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Reflexões a partir da Bíblia
Frei Gilvander Moreira
Abaixo, eis, seis pequeníssimos textos a partir de homilias em missas nos meses de junho e julho de 2009: 1) Quem é Deus?; 2) Viver a vida a partir do outro/pequeno; 3) Navegar em tempestades; 4) Palavra profética ...; 5) Profecia ao nosso alcance; e 6) Líderes somos todos.
1) Quem é Deus?
A resposta a esta pergunta exige resposta à outra, existencial: Quem somos nós? Não podemos reduzir Deus a uma projeção humana. O grande filósofo Feuerbach já denunciou os riscos de confundirmos Deus com projeções humanas. No passado e no presente, muitas imagens de Deus serviram e servem para meter medo nas pessoas, paralisá-las, mantê-las na infantilidade. Precisamos desconstruir imagens de Deus e reconstruir outras imagens mais libertadoras. O Deus verdadeiro abomina toda e qualquer idolatria, seja ela do mercado, do capital, da tecnologia ou do devocionismo. Nosso Deus nunca foi vingativo, não pune, não mete medo, não é “onipotente” (ou todo- poderoso). Nosso Deus é Amor, 1000% amor, só misericórdia (1Jo 4,8).
Estamos vivendo uma revolução profunda: a da era da cibernética, da robótica, da internet. Na história da humanidade já atravessamos diversas revoluções profundas, tais como a revolução da agricultura, na época do neolítico e a revolução industrial, na época moderna. As revoluções profundas trazem mudanças substanciais na forma de encarar o mundo, nas relações e na estruturação da vida social, política, econômica, cultural e religiosa.
O Deus trinitário clama por comunhão holística (total) - material e de participação na mesma mesa da vida. A santíssima Trindade não quer somente fraternidade espiritual ou de amizade, mas também fraternidade econômica, política e cultural. Não agradam à Trindade pessoas que se encontram para a eucaristia aos domingos, mas que durante a semana são umas opressoras das outras.
A Trindade, a melhor Comunidade de Vida, convida-nos para a superação do antropocentrismo. Não dá para continuarmos pensando que existe o meio ambiente, a ecologia e nós os humanos, como se fôssemos superiores ao resto da criação. É hora de percebermos que fazemos parte de uma grande Comunidade de Vida, composta por todos os seres minerais, animais, vegetais e humanos. Somos todos filhos e filhas do mesmo forno. Viva a Trindade em nós!
2) Viver a vida a partir do outro/pequeno
A semente na terra úmida germina e produz frutos pela sua força intrínseca. A luz e a força do pequeno salgam e iluminam o mundo. Reconhecer isso implica viver a vida a partir do outro/pequeno. Isso é ser solidário. Eis um caso eloqüente. Dona Rita vive na periferia. A pobreza é grande. Muitas vezes, os filhos não têm o que comer. Cada manhã sai de casa para trabalhar. É empregada em um bairro rico da cidade. Há dias que também passa fome. Mesmo assim, trabalha com afinco. Certa feita, ao meio-dia, lhe trazem um prato feito e abundante. Dona Rita não come. Apenas chora. Momentos depois, lhe trazem um copo de suco. Perguntam: " - Dona Rita, por que a senhora não come? Por que deixou o prato de lado?" Dona Rita diz: " - Meus filhos em casa estão passando fome. Como posso comer se eles não comem?" " - Que é isso, Dona Rita?" atalha outra pessoa. "A senhora não está com fome?" "- Sim, estou", respondeu ela. " - Então, coma!. O que tem a ver isso com os seus filhos? Mate a fome, para poder ainda ajudar em casa e ter força para trabalhar." " - Não, hoje não como", respondeu determinada Dona Rita. "Se eu comer, esta comida me fará mal. Prefiro sentir o que meus filhos sentem, a fome, em vez de comer esta comida. Se não que mãe sou eu? Não quero deixar de ser mãe, por causa de um prato de comida." Dona Rita certamente não sabia definir o que é solidariedade, mas a viveu plenamente. No seu sentido mais profundo e radical. Lá, naquele nível em que as pessoas se identificam com o destino das outras, no sofrimento e na alegria, na dor, na fome, na prostração, aí está a solidariedade. Ser solidário é viver a vida a partir do outro/pequeno e não a partir de si mesmo/a.
Ouvir o inaudível é imprescindível para quem quer guiar o povo. Apenas quando se aprende a ouvir o coração (e estômago, pés, mãos e.. ) das pessoas, seus sentimentos mudos, os medos não confessados e as queixas silenciosas, um líder pode inspirar confiança em um povo, entender o que está errado e atender às reais necessidades dos cidadãos. A morte de um país começa quando os líderes ouvem apenas as palavras pronunciadas pela boca, sem mergulhar a fundo na lama das pessoas para ouvir seus sentimentos, desejos e opiniões reais.
3) Navegar em tempestades
Todos nós estamos “em alto mar, em meio a um furacão”. A travessia é difícil e perigosa. O mar sintetiza as forças geradoras do mal e hostis ao projeto de Deus. Somos herdeiros do céu e da terra. A fé no Deus solidário e libertador, na força escondida nos pequenos e a esperança de que construir um outro mundo é possível, necessário e urgente, nos dá força para caminhar. É Deus quem nos anima: "Segure os soluços e enxugue as lágrimas, porque há uma esperança para a sua dor... existe uma esperança de futuro" (Jer 31,16-17).
Vivemos inundados por Deus. Ele nos envolve, permeia toda a nossa existência, perpassa-nos. Poderíamos dizer que "nós somos os peixes e Deus é o mar": uma imensidão de gratuidade e de presença amorosa libertadora. "Em Deus vivemos, nos movemos e existimos" (At 17,28). Deus é sempre mais e sempre maior.
O Artista maior das nossas vidas não é "onipotente", porque não age como ditador impondo a sua vontade. Deus não é padrasto; não é paternalista; não é assistencialista. Deus não atropela as nossas liberdades. Por isso não impõe nada, mas se limita a propor ternamente. Podemos dizer sim ou não ao seu projeto libertador e humanizador e temos que assumir as consequências. Por ser amor, Deus é eminentemente "frágil", pois nos deixa livres, respeita o nosso direito de ser diferente, muitas vezes tem "uma paciência danada" conosco, e sabe que mais cedo ou mais tarde daremos a nossa adesão ao seu projeto de amor e de libertação que se realiza em tempos de exclusão. A ação de Deus em nós e conosco é como fogo no capim seco ou como água morro abaixo: ninguém segura.
Deus respeita o princípio de subsidiariedade, ou seja, o maior não faça o que o menor pode e deve fazer. Deus não intervém no que pode e deve ser feito pela humanidade. Deus é santo, ou seja, é o totalmente Outro. Nós somos criaturas cocriadoras. Incomoda a muita gente o fato de Deus parecer estar de braços cruzados na arquibancada da vida, enquanto 2/3 da humanidade é crucificada. Uma pessoa incomodada com o sofrimento dos inocentes questionou um sábio indiano: “Deus não faz nada para salvar os inocentes da cruz?” O sábio respondeu: “Fez você!”
4) Palavra profética ...
5) PROFECIA AO NOSSO ALCANCE
Os profetas da Bíblia não tinham um canal de comunicação direta com Deus, não eram pessoas privilegiadas. Deus não ditava-lhes as profecias. Não precisamos ficar lamentando: “Ah, se eu fosse Jeremias, se eu fosse Elias, ou Ezequiel, ou Amós, ou Oséias!”. Os profetas da Bíblia eram pessoas do povo. Conseguiam desenvolver toda a beleza, a grandeza e a dignidade humana existente neles. Isto é possível a qualquer pessoa que se coloque em sintonia com a realidade do povo, na perspectiva da fé libertadora. Paulo Freire, com sabedoria refinada, dizia: “Os profetas não são homens ou mulheres desarrumados, desengonçados, barbudos, cabeludos, sujos, metidos em roupas andrajosas e pegando cajados. Os profetas são aqueles ou aquelas que se molham de tal forma nas águas da sua cultura e da sua história, da cultura e da história do seu povo, dos dominados do seu povo, que conhecem o seu aqui e o seu agora e, por isso, podem prever o amanhã que eles mais do que adivinham, realizam.”
Os profetas e as profetisas são pessoas com corações sonhadores, pés cravados no chão, mãos sujas na labuta e cabeça erguida. Dizem para nós: “Ai daqueles e daquelas que pararem com a sua capacidade de sonhar, de inventar a sua coragem de denunciar e de anunciar. Ai daqueles que, em lugar de visitar de vez em quando o amanhã, o futuro, pelo profundo engajamento no hoje, no aqui e no agora, se atrelam a um passado de exploração e de rotina.” Acordemos a profecia em nós!
6) Líderes somos todos
Inspirado, o profeta Jeremias alerta: “Ai dos pastores que espalham e extraviam as ovelhas do meu rebanho.” Na Bíblia, a palavra “pastores” não se refere apenas a líderes religiosos, mas às lideranças em todos os setores da vida humana: lideranças religiosas, políticas, econômicas, culturais, educacionais, etc. Jeremias revela a vontade de Deus: as lideranças ajudem o povo na conquista de seus direitos. Povo ferido e humilhado, vida indigna.
Observemos o rosto de pessoas que sobrevivem em condições subumanas. Trazem no próprio corpo as cicatrizes dos golpes sofridos na dureza da sobrevivência. Como se justificam líderes religiosos e políticos quando mancham sua missão com atitudes de exclusão, desrespeito e corrupção? Há sempre uma esperança, até mesmo na noite escura surgirão pastores/líderes autênticos que conduzirão o povo por caminhos de justiça e liberdade.
Ainda bem que, mesmo hoje, haja tantos jovens que alegram seus pais e abraçam a causa dos oprimidos. Arriscam a péle e vão, passo a passo, ajudando o povo a se organizar na busca de seus legítimos direitos humanos: casa, terra, saúde, educação, dignidade. Enquanto falsas lideranças dispersam o povo, do testemunho de Jesus de Nazaré emana uma luz a suscitar criatividade a fim de atrair as pessoas pelo compromisso na luta por convivência fraterna.
Assim como Jesus, urge promovermos relações humanas de respeito, diálogo e compaixão, combinando ternura e firmeza quando se faz necessário. “Vamos para um lugar deserto”, convida Jesus. Carecemos de reflexão para termos uma visão de conjunto e não nos perdermos em um ativismo vazio. É também a partir de onde a vida parece não poder mais fluir que se torna possível criar projetos de inclusão social e evangelização libertadora.
Sob a inspiração de nossa padroeira, a Senhora do Carmo, nossa comunidade vive, há tempo, em clima de permanente conversão. Clamores dos pobres são ouvidos, voluntários se apresentam, projetos se multiplicam e novos serviços se tornam possíveis em benefício dos que mais precisam. Perseveremos nesse caminho, estimulando-nos uns aos outros. Sigamos no caminho da real confraternização mediante a partilha do que somos e temos, do que cremos e fazemos. Estamos bem acompanhados.
Frei Gilvander Luís Moreira – e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
Belo Horizonte, 16 de julho de 2009, festa de N. Sra. do Carmo.