Por que você ingressou nesta área?
Na verdade eu nunca me considerei um jornalista propriamente dito. Eu acho que sou um escritor que pratica jornalismo. (Já escrevi romance policial, peças de teatro, roteiros de cinema, duas telenovelas, programas infantis, musicais, etc). Para ser um jornalista no sentido mais ortodoxo do termo você precisa focar na realidade - e eu tenho uma certa dificuldade nisso.Minha cabeça está sempre vagando nas possibilidades ficcionais de um acontecimento. Então o que eu fiz foi juntar as coisas. Acabei virando uma espécie de mico-leão do jornalismo gonzo.
Quem te inspirou a praticar gonzojornalismo?
A leitura de Fear and Loathing in Las Vegas (do Hunter S. Thompson) me influenciou bastante.
Conte um pouco da sua experiência no mundo do gonzojornalismo.
Para a Playboy eu fiquei "preso" num recinto do Zoo de Bauru como um animal exposto. A direção do zoológico montou uma espécie de apoio didático mostrando que eu era representante de uma espécie animal como todas as outras, e que era um dos mais perigosos. Muitos visitantes achavam que iam encontrar um sujeito nu saltando na grade e comendo carne crua no chão. Aí eu reportei as reações de quem ia ver minha "jaula". Paralelamente travei um diálogo imaginário com o babuíno que deveria estar no meu lugar. Para a Viagem & Turismo fingi que era uma celebridade e passei um dia na ilha de Caras. Para a revista Web! (todas da editora Abril) eu criei uma espécie de "realidade paralela" ao filme A Bruxa de Blair na cidade de Rio Claro. Para outra matéria da Playboy fui a uma convenção de fãs de Elvis Presley vestido como o próprio.
Qual foi o trabalho que você mais gostou do resultado?
Acho que a matéria que ficou mais satisfatória eu escrevi também para a Playboy. Subi ao palco num show do Jota Quest fingindo que era um dos saxofonistas. O pessoal da banda deu um grande apoio e sustentou a mentira para o público lotado. Aí eu criei um personagem - o Dagonzo - e realizei todo ritual do popstar, incluindo afastar os papparazzi e dar autógrafo às fãs. Acho que foi a melhor combinação de texto com "performance".
Por que você acha que o gonzojornalismo é pouco praticado aqui no Brasil? A imprensa brasileira é meio "quadrada" no sentido de inovar nas formas de escrever?
Não só a imprensa, mas toda a cultura brasileira é muito conservadora. Ninguém se arrisca muito.
Você acha que o C.Q.C faz gonzojornalismo?
Acho que não exatamente. O jornalista gonzo se transforma no personagem, desaparece no cenário como uma pessoa "comum" e depois relata o que aconteceu. O pessoal do CQC (e do Pânico) , que eu saiba, nunca deixa de ser um repórter bem caracterizado como tal.
O C.Q.C pode ter dado o pontapé inicial para outros profissionais começarem a praticar mais esse estilo?
Acho que quem deu o pontapé inicial no estilo CQC no Brasil foi o Pânico na TV. Mas não acho que o que eles fazem seja jornalismo gonzo. Ou pelo menos não existe uma definição para um jornalismo gonzo que não seja escrito, com um pé na literatura. Na verdade falta uma denominação do gênero praticado pelo CQC e pelo Pânico.
Como você vê o gonzojornalismo no futuro?
Não vejo muito futuro pelo menos no Brasil. Os jornalistas me parecem cada vez menos ousados e as publicações, cada vez mais parecidas. Mas sempre existem surpresas. Toda minha carreira gonzo até agora aconteceu na maior editora do Brasil, muito longe da imprensa "alternativa".
As sensações são muito diferentes quando você faz uma matéria no estilo convencional e quando faz gonzojornalismo?
Muito! No meu caso, a matéria convencional eu faço com muito menos vontade do que uma matéria gonzo. Nesse caso eu posso dar vazão à minha "bipolaridade" criativa, narrando fatos e criando ficção ao mesmo tempo, na mesma matéria. Mas quero deixar claro meu imenso respeito a quem faz jornalismo "convencional" bem feito. Exige uma outra forma de talento.
Quais são as principais características do gonzojornalismo na sua visão?
Como disse antes, o repórter entra na matéria. Ele deixa de ser um observador da realidade para se tornar parte dessa realidade - e depois descrever a si mesmo. O jornalista gonzo se transforma num personagem, e quanto mais mergulhar nele, melhor vai ser seu trabalho. Outra coisa: nenhum compromisso com a realidade, e ao mesmo tempo todo compromisso com ela. Eu descrevi os fatos no zoo de Bauru como eles aconteceram. Ao mesmo tempo não tive o menor constrangimento em simular uma conversa com o babuíno que ficou preso no recinto durante o tempo que fiquei lá. A arte do gonzojornalismo é fazer com que esse limite entre fato e ficção fique o mais confuso possível.
Hunter Thompson e Tom Wolfe são os pioneiro desse gênero. Quais outros jornalistas também são importantes, na sua opinião, e não possuem têm tanto destaque?
Não conheço outros.
Muito se fala que no jornalismo, não devemos misturar emoção com a notícia. No gonzojornalismo, a emoção transparece propositalmente. Você acha que pode ser essa a principal característica desse estilo? É por isso que dá certo?
Acho que a emoção é parte da fórmula, mas não a razão do seu sucesso. Depende do caso. Você precisa ser coerente com o foco de sua matéria. No caso do Jota Quest e da ilha de Caras, foi o humor. Na matéria do zoológico, foi a emoção de passar o dia numa situação bem desconfortável. No caso da Bruxa de Rio Claro, foi gerar medo contando uma história fictícia com toda a aparência de jornalismo-verdade.
Você acha que o gonzojornalismo mostra a notícia como ela é e não mascara a realidade?
"Mascarar" talvez não seja a palavra certa. Ela recria a realidade. Se mostrar a realidade como ela é, não é gonzojornalismo.
Muitos profissionais criticam o gonzojornalismo por não seguir todos os princípios éticos. Tanto por mostrar a notícia de uma maneira mais escrachada, tanto pelo formato, ela é feita sempre em primeira pessoa e também misturar a emoção com a notícia. O que você tem a dizer sobre essas críticas?
O gonzojornalismo não segue os mesmos princípios éticos do jornalismo convencional. É como exigir que um romance se atenha à realidade. É outro gênero. Por outro lado, muitas dessas críticas partem de jornalistas sem um pingo de imaginação. Muitos deles, por motivos ideológicos, criam peças ficcionais e as vendem como realidade. Isso é não ter ética. O jornalismo gonzo dá uma piscadinha ao leitor do tipo "nem tudo o que você vai ler é verdade". Sua função é fazer pensar, livrar o leitor da previsibilidade. É uma espécie de jornalismo psicodélico. Ele distorce as coisas para que você enxergue o mundo de outro jeito e se enriqueça com a experiência. Criticar o gonzojornalismo nesse sentido é criticar a própria imaginação.