As Mortes
David Barros
As mortes acontecem não só no campo físico (morte natural, assassinato, acidente), também ocorrem no cenário da ética e da moral. Nós, consumidores de rádio, tv e jornais, temos nossos sentidos receptores (olhos,ouvidos,intelecto,etc...) inundados diariamente com a lenga-lenga de que morreu (ou foi assassinado) um sem terra! Também, que um alguém o matou, a Brigada. Entendemos que não foi isso que ocorreu. Quem morreu foi um ser humano – e ponto final. A história desta família, da qual este ser humano fazia parte, agora é só a saudade e vazio, trazidos pela morte. A história das lutas da sociedade (sem-terras, soldados mal pagos, poderes públicos contra o povo, dinheiro e a falta deste) são só algumas coisas necessárias para pensar, quando se analisa uma morte.
A grande mídia capitalista e que se socorre dos governos instalados, para não perderem suas fatias de “anúncios” pagos, procuram tirar de pauta assuntos que possam prejudicar quem lhes paga e patrocina inserções comerciais.
Protegendo o mega-empresário
Morreu também o homem que agiu ao puxar o gatilho e acertar outro homem. Talvez pensando que estivesse protegendo a sociedade, protegendo o governo Yeda, protegendo o mega-empresário de terras da fazenda que foi invadida. Morreu o soldado-homem, que a mando de alguém, que ele não sabe quem é, foi lá fazer algo que não sabia fazer bem. Ainda que a justiça dos cartórios penais o inocente, ele que atirou está morto perante os parentes e amigos daquele que o tiro ceifou a vida. O que pensar deste homem-soldado, enquanto homem físico, intelecto, talvez temente a alguma fé religiosa, na qual tirar a vida é pecado. Mais uma morte. Ainda que continue vivo, recebendo seu soldo, morreu este homem, mesmo para os seus.
As mortes até aqui relatadas: do ser humano que lutava por terra, do ser humano, soldado, que burramente achava que defendia alguma coisa que ele não sabia o que era, coisa esta que também já estava morta - este governo estadual. Ambos, homem que lutava por terra, e homem soldado, morreram para a sociedade civil.
A outra morte é a ética e moral deste Estado. Estado que é governo, que tem em seus mais altos comandos gente apinhada de ações na Justiça, de lesa pátria, de roubo, extorsão, desvio de verbas que deveriam ir para a saúde, saneamento, educação, segurança. Morta já estava a moral, quando aqueles dois seres humanos se encontraram. Morreram pelo quê, então? Morreram pela mentira, pela falta de moral que assola a atual gestão pública deste Estado, neste estado de coisas.
A crença na imparcialidade
A representação do Ministério Público, que deveria ser responsável pela vida de ambos, sem terra e soldado, foi lá para defender o dinheiro do dono da fazenda, deixando a descoberto a ética do bom direito de se fazer Justiça. A representante do Ministério Público, ao falar dos sem-terra, dizia “eles”, e ao se referir aos soldados da Brigada Militar, dizia “as polícias”, sem saber a diferença entre os entes de segurança do Estado, como força coercitiva judicial, e a força militar e suas funções de proteção. Morre a crença na imparcialidade da Justiça dos homens.
Resta aos crentes alguma coisa de fé: a ressurreição. Quando então virá à tona uma verdade. Pode ser que outras verdades se construam. Tomará que não seja preciso que outras mortes aconteçam. Mas, cuidado! A partir de agora, ao dobrar a próxima esquina, ao chegar em casa, ao passar no caixa eletrônico, ou ao ir um centro de lazer, você pode ser a próxima vítima de um erro.
O próximo erro
Certamente a imprensa dirá que morreu alguém. Vão lhe dar um rótulo. No IML, um cartão amarrado ao dedão do pé; nos jornais, o que convier ao governo Yeda; aos olhos e corações dos seus, a falta que você faz; à Justiça deste Estado um protocolo; à moral, muita discussão...
David Barros é diretor de Formação do SINDIÁGUA