todas as fêmeas (e híbridos) foram encontrados juntos, quando deveriam estar em plena época reprodutiva.

 

Nas semanas seguintes a nossa sorte continuou, não apenas com os já referidas fêmeas na Cangandala, mas acabando no Luando por encontrar e imobilizar um total de sete machos territoriais (Fotos 08 – 13), e ainda outro pertencente a um grupo de 7 machos “solteiros” (manadas de “solteiros” constituem uma unidade social clássica nas palancas, formada por machos que não possuem um território para defender, geralmente jovens recentemente expulsos da manada de fêmeas). Nem em sonhos esperávamos obter resultados tão extraordinários! Se algo a apontar, foi o facto curioso de encontrarmos no Luando muito mais machos que fêmeas (as únicas fêmeas vistas aqui foram as referidas no parágrafo anterior), mas isto terá sido possivelmente causado por uma combinação de estas apresentarem um comportamento críptico devido à época reprodutiva, e ainda à sua coloração e postura menos conspícua.

 

Nenhum dos machos imobilizados pode ser classificado como um espécime extraordinário, mas todos foram exemplos característicos do “tipo palanca negra gigante”. O comprimento dos cornos foram ligeiramente decepcionantes, e claro que teria sido mais excitante imobilizar um macho verdadeiramente notável com cornos acima das 60 polegadas, mas não foi assim. Seis dos machos eram bem maturos e com pelagem negro carregado, com idades estimadas entre os 8 e 12 anos de idade, e com os cornos de todos eles com dimensões compreendidas entre as 50 e as 54 polegadas. Os restantes dois machos eram jovens e ainda mais ou menos castanhos, um de apenas 4 anos e já com 43 polegadas, e um de 6 anos com 49’’. Estes machos podem ser considerados como medianos para palanca negra gigante, mas mesmo assim seriam mais que suficiente para envergonhar palancas negras oriundas de qualquer outro local em África. Se consultarmos o livro de recordes do Rowland Ward, facilmente se verifica que o maior record para uma palanca negra fora de Angola (não gigante) foi um troféu de 55’’ abatido em 1898, ao passo que apenas oito espécimes apenas alguma vez ultrapassaram os 51’’, e nenhum nos últimos 30 anos!

 

Com as fêmeas puras a serem capturadas e transportadas para a boma na Cangandala, o óbvio passo seguinte era o de trazer um macho do Luando. Foi decidido que trazer mais do que um macho levaria quase certamente a que estes lutassem e o resultado poderia ser desastroso – mais valia trazer apenas um e deixá-lo concentrar-se nas belas, mesmo que não muito jovens, fêmeas. Trazer um macho de uma distância superior a 100km da Cangandala parecia um problema insuperável em termos de logística, mas recorremos à Força Aérea Angolana e a sua participação foi magnífica – muito profissional, competente e entusiástica. Como em ocasiões anteriores aquando de buscas à palanca, foram sempre um parceiro chave, e desta vez o General Hanga (Chefe do Estado Maior da Força Aérea) até passou uns dias connosco no terreno.

 

Um dos machos, escolhido por ter sido capturado relativamente próximo ao local escolhido para ponto de traslade intermédio, tinha sido solto com uma coleira VHF, de forma a que quando chegou o momento, foi capturado e transportado com o Hughes 500 da mesma forma que tinha sido feito com as fêmeas (Fotos 42, 43). De seguida foi levado até ao ponto intermédio, onde esperava um helicóptero militar de construção Russa MI-8. Foi então carregado no interior do MI-8 (Foto 44) e levado até à Cangandala, onde aguardava a pick-up para o levar para a área de quarentena. Todo o exercício levou menos de duas horas e correu de forma perfeita. Capturar um macho e colocá-lo no santuário da Cangandala foi obviamente um grande feito, e compreensivelmente provocou bastante entusiasmo

 Entre todos os participantes, incluindo membros das comunidades locais, e representantes das autoridades presentes. A televisão estatal TPA obteve excelentes sequências de filmagens desta acção sem precedentes, tendo as imagens passado com grande impacto nos noticiários nos dias seguintes.

 

As fêmeas (e o macho) foram sendo regularmente introduzidas na boma, por vezes uma por dia ou a cada dois dias mas em três ocasiões conseguimos capturar duas seguidas no mesmo dia. Durante os 9 dias em que tivemos animais na boma, estes começaram rapidamente a beber água em boa quantidade a partir de alguidares de plástico enterrados no chão, mas providenciar capim e folhagem fresca diariamente revelou-se uma tarefa bem mais exigente. A recolha de quantidades significativas de capim fresco palatável era bastante complicada, obrigando-nos a muitas horas diárias de esforço, e os animais acabavam por comer apenas uma pequena porção. Não que isto não fosse de esperar, considerando as condições artificiais a que estavam sujeitos estes antílopes até aqui selvagens, mas obrigou-nos a libertá-los um dia após a captura da nona e última fêmea da Cangandala. Esta boma ou área de confinamento/ quarentena, serve vários objectivos. Em primeiro lugar permite-nos monitorar os animais para nos certificarmos que recuperaram totalmente do exercício da captura, ou para identificar qualquer comportamento ou condição física anormal de algum indivíduo; em segundo lugar obriga-os a manter ou restabelecer vínculos sociais de grande importância neste tipo de espécies gregárias, reduzindo desta forma os níveis de stress e permitindo que depois sejam todos libertados em conjunto; finalmente pode contribuir para que fiquem um pouco mais acostumados a condições de cativeiro e à presença humana, permitindo por exemplo que se venham a alimentar e a beber em recipientes artificiais. Tudo isto foi conseguido, e deduzindo pelas observações iniciais, tornou-se claro que as fêmeas aceitaram e submeteram-se naturalmente à dominância do macho, seguindo-o para qualquer lugar onde ele se dirigisse dentro da boma (Fotos 45, 46).

 

Um benefício extra de ter mantido os animais dentro da área de quarentena, foi permitir mostrá-los, de uma forma muito restrita e controlada claro, a dezenas de pessoas que visitaram o parque durante a semana em causa, incluindo a comunicação social. Mais importante, foi Sua Excia. Drª Fátima Jardim, da Ministra do Ambiente, e que fez questão de estar presente juntamente com o Governador de Malanje, Sua Excia. Dr. Boaventura Cardoso, e ainda os respectivos Vices.

Finalmente, no final de tarde do nono dia, abrimos a porta e afastámo-nos silenciosamente. Mais tarde verificámos através das imagens registadas em vídeo por uma câmara que deixámos lá a filmar junto da porta da boma, que o macho foi o primeiro a sair (Foto 47), seguido de perto pelas fêmeas por ordenadas hierarquicamente.

Ao longo dos dias seguintes os animais foram monitorados à distância através de sinais de rádio, e foi possível confirmar que todos se mantinham juntos num só grupo incluindo o macho. Patrulharam a vedação a habituaram-se à sua presença, e pastaram na nova regeneração natural e beberam água em boa quantidade em alguidares que enterrámos estrategicamente em locais próximos da vedação, e onde é adicionada água diariamente.

 

Nos derradeiros dias da operação fomos atrás dos híbridos, mas apenas conseguimos imobilizar uma segunda fêmea híbrida (Foto 49). Nessa altura já tínhamos causado muita perturbação, até porque a manada já sem as fêmeas puras dominantes tinha perdido completamente a coesão. Os híbridos estavam agora espalhados por todo o lado, e a nossa “Judas” já não nos levou a mais animais.

No total, imobilizámos nove fêmeas puras e duas híbridas na Cangandala, e ainda oito machos e uma fêmea no Luando. Um bónus totalmente inesperado foi ainda uma pacassa (forma Angolana do búfalo de floresta), que capturámos e deixámos com coleira, na Cangandala (Foto 48).

Em mais de 60 horas de voos operacionais, outros ungulados observados foram várias manadas de palancas vermelhas em ambas as reservas (apenas uma manada na Cangandala); uma manada de quissemas no Luando; algumas sitatungas, nunces e chicumas (cefalofo-de-garupa-amarela, surpreendentemente vários destes); muitos potamocheros (javalis-africanos) no Luando, e facocheros mas estes principalmente na Cangandala; alguns golungos e centenas de bambis por todo o lado. Um dos pontos altos foi sem dúvida termos sobrevoado um magnífico leopardo que atravessava uma anhara em plena luz do dia no Luando – uma observação notável. Espécies como o songue ou a gunga não foram avistadas, mas de todas as formas estas estão presumivelmente extintas em resultado da guerra. Este facto é particularmente triste no caso dos songues, já que a baixa alagadiça do Luando era um local onde esta espécie era facilmente observada e se apresentava em números de vários milhares.

 

Apesar dos números minimamente razoáveis de animais avistados, têm de ser referidos os abundantes indícios de caça furtiva, que incluíram dezenas de linhas de armadilhas e diversos acampamentos de caçadores, alguns dos quais activos. De vez em quando aterrávamos junto de um desses acampamentos no Luando, onde encontrávamos por vezes restos de dezenas de animais, peles a secar e até carne no fumeiro, armadilhas e cartuchos de caçadeira. Num só acampamento recolhemos 170 armadilhas de laço! Identificámos restos de bambi, golungo, nunce, facochero e potamochero, lebre e várias aves. Nunca encontrámos restos de palanca nestes acampamentos, mas por razões óbvias quando uma palanca é abatida, as provas deverão ser eliminadas. De todas as formas os laços não fazem distinção entre presas, e a maior parte das cacimbas que visitámos estavam totalmente armadilhadas, rodeadas por filas de laços, alguns até com cerca de 6mt de comprido, claramente preparados para capturar antílopes de grande dimensão (palancas).

Alguma da caça furtiva no Luando parecia estar bem organizada, e ainda chegámos a incendiar alguns dos acampamentos de caça activos. Apesar destes serem dados alarmantes, desde então temos estado em consultas permanentes com os militares, e algumas acções específicas estão já a ser preparadas para lidar com isso.

 

Sob qualquer prisma que se analise, esta operação foi um completo sucesso. Encontrámos, imobilizámos, manuseámos e transportámos mais animais que esperávamos; não houve um único animal avistado e que quiséssemos capturar que não o tenhamos conseguido; todos os animais que pretendíamos transportar para o santuário foram apanhados; não houve qualquer incidente ou ferimento a registar em nenhuma pessoa ou animal; e não houve nenhuma decisão tomada ao longo destas três semanas de operação, que me arrependa; nada correu mal – foi simplesmente um trabalho perfeito! Claro que para este resultado fantástico todos os participantes contribuíram de alguma forma, mas particularmente a perícia notável de pilotagem do Barney O’Hara e a experiência notável em veterinária do Pete Morkel, ambos provaram ser as pessoas ideais para esta empreitada – uma equipa ganhadora sem dúvida.

 

O financiamento para esta operação foi tornado possível pelo patrocínio oriundo do Bloco 15 (Sonangol, Esso e parceiros), mas derivou de uma planificação que se iniciou em 2007 com um financiamento específico da Tusk Trust. Agora devemos prepararmo-nos para um novo nível de responsabilidade, já que os animais da Cangandala agora necessitarão de cuidados semi-intensivos e exigentes, e igualmente no Luando. O Governo está também agora mais envolvido que nunca, e espera-se que novas estructuras de gestão possam ser nomeadas e colocadas no terreno em ambas as reservas nos próximos tempos.

 

Cumprimentos,

 

Pedro