Padarias em crise, Anac em festa
Fonte: Valor Econômico - 11.12.2007
Por Luiz Eduardo R. de Carvalho*
Padarias
mudam de perfil, transformando-se em restaurantes a quilo, em
restaurantes de "prato feito", ajustando-se às mudanças dos hábitos
alimentares e às tendências da vida moderna, porque as mulheres
trabalham e todos fazemos refeições fora de casa. Essa é a notícia e
interpretação do telejornal, em meio a notícias sobre a crise do leite
adulterado. Mas isso é o ralo senso comum, uma visão superficial e
apressada de um fenômeno muito mais complexo.
As
padarias estão fechando, sim. Ou mudam de perfil. Mas isso tem tudo a
ver é com a Anac e a crise dos aeroportos. Tem também tudo a ver com a
Anvisa e a crise do leite. Tudo a ver com a ANP e as máfias dos
combustíveis. Tudo a ver com os atropelamentos e morte de crianças em
cima das calçadas. Tudo a ver com a guerra concorrencial no Complexo do
Alemão.
O leite resfriado, com embalagens de vidro, hoje
disponíveis em feiras de antiguidade, como a de San Telmo, era deixado
na porta de casa. Depois, passou a ser vendido em saquinhos plásticos,
nas padarias. Havia o leite C, o leite B e, nos tempos dos Delfim´s
boys, para fraudar não só o leite, mas principalmente fraudar os
índices de inflação, havia o leite 2,3% de gordura, o leite
reconstituído, o leite Vivácqua.
O pão era comprado nas
padarias. E, junto com o pão, se comprava o leite fresco. Aliás, o pão
também era entregue em casa, com o padeiro fazendo fon-fon na
trombetinha de seu triciclo. O afiador de facas e tesouras, o realejo,
o padeiro, cada um tinha seu som específico, sua vinheta, seu bordão,
em um tempo em que poucas casas tinham campainha ou telefone, e as
visitas batiam palmas na porta para anunciar sua, quase sempre,
inesperada chegada.
O gelo não era diferente. As geladeiras, em
sua maior parte, não faziam uso direto da engenharia, da termodinâmica,
do ciclo frigorífico. E havia uma gaveta, na parte inferior, onde se
depositava a barra de gelo. A aparência era de geladeira. Mas era
apenas uma caixa isotérmica, como se fosse uma caixa de isopor com gelo
dentro. De manhã, antes ainda do verdureiro que vinha do Marapé, com
sua carroça puxada a cavalo, passava o caminhãozinho do gelo. Com uma
proteção de borracha preta na mão, o entregador pegava uma barra enorme
de gelo, abria o portãozinho, passava pelo jardim e, gritando
"geleeeeirô", a impulsionava para deslizar pelo corredorzinho lateral
até o fundo do quintal, onde estava a porta da cozinha.
Muita
coisa mudou. Novas tecnologias foram desenvolvidas. Mais que as novas
tecnologias, no entanto, são novas as regulações, impostas por governos
autoritários e autoridades corruptas, que estão provocando as mudanças
nas padarias, nas quitandas, nos postos de gasolina, na agricultura,
inviabilizando as empresas familiares e, com isso, transferindo já não
renda, mas patrimônio, das pessoas físicas, das famílias, para as
corporações multinacionais ou para as "redes mafiosas" que dominam o
varejo.
O mais incrível é supor que o aditivo no leite é progresso: avanço seria dar acesso ao leite fresco a todos os consumidoresUma
caríssima embalagem "longa vida" não conseguiria competir, no mercado
brasileiro, com tanto e generalizado sucesso, contra o leite
refrigerado em saquinhos plásticos, se não houvesse uma cumplicidade
criminosa do aparelho regulatório. A parte mais visível é a liberação
de aditivos químicos para o leite longa vida. A parte mais incrível é
supor que colocar aditivo no leite é progresso científico, quando o
óbvio é que progresso tecnológico, de verdade, seria fazer chegar leite
fresco, sem aditivos nem contaminantes, de alto valor nutritivo, não
para alguns, mas para todos. Isso sim seria inteligência e progresso.
Essa
mudança regulatória, no mundo dos "leites", responde pela extinção de
vastas frações da classe média, ao inviabilizar as empresas familiares
em favor de tecnologias e insumos desnecessariamente importados, em
favor de cadeias de supermercados - tudo contra o padeiro, tudo contra
a geração de empregos, contra a justiça social, a cidadania e os
direitos do consumidor. Enfim, se as leiterias já não vendem leite,
também as padarias já não venderão pão.
É que, depois do leite,
também o pão passou a sofrer o mesmo processo. Mães cuidadosas compram
pacotes de bisnaguinhas, no supermercado, para seus filhinhos. Tudo
muito cômodo, tudo aparentemente muito fofo, muito higiênico, muito
saudável e muito moderninho. Talvez julgando que esses pães são
construídos por alguma subsidiária da Microsoft, não se perguntam como
é que um pãozinho logra permanecer macio durante três semanas ou mais.
E sem embolorar.
Todo pão recebe adição de enzimas. Uma delas é
a alfa-amilase, produzida por bactérias transgênicas, verdadeiras
bio-usinas industriais, ajeitadas geneticamente para fabricar enzimas.
No queijo não é diferente. Todo queijo que está no mercado,
praticamente todo, é fabricado com enzimas transgênicas, em
substituição ao coalho tradicional. Nada disso consta em nenhum rótulo.
Nenhum consumidor sabe disso. O que o consumidor fica sabendo, pelos
rótulos, é que batatinha palha, com 48,5% de gordura, é zero trans.
A
crise do leite adulterado vem sendo enfocada, pela mídia e pela
polícia, como resultado de atos de malfeitores estereotipados, de
personagens bizarros de alguma Gothan City, de forma maniqueísta e
espetacularesca, mas alienante, emburrecente e simplória. A crise do
leite não é do mundo da saúde pública. Ela é do mundo financeiro. Ela é
um fenômeno concorrencial, onde dois modelos de país estão em conflito.
Para
entender o fenômeno, melhor que estudar metodologia analítica para
determinação laboratorial de resíduos de peróxido de hidrogênio ou
hidróxido de sódio, mais pedagógico seria olhar para a ANP, para a
Anatel, para o Denatran, para a Anvisa e seus dois novos dirigentes que
foram ministros e deputados do PMDB e do PCdoB. Ou, para que mesmo um
ex-ministro, um ex-deputado, haveria de cobiçar um carguinho técnico,
obscuro e mal pago como esses ?
*Luiz Eduardo R. de Carvalho, engenheiro de alimentos, é professor da UFRJ .(
lec@infolink.com.br).