Resenha de A batalha da mídia: governos progressistas e políticas de comunicação na América Latina e outros ensaios.
Dênis de Moraes, Pão e Rosas Editora, 2009.
Por uma
comunicação radical na unidade dialética entre
sua dimensão humanista e técnica
Aline Lucena*
Um aluno de jornalismo, da disciplina Comunicação Comparada, questionou sobre o sentido de “ainda se falar em famílias que controlam empresas de comunicação no Brasil”. A indagação surgiu quando da apresentação de dados sobre o controle familiar das mídias na América Latina, informações retiradas do livro A batalha da mídia, corajosa e necessária ode por uma América Latina livre dos grilhões que impedem os vários gritos, das diversas vozes, com idiomas, sotaques, discursos e desejos singulares. A aula era sobre as mídias e a comunicação como direito humano, e o objetivo, ao usar o texto de Dênis de Moraes, foi despertar, no mínimo, um questionamento, enfim logrado.
Mais uma vez, Dênis de Moraes supera o desafio de trazer ao âmago da pesquisa acadêmica brasileira e do pensamento comunicacional latino-americano reflexões, análises e resignificações que incomodam, causam risos nervosos, despertam inquietações por vezes adormecidas, outras forçosamente silenciadas, outras, ainda, intencionalmente esquecidas. É um livro, sobretudo, apaixonado pela capacidade de resistência dos homens e mulheres que enfrentam o bom combate, cheio de esperança na insurgência dos contraditórios no espaço público midiatizado. A ordem de temáticas deixa evidente um otimismo trágico, lembrando Sousa Santos, e a utopia que vai dos sonhos às coisas, recordando Mariátegui.
Na primeira parte – em que nos deparamos com Antonio Gramsci como a principal base teórica - a preocupação do autor é analisar a práxis do universo da comunicação social que constrói e destrói imaginários sociais, os processos de disputas hegemônicas e suas inúmeras dimensões: cultural, econômica, política e social. É neste momento que podemos compreender o alicerce da comunicação social, através dos sistemas midiáticos condicionantes dos fluxos de bens simbólicos, na formação dos modelos de mundo e sociedades. Não temos como desconsiderar as relações existentes entre as inúmeras assimetrias do continente latino-americano e a conformação dos meios de comunicação. A realidade torna-se mais complexa quando o autor trata também da imaginária destruição do tempo, dos espaços e das fronteiras pela “cultura tecnológica, inovação e mercantilização”. A comercialização das informações, do conhecimento e dos bens culturais - capital imaterial disputado por um mercado sedento por desregulamentação - é detalhadamente desvelada por números, mas não deixando de enxergar as pessoas e a desumanização desse processo.
Não imaginem encontrar nesta obra a “demonização” da Internet, tecnofobia ou algo parecido. Ao contrário, reconhece-se a importância dos novos espaços de interação deste cenário virtual e dos potenciais políticos, culturais, econômicos e sociais tão bem utilizados por movimentos sociais em toda a América Latina. O pensamento de Dênis, atento à premente liberação de “potencialidades adormecidas”, “contesta a idolatria do mercado e descarta a velocidade como emblema atávico de evolução sócio-técnica”, além de questionar “euforias tecnológicas”.
A segunda parte, “Governos progressistas e políticas de comunicação na América Latina”, traz uma radiografia das indústrias culturais desta região, com foco na radiodifusão, e a estreita ligação com os números da pobreza que assolam os países latino-americanos. São relatadas histórias de várias emissoras estatais que surgem com os novos governos de esquerda, como a Telesur, canal pertencente à Venezuela, Cuba, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador e Nicarágua. Experiência duramente criticada por Martín-Barbero e exaltada por Ignacio Ramonet, ambos citados por Moraes. O destaque, sem dúvida, são os marcos regulatórios que potencializaram as mídias comunitárias no Uruguai, Bolívia, Equador, Venezuela e Chile. Ao citar Mario Benedetti, Moraes termina reafirmando “O que era impossível: Que todo o mundo saiba/Que o Sul também existe”.
O último ensaio trafega pelas experiências dos movimentos sociais na utilização da World Wide Web, como uma alternativa para disseminação rápida e articulada de conteúdos contra-hegemônicos. A revolução tecnológica provocada pela Internet é potencializada ao ser apropriada por discursos que buscam transformações profundas: revolução social, econômica, política, cultural e ideológica. Estas webmídias são claramente opositoras do neoliberalismo, da centralização informativa, da submissão às mídias comerciais e da mercantilização dos bens culturais. As palavras-chaves para compreensão deste discurso são comunicação dialógica, emancipação humana, democracia participativa.
Oxalá este livro chegue às mãos, corações e mentes de estudantes de comunicação social, mas principalmente de homens e mulheres que estão nas frentes de batalha, lutando por uma comunicação radical na unidade dialética entre sua dimensão humanista e técnica.
* Professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco.