Comida, Modernidade & "Bokomokos" -
Quando a Saúde Pública não freqüenta shopping
por Luiz Eduardo CarvalhoParque Anhembi, São Paulo. Na exposição da indústria alimentar, um
estande da Nutrasweet, marca comercial do edulcorante Aspartame,
utilizado em substituição ao açúcar em produtos de baixa caloria. No
estande, um pequeno palco, onde lindas modelos pulam e dançam, todo o
tempo, praticando aeróbica. A princípio é difícil encontrar lógica.
Teria lógica, é claro, se o estande fosse de uma indústria de cana,
produto que fornece calorias a quem o ingere. Mas, se o produto não
fornece energia, por que associá-lo com esporte e energia?
Mudemos
o cenário. Rio de Janeiro, Leblon, uma academia de ginástica. No
intervalo, atletas musculosos, esbeltos, matam a sede com refrigerante
diet. Mas eles nunca foram diabéticos ou gordos, e com aquele estilo
esportivo de viver, não engordarão, bebendo ou não refrigerantes e
comendo açúcar. Pode ser que, a princípio - novamente - não tenha
lógica. Mas associado ao cenário anterior, com ou sem lógica, o fato
começa a ganhar coerência.
O fato não é novo. O que diferencia
consumidores de refrigerante diets e comum, hoje, é aquilo mesmo que,
anteontem, diferenciava consumidores de Coca-Cola e do tradicional
Guaraná. Muitos certamente haverão ainda de lembrar do Teobaldo, que
pedia guaraná em público, e do neologismo ali criado - "bokomoko" - na
tentativa de recompor a imagem então "fora de moda" dos que consumiam
os velhos refrigerantes em vez da bebida internacional e moderninha.
Um
alimento não é uma caixinha neutra com nutrientes para abastecer a
máquina que seria o ser humano. O desconstrucionismo do modelo
biomédico, ainda ocupado com o binômio saúde-doença, pouco se debruçou
sobre a reprodução daquele modelo reducionista no campo da alimentação
e nutrição. Adequado estado nutricional, é, em geral, considerado como
a mera ausência de sintomas carenciais, ignorando solenemente as
vertentes sociais e psicológicas do ato de comer. Comida é antes e mais
que tudo um símbolo; e , da educação alimentar à vigilância sanitária,
a saúde pública precisa reconstruir sua compreensão sobre esse objeto,
para que suas ações alcancem um mínimo de consistência e eficácia. É
disso, com ilustrações diversas, que trataremos aqui.
Diet,
light e pesadas sombras. Um chocolate diet contém cerca de 615 kcal por
cada 100 gramas. Isso está escrito, por exemplo, no rótulo do produto
da "Kopenhagem". O açúcar branco, por sua vez, contém bem menos
calorias - cerca de 380 kcal em cada 100 gramas. A percepção pública
sobre isso, contudo, não está ajustada com esses dados. Para as
gordinhas consumidoras de chocolate diet, este, certamente, contribui
para perda de peso. E comê-lo, provavelmente, significa comer
"emagrecendo"; a tal ponto que não seria surpresa se uma consumidora,
após ingerir o primeiro bombom, pensasse: "Acho que vou comer logo
outro e quem sabe emagreço o dobro!".
Na verdade trata-se de um
produto diet para quem faz dieta de diabético. Ou seja, uma dieta com
restrição de açúcar branco, mas que pode consumir os demais nutrientes
calóricos, como carboidratos mais complexos (amido) e lipídeos. O
chocolate, como sabemos, é composto de grande quantidade de gordura,
geralmente de cacau, mas também de babaçu (a tal gordura hidrogenada
que o produto cita mas não explica, impedindo-nos de saber se é um
produto natural de cacau ou não). E a gordura fornece 9 kcal por grama,
mais que o dobro do açúcar retirado do diet. Assim, o nosso chocolate
diet, ainda que dietético para diabéticos, é altamente calórico!
Um
problema inverso ocorre com as geléias de frutas. Mudando a formulação,
diminuindo o teor de açúcar, alguns fabricantes conseguem produzir
geléias com 20 ou 30% a menos de calorias e logo passam a rotular como
"geléias diet". São os chamados produtos de caloria reduzida. Mas
continuam contendo algum açúcar. E os diabéticos, atraídos pela
rotulagem diet, e entendo que, como o refrigerante e o chocolate,
trata-se de um alimento sem sacarose, terminam comendo a tal geléia
diet, agravando a sua saúde
Ao lado dos riscos à saúde publica,
há também os danos à economia popular. O leite desnatado sempre teve
preço menor que o leite integral, pois a gordura é retirada para a
fabricação de produtos mais caros, lucrativos e sofisticados - da
manteiga ao chantilly, passando pelos queijos finos, danoninhos, etc.
No entanto, vemos agora diversas marcas, do leite em pó ao "longa
vida", que substituindo o desvalorizado e pejorativo termo desnatado
por diet, logram vender esse empobrecido produto por um preço mais caro
que o leite integral.
Um agravante nutricional surge disso.
Junto com a gordura são retiradas, automaticamente, as vitaminas
lipossolúveis (vitamina A e vitamina D), que são indispensáveis, e, ao
contrário da vitamina C, não são encontradas em grande quantidade em
qualquer fruta. A deficiência de vitamina A é, até mesmo, uma das
principais carências nutricionais brasileiras, traduzindo-se na
hipovitaminose A e causando sérios prejuízos a visão, podendo até
acarretar a "cegueira noturna". Não é, portanto, difícil imaginar até
onde pode nos levar a generalização dos produtos diet. E,
lamentavelmente, a coisa ainda vai mais longe, alcançando também os
domínios da toxicologia.
Açúcar não tem substituto. A sacarose,
o nosso conhecido açúcar branco, é composto de uma parte de dextrose e
outra de levulose, também conhecidas como glicose e frutose. É verdade
que todo o açúcar do leite é lactose; mas não é jamais verdade que todo
ou maior parte do açúcar das frutas seja a frutose. Ademais, como
vimos, metade do próprio açúcar branco é frutose e ela se decompõe na
digestão. Não existe, por esses e por outros motivos, sustentação para
a idéia de que a frutose é melhor que o açúcar branco. No entanto,
aproveitando-se dessa equivocada percepção pública, e a ela somando-se
publicidade desonesta e rotulagem mentirosa, surge no mercado a frutose
em pó.
A frutose industrializada, ainda que se (des)informe, no
rótulo, trata-se um produto "encontrado nas melhores frutas" (não disse
que foi dali extraído, note-se), é, na verdade, fabricada
industrialmente a partir do milho. A farinha de milho é refinada até
virar amido (maisena) e este é então hidrolisado com acido clorídrico,
calor e pressão, até partir-se em moléculas de glicose (karo). E a
glicose, por fim, é transformada industrialmente em frutose.

Se,
apesar de surgir como fraude, não representa agravo à saúde maior que o
açúcar branco, o mesmo não se pode dizer dos edulcorantes como
sacarina, ciclamato e outros. O ciclamato simplesmente é proibido nos
Estados Unidos; quando utilizava sacarina em sua fórmula, a Coca-Cola,
a exemplo de todos os demais diets, incluindo as gotas adicionadas
rotineira e inocentemente ao café, anunciavam com destaque nos rótulos
que aquele "produto pode ser prejudicial à saúde, pois contém sacarina,
observada como causadora de câncer em animais de laboratório".
Na
Inglaterra, todos os refrigerantes diet anunciam também, com destaque,
que não servem para controle ou redução de peso, a menos que façam
parte de um programa completo sob orientação médica. E tem mais: com
duas latinhas de refrigerantes diet, já se atinge à dose máxima diária
aceitável de sacarina, sem risco toxicológico. Isso se o indivíduo não
consumir nenhuma outra fonte de sacarina. Nenhuma informação ou alerta
nesse sentido se encontra nos rótulos.
Obesidade e saúde
pública. A literatura dos países desenvolvidos insiste em classificar
os problemas de nutrição em saúde pública em duas categorias: a dos
países ricos e a dos países pobres. No primeiro caso, as doenças do
excesso de consumo, a obesidade, a hipertensão arterial, o câncer. E
nos países em desenvolvimento, as doenças carências, a desnutrição
energético-protéica, a hipovitaminose A, a anemia ferropriva, o
marasmus e o kwashiorkor...
Na verdade temos doenças típicas de
sociedades urbanas e industrializadas, atingindo os habitantes das
grandes cidades, sejam ricos ou pobres. No caso de aditivos e
agrotóxicos fica ainda mais visível que, como sempre, a desgraça se
abate antes e mais sobre os mais pobres e as crianças. É notório que,
enquanto os mais ricos tomam suco de laranja, são os pobres e as
crianças que consomem refrigerantes e refrescos artificializados, bem
como corantes de todo tipo e jeito, quando até o "algodão doce" das
portas das escolas hoje é multicolorido. Obviamente, o vendedor desse e
de outros produtos artesanais não está preparado para selecionar,
manipular e dosar corantes químicos... Por igual motivo, pelo contato
direto e inadvertido do analfabetismo com a tecnologia química de
ponta, é que antes de o rico se intoxicar com pesticida de seus
moranguinhos, dezenas e dezenas de bóias-frias já se mataram no campo,
aplicando-o contra o vento, misturando-o com as mãos, utilizando suas
embalagens para captar água e seus sacos plásticos como toalha de mesa
ou capa de chuva...
Se tudo é qualitativamente visível, ainda
não foi captado pela epidemiologia. E talvez nunca o seja, porque se é
muito difícil associar a diarréia de hoje com o peixe de ontem, mais
ainda será associar o câncer de hoje com a sacarina de dez anos atrás.
Mas
sobre algumas dessas questões, a epidemiologia já traz dados
definitivos. É o caso marcante da obesidade. Pesquisa realizada pelo
IBGE, com recursos do INAN, em 1991, concluiu que no Brasil 27 milhões
de adultos apresentam algum grau de excesso de peso. Destes, 6,8
milhões em nível acentuado, expresso como obesidade. Se isso representa
27% da população masculina maior de 18 anos, entre as mulheres
representa percentual mais elevado (38%). Como vemos, a distribuição da
obesidade não se dá pela renda, e assim como "privilegia" as mulheres,
é também provável que ocorra com os mais pobres, com menores
possibilidades de acesso aos alimentos protéicos e que, não só pela
vertente física, mas também pela psicológica e social, concentram o
consumo em produtos como o arroz, feijão , pão, macarrão, açúcar,
batata, mandioca, fubá e similares.
Sobre as conseqüências da
obesidade para a saúde e sobre o significado social e econômico das
doenças crônico-degenerativas - cada vez mais importantes para um
população cada dia mais velha e com expectativa de vida ascendente, ao
mesmo tempo que a crise de sua "previdência social" mais e mais se
agrava - não cabem aqui maiores evoluções. Mas não pode deixar de ser
lembrada. Apenas como ilustração adicional, vale lembrar que o IBGE
aponta um consumo de sal no Brasil, na casa dos onze gramas por dia,
enquanto é meta expressa da política nutricional inglesa e de outros
países desenvolvidos reduzir esse consumo para seis gramas diárias.
Preocupações similares existem no sentido de reduzir o número de
gorduras, substituindo o seu papel no aporte calórico por carboidratos
complexos, se possível acompanhados de fibras. E nessa gordura
ingerida, aumentar consideravelmente a proporção de ácidos graxos
insaturados, contra os saturados, geralmente presentes na gordura de
origem animal.
Muitos são os que ironizam essas preocupações da
"nutrição em saúde publica", contrapondo a prioridade de primeiro se
erradicar a fome e a desnutrição. Com esse mesmo argumento, porém, se
poderia inibir qualquer tentativa para qualquer outra coisa, desde
programas voltados para reduzir as mortes no trânsito até a prevenção
do cólera. Mesmo porque quem não come, se pensarmos pobremente, não tem
motivos para se preocupar com diarréia.
Natural que não. No
imaginário do consumidor urbano, diet parece estar associado com
"saudável", e, nessa categoria, entraria ainda com mais pertinência o
alimento "natural". Como "natural", no Brasil, se insere em outras
variadas categorias também mais ou menos indefinidas na legislação e
percepção públicas, que são o integral, o alternativo, o orgânico, o
sem conservante químico e até mesmo alimentos com aditivos químicos
diversos, mas com alguma parcela de fruta.
Casos típicos são os
sorvetes "naturais", contendo aditivos; os sucos "naturais" em garrafas
que, excluindo a marca Super Bom, na qual os microorganismos são
destruídos pela fervura (pasteurização), são preservados quimicamente,
ainda que a cor, o aroma, e tudo o mais sejam mesmo de frutas; o
copinho de mate, nos tipos "natural" e limão, mas ambos com
preservativos químicos; e até mesmo os pós artificiais para refresco,
puro açúcar colorido quimicamente, mas que destacaram o termo "natural"
nos rótulos, associado com o aroma ali adicionado e que é extraído da
laranja na fábrica dos lanjais. Não bastando, ainda surgem na TV em
anúncios que afirmam ser "igual ao suco das melhores laranjas".
Mesmo
os produtos artesanais, como sanduíche vendido nas praias e por camelôs
diversos, apregoam corajosamente serem "naturais" e compostos de
presunto, maionese e frango. Na mesma onda naturista, os restaurantes
"naturais" vendem alimentos diversos à base de soja e de trigo ou arroz
integral, mas sempre frituras.
Das soluções ingênuas à
participação popular. A primeira reação dos técnicos diante dessa
problemática da propaganda e da rotulagem enganosas é sempre propor
aperfeiçoamento da legislação e mais vigor na fiscalização. Um pouco de
disciplina e repressão certamente não fariam mal e poderiam até reduzir
razoavelmente essas práticas fraudulentas ou desonestas. Mas seriam
insuficientes.
A participação popular é imprescindível.
Entretanto, existe uma tendência à desmobilização, provocada até mesmo
e inadvertidamente por algumas das iniciativas voltadas para denunciar
a qualidade inadequada dos alimentos. Quando se passa a idéia de que
está tudo contaminado, a reação lógica e natural dos consumidores, como
não é difícil constatar, é que "se está tudo contaminado, se tudo faz
mal mesmo, então não adianta me preocupar e vou é comer de tudo!". A
velha idéia de que "o que não mata, engorda" hoje é mais complexa e
grave, e alguns alimentos "engordam e matam".
Radicalizando,
criasse um severo código de defesa do consumidor. E apregoasse, como se
isso fosse um grande mérito, que é uma iniciativa revolucionária, pois
"nem os países mais desenvolvidos têm um código como esse!". Ora, não
têm porque não precisam, porque têm legislação alimentar moderna e
ágil, porque têm controle e inspeção de alimentos de Primeiro Mundo. Na
verdade, em que pesem sua severidade grosseira e alguns resultados a
partir dela conquistados, a longo prazo o código será ineficaz, ao
menos no campo dos alimentos, o qual exige normas específicas e
detalhadas, bem como ajustas freqüentes como decorrência da evolução
dos insumos, tecnologias e produtos novos colocados no mercado.
Com
o avanço da competitividade industrial, seria lógico esperar que a
publicidade partisse para comparações entre produtos. O suco sem
aditivo seria anunciado como melhor que o suco preservado quimicamente.
Mas isso não faz parte da ética empresarial brasileira. Muito pelo
contrário, essa prática é altamente reprimida. Poderiam ser citados
vários casos, mas um deles, bem recente, talvez tenha passado
despercebido pelos telespectadores, e vale registrar. Comprando panelas
e buscando uma de aço Tramontina, uma mulher rejeita as de vidro porque
quebram, as de teflon porque arranham e as de alumínio porque fazem mal
à saúde. O anúncio não demorou muito para ser retirado do ar e, semanas
depois, ao retornar, mostrava-se reeditado. A comparação com o
alumínio, que faria mal à saúde, simplesmente sumiu do anúncio...Um
caso muito parecido a uma ONG recentemente criada, para tratar de
"embalagem e meio ambiente", e que durante a ECO-92 até ousou aparecer
publicamente com seu discurso ecológico. Na verdade, foi criada por
indústrias de embalagens que, fugiram do debate público das vantagens
do cartão sobre o isopor na caixa de ovos, ou do vidro sobre o alumínio
ou o plástico nas bebidas, criou foro próprio para resolver suas
diferenças longe da imprensa e do público.
Alimento como símbolo
de saúde. Discute-se a possibilidade de ampliar a venda de medicamentos
em supermercados. Na mão inversa, as farmácias cada vez vendem uma
maior variedade de alimentos, dos substitutos do leite materno aos chás
e substitutos do açúcar, de alimentos naturais e dietéticos. O alimento
busca conquistar o símbolo "terapêutico" e, por fim, como o próprio
medicamento ultrapassar os limites da dimensão quimioterápica e
biológica, para estender-se pela dimensão social e psicossocial, pela
dimensão simbólica e semiótica. Aí já não importará ter ou não
calorias, ter ou não aditivos porque, mais que seu caráter, vale a sua
imagem e, sobre esta, a educação nutricional não pode ser meramente
instrucional e a vigilância sanitária não pode ser simplesmente
laboratorial.
A questão alimentar brasileira, ainda não
equacionada naquilo que seria a mísera garantia de arroz e feijão para
todos, confronta-se agora - e aqui sim para todos, ricos e pobres - com
uma nova problemática. De um lado, a ausência de uma política alimentar
ampla e moderna que incorpore a normatização da identidade e qualidade
de alimentos, incluindo a rotulagem e propaganda; de outro lado, o
avanço acelerado de um processo de consumo, já não meramente de
alimentos, mas de símbolos de saúde, juventude, modernidade e poder.
Este segundo problema torna-se ainda mais grave quando ocorre em
sociedades nas quais os dois outros pontos não estão resolvidos. Ou
seja, onde a fome ainda persiste e onde os alimentos, particularmente
esses alimento-símbolos, não passam por um controle oficial de sua
qualidade.
É preciso reconhecer que se trata de uma questão
nova, complexa, polêmica e mal estudada. Estamos, todos, ainda pensando
e aprendendo sobre ela. Talvez não seja tão grave quanto a princípio
parece. Talvez seja ainda muito pior. Ao colocar estas questões e
ilustrá-las exaustivamente com exemplos, a intenção é provocar e
sinalizar algumas possibilidades para o encaminhamento deste debate.