Por Mirian Goldenberg
“Só existe a ciência do escondido”
Bachelard
Em
principio, o pesquisador entrevista as pessoas que parecem saber mais
sobre o tema estudado do que quaisquer outras. Acredita-se que essas
pessoas estão no topo de uma hierarquia de credibilidade, isto é, o que
dizem é mais verdadeiro do que aquilo que outras, que não conhecem tão
bem o assunto, diriam. Na verdade, o pesquisador não deve se limitar a
ouvir apenas estas pessoas. Deve também ouvir quem nunca é ouvido,
invertendo assim esta hierarquia de credibilidade.
Um dos principais
problemas das entrevistas e questionários é detectar o grau de
veracidade dos depoimentos. Trabalhando com estes instrumentos de
pesquisa é bom lembrar que lidamos com o que o individuo deseja
revelar, o que deseja ocultar e a imagem que quer projetar de si mesmo
e de outros. A personalidade e as atitudes do pesquisador também
interferem no tipo de respostas que ele consegue de seus entrevistados.
As entrevistas e questionários podem ser estruturados de diferentes maneiras:
1.
podem ser rigidamente padronizados: as perguntas são apresentadas a
todas as pessoas exatamente com as mesmas palavras e na mesma ordem, de
modo a assegurar que todos os entrevistados respondam á mesma pergunta,
sendo as respostas mais facilmente comparáveis. Tais perguntas podem
ser do tipo:
a. fechadas:as respostas estão limitadas às
alternativas apresentadas. São padronizadas, facilmente aplicáveis,
analisáveis de maneira rápida e pouco dispendiosa. Uma de suas
desvantagens é que as pessoas limitam suas respostas às alternativas
apresentadas, mesmo quando há outras razões;
b. abertas: resposta
livre, não-limitada por alternativas apresentadas, o pesquisado fala ou
escreve livremente sobre o tema que lhe é proposto. A análise das
respostas é mais difícil;
2. podem ser assistemáticos: solicitam
respostas espontâneas, não-dirigidas pelo pesquisador. A análise do
material é muito mais difícil;
3. entrevista projetiva : utiliza recursos visuais (quadros, pinturas, fotos) para estimular a resposta dos pesquisados.
O
pesquisador deve ter em mente que cada questão precisa estar
relacionada aos objetivos de seu estudo. As questões devem ser
enunciadas de forma clara e objetiva, sem induzir e confundir, tentando
abranger diferentes pontos de vista.
Se o pesquisador decidir enviar
um questionário pelo correio, não deverá esquecer de escrever um forte
apelo para que o pesquisado o responda o mais brevemente possível. Para
que isso ocorra, é fundamental uma carta de apresentação explicando o
que está fazendo, por que o faz e para quem. A carta deve ser breve,
mas não deixar nada sem explicação. O indivíduo pesquisado precisa ser
convencido da importância de sua resposta para o sucesso da pesquisa. É
importante a garantia de anonimato: não se deve pedir nomes e fazer
perguntas que facilitem a identificação. Uma boa técnica para facilitar
a devolução do questionário é enviar um envelope impresso
auto-endereçado e selado. Cabe lembrar a importância da impressão
definida, bem espaçada, em papel de boa qualidade.
No caso da
entrevista, é importante a apresentação do pesquisador por uma pessoa
de confiança do pesquisado (esta pessoa que irá intermediar o primeiro
contato será responsável pela primeira imagem. Em função deste primeiro
encontro, portas se abrirão ou se fecharão). Também aqui é preciso
garantir o anonimato do entrevistado, caso seja necessário.
Vantagens do questionário:
1. é menos dispendioso;
2. exige menor habilidade para a aplicação;
3. pode ser enviado pelo correio ou entregue em mão;
4. pode ser aplicado a um grande número de pessoas ao mesmo tempo;
5. as frases padronizadas garantem maior uniformidade para a mensuração;
6.
os pesquisadores se sentem mais livres para exprimir opiniões que temem
ser desaprovadas ou que poderiam colocá-los em dificuldades;
7. menor pressão para uma resposta imediata, o pesquisado pode pensar com calma.
Desvantagens do questionário:
1. tem um índice baixo de resposta;
2. a estrutura rígida impede a expressão de sentimentos;
3. exige habilidade de ler e escrever e disponibilidade para responder.
Vantagens da entrevista:
1. pode coletar informações de pessoas que não sabem escrever;
2. as pessoas têm maior paciência e motivação para falar do que para escrever;
3. maior flexibilidade para garantir a resposta desejada;
4. pode-se observar o que diz o entrevistado e como diz, verificando as possíveis contradições;
5. instrumentos mais adequado para a revelação de informações sobre assuntos complexos, como as emoções;
6. permite uma maior profundidade;
7. estabelece uma relação de confiança e amizade entre pesquisador-pesquisado, o que propicia o surgimento de outros dados.
Desvantagens da entrevista:
1. o entrevistador afeta o entrevistado;
2. pode-se perder a objetividade tornando-se amigo. É difícil se estabelecer uma relação adequada;
3. exige mais tempo, atenção e disponibilidade do pesquisador: a relação é construída num longo período, uma pessoa de cada vez;
4. é mais difícil comparar as respostas;
5.
o pesquisador fica na dependência do pesquisado: se quer ou não falar,
que tipo de informação deseja dar e o que quer ocultar.
Ao construir a entrevista ou questionário, o pesquisador deve:
1.
decidir que informação deve ser procurada (dados de história pessoal:
idade, educação, emprego; dados de comportamento; dados sobre outras
pessoas; sentimentos, valores, razões, fatores objetivos e subjetivos);
2.
decidir o conteúdo da pergunta (é necessária esta pergunta? Qual a sua
utilidade? As pessoas têm informação necessária para responder à
pergunta? Deve a pergunta ser mais concreta, específica e mais
diretamente ligada à experiência pessoal de quem responde?);
3. decidir como redigir a pergunta (a pergunta é difícil? Exprime com clareza as idéias desejadas? Deve ser mais direta?);
4.
decidir o lugar na seqüência apresentada(é influenciada pelo conteúdo
das perguntas anteriores? Deve ser apresentada mais cedo ou mais tarde
para despertar interesse e atenção?);
5. decidir que tipo de entrevista ou questionário deve ser usado (aberto, fechado, aberto e fechado);
6. redigir um primeiro rascunho;
7. após a crítica de outras pessoas, reexaminar e rever as perguntas;
8. aplicar e discutir com os entrevistados as dificuldades (pré-teste);
9. reelaborar a entrevista ou questionário.
Algumas
“dicas” são necessárias para introduzir o pesquisador na arte de
elaborar um questionário e uma entrevista. Mesmo correndo o risco de
repetir o já dito, eis algumas regras básicas.
Antes de mais nada,
por mais que pareça óbvio, é preciso conhecer bem o assunto, examinar
as pesquisas e as reflexões já feitas sobre o tema para então
estabelecer um roteiro. O estudioso precisa estar muito bem preparado
antes de abordar o grupo pesquisado, saber o máximo possível e não
fazer perguntas desnecessárias, cujas respostas poderiam ser
encontradas em outras fontes (jornais, revistas, livros, etc.). O
pesquisador deve ser o maior conhecedor do tema estudado. A entrevista
ou questionário são instrumentos para conseguir respostas que o
pesquisador não conseguiria com outros instrumentos.
Como qualquer
relação pessoal, a arte de uma entrevista bem-sucedida depende
fortemente da criação de uma atmosfera amistosa e de confiança. As
características pessoais do pesquisador não podem aparecer em primeiro
plano. Ele deve tentar ser o mais neutro possível, não sugerindo
respostas.
É sempre útil começar com perguntas mais fáceis e não ir
longe demais no inicio. O pesquisador precisa respeitar as limitações
do pesquisado quanto ao local e ao tempo da entrevista. Deve-se ir bem
preparado para aproveitar ao máximo a entrevista ou questionário e
registrar adequadamente. O pesquisador deverá de imediato transcrever
as entrevistas a fim de, ao realizar novas entrevistas, não repetir
questões e dominar cada vez mais o assunto.