Por Fernando Lefevre e Ana Maria Cavalcanti Lefevre
A urbanização na pós-modernidade
O
fundamento da cidade moderna é a idéia grega de polis (termo traduzido
como cidade-estado), que implica não só em localidade, mas, como coloca
Heidegger, em “dimensão em que a existência expande seu ser histórico.
A polis é o lugar histórico, espaço no qual, a partir do qual e para o
qual acontece a história” (apud Radis, 2000).
Segundo Adorno, a
cidade moderna, conforme hoje a concebemos, nasceu no século XVIII,
quando passou a ser campo e território de intervenção sobre as
possibilidades humanas. Mas é no século XIX que o tema urbano é
focalizado como “cenário onde se observa o surgimento de um novo modo
de vida.” O urbano “é um território de hierarquias, diferenças e
desigualdades, mas também um campo de novas possibilidades, conflitos e
negociações, de conquistas e de intervenção de estilos e novas
perspectivas de vida.” (Adorno in Radis, 2000).
No século XX surgem
as megalópoles, cidades que ultrapassam a barreira dos dez milhões de
habitantes. Nelas encontramos os chamados processos de globalização
tecnológica, onde além dos hardwares e dos softwares passamos a ter os
know-wares, isto é, uma nova economia do conhecimento, que não se
encontra em um só lugar, mas no espaço virtual, que é, em dado momento,
o das conexões on-line. Este espaço, agora, virtual, é o que
caracteriza as relações contemporâneas. Há uma desterritorialização,
uma desespacialização. As pessoas cada vez mais deixam de ir a algum
lugar para “logar” em algum lugar (Najar in Radis, 2000).
A origem
desta crescente urbanização que se dá em todo o planeta, mais
intensamente nos países em desenvolvimento, pode ser explicada, segundo
Habermas, pela submissão das estruturas tradicionais às condições da
racionalidade instrumental ou estratégica. Desta Forma, segundo este
autor, nasce a infra-estrutura de uma sociedade cada vez mais obrigada
à modernização, que se estende a todos os domínios da existência:
exército, sistema escolar, serviços de saúde, família e termina por
impor uma urbanização da forma de vida.
Segundo Maura Veras (2000),
devido ao fenômeno da globalização, as cidades, na pós-modernidade,
estão conectadas de alguma forma à economia planetária; assim se
estabelece uma nova dialética entre o que é local e o que é global. As
cidades têm pois que resolver um duplo problema, já que devem atender
às localidades e ao mesmo tempo se tornar competitivas em função das
ações globais. Esta segunda função, em muitos momentos, sufoca a
primeira.
Para Ianni “nesse fim de século, o desenvolvimento e a
expansão do capitalismo, em escala mundial, está influenciando o
aparecimento de um outro tipo de cidade: a cidade global. Constitui-se
de densas regiões urbanizadas, com forte controle mecânico, fortemente
ligadas entre si, formando novas redes de articulações, por meio das
quais se configuram as possibilidades do capitalismo global” (apud
Mendes, 1999).
Para o geógrafo Milton Santos (2000), cada lugar está
imerso em uma comunicação com o mundo, mas acaba se tornando, nesta
comunhão, exponencialmente diferente dos demais, pois cada lugar, à sua
maneira, é o mundo. Para ele não há um tempo global único e sim um
relógio mundial. Os espaços mundializados estão ligados por redes que
são instrumento da produção, da circulação e da informação
mundializada. São elas que transportam o universo ao local e que
terminam, como vetores da hegemonia, criando localmente a desordem.
Isto porque determinam mudanças estruturais e funcionais e
principalmente porque as ordens não são portadoras de sentido, pois o
único objetivo é o mercado global. Assim, as atividades financeiras são
as que mais se beneficiam, onde a vasta rede interativa de comunicações
permite que o dinheiro, em suas múltiplas formas, flua
ininterruptamente por 24h. Desta forma a globalização é perversa para a
maioria da humanidade.
Para Sabroza (2000) a urbanização tem
reflexos negativos para a população pois, se antes podíamos trabalhar
com as desigualdades, hoje o trabalho a ser feito tem que levar em
conta o fenômeno da exclusão.
No Brasil, segundo o IBGE, vivem nas
áreas urbanas, 81,25% da população, ou seja, 137,7 milhões de pessoas.
Este número é assombroso se levarmos em conta que em 1960 a população
urbana representava 44,67%, ou seja, 31,3 milhões de pessoas e a
população rural era de 38,76 milhões de pessoas. Projeções do IBGE
apontam que, a despeito da queda das taxas de natalidade, a população
urbana no meio do século XXI deverá ser de 247 milhões de pessoas
(Novaes, 2003).
O processo de urbanização crescente, em decorrência
dos processos de globalização e incorporação de novas tecnologias
(gerando ondas de desemprego estruturais), decorre de dois fluxos
migratórios concomitantes: o êxodo rural (migração do campo para as
cidades) e a migração interna intercidades (migração de uma cidade para
outra). Este contingente migratório importante que contribuiu para o
inchaço das metrópoles se dá em busca de melhores salários devido aos
diferenciais de renda entre macrorregiões, em busca de emprego,
fenômeno que ocorre especialmente na região sudeste do país devida à
concentração industrial e à implementação dos serviços, decorrente da
incorporação de tecnologia e também em busca de melhor infra-estrutura
de saúde e educação.
Os dois fluxos migratórios geraram custos
sociais pesados às áreas urbanas, com uma expansão descontrolada das
periferias, onde os migrantes, de baixa renda, passaram a ocupar
loteamentos clandestinos (em sua maioria), áreas de mananciais ou áreas
de risco, sem infra-estrutura adequada. Esta urbanização crescente
gerou uma demanda adicional especialmente financeira, para as cidades,
uma vez que foi necessária a expansão de infra-estrutura para as
periferias (energia, transporte, água e esgoto, limpeza urbana,
segurança, educação, saúde, lazer) onde era praticamente inexistente.
Demanda não atendida conforme as necessidades crescentes, e as áreas
das periferias encontram-se degradadas, com desemprego crescente e
altas taxas de violência.
Segundo Touraine “a miséria do país já
não é mais rural, é urbana. O grande problema do Brasil é a destruição
ou sobrecarga das grandes metrópoles” (apud Novaes, 2003).
As
desigualdades sociais passam, também, a serem evidenciadas pela forma
de ocupação do espaço urbano, uma vez que os preços dos imóveis
tornam-se um mecanismo de distribuição da população no território da
cidade. A privatização e a distribuição dos serviços urbanos tem
aumentado a desigualdade no acesso a esses serviços. Desta forma, as
áreas mais ricas, onde habita a população de maior poder aquisitivo,
conta com uma oferta maior de serviços e equipamentos que distribuem o
bem estar urbano, como saneamento, telefonia, escolas, postos e outros
serviços de saúde, áreas de lazer, etc.
O fenômeno da globalização
tem também provocado uma tendência à dualização social, isto é, a
estrutura tradicionalmente piramidal assume a forma de uma ampulheta,
com o encurtamento das posições médias e aumento das pontas.
Simultaneamente vem ocorrendo o aumento da distância entre a renda dos
estratos superiores e a dos inferiores. Observa-se ademais o aumento da
segregação residencial na medida em que surgem bairros exclusivos das
camadas superiores enquanto as médias e inferiores, são deslocadas para
outros bairros. É importante lembrar que estudos revelam a
vulnerabilidade destes grupos que habitam territórios homogêneos onde
se instala uma dinâmica de causação circular da pobreza. Este “efeito
vizinhança” reproduz o “desempoderamento” destes segmentos sociais
submetidos a relações de precarização no mercado de trabalho e
trajetórias de mobilidade social descendente (Ribeiro, 2003). Os mapas
sociais da cidade têm tido uma certa difusão como instrumentos de
orientação das políticas a fim de focalizar territórios onde vêm
ocorrendo desvantagens sociais.
As cidades saudáveis como uma nova estratégia em Promoção de Saúde
As
mudanças demográficas que vêm ocorrendo, em especial nos países do
terceiro mundo, tornam urgente a busca de novas estratégias para a
promoção de saúde, que devem dar conta dos problemas urbanos dos
segmentos populacionais que ali habitam. Com o objetivo de criar
melhores condições de vida para a população, surge, na década de 1970
em Toronto, Canadá, o movimento denominado Cidades Saudáveis. Este
movimento a partir de 1984 ganha força, expandindo-se para várias
cidades da Europa (mais de mil cidades), Estados Unidos, Canadá e
alguns países da América Latina (Cuba, Colômbia e Brasil).
A
primeira definição de Cidades Saudáveis foi elaborada por Hancock e
Dulk em 1986 como: “é aquela que está continuamente criando e
melhorando o ambiente físico e social, fortalecendo os recursos
comunitários que possibilitam às pessoas se apoiarem mutuamente no
sentido de desenvolverem seu potencial e melhorarem sua qualidade de
vida” Mendes (1999) a define como “projeto estruturante do campo da
saúde, em que os atores sociais (governo, organização da sociedade
civil, organizações não governamentais) procuram, por meio da “gestão
social” transformar a cidade em um espaço de “produção social da saúde
”. Para Roux o que torna uma cidade saudável é a decisão, a vontade
política de direcionar todas as políticas sociais, entre elas as
políticas de saúde para uma única meta: saúde como qualidade de vida.
Para tanto, é necessário que se definam atividades a serem feitas,
aportes de recursos e responsáveis por sua execução . Para o mesmo
autor, uma cidade começa ser saudável quando as organizações locais e
cidadãos assumem o processo de melhoria contínua(idéia força da cidade
sustentável) das condições de saúde e de bem estar de todos os
habitantes.
A concepção central do projeto de Cidades Saudáveis é a
de que saúde deve ser entendida como produção social e, como tal,
gerada por processos participativos, sociais e institucionais
orientados para a elaboração e implementação de políticas públicas
saudáveis que visem a superar o quadro de profundas desigualdades. Sob
este prisma depende da ação concertada de governo. O prefeito é o
gestor social, ou seja, o ator político condutor do desenvolvimento de
políticas saudáveis da cidade. Assim, as políticas de educação,
transporte e habitação, para o desenvolvimento de uma proposta deste
tipo devem ser saudáveis.
Adotar este projeto significa assumir uma
política de governo, que o envolverá de forma global, pois será
necessário avançar e trabalhar as interrelações dos diferentes setores,
ou seja, educação, saúde, saneamento, transporte, etc., o que implica a
adoção de políticas integradas e, portanto, radicais transformações nos
processos de gestão atualmente em cena.
Como último ponto, segundo
seus ideólogos, há a necessidade de que um projeto deste tipo inicie
uma reorientação dos serviços de saúde, buscando reverter a lógica
curativista e assistencialista do modelo de atendimento atual.
Crítica da proposta das Cidades Saudáveis
A
despeito dos avanços que poderia, em tese, representar a estratégia de
Cidades Saudáveis, a sua adoção implica sérios problemas que, a nosso
ver, levam a inviabilizar essa proposta.
Antes de mais nada, sua
idéia matriz, que também é a do próprio movimento de Promoção, ou seja
a de estar basicamente direcionado para a saúde, não se sustenta,
independente da concepção de saúde que seja adotada.
Com efeito, se
adotarmos o conceito positivo da saúde, que a identifica com qualidade
de vida, dizer que o planejamento das cidades deve visar à qualidade de
vida dos cidadãos é apenas uma banalidade vazia, que não permite
individualizar nenhuma proposta de intervenção urbana.
Mas se
entendermos saúde como negação da negação, ou seja, levando em conta as
causas básicas do adoecer, considerar que toda a política das cidades
deve ter a saúde como referência maior, implica dizer que os demais
setores como educação, moradia, transporte, lazer, trabalho, etc.,
devem ser vistos basicamente da perspectiva das doenças virtuais por
eles causadas, o que implica em medicalização da cidade, o que tornaria
a proposta completamente impraticável.
De um modo geral pode-se
colocar, no que toca a idéia de Cidades Saudáveis, que ela manifesta o
mesmo erro básico da Promoção da Saúde das “cartas” no que diz respeito
ao entendimento das relações entre o particular e o geral no campo da
saúde/doença, que consiste em concluir, equivocadamente, que o fato da
saúde/doença, em última instância, serem determinadas no espaço da
cidade, leva a ver a saúde, em teoria e na prática, como uma entidade
genérica destituída de especificidade e de peso político específico.
Assim
vista, a saúde passa a ser de todos (os setores e atores sociais) e,
sendo de todos, corre o sério risco de ser, de fato, de nenhum.