Ménone (80d-86c)
Diálogos de Platão
Ménone:
- E como hás-de encontrar uma coisa de que não sabes absolutamente
nada? Na tua ignorância, que princípio tomarás para te guiar nesta
investigação? E se, por acaso, encontrasses a virtude, como a
reconhecerias, se nunca a conheceste?
Sócrates:
- Compreendo, Ménone, o que queres dizer. Que magnífico argumento para
uma discussão! Não é possível o homem procurar o que já sabe, nem o que
não sabe, porque não necessita de procurar aquilo que sabe, e, quanto
ao que não sabe, não podia procurá-lo, visto não saber sequer o que
havia de procurar.
Ménone: - Não te parece bom esse raciocínio, Sócrates?
Sócrates: - Decerto que não.
Ménone: – Dizes-me porquê?
Sócrates: - Sim, porque tenho ouvido falar, homens e mulheres hábeis, em coisas divinas.
Ménone: - Que diziam?
Sócrates: - Coisas belas e verdadeiras, a meu ver.
Ménone: - Que coisas eram essas, e quem são eles?
Sócrates:
- Sacerdotes e sacerdotisas que se aplicaram a investigar tudo quanto
respeita ao seu ministério. Também tenho por verdadeiramente divinos
Píndaro e outros poetas. É isto que dizem: examina se será justo. Dizem
que a alma é imortal, e tão depressa emigra (chamando-se a isto morrer)
como reaparece sem nunca ser destruída; por isso convém viver o mais
piedosamente possível, porque as almas daqueles que pagaram a Perséfone
a dívida das suas antigas faltas, são devolvidas à luz do Sol, ao fim
de nove anos. Destas almas saem os reis ilustres, celebres pelo seu
poder, os homens notáveis pelo seu saber, honrados como santos heróis
pelos mortais. Assim, a alma imortal, nascida muitas vezes, tendo
contemplado todas as coisas sobre a terra e na morada de Hades,
aprendeu tudo quanto é possível. Portanto, não é para admirar que
possua, quer acerca da virtude quer de tudo o mais, reminiscências dos
seus conhecimentos anteriores. Sendo solidária toda a natureza e tendo
a alma prévio conhecimento de tudo, nada impedirá que, relembrando uma
coisa qualquer (é a isto que os homens chamam aprender), encontre todas
as outras, por si mesma, sempre que tenha coragem e não se canse de
investigar. Com efeito, o que se chama. investigar e aprender não é
mais que recordar. Não devemos, portanto, dar crédito ao argumento,
para uso de palradores, que apresentaste há pouco; tornar-nos-ia
preguiçosos e só agrada aos caracteres frouxos. 0 meu, pelo contrário,
incita ao trabalho e à investigação. É por isso que o considero
verdadeiro; e quero, por consequência, investigar contigo em que
consiste a virtude.
Ménone:
- Está bem, Sócrates. Mas limitar-te-ás a afirmar que não aprendemos
nada, e aquilo a que chamamos aprender não é mais do que recordar?
Poderias demonstrar-me que é realmente assim?
Sócrates: -
Já te disse, Ménone, que és muito astuto. Preguntas-me se posso
ensinar-te uma coisa, quando acabo de afirmar que não se aprende nada e
que aprender se resume em recordar, para me fazeres cair em contradição
comigo mesmo.
Ménone: -
Não tinha essa intenção, Sócrates, por Zeus. Falei assim apenas por
hábito. No entanto, se puderes mostrar-me que é como dizes, não deixes
de o fazer.
Sócrates: -
Não é nada fácil, mas vou tentá-lo, para te ser agradável. Chama um dos
muitos escravos que te acompanham, aquele que quiseres. E far-te-ei ver
o que desejas.
Ménone: - De bom grado. Vem cá tu.
Sócrates: - É grego ou sabe grego?
Ménone: - Muito bem, nasceu em minha casa.
Sócrates: - Toma atenção: vê se parece recordar ou se aprende comigo.
Ménone: - Estarei atento.
Sócrates: – Diz-me, rapaz, sabes que isto é um quadrado?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - 0 espaço quadrado, não tem iguais estas quatro linhas?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - E estas outras linhas que o atravessara pelo centro, serão também iguais?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - Não poderá haver um espaço semelhante que seja maior ou mais pequeno?
Escravo: - Sem dúvida.
Sócrates:
- Se este lado medisse dois pés, e este outro também dois pés, quantos
pés mediria o todo? Repara bem: Se este lado fosse de dois pés e aquele
de um pé somente, não é verdade que o espaço seria de uma vez dois pés?
Escravo: - Sim.
Sócrates: – Mas, como o segundo lado tem igualmente dois pés, não será o mesmo que duas vezes dois?
Escravo: – Sim.
Sócratcs: - Portanto, o espaço é agora de duas vezes dois pés?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - Quantos são, duas vezes dois pés? Trata de fazer a conta, diz-me o resultado.
Escravo: - Quatro, Sócrates.
Sócrates: - Não se poderia fazer um espaço duplo deste, mas semelhante, tendo, as suas linhas iguais?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - Quantos pés mediria?
Escravo: - Oito.
Sócrates:
- Vamos, trata de me dizer, qual será a grandeza de cada linha do novo
quadrado: as deste são de dois pés; as do quadrado duplo, de quantos
serão?
Escravo: - É evidente, Sócrates, que terão o dobro.
Sócrates:
- Estás vendo, Ménone, que nada lhe ensino e que me limito a
interrogar? Neste momento julga saber qual é a extensão do lado de um
quadrado de oito pés. Não te parece?
Ménone: - Sim.
Sócrates: - Mas sabe-o, porventura?
Ménone: - Não, certamente.
Sócrates: - Não está supondo que este lado seria duplo do precedente?
Ménone: - Sim.
Sócrates:
- Pois observa como a memória vai despertar sucessivamente. (ao
escravo): Tu, responde-me. Dizes que o espaço duplo se forma da linha
dupla? Repara bem: não me refiro a um espaço comprido deste lado e
curto daquele; pretendo uma superfície como esta, igual em todos os
sentidos, mas que tenha uma extensão dupla, ou seja de oito pés. Ainda
pensas que se forma sobre a linha dupla?
Escravo: - Penso que sim.
Sócrates: - Se acrescentarmos a esta linha outra do mesmo comprimento, a nova linha não será dupla da primeira?
Escravo: - Sem dúvida.
Sócrates: - Então, o espaço de oito pés construir-se-á sobre esta nova linha, traçando quatro linhas semelhantes?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - Tracemos, então, quatro linhas semelhantes a esta. Chamas a isto um espaço de oito pés?
Escravo: - Sim.
Sócrates:- Mas este novo quadrado não compreende outros quatro, cada um dos quais é igual ao primeiro, que mede quatro pés?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - Então qual é a grandeza dele? Não é quatro vezes maior?
Escravo: - Sem dúvida.
Sócrates: - Mas o que é quatro vezes maior é duplo?
Escravo: - Não, por Zeus!
Sócrates: – Então, que é?
Escravo: - Quádruplo.
Sócrates: - Portanto, meu rapaz, com a linha dupla não se forma um espaço duplo, mas sim quádruplo.
Escravo: - É verdade.
Sócrates: - Quatro vezes quatro, não são dezesseis?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - Que linha nos dará, então, um espaço de oito pés? Não foi com esta que se formou o espaço quádruplo?
Escravo: - Foi.
Sócrates: - E o espaço de quatro pés, não se forma com a linha que é metade da anterior?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - Bem. 0 espaço de oito pés não é duplo deste, e metade daquele?
Escravo: - Sem dúvida.
Sócrates: - Não se formará, então, com uma linha maior do que esta e mais pequena do aquela? Que te parece?
Escravo: - Parece-me que sim.
Sócrates: - Muito bem. Responde sempre conforme a tua opinião. Mas diz-me: esta primeira linha não media dois pés, e esta outra quatro?
Escravo:- Sim.
Sócrates: - É necessário, portanto, que a linha do espaço de oito pés seja mais comprida que a de dois pés e mais curta que a de quatro.
Escravo: - Sim, é necessário.
Sócrates: - Vê se me podes dizer qual a sua extensão.
Escravo: - Três pés.
Sócrates:
- Para esta linha medir três pés, teremos que lhe acrescentar metade do
seu comprimento: quer dizer, um pé aos dois pés. Agora, a este outro
lado, juntemos também mais um, aos dois pés. Formamos assim o espaço de
que falas.
Escravo: - Sim.
Sócrates: - Mas se o espaço tem três pés por este lado e três por aquele não será de três vezes três pés?
Escravo: - Assim parece.
Sócrates: - E três vezes três pés quantos são?
Escravo: - Nove pés.
Sócrates: - Mas quantos pés deveria ter a superfície, para ser dupla da primeira?
Escravo: - Oito.
Sócrates: - Então o espaço de oito pés também se não forma com a linha de três pés?
Escravo: – É verdade que não.
Sócrates: - Então com que linha se forma? Trata de no-lo dizer ao certo; e, se não queres exprimi-la em números, indica-a na figura.
Escravo: - Por Zeus! Sócrates não sei.
Sócrates: -
Viste, Ménone, o percurso que ele fez no caminho da reminiscência? A
princípio, julgava saber qual é o lado do quadrado de oito pés (e ainda
o não sabe). Julgava sabê-lo e respondia com segurança, como se o
soubesse, sem suspeitar da sua ignorância. Agora, já avalia a
dificuldade e, embora não saiba, ao menos já não supõe que sabe.
Ménone: - É verdade.
Sócrates: – Não estará agora em melhor disposição relativamente às coisas que ignorava?
Ménone: - Concordo.
Sócrates: - Compelindo-o a duvidar e entorpecendo-o, como faz a tremelga, causamos-lhe algum mal?
Ménone: - Creio que não.
Sócrates:
- Pelo contrário, facilitamos-lhe a marcha para descobrir a verdade,
porque daqui em diante, embora não saiba, terá o prazer de investigar,
ao passo que, anteriormente, não vacilaria em afirmar repetir perante
uma multidão, com inteira confiança, que o duplo de um quadrado se
forma sobre o dobro do lado.
Ménone: - É provável.
Sócrates:
- Julgas que se preocuparia a investigar ou a aprender o que supunha
saber, conquanto o não soubesse antes de começar a duvidar, e, convicto
da sua ignorância, sentisse o desejo de saber?
Ménone: - Penso que não, Sócrates.
Sócrates: - 0 entorpecimento tornou-se-lhe, desta maneira, proveitoso.
Ménone: - Parece que sim.
Sócrates:
- Observa agora o que, partindo da dúvida, descobrirá comigo, sem eu
lhe ensinar nada, pois tenciono apenas interrogá-lo. Vê se consegues
surpreender-me a ensinar-lhe ou a explicar-lhe alguma coisa, em vez de
me limitar a pedir a sua opinião. (Ao escravo): Tu, diz-me: este espaço
não é de quatro pés? Compreendes?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - Poderemos juntar-lhe mais este, que lhe é igual?
Escravo: - Porque não?
Sócrates: - E um terceiro, idêntico aos outros dois?
Escravo: – Sim.
Sócrates: – Não podemos completar a figura colocando este outro espaço naquele ângulo?
Escravo: - Sem dúvida.
Sócrates: - Não teremos assim quatro espaços iguais?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - E todos juntos, quantas vezes são maiores do que este só?
Escravo: - Quatro vezes.
Sócrates: - Mas nós queríamos apenas um espaço duplo, lembras-te?
Escravo: - Efectivamente.
Sócrates: - Estas linhas que vão de um ângulo a outro (diagonalmente) não dividem em dois cada um destes espaços?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - Não obtemos quatro linhas iguais que limitam um novo espaço?
Escravo: - Assim é.
Sócrates: - Repara bem. Qual será a grandeza deste espaço?
Escravo: - Não sei.
Sócrates: - Estas linhas (diagonais) não dividem ao meio cada um dos quatro espaços? Sim, ou não?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - Quantos desses espaços semelhantes há no espaço do meio?
Escravo: - Quatro.
Sócrates: - E neste aqui, quantos há?
Escravo: - Dois.
Sócrates: - Que vem a ser quatro, em relação a dois?
Escravo: - 0 dobro.
Sócrates: - Então, quantos pés mede este espaço?
Escravo: - Oito pés.
Sócrates: - E sobre que linha se construiu?
Escravo: - Sobre esta.
Sócrates: - A linha que vai de um ângulo a outro, no espaço de quatro pés?
Escravo: - Sim.
Sócrates:
- Pois a esta linha os sofistas chamam diâmetro. Se tal é o seu nome, o
espaço duplo forma-se, como dizes, escravo de Ménone, sobre o diâmetro.
Escravo: – É verdade, Sócrates.
Sócrates: - Que te parece, Ménone? Deu alguma resposta que não fosse propriamente sua?
Ménone: - Nenhuma, falou por si mesmo.
Sócrates: - Contudo, não sabia, como anteriormente verificámos.
Ménone: – É certo.
Sócrates: – Então, estas opiniões existiam nele ou não?
Ménone: - Existiam nele.
Sócrates: - Portanto, quem não sabe tem em si opiniões verdadeiras acerca daquilo que ignora.
Ménone: - Assim parece.
Sócrates:
- As opiniões verdadeiras despertam nele como um sonho. Se o
interrogarem amiúde e de diversas maneiras acerca dos mesmos assuntos,
podes estar certo de que chegará a possuir um conhecimento tão exacto
como o mais sabedor.
Ménone: - É provável.
Sócrates:
- Por consequência, poderá saber sem que ninguém o ensine, mediante um
simples interrogatório, encontrando em si mesmo a ciência, no seu
próprio interior?
Ménone: - Sim.
Sócrates: - Mas, encontrar em si mesmo a ciência, não será recordar-se?
Ménone: - Sem dúvida.
Sócrates: - E não será certo que o teu escravo adquiriu alguma vez a ciência que possui, ou que a possuiu sempre?
Ménone: - Sim.
Sócrates:
- Mas, se a tivesse possuído sempre, teria sido sempre sábio e, se a
adquiriu, não foi, seguramente, nesta existência. Ou recebeu,
porventura, lições de geometria? Descobrirá da mesma forma, as outras
partes da geometria e todas as outras ciências. Ter-lhe-ia alguém
ensinado tudo isto? Deves sabê-lo, visto que nasceu e se criou em tua
casa.
Ménione: - Tenho a certeza de que ninguém lho ensinou.
Sócrates: - Contudo, eram dele ou não as opiniões que lhe ouvimos?
Ménone: - Eram dele, incontestavelmente, Sócrates.
Sócrates:
- Logo, se as não adquiriu na vida actual, não será forçoso admitir que
as adquiriu anteriormente, e que aprendeu antecipadamente o que sabe?
Ménone: - Assim parece.
Sócrates: - Quando? No tempo em que ainda não era homem?
Ménone: - Provavelmente.
Sócrates:
- Por conseguinte, se desde que é homem, e já antes de o ser, tem em si
opiniões verdadeiras que se convertem em ciência quando despertadas
pelo interrogatório, não será verdade que a sua alma as possuiu sempre?
Está bem de ver que, em toda a extensão do tempo, ou é homem ou não é.
Ménone: - Evidentemente.
Sócrates:
- Portanto, se a verdade das coisas existe sempre na nossa alma, esta
há-de ser imortal. É necessário, pois, que procuremos investigar e
recordar corajosamente, aquilo que, de momento, não sabemos, quero
dizer, aquilo que esquecemos, e que nos esforcemos por despertar a sua
lembrança.
Ménone: - Não saberia explicar-te como, Sócrates, mas parece-me que tens razão.
Sócrates:
- A mim, afigura-se-me a mesma coisa, Ménone. Para falar verdade, não
me atreveria a garantir tudo quanto disse. Mas estou disposto a
sustentar com palavras e obras, até onde puder, que a opinião de que
devemos indagar o que ignoramos nos torna melhores, mais tenazes e
menos indolentes do que a opinião de que é impossível descobrir a
verdade e inútil procurá-la.
Ménone: - Nesse ponto concordo contigo, Sócrates.
Sócrates:
- Então, visto estarmos de acordo em reconhecer que se deve procurar
saber o que se ignora, queres investigar comigo em que consiste a
virtude?
Tradução de A. Lobo Vilela
Platão (427-347 a.C.), filósofo ateniense e discípulo de Sócrates, escreveu parte de seu pensamento em seus Diálogos Socráticos.