DADÁ BORARI: UM ÍNDIO DE PAZ EM TEMPOS DE GUERRA
Frei Florêncio Vaz
OFM – indígena Maytapu, criador do Grupo Consciência Indígena (GCI),
professor da UFPa/Santarém e doutorando
em Antropologia na UFBa.
Era novembro de 1996 quando entrei no rio Arapiuns pela primeira vez, para chegar até a Cachoeira do Maró, juntamente com uma equipe de representantes dos movimentos sociais, onde realizamos o primeiro grande encontro de comunidades dos rios Tapajós e Arapiuns. O objetivo de todos era barrar a invasão de madeireiras na área e garantir as terras nas mãos dos comunitários nativos. Mais tarde, isso foi conseguido em parte com a criação da Resex Tapajós-Arapiuns, que lamentavelmente não incluiu as terras da Gleba Nova Olinda e da margem esquerda do Arapiuns.
Entre os participantes do evento estava um adolescente de 15 anos, que fazia parte do grupo que veio de um desconhecido “Novo Lugar”. Um pouco desconfiado e sempre atento ao que o “pessoal da cidade” e os líderes locais falavam, o jovem acompanhava tudo debaixo de uma árvore, sem dizer uma palavra. A palavra estava em gestação.
Mais de dez anos depois, o adolescente arredio se transformou no líder Dadá Borari, que tem falado e lutado muito em defesa das terras do seu povo, hoje ainda mais invadidas do que em 1996. É um jovem ainda, com 26 anos, mas alguns acham que sua carreira deve terminar por aí mesmo, e que sua voz incômoda deve silenciar. Ameaçado de morte e já tendo escapado de dois atentados, ele faz parte de uma nova geração de lideranças regionais que não se envergonha de ser indígenas e está disposta a defender o pouco que restou do seu território.
A exemplo da OAB/PA, que lhe concedeu o prêmio de Direitos Humanos 2007, os santarenos e amazônidas precisam conhecer mais da sua trajetória e da sua causa. Causa que deveria ser de todos.
Ele nasceu em 10 de novembro de 1981 e foi batizado com nome do cantor Odair José. Filho de família numerosa, seu pai faleceu de picada de cobra quando ele tinha 13 anos. E ele teve que assumir parte das responsabilidades de chefe de família, ajudando a mãe a criar os irmãos menores. Estudava de manhã em uma comunidade distante uma hora de remo, de tarde ia pra roça e à noite ia “procurar” comida no mato ou no rio. Era pesado demais. Mas ele ainda agüentou dois anos, quando teve que largar a escola, para se dedicar inteiramente à sua família.
Aos 15 anos, estava junto com seus primos que criaram a “equipe catequética” da Igreja Católica local, e assim, fundaram a “comunidade” de Novo Lugar. Já se destacando como líder, foi escolhido em 1998 para fazer o curso de Agente Ambiental no Grupo de Defesa da Amazônia (GDA), que concluiu em 2000. Em 2002 começou a atuar no Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Santarém, quando foi eleito o primeiro delegado sindical da comunidade. Mas ali não demorou muito, e ele rompeu com o STR e entrou para o Movimento Indígena.
O Movimento Indígena no baixo Tapajós nasceu em 1998, com a comunidade de Takuara (Belterra, Tapajós) se identificando como indígena. Nos anos seguintes dezenas de outras comunidades também passaram a se assumir como indígenas, a maioria delas dentro da Resex Tapajós-Arapiuns. Em 2001 a FUNAI começou as visitas de reconhecimento à área. Porém, lideranças do STR, RESEX e diretores do IBAMA não concordavam com essas demarcações de terras indígenas, e começou um tempo de disputas e mútuas acusações. Falava-se que os indígenas não tinham direito a se sindicalizar e nem a se aposentar, ou que iriam voltar a andar nus etc. Foi preciso uma Audiência do MPF em maio de 2003 para que os dois lados acertassem um acordo de convivência. Dadá, que chegou ao encontro como sindicalista, saiu dali como ativista indígena.
“Vi algumas diferenças entre os indígenas, IBAMA e STR, que defendia o assentamento agro-extrativista e era contra a demarcação das terras Indígenas dentro da RESEX. Descobri que aquilo estava errado. A minha origem é indígena. Então, o que eu tinha que exigir era a demarcação das nossas Terras Indígenas, e não um “assentamento”. Saí da função de delegado do STR”.
Nos encontros indígenas, Dadá logo foi eleito membro do conselho dos líderes e, em 2005, passou a ser o coordenador do Conselho Indígena dos rios Tapajós e Arapiuns (CITA), tendo que passar mais tempo em Santarém. Ele assumiu a direção da luta indígena, junto aos outros líderes, mesmo sem apoio de grandes “projetos”, como é corriqueiro entre as chamadas ONGs. Nos escritório da entidade, o aluguel está sempre atrasado e muitas vezes não há dinheiro sequer para a comida. Começou a participar de encontros indígenas em Manaus, Belém e Brasília. Em todos lugares ele sempre denunciava a invasão de grileiros nas terras indígenas e cobrava soluções do Estado. Na Folha de São Paulo de 20.11.2006, Dadá foi mostrado como um exemplo da onda de “orgulho indígena” que vive o país. Aparece e fala demais. Por isso se tornou muito incômodo.
Dadá diz que tem medo de morrer sim. Mas quem diz que ele pensa em parar? Já recebeu propostas de abandonar sua militância indígena e fazer outras coisas, em troca de algumas trinta moedas mensais seguras. Muitos líderes do “movimento social” aceitam essa via, e continuam vivos-mortos, sem mais sonhos, mas bem pagos. Ele recusou. “Eu poderia ainda voltar para casa, cuidar dos filhos, da família. Mas eu me sentiria um “traíra”, deixando uma coisa que eu ajudei a iniciar e que animou as comunidades. Não dá para abandonar. Ao contrário, a cada ameaça eu me sinto mais fortalecido. É claro que também tenho tomado mais cuidado. Digo sempre que se as pessoas têm que fazer algo por mim, que façam enquanto estou vivo. Não quero que façam nada depois de eu ter morrido, como fizeram para a irmã Dorothy. Ela perdeu a vida, e nada mais vai lhe trazer de volta.”.
Como todos os grandes líderes sociais, esse jovem tem um sonho, o de ver seu povo indígena em uma terra novamente livre. Para isso, ele sabe que precisa estar bem preparado. Recentemente, fez provas e conseguiu concluir o ensino fundamental. Agora estuda o Magistério Indígena, em nível de ensino médio.
Sobre o prêmio da OAB/PA: “recebi a notícia com firmeza. Ganhar o prêmio não é para eu me aparecer, mas para mostrar que a nossa história está presente. O sentido de receber o prêmio é a demarcação de todas as Terras Indígenas na região”.
Quando eu penso naquele quase-curumim de 1996, e olho para o Dadá de hoje, ideais firmes e palavras cortantes, tenho orgulho de ter testemunhado a iniciação de um grande guerreiro indígena de um novo tempo. Um guerreiro de paz vivendo em tempos de guerra. Que viva o parente Dadá e seus sonhos, hoje e sempre, sob a proteção de Deus e dos seus antepassados! E que os seus inimigos não prevaleçam jamais. Amém!