AUTO-ESTIMA
Kelen de Bernardi Pizol *- psicoterapeuta individual e de casais
O conceito que se tem de si mesmo é primordial para se viver bem e ser feliz. A imagem que todos nós formamos de nós mesmos, através de nosso desenvolvimento e de nossa história de vida, nos diz quem nós somos, o que podemos esperar dos outros e de nós, até mesmo o que achamos que merecemos ter e ser. Dependendo de como construímos a matriz de nossa imagem pessoal é que veremos a nós mesmos e aos outros. É através desta lente que veremos o mundo e a partir disso que agiremos. Acontecimentos podem modificar essa imagem, “rachando” a lente original ou tornando-a ainda mais escura.
Quem tem a estima baixa está sujeito a vários problemas psicológicos, tais como depressão ou ansiedade, pois seu modo de ver o mundo e conseqüentemente de se comportar o faz se sentir infeliz ou inseguro e preocupado e o deixa mais propenso a cair nas armadilhas da vida. No campo amoroso, o indivíduo pode, por exemplo, entregar-se a relacionamentos que o machucam ou que não têm a oferecer o que ele quer de fato, por um pouco de atenção. Também pode se tornar ciumento em demasia, por exemplo por acreditar que o ser amado poderá encontrar alguém que considere melhor do que ele. Na vida pessoal ou profissional, a pessoa com baixa estima pode deixar boas oportunidades passarem, por não se achar bom o suficiente para ocupar aquela posição ou lutar por aquilo, por exemplo. Pode deixar de cuidar do seu corpo como cuidava anteriormente e isso torna-se um círculo vicioso que parece a ele não ter saída. O dó de si mesmo é comum em quem tem baixa auto-estima, assim como o medo de não conseguir ou de perder o desejado. A pessoa considera-se vítima das circunstâncias, dos maus relacionamentos, da “falta de sorte”. Patamares elevados de perfeição podem rondar sua fantasia, pondo-se como uma barreira à realização de desejos que se tornam inatingíveis vistos desta ótica. O outro pode ser visto como sempre melhor, mais desejável, mais competente, mais provável de amor do que ele.
Pessoas com um bom conceito de si olham a vida de frente, confiam em si mesmas para conseguir as coisas que almejam e para superar as dificuldades que possam surgir. Quem tem auto-estima positiva sabe que mesmo se tudo der errado, mesmo que os problemas tenham sido o resultado de um ato próprio, ele tem valor e pode investir em si mesmo para que tudo melhore.
A valorização de si mesmo é um processo que se constrói no dia-a-dia e que pode ser ajudado através do auto-conhecimento. Quem se conhece, sabe da riqueza que existe em seu mundo interior, sabe dos recursos de que pode lançar mão nos momentos bons e ruins, confia mais em si mesmo.
Para conhecer-se melhor o indivíduo deve olhar para seu interior, entrar em contato com ele e questioná-lo. Um modo de conhecer melhor a si mesmo, ter mais consciência de si e de seu mundo interior é fazer psicoterapia ou participar de grupo de vivência direcionado especialmente a este fim. O grupo de vivência objetiva este contato consigo mesmo e com a riqueza que se carrega. Um questionamento e redimensionamento do viver pode ser feito na psicoterapia.
Auto-conhecimento
A Importância do Auto-conhecimento
Por que se conhecer ? Esta é uma pergunta que só você poderá responder. E este é um dos próprios motivos que me leva a olhar constantemente para dentro. É olhando para o nosso interior, examinando e transcendendo nossos padrões herdados de nossos pais, de nossos familiares e da própria cultura e sociedade que poderemos encontrar um sentido em nossas vidas, uma resposta para a pergunta que todos nós temos em nossa mente: "Para que estamos vivos ?"
O auto-conhecimento nos leva a uma profunda viagem ao nosso interior, fazendo nos compreender por que reagimos a uma determinada situação, tornando-nos capazes de fazer uma escolha mais consciente, que consequentemente nos levará há uma satisfação e sentido de vida cada vez mais significativo.
Desde a mais tenra infância, fomos criando "couraças" para proteger nossa verdadeira essência. Fomos adquirindo padrões sócio-culturais que quando são rígidos e inflexíveis bloqueiam nosso processo de desenvolvimento. Vamos "levando" a vida, escutando apenas o que os outros, a sociedade e os nossos padrões nos dizem para fazer, muitas vezes, não dando ouvidos à nossa própria voz que vem do nosso coração, do nosso interior.
Muitos nem sequer tem consciência dessa voz interior, outros tentam silenciá-la a qualquer custo. Estão ainda iludidos pelas pressões, determinações e medos impostos pela sociedade e pelo próprio ego: "Mas o que vão pensar de mim se eu fizer isto ?"
Certas pessoas têm medo do que pode vir a acontecer, mas esquecem que a vida está presente no agora. E é no agora que o coração clama para que o sigamos, para que confiemos nele, pois é ali que está a verdadeira evolução e o verdadeiro aprendizado, junto com a verdadeira satisfação.
Assim, o auto-conhecimento nos leva ao des-envolvimento de nossa Consciência, transcendendo as "couraças" e indo em direção da nossa verdadeira essência de Amor.
Autor: Saulo Fong - Instituto União - http://www.institutouniao.com.br
Auto-Conhecimento
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“Consciência ou Auto-Conhecimento” é um termo reconhecidamente difícil de definir e vem sendo discutido há muito tempo. Popularmente, ele é substituído facilmente por “mente”, palavra dita com segurança pelas pessoas, como se a mente fosse um órgão...mental (!) O que nos difere do animal é justamente poder ampliar o “Auto-Conhecimento”, ou seja , a nossa consciência de quem somos, os valores, o que sentimos, o que vibramos, etc. A busca de Auto-Conhecimento vem acompanhando a história da humanidade. Na Grécia Antiga, existiam vários oráculos, entre eles o oráculo de Delfos que dizia: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo”. No Oriente, já foram descobertos vários estudos profundos, catalogados há 5 mil anos A.C. Índia, China, Tibete e toda região próxima já estudavam profundamente o que é esta vida, quem somos, etc. Quanto maior o Auto-Conhecimento, maior a possibilidade de escolhas, de livre-arbítrio. Saímos da condição de vítima da vida e passamos a ter total autoria do viver. Quando temos a possibilidade da escolha, podemos chegar ao caminho da realização através do amor, alegria, compreensão, perdão,etc.
Qual a percepção que temos desta vida? Como vemos, as perguntas são infinitas e as respostas diferem muito. As Terapias de Auto-Conhecimento surgem com o intuito de ampliar a percepção da vida trazendo uma melhor qualidade as nossas relações, possibilitando viver de uma forma mais autêntica e saudável. As respostas podem ser encontradas de 4 maneiras: através do corpo físico, do emocional, do mental e do espiritual. Acreditamos que a integração destes corpos possibilita o caminho mais intenso de cura. Com o intuito de integrar esses princípios e experiências fundamentais surge a Terapia Holística. A palavra Holístico vem de “Holos” que significa “Todo”. Temos, então, a Terapia Holística, que busca integrar o Todo no Ser Humano. O Auto-Conhecimento nos propicia a retirada dos véus (personagens, máscaras) que criamos no cotidiano de nossas vidas, possibilitando o encontro real com a nossa verdadeira essência. “ A verdadeira viagem do ser humano consiste não em buscar novas paisagens, mas sim em ver com olhos novos” - Marcel Proust |
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Devem existir umas cinqüenta maneiras de propor tarefas para os seus alunos. Desde 1995, os professores estão adaptando o modelo WebQuest às suas necessidades e circunstâncias. Da sabedoria e experiência coletiva dos mestres, nasceram diversos formatos comuns de WebQuests. Esta taxonomia descreve esses formatos e sugere algumas formas de otimizar o uso deles. Ela fornece uma linguagem para discutir tarefas de WebQuests que pode melhorar nossa capacidade de planejar bem tais tarefas. É bastante provável que uma dada tarefa de WebQuest possa combinar duas ou mais categorias aqui apresentadas. As categorias que seguem não estão organizadas em qualquer ordem particular. As tarefas de recontar (contar com as próprias palavras) são as primeiras por causa de sua simplicidade e por constituirem o limite mínimo de uma boa WebQuest. Com onze outros tipos para escolher, vocês provavelmente irão querer ir além do mero recontar. Tarefas de Recontar Definições Algumas vezes vocês irão pedir aos alunos para que estes absorvam alguma informação e depois demonstrem que a entenderam. As pesquisas indicam que essas atividades arroz-com-feijão não representam grande ganho em termos educacionais, mas podem ser uma introdução fácil ao uso da Web como uma fonte de informação. Os alunos podem relatar o que aprenderam por meio de apresentações com PowerPoint ou HyperStudio, posters, ou relatórios curtos. Essas são as WebQuests mais encontradas e menos desafiadoras (ou interessantes), mas elas podem atender determinados propósitos. Vejam alguns desses exemplos:
Will That Volcano Spoil Our Party Dicas
Atividades voltadas pra o recontar são, de fato, WebQuests? O problema aqui não é uma questão de branco ou preto. A resposta depende do grau de transformação que se requer dos alunos. Se a tarefa requer procura por respostas simples e inequívocas para questões pré-determinadas, a atividade claramente não será uma Webquest mesmo que as respostas tenham sido encontradas na Web. Material com essas características são apenas folhas de trabalho com URL's.
O formato e escrito de seu produto é significativamente diferente daquilo que os alunos leram (i.e., o trabalho dos alunos não se resume a cortar e colar textos); Tarefas de Compilação Definições Uma tarefa simples para os alunos é a de retirar informações de diversas fontes e colocar tais informações dentro de um mesmo formato. A compilação resultante pode ser publicada na Web, ou pode ser um produto tangível não digital. Vejamos alguns exemplos:
um livro de receitas, compilado desde receitas solicitadas de parentes como em th your Three Sisters; Idealmente, uma tarefa de compilação familiariza os alunos com um corpo de conteúdos e dá aos estudantes a oportunidade de prática ao requerer escolhas seletivas e explicações, assim como organização, divisão em pequenos segmentos (chucking), e paráfrases sobre informações diversificadas oriundas de diferentes fontes. Dicas
Para que uma tarefa de compilação possa ser uma verdadeira WebQuest é necessário que haja alguma transformação das informações compiladas. Elaborar simplesmente uma hotlist de websites ou juntar de modo arbitrário algumas imagens coletadas no espaço web não é suficiente.
use recursos informacionais que estão em diferentes formatos, e precisam ser reescritos ou reformatados na criação da compilação; Tarefas de Mistério Definições Todo mundo gosta de mistérios. Algumas vezes, um bom modo de conquistar os alunos num tópico é o de colocar o conteúdo na forma de um desafio ou história policial. Isso funciona bem na escola fundamental, mas pode também ser utilizado em todos os outros níveis de ensino. A WebQuest Aztec Adventure, por exemplo, começa com um embrulho misterioso que é deixado em sua porta. No fim da seqüência de busca de informações, sua tarefa é a de explicar o significado do embrulho e de como ele retrata a essência da civilização asteca. Um outro exemplo é King Tutankhamun: Was It Murder?, WebQuest na qual os alunos examinam as mesmas evidências que são discutidas pelos especialistas em história egípcia. Cuidado com as fronteiras entre WebQuests e Caças ao Tesouro Flower Mystery, por exemplo, envolve o preenchimento de um formulário para nomear partes de uma flor. Não há nenhuma tarefa final que requeira síntese. O material é um atividade engajadora, mas não é uma WebQuest. Dicas Uma tarefa de mistério bem concebida requer a síntese de informações provindas de uma variedade de fontes. Não basta criar um quebra-cabeças que pode ser resolvido simplesmente pelo achado de uma página Web que contenha a resposta. Em vez disso, conceba um mistério que exija das pessoas:
absorver informações de múltiplas fontes; Se há carreiras, relacionadas com seu tópico, que envolvem quebra-cabeças genuínos (como aquilo que historiadores, arqueólogos e outros cientistas fazem), construa o mistério em torno das profissões em jogo e o faz-de-conta será minimizado. Tarefas Jornalísticas Definições Há algum evento específico que tenha grande relação com aquilo que seus alunos devem aprender? Uma maneira de desenhar uma WebQuest, nesse caso, é pedir a seus alunos para agirem como repórteres cobrindo o evento. A tarefa envolve reunir fatos e organizá-los de forma similar aos gêneros jornalísticos de apresentação das notícias. Ao avaliar resultados, o importante, nesse tipo de tarefa, é a fidelidade aos acontecimentos, não a criatividade. Vietnam Memorial , por exemplo, coloca os estudantes no centro da controvérsia a respeito da concepção do monumento e do mérito da própria guerra. Mexico City EarthQuake coloca os alunos lendo relatórios originais do terremoto e criando um programa simulado de notícias para tornar público o desastre. The Gilded Age guia os alunos para a criação de um documentário. Dicas
Algumas pessoas chegam à vida adulta antes de perceberem que há um potencial para vieses em todas as notícias, que todos nós temos filtros que afetam como vemos as coisas e como escolhemos o que olhar.
maximizar a exatidão utilizando múltiplas fontes sobre o evento; Para planejar este tipo de lição, você precisa fornecer os recursos necessários e estabelecer a importância da imparcialidade e da exatidão no produto jornalístico. Tarefas de Planejamento Definições De acordo com o dicionário Webster, planejamento "é um plano ou protocolo para executar ou realizar alguma coisa". Uma WebQuest voltada para tarefa de planejamento requer dos alunos a criação de um produto ou plano que atinja uma meta pré-determinada e funcione dentro de certos limites. Em Design a Canadian Vacation, os alunos criam um itinerário que corresponde aos interesses de uma certa família. Em Future Quest, os alunos pesquisam possibilidades de carreiras e fazem recomendações para quatro estudantes fictícios de nível médio. Designing a Home leva os alunos a escolherem o melhor plano para o piso e os guia na seleção dos melhores materiais para terminar a sua casa. Em Adventure Trip Quest, os alunos planejam uma excursão para um local onde ocorreu um desastre natural. Dicas
O elemento chave numa tarefa de planejamento são os limites ou restrições. Pedir aos alunos para planejar um X ideal, sem também requerer que trabalhem dentro de um certo orçamento, de uma moldura legal e outras restrições, não é algo muito instrutivo. Na verdade uma tarefa de planejamento sem restrições ou limites ensina uma atitude de que tudo corre bem, situação que não se casa com o mundo real.
descreve um produto que é genuinamente necessário em algum lugar e para alguém; Tarefas de Produtos Criativos Definições Os alunos podem aprender o conteúdo que você pretende ensinar reapresentando-o na forma de um poema, de um conto, de uma pintura? Assim como engenheiros e designers, os artistas trabalham dentro de certos limites próprios. Tarefas de produtos criativos levam à produção de um certo formato (pintura, peça de teatro -drama ou comédia, diário simulado, poster, jogo, canção etc.), mas são muito mais abertas e imprevisíveis que tarefas de planejamento. Os critérios de avaliação para as tarefas em foco devem enfatizar a criatividade e auto-expressão, assim como traços específicos para cada gênero escolhido. Art WebQuest, por exemplo, pede para os alunos entrarem na cabeça de um dado artista e criarem uma pintura da mesma forma que o artista escolhido o faria. Radio Days requer o script e a performance de um teatro radiofônico, complementado com efeitos sonoros e propaganda. Sworn to Serve requer a criação de um portfólio historicamente plausível para uma família fictícia do período feudal. Dicas Assim como em tarefas de planejamento, restrições e limites são elementos chaves aqui. Limites e restrições irão variar de acordo com o produto criativo e tópico de trabalho. Limites e restrições podem incluir coisas que requeiram:
exatidão histórica;
Tarefas de Construção de Concenso Definições Alguns tópicos são controversos. As pessoas discordam por causa de diferenças entre os seus sistemas de valores, por causa daquilo que elas aceitam como factualmente correto, por causa daquilo a que foram expostas, por causa da natureza de sua metas mais importantes. Neste mundo imperfeito, é útil expor futuros adultos (ou mesmo adultos já criados) a algumas situações que lhes darão certa prática no encaminhamento de diferenças. Tarefas de construção de consenso visam a isso. A essência de tais tarefas é a exigência de articular, considerar e acomodar diferentes pontos de vista onde for possível. Para o bem ou para o mal, os eventos atuais da história corrente oferecem muitas oportunidades para a prática. Vietnam Mural revela diferenças de opinião a respeito da guerra na medida em que se discute se um mural deve ou não ser pintado. Compare essa WebQuest com Vietnam Memorial , descrita anteriormente e que é tratada mais como uma tarefa jornalística. Na WebQuest de Tom March, Searching for China, diferentes perspectivas devem ser debatidas e sintetizadas numa recomendação política consensuada. Dicas Uma tarefa de construção de consenso bem planejada irá:
envolver os aprendizes na consideração de diferentes perspectivas a partir do estudo de diferentes conjuntos de recursos; Tarefas de Persuasão Definições
Há pessoas no mundo que não concordam com você. Estão erradas, é claro. Por isso é util desenvolver habilidades de persuasão. Uma tarefa de persuasão vai além de um simples recontar, requerendo dos alunos o desenvolvimento de um caso convincente baseado naquilo que eles aprenderam. Tarefas de persuasão podem incluir uma apresentação para uma câmara de veradores ficcional, ou num juri também ficcional, uma carta, um editorial, um press-release, a produção de um poster ou de uma peça de propaganda em VT destinada a passar uma opinião. Dicas
Tarefas de persuasão são muitas vezes combinadas com tarefas de construção de consenso. A diferença chave é a de que as tarefas de persuasão trabalham para convencer um audiência externa sobre um certo ponto de vista, enquanto a persuasão e acomodação ocorre internamente em tarefas de construção de consenso. identificar uma audiência plausível, cujos pontos de vista são diferentes ou pelo menos neutros ou indiferentes, para a mensagem. Tarefas de Auto-conhecimento Definições Algumas vezes a meta de uma WebQuest pode ser um maior entendimento de si próprio, um entendimento que pode ser desenvolvido por meio de uma exploração apoiada em recursos on e off line. Há poucos exemplos desse tipo de tarefa, talvez porque o auto-conhecimento não é algo muito presente nos currículos escolares. Um exemplo excelente da tarefa em foco pode ser encontrado What Will I Be When I Get Big? que conduz os alunos através de uma progressão de recursos web na medida em que eles analisam suas metas e capacidades, e desenvolvem um plano de carreira. Dicas Uma tarefa de auto-conhecimento bem desenvolvida irá levar os alunos a responderem questões sobre eles mesmos, no formato de respostas curtas. Tarefas desse tipo podem ser desenvolvidas em torno de:
metas de longo prazo; Tarefas Análitica Definições Um aspecto do entendimento é o conhecimento de como as coisas se articulam, e de como as coisas dentro de um tópico se relacionam umas com as outras. Uma tarefa analítica oferece um espaço para o desenvolvimento de tal conhecimento. Em tarefas analíticas, os alunos são desafiados a olhar mais claramente as coisas, e a encontrar semelhanças e diferenças. Podem ser desafiados a identificar relações de causa e efeito entre variáveis, e a discutir o significado de tais relações. Exemplos: Japanese Internment Camps Part 2 Dicas Uma tarefa analítica bem feita vai além da simples análise das implicações do que foi encontrado. Embora, por exemplo, criar um diagrama Venn para comparar a Itália com a Inglaterra seja algo respeitável, uma tarefa mais exigente deve incluir exigências para se especular e inferir o que significam as diferenças e semelhanças entre as duas nações. Tarefas de Julgamento Definições Avaliar algo requer um nível de entendimento deste algo, assim como entendimento de algum sistema para julgar as coisas de modo adequado. Tarefas de julgamento apresentam certo número de itens para os alunos e pede-lhes para ranquear os tais itens, ou tomar uma decisão bem informada desde um número limitado de escolhas. Um exemplo conhecido deste tipo de tarefa é a conhecida The WebQuest about WebQuests. Os critérios de avaliação proposta são curtos e genéricos, uma vez que o exercício pretende oferecer uma introdução ao conceito e temas decorrentes. Um exemplo mais elaborado é Evaluating Math Games. Nessa WebQuest, os alunos desempenham um dos diversos papéis para chegarem às suas recomendações. Dicas
É comum, embora não seja mandatório que os alunos desempenhem certo papel quando trabalham com uma tarefa de julgamento. Excelentes WebQuests desse tipo foram desenvolvidas como juris simulados. Veja Amistad WebQuest e Rain Forest Project , exemplos muito bons nesse sentido.
incluir uma rubrica ou outro conjunto de critérios para se fazer o julgamento; ou Tarefas Científicas Definições O método científico está por trás da tecnologia que leva à leitura dessas palavras. A ciência permeia nossa sociedade e é importante que nossas crianças (ou qualquer cidadão adulto) entenda como a ciência funciona, mesmo que elas não vistam um avental branco e usem uma prancheta de mão. O espaço Web traz história e atualidades para nossas casas, e alguns dos dados que nos chegam podem oferecer oportunidade para a prática de ciência de verdade. Os projetos KanCRN Collaborative Research Network Journey North são projetos desse tipo de atividade, embora não estejam formatados estritamente como WebQuests. Mesmo com crianças pequenas, um professor criativo pode construir uma lição em torno do uso de WebCams , levando as crianças a observarem e contarem eventos específicos. Dicas
Lighthouse Diamond Thief WebQuest é um exemplo de tarefa científica misturada com um mistério.
elaboração de hipóteses baseadas num entendimento da informação de fundo fornecida por fontes on ou off-line; A chave para se criar uma WebQuest de sucesso deste tipo é encontrar questões que possam ser abordadas por dados disponíveis online, suficientemente simples para integrarem currículos escolares, relativamente desconhecidos para não ficarem numa simples manipulaçao de números. Bernie Dodge, 1999. Last updated August 11, 1999. |
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Bases para uma educação inovadora
Uma educação inovadora se apóia em um conjunto de propostas com alguns grandes eixos que lhe servem de guia e de base. As tecnologias favorecem mudanças, mas os eixos são como diretrizes fundamentais para construir solidamente os alicerces dessas mudanças.
As bases ou eixos principais de uma educação inovadora são:
· · o conhecimento integrador e inovador,
· · o desenvolvimento da auto-estima/auto-conhecimento,
· · a formação do aluno-empreendedor
· · a construção do aluno-cidadão
São pilares que, com o apoio das tecnologias, poderão tornar o processo de ensino-aprendizagem muito mais flexível, integrado, empreendedor e inovador. Vejamos como entender estes eixos fundamentais.
1. A primeira base da mudança é o foco no conhecimento integrador e inovador
“Sempre há o que aprender, ouvindo, vivendo e sobretudo, trabalhando, mas só aprende quem se dispõe a rever as suas certezas.” Darcy Ribeiro
Conhecer na incerteza
A educação é um processo onde reunimos o maior número de certezas para lidar com as incertezas. Tentamos falar sobre algo – o conhecimento – que compreendemos parcialmente e só podemos fazê-lo, de forma precária, humilde e compartilhada. O conhecimento é nosso foco, nossa matéria prima e, ao mesmo tempo, nosso problema. Somos especialistas na precariedade de conhecer. Somos especialistas em algo que não dominamos plenamente. Nossa matéria prima, nossa finalidade se nos escapa e, ao mesmo tempo, somos os especialistas responsáveis por fazer a integração, a compreensão parcial, seu desvendamento provisório, aos poucos.
“A educação deve mostrar que não há conhecimento que não esteja, em algum grau, ameaçado O conhecimento é causa de erros e ilusões. Devemos destacar, em qualquer sistema educacional, as grandes interrogações sobre nossas possibilidades de conhecer. O conhecimento permanece como uma aventura para a qual a educação deve fornecer o apoio indispensável”[1][1].
Conhecemos tudo menos o principal: de onde viemos; o sentido profundo do que fazemos e para onde nos encaminhamos. A informação é o primeiro passo para conhecer. Conhecer é relacionar, integrar, contextualizar, incorporar o que vem de fora. Conhecer é saber, desvendar, é ir além da superfície, do previsível, da exterioridade. Conhecer é aprofundar os níveis de descoberta, é penetrar mais fundo nas coisas, na realidade, no nosso interior. Conhecer é tentar chegar ao nível da sabedoria, da integração total, da percepção da grande síntese, que se consegue ao comunicar-se com uma nova visão do mundo, das pessoas e com o mergulho profundo no nosso eu. O conhecimento se dá no processo rico de interação externo e interno.
“O ser humano é complexo e trás em si, de modo bipolarizado, caracteres antagônicos: sapiens e demens (sábio e louco); faber e ludens (trabalhador e lúdico); empiricus e imaginarius (empírico e imaginário), economicus e consumans (econômico e consumista); prosaicus e poeticus (prosaico e poético)”.
“O ser humano é a um só tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social, histórico. Esta unidade complexa da natureza humana é totalmente desintegrada na educação por meio das disciplinas, tendo-se tornado impossível aprender o que significa ser humano. É preciso que cada um, onde quer que se encontre, tome conhecimento e consciência de sua identidade complexa e de sua identidade comum a todos os outros humanos.
A condição humana deveria ser o objeto essencial de todo o ensino. Conhecer o humano é, antes de mais nada, situá-lo no universo, e não separá-lo dele. Todo conhecimento deve contextualizar seu objeto, para ser pertinente. “Quem somos?” é inseparável de “Onde estamos”, “De onde viemos” e, “Para onde vamos?” (MORIN, cap.III)
Na descoberta dos caminhos para viver passamos por etapas de deslumbramento, de desânimo, de escuridão, de realização, de paz, de inquietação. Em cada etapa o horizonte se modifica: ora vemos o arco-íris na nossa frente ora montanhas intransponíveis.
Caminhar na vida nos ensina também a relativizar quase tudo: teorias, promessas, perspectivas, crenças. Vamos mudando: o que nos servia numa etapa não nos ajuda mais; Idéias que pareciam superadas, de repente voltam a fazer sentido. Essa é uma das grandes lições da vida: sabemos que sabemos pouco.
É mais o que se nos escapa do que o que conhecemos. O tempo nos ensina a humildade. No começo pensamos ter explicações para tudo, saber as razões dos nossos pensamentos e ações. Aos poucos, constatamos a complexidade de variáveis que se escondem atrás de cada pessoa, de cada interação, de cada decisão. Descobrimos que há um universo invisível e atuante junto com o visível, mas até onde se estende o invisível é um mistério. Quem sabe explicar o universo? Quem sabe dar conta da complexa interação de energias que circulam dentro e em torno de nós? Quem tem certeza das explicações fundamentais para a nossa vida?. O essencial se nos escapa. Conhecemos muito da superfície das coisas e pouco da profundidade, do que realmente fundamenta tudo.
O contato com pessoas tão diferentes com as quais interagimos, nos vai mostrando mil formas de perceber, de sentir, de pensar, de agir, de interagir. Encontramos pessoas que parecem captar dimensões mais ricas da realidade, por meios diferentes dos convencionais. Deixando de lado os que trapaceiam, vemos pessoas que são sensíveis, honestas, que têm certos poderes de percepção ou de cura, fora dos padrões convencionais. Esses poderes, se de um lado lhes conferem superioridade em determinados momentos, também lhes trazem inúmeros problemas pessoais como dificuldade em gerenciamento emocional, propensão a crises emocionais. Há mais saberes que os reconhecidos, assim como há uma amálgama de explicações irreais, míticas, que dificultam a compreensão da realidade.
Estamos numa etapa de ampliação do conhecimento do universo em todas as dimensões, científica, psicológica e também no que chamamos “espiritual”. A humanidade vem tentando entender e organizar o sagrado. As religiões procuram dar visibilidade a toda uma série de buscas pessoas e coletivas da humanidade. Mas o sagrado ultrapassa essas formalizações. Há muito mais e, ao mesmo tempo, não conseguimos ainda explicitá-lo claramente.
As pessoas constroem e possuem um grau de conhecimento maior ou menor. O conhecimento é propriedade intelectual que se compartilha livremente ou não. Há um compartilhamento aberto na escola, nas bibliotecas, no acesso livre em páginas da WEB sem senhas. Ao mesmo tempo há um compartilhamento que é um bem econômico, que é pago: a escola lucra com a venda de conhecimento e repassa uma parte dos ganhos para o professor, como em qualquer atividade econômica. O conhecimento, fora da escola, se compartilha livremente nos grupos de discussão, nos blogs, em páginas abertas WEB e, simultaneamente, é comercializado como um bem. Consultores e professores alugam seu tempo, cobrando pelo seu trabalho. Capital intelectual é isso: conhecimento pessoal que se comercializa. Estamos sim na era do conhecimento, que se move segundo as leis do sistema econômico vigente, o capitalismo financeiro.
Com todas essas ressalvas e dificuldades sobre a complexidade do conhecimento, dos professores se espera que sejam especialistas nele. Só que o conhecimento se constrói no processo, não se transmite simplesmente. Como diz Paulo Freire: “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou sua construção”.[2][2] E o ensinar é um caminho também de aprendizagem. “Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”[3][3].
Sobre o ensinar é uma área onde, ao menos teoricamente, temos avançado bastante. Aos poucos vamos deslocando o foco no ensinar para o aprender; do professor não é mais o centro, mas o aluno. Temos hoje muitos projetos, propostas, experiências também sobre novas formas de aprender. Com as tecnologias podemos flexibilizar esse currículo e ampliar os espaços de aprendizagem e as formas de fazê-lo.
Os principais obstáculos para a aprendizagem inovadora são: O currículo engessado, a formação deficiente de professores e alunos, a cultura da aula tradicional que leva os professores a privilegiarem o ensino, a informação, o monopólio da fala . Também são obstáculos: o excessivo número de alunos, de turmas, de matérias que muitos professores assumem e a obsessão pela preparação para o vestibular das melhores universidades, o que concentra a atenção no conteúdo provável desse exame e não na formação integral do adolescente.
O conhecimento não estruturado e o organizado
O conhecimento é mais pleno quando combina dois processos complementares: o divergente (menos organizado) e o convergente (o organizado).
O conhecimento não-estruturado explora todas as possibilidades, na busca do novo. Precisa, para acontecer, expressar uma atitude de não julgamento imediato, de deixar fluir, de observar, de interagir.
Os fatores principais do pensamento divergente são:
- flexibilidade: relacionar idéias de categorias diferentes
- fluência: desenvolver idéias em quantidade
- originalidade: pensar idéias diferentes.
O conhecimento organizado ou convergente acontece numa segunda etapa. Depois da explosão criativa, onde há idéias em quantidade e algumas delas contraditórias, é necessário sistematizá-las, organizá-las, dar-lhes uma estrutura, mas com flexibilidade.
No conhecimento integrado há uma combinação:
- de previsibilidade e de imprevisibilidade
- de segurança (programa) e incerteza (risco, novas buscas)
- de criatividade e organização
- do individual e do social.
A evolução se dá na alternância equilibrada entre o pensamento divergente e o convergente. Em buscar, pesquisar sem medos, críticas e, depois, organizar, estruturar, julgar, escolher, filtrar. Na interação entre o divergente e o convergente encontraremos os melhores caminhos para a nossa evolução.
As habilidades cognitivas ligam-se à descoberta, reconhecimento ou compreensão da informação (fenômenos concretos, fatos, idéias, sentimentos). É a habilidade básica, necessária para as outras operações. As habilidades mnemônicas são as envolvidas na retenção, estocagem ou lembrança da informação.
O pensamento divergente e convergente nos ajuda a explicar uma parte significativa das interações sociais e dos caminhos individuais e sociais. Pelo conhecimento divergente, buscamos novas informações, novos dados, situações. Pelo conhecimento convergente, estruturamos esses novos dados, os integramos em um código, os organizamos dentro de um conjunto.
O pensamento divergente é baseado na tensão, na busca, na incerteza, na oposição. No pensamento divergente há luta de opostos, há ruptura, choque, dialética, contradição.
No pensamento convergente procuramos a integração, a estruturação, a organização, o balanceamento, o equilíbrio, a superação do passado, aproveitando os pontos positivos.
Do ponto de vista metodológico o professor precisa aprender a equilibrar processos de organização e de “provocação” na sala de aula. Uma das dimensões fundamentais do educar é ajudar a encontrar uma lógica dentro do caos de informações que temos, organizar numa síntese coerente (mesmo que momentânea) das informações dentro de uma área de conhecimento. Compreender é organizar, sistematizar, comparar, avaliar, contextualizar. Uma segunda dimensão pedagógica procura questionar essa compreensão, criar uma tensão para superá-la, para modificá-la, para avançar para novas sínteses, novos momentos e formas de compreensão. Para isso o professor precisa questionar, tensionar, provocar o nível da compreensão existente.
Predomina a organização no planejamento didático quando o professor trabalha com esquemas, aulas expositivas, apostilas, avaliação tradicional. O professor que dá tudo mastigado para o aluno, de um lado facilita a compreensão; mas, por outro, transfere para o aluno, como um pacote pronto, o nível de conhecimento de mundo que ele tem.
Predomina a “desorganização” no planejamento didático quando o professor trabalha encima de experiências, projetos, novos olhares de terceiros: artistas, escritores...
Em qualquer área de conhecimento podemos transitar entre a organização da aprendizagem e a busca de novos desafios, sínteses. Há atividades que facilitam a organização e outras a superação. O relato de experiências diferentes das do grupo, uma entrevista polêmica podem desencadear novas questões, expectativas, desejos. Mas também há relatos de experiências ou entrevistas que servem para confirmar nossas idéias, nossas sínteses, para reforçar o que já conhecemos.
Por exemplo, na utilização do vídeo na escola, vejo dois momentos ou focos que podem alternar-se e combinar-se equilibradamente:
1) 1) Quando o vídeo provoca, sacode, provoca inquietação e serve como abertura para um tema, como uma sacudida para a nossa inércia. Ele age como tensionador, na busca de novos posicionamentos, olhares, sentimentos, idéias e valores. O contato de professores e alunos com bons filmes, poesias, contos, romances, histórias, pinturas alimenta o questionamento de pontos de vista formados, abre novas perspectivas de interpretação, de olhar, de perceber, sentir e de avaliar com mais profundidade.
2) 2) Quando o vídeo serve para confirmar uma teoria, uma síntese, um olhar específico com o qual já estamos trabalhando. É o vídeo que ilustra, amplia, exemplifica.
O vídeo e as outras tecnologias tanto podem ser utilizados para organizar como para desorganizar o conhecimento. Depende de como e quando os utilizamos.
Há professores que privilegiam a desorganização, o questionamento, a superação de modelos e não chegam a sínteses, nem que sejam parciais, provisórias. Vivem no incessante fervilhar de provocações, questionamentos, novos olhares.
Nem o sistematizador nem o questionador podem prevalecer no conjunto. É importante equilibrar organização e inovação; sistematização e superação.
Educar um processo dialético, quando bem realizado, mas que, em muitas situações concretas, se vê diluído pelo peso da organização, da massificação, da burocratização, da “rotinização”, que freia o impulso questionador, superador, inovador.
O conhecimento racional e o intuitivo
Os caminhos para o conhecimento através do sensorial se cruzam com os da intuição. O caminho intuitivo é o da descoberta, das conexões inesperadas, das junções, das superposições, da navegação não linear, da capacidade de maravilhar-se, do aprofundamento do conhecimento psíquico, de formas de comunicação menos conscientes.
A intuição é o resultado de uma síntese de todos os processos inclusive os racionais, que consegue ultrapassar os limites do previsível, do já aceito de antemão e captar novas dimensões, muitas vezes, só semi-percebidas, que podem re-orientar a nossa vida, começar um novo caminho de pesquisa teórica ou de mudanças imprevistas. A intuição é um caminho fundamental para o conhecimento integrado, um conhecimento por conexões rápidas, por processos de generalização a partir de poucas situações prévias.
A intuição não é cega nem irracional. Consegue-se com a abertura do nosso ser, da nossa mente para perceber, sentir, ver de uma forma mais aberta, mais livre, menos preconceituosa. A intuição é um processo de conhecimento que, assim como o racional, aperfeiçoa-se com a prática, com o apoio às condições positivas de abertura prestando atenção a todos os sentidos exteriores e interiores do indivíduo.
A intuição não se opõe à razão, mas não segue exatamente os mesmos caminhos. A intuição está ligada à capacidade de relacionar mais livremente os dados, de associar temas de forma inesperada, de aprender pela descoberta. Para o conhecimento racional precisamos concentrar-nos no tema que estamos estudando. Para o desenvolvimento do conhecimento intuitivo precisamos relaxar internamente, dialogar conosco, decodificar a linguagem do silêncio, entrar em ambientes tranqüilos, sem depender continuamente de ambientes sonoros externos acelerados, como os do rádio, da televisão (usados muitas vezes como pseudo-companhia, como fuga de si mesmo). O relaxamento é uma das condições do conhecimento em profundidade. Relaxar não é só uma atitude física corporal, mas uma atitude permanente, profunda de encarar a vida com tranqüilidade, com paz. O relaxamento facilita a aprendizagem, desenvolve a intuição, a capacidade de relacionar, de ter novos insights.
A pedagogia da incerteza
O educador, além de conhecer uma área específica onde é especialista, procura ajudar o aluno a compreendê-la e a situar esse pedaço, essa área, dentro do processo e contexto maiores, que são os do compreender o todo. Além de conhecer, ele precisa aprender a ensinar, isto é, a organizar ações que facilitem a aprendizagem do aluno, a ampliação do conhecimento deste tanto na área específica como no todo.
A pedagogia da incerteza é feita com um mínimo de certezas. Quando damos tudo pronto, como algo certo, contribuímos para falsear a relação dos alunos com o conhecimento. Quando escrevemos todo com clareza e objetividade, mascaramos o processo, que é penoso, ambíguo e incerto. Por isso, na pedagogia, não podemos facilitar só o que é certo, mas criar situações der desafio, de validar várias opções. Quando focamos mais a certeza do que a incerteza não preparamos os alunos para a vida. Uma parte do que falamos e trabalhamos na relação pedagógica está consolidado. Sobre certos temas possuímos, dentro de determinados contextos, um sólido conhecimento. Mas não podemos esquecer do contexto maior onde esses temas se situam; o contexto ou cenário maior não são exatos nem previsíveis. Precisamos trabalhar, na pedagogia, entre a certeza e a incerteza, entre a organização e a desorganização, focando em momentos uma ou outra, mas não permanecendo unicamente na lógica da certeza nem no caos e na desordem.
Se forçamos a incerteza e construímos o conhecimento em processo, não podemos manter o ensino focado em conhecimentos prontos, estáveis, acabados. Não podemos exigir provas de resposta certa, na maior parte das situações de avaliação, principalmente na área de humanas.
As tecnologias nos ajudam nesta construção, facilitando a pesquisa, a interação e, principalmente, a personalização do processo. Pela pesquisa, aceleramos o acesso ao que de melhor acontece perto e longe de nós. Pela interação aprendemos com a experiência dos outros. Com a personalização, adaptamos o processo de aprendizagem ao ritmo possível de cada aluno, às condições reais de cada um, às motivações concretas.
As tecnologias são cada vez mais multimídia, multi-sensoriais. As gerações atuais precisam mais do que antes do toque, da muleta audiovisual, do andaime sensorial. É um pondo de partida, uma condição de identificação, de sintonização para evoluir, aprofundar. O problema é que muitos, durante a vida toda, não ultrapassam a necessidade do apoio sensorial e permanecem nas dimensões mais aparentes da informação e do conhecimento. Permanecem na periferia das possibilidades do conhecimento. Permanecem num conhecimento “amarrado”, que não voa, porque sempre precisa dos andaimes das sensações, das imagens, da mediação sensorial. Este é um dos problemas do homem atual: cada vez depende mais das mediações sensoriais. Sem elas não consegue voar; com elas, se agita muito, mas pode não evoluir tanto quanto as aparências prometem.
2. A segunda base da mudança é o foco no desenvolvimento da auto-estima
"Os alunos só terão sucesso na escola, no trabalho e na vida social se tiverem auto-confiança e auto-estima. A escola de hoje não trabalha isso", afirma Wong ao sugerir que as instituições de ensino criem cursos de psicologia comportamental em que os alunos possam aprender mais sobre si mesmos. Segundo ele, a auto-confiança só se adquire por meio de auto-conhecimento[4][4].
A educação, como as outras instituições, se baseia na desconfiança, no medo a sermos enganados pelos alunos, na cultura da defesa, da coerção externa. O desenvolvimento da auto-estima é um grande tema transversal. É um eixo fundamental da proposta pedagógica de qualquer curso. Este é um campo muito pouco explorado, apesar de que todos concordamos que é importante. Aprendemos mais e melhor se o fazemos num clima de confiança, de incentivo, de apoio, de auto-conhecimento. Se estabelecemos relações cordiais, de acolhimento para com os alunos, se nos mostramos pessoas abertas, afetivas, carinhosas, tolerantes e flexíveis, dentro de padrões e limites conhecidos. “Se as pessoas são aceitas e consideradas, tendem a desenvolver uma atitude de mais consideração em relação a si mesmas”[5][5].
Temos baseado a educação mais no controle do que no afeto, no autoritarismo do que na colaboração. “Talvez o significado mais marcante de nosso trabalho e de maior alcance futuro seja simplesmente nosso modo de ser e agir enquanto equipe. Criar um ambiente onde o poder é compartilhado, onde os indivíduos são fortalecidos, onde os grupos são vistos como dignos de confiança e competentes para enfrentar os problemas - tudo isto é inaudito na vida comum. Nossas escolas, nosso governo, nossos negócios estão permeados da visão de que nem o indivíduo nem o grupo são dignos de confiança. Deve existir poder sobre eles, poder para controlar. O sistema hierárquico é inerente a toda a nossa cultura”.[6][6]
A afetividade na relação pedagógica
A afetividade é um componente básico do conhecimento e está intimamente ligado ao sensorial e ao intuitivo. A afetividade se manifesta no clima de acolhimento, de empatia, inclinação, desejo, gosto, paixão, de ternura, da compreensão para consigo mesmo, para com os outros e para com o objeto do conhecimento. A afetividade dinamiza as interações, as trocas, a busca, os resultados. Facilita a comunicação, toca os participantes, promove a união. O clima afetivo prende totalmente, envolve plenamente, multiplica as potencialidades. O homem contemporâneo, pela relação tão forte com os meios de comunicação e pela solidão da cidade grande, é muito sensível às formas de comunicação que enfatizam os apelos emocionais e afetivos mais do que os racionais.
“O homem da racionalidade é também o da afetividade, do mito e do delírio
(demens). O homem do trabalho é também o do jogo (ludens). O empírico é também o imaginário (imaginarius); o da economia é também o do consumismo (consumans); o prosaico é também da poesia, do fervor, da participação, do amor, do êxtase. O amor é poesia. Um amor nascente inunda o mundo de poesia, um amor duradouro irriga de poesia a vida cotidiana, o fim de um amor, devolve-nos à prosa. No ser humano, o desenvolvimento do conhecimento racional-empírico-técnico jamais anulou o conhecimento simbólico, mágico ou poético” ( MORIN, cap.I)
A educação precisa incorporar mais as dinâmicas participativas como as de auto-conhecimento (trazer assuntos próximos à vida dos alunos), as de cooperação (trabalhos de grupo, de criação grupal) e as de comunicação (como o teatro ou a produção de um vídeo).
Na educação podemos ajudar a desenvolver o potencial que cada aluno tem, dentro das suas possibilidades e limitações. Para isso, precisamos praticar a pedagogia da compreensão contra a pedagogia da intolerância, da rigidez, a do pensamento único, da desvalorização dos menos inteligentes, dos fracos, problemáticos ou “perdedores”.
Praticar a pedagogia da inclusão. A inclusão não se faz somente com os que ficam fora da escola. Dentro da escola muitos alunos são excluídos pelos professores e colegas. São excluídos quando nunca falamos deles, quando não os valorizamos, quando os ignoramos continuamente. São excluídos quando supervalorizamos alguns, colocando-os como exemplos em detrimento de outros. São excluídos quando exigimos de alunos com dificuldades de aceitação e de relacionamento, resultados imediatos, metas difíceis para eles no campo emocional.
Há uma série de obstáculos no caminho: a formação intelectual valoriza mais o conteúdo oral e textual, separando razão e emoção. O professor não costuma ter uma formação emocional, afetiva. Por isso, tende a enxergar mais os erros que os acertos. A falta de valorização profissional também interfere na auto-estima. Se os professores não desenvolvem sua própria auto-estima, se não se dão valor, se não se sentem bem como pessoas e profissionais, não poderão educar num contexto afetivo. Ninguém dá o que não tem. Por isso, é importante organizar atividades com gestores e professores de sensibilização e técnicas de auto-conhecimento e auto-estima. Ter aulas de psicologia para auto-conhecimento e especialistas em orientação psicológica. Ações para que alunos e professores desenvolvam sua autoconfiança, sua auto-estima; que tenham respeito por si mesmos e acreditem em si; que percebam, sintam e aceitem o valor pessoal e o dos outros . Assim será mais fácil aprender e comunicar-se com os demais. Sem essa base de auto-estima, alunos e professores não estarão inteiros, plenos para interagir e se digladiarão como opostos, quando deveriam ver-se como parceiros.
3. O terceiro foco é o da formação do aluno empreendedor
Este é um campo quase inexplorado. A maior parte das iniciativas da escola permanece na aprendizagem intelectual de conteúdos. Professores e alunos estão acostumados a seguir modelos, receitas, fórmulas, padrões. O foco para a mudança é desenvolver alunos criativos, inovadores, corajosos. Alunos e professores que busquem soluções novas, diferentes. Que arrisquem mais, que relacionem mais, que saiam do previsível, do padrão.
“Ninguém é autônomo primeiro para depois decidir. A autonomia vai se constituindo na experiência de várias, inúmeras decisões, que vão sendo tomadas”. (Freire,107)
“A autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir e ser. É neste sentido que uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade” (Freire, 107)
A escola, segundo o empresário Wong, deve desenvolver os potenciais dos alunos com foco na imaginação e na criatividade. Mas alerta que de nada adianta ter criatividade sem espírito empreendedor. "O brasileiro tem muita iniciativa, mas falta "acabativa", brincou ao comentar que são poucas as pessoas que conseguem realmente colocar em prática suas idéias.[7][7]
"Precisamos ter claro que a escola não deve preparar o aluno para passar de ano, mas sim para ser um cidadão empreendedor. Ele deve crescer pensando em fazer algo diferente, que o entusiasme. E o papel da escola é ver até onde ele chega", afirma. O aluno brasileiro, segundo o executivo, sai da escola à procura de um bom emprego, enquanto o norte-americano busca um bom negócio. "É isso que precisamos mudar", complementa.[8][8]
Outra crítica do executivo diz respeito ao fato de os alunos serem condicionados a ter atitudes reativas em relação à qualquer situação. "É preciso que o estudante seja proativo e agente de mudanças e não que fique esperando que apareçam oportunidades". De acordo com Wong, essa atitude reativa reflete no profissional que ele se tornará no futuro.
A sociedade precisa de pessoas inovadoras, que se adaptem a novos desafios, possibilidades, trabalhos, situações.
É muito difícil ser criativo e empreendedor porque os professores foram preparados para repetir informações, fórmulas, procedimentos.
Como ser criativo com uma formação repetidora, castradora?
Como incentivar o empreendedorismo com uma formação conservadora, acomodada, voltada para a segurança?
Como incentivar o empreendedorismo se damos provas de memorização e repetição?
Por isso precisamos trabalhar tanto os professores como os alunos.
Focar a pesquisa, o novo, encontrar ângulos, exemplos, relações, adaptações diferentes.
Superar a aprendizagem meramente intelectual e vivenciar mais os projetos, experiências e a resolução de problemas.
Propor e implementar ações a partir de informações. É uma nova postura pró-ativa, que contrasta com a forma tradicional de aprender, a partir de reflexões feitas por terceiros.
Sensibilizar e capacitar os professores para ações inovadoras, para tomar mais a iniciativa, para explorar novas possibilidades nas suas atividades didáticas, na sua carreira, na sua vida.
Sensibilizar os alunos para desenvolver novas atividades na sala de aula, no laboratório, em ambientes virtuais e mantendo vínculos diretos com a prática. Sair mais da sala de aula para inserção no cotidiano do bairro, no conhecimento e contato com pessoas, prédios, grupos, instituições próximas ou que tenham a ver com a área de conhecimento escolhida. Trabalhar também com os pais para que eles se modifiquem e estimulem os filhos a aprender a planejar, a estabelecer metas. Inserir a escola como uma organização que dissemina na cidade a sua visão empreendedora.
4. O quarto eixo é a formação do aluno-cidadão
“A educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa – espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade” (Delors, 1998, p.99).
Não basta formar alunos empreendedores, se não possuem uma formação social, uma preocupação com os outros e um comportamento ético. O foco da educação não pode permanecer no nível pessoal, individual, na preparação para o trabalho somente. Por isso é importante focar também o desenvolvimento social, o engajamento numa sociedade mais justa, o compromisso do conhecimento pessoal com os que convivem conosco, com o país, com o planeta, com o universo. A educação precisa que cada aluno se insira na comunidade, desenvolva a sua capacidade de assumir responsabilidades e direitos.
. “a tarefa mais fundamental do professor é semear desejos, estimular projetos, consolidar com arquitetura de valores que os sustentem e, sobretudo, fazer com que os alunos saibam articular seus projetos pessoais com os da coletividade na qual se inserem, sabendo pedir junto com os outros, sendo, portanto, competentes”[9][9].
A ética não pode ser só uma matéria teórica, mas principalmente uma vivência prática. A educação pode transformar-se num processo de aprendizagem de humanização, de tornar professores e alunos pessoas mais plenas, abertas, generosas, equilibradas.
“Não podemos nos assumir como sujeitos da procura, da decisão, da ruptura, da opção, como sujeitos históricos, transformadores, a não ser assumindo-nos como sujeitos éticos”. (Paulo FREIRE, Pedagogia da autonomia, 17)
Pela educação podemos aprender a integrar corpo e mente, as sensações, as emoções, a razão, a intuição. Podemos sentir e pensar com todo o corpo, como um todo, não só com a cabeça. Podemos perceber, sentir, entender, compreender, agir pessoal e socialmente, como pessoas cidadãs responsáveis e autônomas. Pela educação comunicativa vamos construindo redes complexas de interação pessoal, grupal e social. Quanto mais ricas estas redes, mais nos realizaremos como pessoas e mais úteis nos tornaremos para os grupos e organizações aos quais nos vinculamos.
Há uma série de dificuldades para a formação do aluno-cidadão: o mais forte é o individualismo, fortemente incentivado pela sociedade de consumo, pela mídia que enaltece valores diferentes dos da escola. A mídia, principalmente a televisão e, mais especificamente, a publicidade, valorizam a ascensão individual, o “self-made man”, a competição, a aparência, o ter como mais importante que o ser enquanto que a escola procura valorizar também o coletivo, a colaboração, a cooperação. A televisão mostra os valores despretensiosamente, enquanto nos entretém. A adesão do público é voluntária. A escola rema contra a corrente dominante e obriga o aluno a fazer escolhas mais difíceis, que exigem muito mais maturidade. O idealismo social é mais difícil de perceber do que a valorização individual.
No Brasil a educação ética é fundamental, porque é um dos países mais desiguais do mundo, com um relativo bom desempenho econômico, que não é acompanhado por índices semelhantes de desenvolvimento humano. Convive no país uma agricultura e negócios do campo avançados com a exploração, chegando até a escravidão dos trabalhadores. Apesar de o PIB por habitante do Brasil (US$ 7.770) ser semelhante ao de alguns países de alto desenvolvimento humano, 20% da população mais pobre do Brasil tem acesso a apenas 2% da renda ou do consumo, enquanto os 20% mais ricos detêm 64,4% da riqueza[10][10].
A escola não pode ser muito diferente da sociedade porque é formada por pessoas da mesma sociedade e também vive nela. Politicamente precisamos fazer todo o esforço possível para que a escola seja um lugar de colaboração, de inclusão, de aumento de consciência. Mas não se pode esperar ter uma escola “ideal” numa sociedade desigual, complicada, contraditória.
Por outro lado, é na escola que podemos experimentar situações novas de mudança, mesmo que parciais, de aprendizagens de novos modelos, formas de colaboração. Podemos fazer atividades inovadoras juntos, porque o resultado não se expressa necessariamente na venda de um produto, em metas puramente econômicas de conquista de mercado. A escola pode arriscar mais, criar situações novas, permitir-se aprender com os erros e buscar o desconhecido, ao menos em parte.
A escola pode incluir a comunidade ao seu redor, fazer pontes com as situações reais de aprendizagem existentes, vivenciadas na prática. Pode oferecer espaços de atualização para famílias e comunidade e, em troca, abrir a escola para que os alunos façam pesquisas, práticas, contatos com o cotidiano. Uma escola fechada com altos muros e grades é um exemplo de insucesso pedagógico. Se está situada em uma região carente, tem que dialogar com essas pessoas, grupos, comunidade. Se ela é mais rica do que o ambiente que a rodeia, deve abrir-se com mais razão ainda, oferecer seus serviços, mostrar que o bairro ganha com essa integração.
A escola não pode só ensinar a aprender, a preparar só para a vida profissional. A educação social é importante para poder compreender as raízes da desigualdade e para encontrar meios de diminuí-la.
Um outro obstáculo importante é que a ética com freqüência permanece no nível do discurso, da pregação; precisa estar ancorada na prática, no exemplo. E há uma grande distância entre a ética pregada (teoria) e a cumprida (prática), tanto na escola como na sociedade. Essa distância complica muito a efetiva aprendizagem e incorporação desses valores fundamentais.
Estes quatro eixos se relacionam com os quatro pilares da educação do relatório DELORS[11][11]: saber compreender, fazer, comunicar-se e ser. Aprender a compreender implica em lidar com a complexidade, a ignorância, o erro, a descoberta, a infindável caminhada ao longo da vida, em tornar o conhecer um objetivo de realização pessoal e social.
Aprender a fazer, nos lembra a relação necessária entre teoria e prática, entre o fazer e o compreender e desafia nossa organização educacional, muito mais focada na leitura do que na experiência. Aprender a comunicar-se é um dos componentes essenciais do educar: aprendemos quando nos comunicamos, quando trocamos, quando somos reconhecidos. E aprender a ser parece simples, mas é mais sutil e complexo, porque implica em aprender a integrar valores, práticas, reflexão e atitudes de vida. São quatro pilares fundamentais para a aprendizagem individual e social e para o ensino, em qualquer área.
A ética, em todas as instituições e na escola também, se ensina mais pelo exemplo do que pela palavra. Uma escola séria, de qualidade, transmite seus valores nas situações que se apresentam no cotidiano. A escola especificamente pode preocupar-se com a ética como um tema fundamental, transversal a todas as áreas e disciplinas. Todos somos responsáveis por dar um enfoque ético nas situações didáticas que se apresentam. A escola precisa propor atividades em que os alunos exerçam sua responsabilidade e que isso faça parte do projeto pedagógico e que não seja simplesmente colocado como ações voluntárias. A ética se pratica através de propostas organizadas e valorizadas institucionalmente[12][12].
Conseqüências destas bases para a educação
Não tem mais lugar na educação, principalmente na área de humanas, a busca pela resposta certa, única, correta. Temos respostas aproximadas, prováveis, adequadas ao momento. Não tem sentido os testes de múltipla escolha; a avaliação de conteúdo único.
A aprendizagem precisa ser ativa, focada na experiência, em projetos, em solução de problemas, em criar situações novas. Não tem mais sentido focar as aulas só no conteúdo teórico, na memorização, na competição.
Professores afetivos, climas de entendimento com os alunos não se improvisam, não surgem do nada. É importante focar na formação de professores estas novas dimensões: a emocional, a empreendedora e a ética. O professor tem que passar por experiências de risco, de criatividade, de inovação. Os cursos atuais deformação não se preocupam com isso. A aprendizagem intelectual deve ser mais humilde, construída, interativa e integrada com o risco, com a visão integradora, contextualizada e afetiva. Todos os professores e alunos deveriam passar por etapas de aprendizado destas novas situações. Todos os alunos precisam ter em todas as etapas da sua aprendizagem uma vinculação profunda com a realidade, principalmente com a realidade carente, pobre, diferente. O aluno aprende mais se combina estudo com projetos e com imersão em atividades sociais e culturais com grupos diferentes dos que está habituado. Todos os programas, em todos os níveis educacionais, podem incorporar tempos específicos de prestação de serviços, de colaborar com os menos favorecidos, de retribuir o que a sociedade nos oferece para que nos dediquemos muitos anos a aprender.
Só as tecnologias não dão conta desta nova pedagogia, desta nova postura necessária para uma educação inovadora. Mas, pressupondo estas bases, as tecnologias facilitam e muito esta inovação.
Incluído em 24/01/2005
Dentre todos os conceitos de Carl Gustav Jung, a idéia de introversão e extroversão são as mais usadas. Jung descobriu que cada indivíduo pode ser caracterizado como sendo primeiramente orientado para seu interior ou para o exterior, sendo que a energia dos introvertidos se dirige em direção a seu mundo interno, enquanto a energia do extrovertido é mais focalizada no mundo externo.
Entretanto, ninguém é totalmente introvertido ou extrovertido. Algumas vezes a introversão é mais apropriada, em outras ocasiões a extroversão é mais adequada mas, as duas atitudes se excluem mutuamente, de forma que não se pode manter ambas ao mesmo tempo. Também enfatizava que nenhuma das duas é melhor que a outra, citando que o mundo precisa dos dois tipos de pessoas. Darwin, por exemplo, era predominantemente extrovertido, enquanto Kant era introvertido por excelência.
O ideal para o ser humano é ser flexível, capaz de adotar qualquer dessas atitudes quando for apropriado, operar em equilíbrio entre as duas.
As Atitudes: Introversão e Extroversão
Os introvertidos concentram-se prioritariamente em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior, tendendo à introspecção. O perigo para tais pessoas é imergir de forma demasiada em seu mundo interior, perdendo ou tornando tênue o contato com o ambiente externo. O cientista distraído, estereotipado, é um exemplo claro deste tipo de pessoa absorta em suas reflexões em notável prejuízo do pragmatismo necessário à adaptação.
Os extrovertidos, por sua vez, se envolvem com o mundo externo das pessoas e das coisas. Eles tendem a ser mais sociais e mais conscientes do que acontece à sua volta. Necessitam se proteger para não serem dominados pelas exterioridades e, ao contrário dos introvertidos, se alienarem de seus próprios processos internos. Algumas vezes esses indivíduos são tão orientados para os outros que podem acabar se apoiando quase exclusivamente nas idéias alheias, ao invés de desenvolverem suas próprias opiniões.
As Funções Psíquicas
Jung identificou quatro funções psicológicas que chamou de fundamentais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. E cada uma dessas funções pode ser experienciada tanto de maneira introvertida quanto extrovertida.
O Pensamento
Jung via o pensamento e o sentimento como maneiras alternativas de elaborar julgamentos e tomar decisões. O Pensamento, por sua vez, está relacionado com a verdade, com julgamentos derivados de critérios impessoais, lógicos e objetivos. As pessoas nas quais predomina a função do Pensamento são chamadas de Reflexivas. Esses tipos reflexivos são grandes planejadores e tendem a se agarrar a seus planos e teorias, ainda que sejam confrontados com contraditória evidência.
O Sentimento
Tipos sentimentais são orientados para o aspecto emocional da experiência. Eles preferem emoções fortes e intensas ainda que negativas, a experiências apáticas e mornas. A consistência e princípios abstratos são altamente valorizados pela pessoa sentimental. Para ela, tomar decisões deve ser de acordo com julgamentos de valores próprios, como por exemplo, valores do bom ou do mau, do certo ou do errado, agradável ou desagradável, ao invés de julgar em termos de lógica ou eficiência, como faz o reflexivo.
A Sensação
Jung classifica a sensação e a intuição juntas, como as formas de apreender informações, diferentemente das formas de tomar decisões. A Sensação se refere a um enfoque na experiência direta, na percepção de detalhes, de fatos concretos. A Sensação reporta-se ao que uma pessoa pode ver, tocar, cheirar. É a experiência concreta e tem sempre prioridade sobre a discussão ou a análise da experiência.
Os tipos sensitivos tendem a responder à situação vivencial imediata, e lidam eficientemente com todos os tipos de crises e emergências. Em geral eles estão sempre prontos para o momento atual, adaptam-se facilmente às emergências do cotidiano, trabalham melhor com instrumentos, aparelhos, veículos e utensílios do que qualquer um dos outros tipos.
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A Intuição
A intuição é uma forma de processar informações em termos de experiência passada, objetivos futuros e processos inconscientes. As implicações da experiência (o que poderia acontecer, o que é possível) são mais importantes para os intuitivos do que a experiência real por si mesma. Pessoas fortemente intuitivas dão significado às suas percepções com tamanha rapidez que, via de regra, não conseguem separar suas interpretações conscientes dos dados sensoriais brutos obtidos. Os intuitivos processam informação muito depressa e relacionam, de forma automática, a experiência passada com as informações relevantes da experiência imediata.
Arquétipos
Dentro do Inconsciente Coletivo existem, segundo Jung, estruturas psíquicas ou Arquétipos. Tais Arquétipos são formas sem conteúdo próprio que servem para organizar ou canalizar o material psicológico. Eles se parecem um pouco com leitos de rio secos, cuja forma determina as características do rio, porém desde que a água começa a fluir por eles. Particularmente comparo os Arquétipos à porta de uma geladeira nova; existem formas sem conteúdo - em cima formas arredondadas (você pode colocar ovos, se quiser ou tiver ovos), mais abaixo existe a forma sem conteúdo para colocar refrigerantes, manteiga, queijo, etc., mas isso só acontecerá se a vida ou o meio onde você existir lhe oferecer tais produtos. De qualquer maneira as formas existem antecipadamente ao conteúdo. Arquetipicamente existe a forma para colocar Deus, mas isso depende das circunstâncias existenciais, culturais e pessoais.
Jung também chama os Arquétipos de imagens primordiais, porque eles correspondem freqüentemente a temas mitológicos que reaparecem em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes. Os mesmos temas podem ser encontrados em sonhos e fantasias de muitos indivíduos. De acordo com Jung, os Arquétipos, como elementos estruturais e formadores do inconsciente, dão origem tanto às fantasias individuais quanto às mitologias de um povo.
A história de Édipo é uma boa ilustração de um Arquétipo. É um motivo tanto mitológico quanto psicológico, uma situação arquetípica que lida com o relacionamento do filho com seus pais. Há, obviamente, muitas outras situações ligadas ao tema, tal como o relacionamento da filha com seus pais, o relacionamento dos pais com os filhos, relacionamentos entre homem e mulher, irmãos, irmãs e assim por diante.
O termo Arquétipo freqüentemente é mal compreendido, julgando-se que expressa imagens ou motivos mitológicos definidos. Mas estas imagens ou motivos mitológicos são apenas representações conscientes do Arquétipo. O Arquétipo é uma tendência a formar tais representações que podem variar em detalhes, de povo a povo, de pessoa a pessoa, sem perder sua configuração original.
Uma extensa variedade de símbolos pode ser associada a um Arquétipo. Por exemplo, o Arquétipo materno compreende não somente a mãe real de cada indivíduo, mas também todas as figuras de mãe, figuras nutridoras. Isto inclui mulheres em geral, imagens míticas de mulheres (tais como Vênus, Virgem Maria, mãe Natureza) e símbolos de apoio e nutrição, tais como a Igreja e o Paraíso. O Arquétipo materno inclui aspectos positivos e negativos, como a mãe ameaçadora, dominadora ou sufocadora. Na Idade Média, por exemplo, este aspecto do Arquétipo estava cristalizado na imagem da velha bruxa.
Jung escreveu que cada uma das principais estruturas da personalidade seriam Arquétipos, incluindo o Ego, a Persona, a Sombra, a Anima (nos homens), o Animus (nas mulheres) e o Self.
Símbolos
De acordo com Jung, o inconsciente se expressa primariamente através de símbolos. Embora nenhum símbolo concreto possa representar de forma plena um Arquétipo (que é uma forma sem conteúdo específico), quanto mais um símbolo se harmonizar com o material inconsciente organizado ao redor de um Arquétipo, mais ele evocará uma resposta intensa e emocionalmente carregada.
Jung se interessa nos símbolos naturais, que são produções espontâneas da psique individual, mais do que em imagens ou esquemas deliberada-mente criados por um artista. Além dos símbolos encontrados em sonhos ou fantasias de um indivíduo, há também símbolos coletivos importantes, que são geralmente imagens religiosas, tais como a cruz, a estrela de seis pontas de David e a roda da vida budista.
Imagens e termos simbólicos, via de regra, representam conceitos que nós não podemos definir com clareza ou compreender plenamente. Para Jung, um signo representa alguma outra coisa; um símbolo é alguma coisa em si mesma, uma coisa dinâmica e viva. O símbolo representa a situação psíquica do indivíduo e ele é essa situação num dado momento.
Aquilo a que nós chamamos de símbolo pode ser um termo, um nome ou até uma imagem familiar na vida diária, embora possua conotações específicas além de seu significado convencional e óbvio. Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto inconsciente mais amplo que não é nunca precisamente definido ou plenamente explicado.
Os Sonhos
Os sonhos são pontes importantes entre processos conscientes e inconscientes. Comparado à nossa vida onírica, o pensamento consciente contém menos emoções intensas e imagens simbólicas. Os símbolos oníricos freqüentemente envolvem tanta energia psíquica, que somos compelidos a prestar atenção neles.
Para Jung, os sonhos desempenham um importante papel complementar ou compensatório. Os sonhos ajudam a equilibrar as influências variadas a que estamos expostos em nossa vida consciente, sendo que tais influências tendem a moldar nosso pensamento de maneiras freqüentemente inadequadas à nossa personalidade e individualidade. A função geral dos sonhos, para Jung, é tentar estabelecer a nossa balança psicológica pela produção de um material onírico que reconstitui equilíbrio psíquico total.
Jung abordou os sonhos como realidades vivas que precisam ser experimentadas e observadas com cuidado para serem compreendidas. Ele tentou descobrir o significado dos símbolos oníricos prestando atenção à forma e ao conteúdo do sonho e, com relação à análise dos sonhos, Jung distanciou-se gradualmente da maneira psicanalítica na livre associação.
Pelo fato do sonho lidar com símbolos, Jung achava que eles teriam mais de um significado, não podendo haver um sistema simples ou mecânico para sua interpretação. Qualquer tentativa de análise de um sonho precisa levar em conta as atitudes, a experiência e a formação do sonhador. É uma aventura comum vivida entre o analista e o analisando. O caráter das interpretações do analista é apenas experimental, até que elas sejam aceitas e sentidas como válidas pelo analisando.
Mais importante do que a compreensão cognitiva dos sonhos é o ato de experienciar o material onírico e levá-lo a sério. Para o analista junguiano devemos tratar nossos sonhos não como eventos isolados, mas como comunicações dos contínuos processos inconscientes. Para a corrente junguiana é necessário que o inconsciente torne conhecida sua própria direção, e nós devemos dar-lhe os mesmos direitos do Ego, se é que cada lado deva adaptar-se ao outro. À medida que o Ego ouve e o inconsciente é encorajado a participar desse diálogo, a posição do inconsciente é transformada daquela de um adversário para a de um amigo, com pontos de vista de algum modo diferentes mas complementares.
O Ego
O Ego é o centro da consciência e um dos maiores Arquétipos da perso-nalidade. Ele fornece um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes. Ele tende a contrapor-se a qualquer coisa que possa ameaçar esta frágil consistência da consciência e tenta convencer-nos de que sempre devemos planejar e analisar conscientemente nossa experiência. Somos levados a crer que o Ego é o elemento central de toda a psique e chegamos a ignorar sua outra metade, o inconsciente.
De acordo com Jung, a princípio a psique é apenas o inconsciente. O Ego emerge dele e reúne numerosas experiências e memórias, desenvolvendo a divisão entre o inconsciente e o consciente. Não há elementos inconscientes no Ego, só conteúdos conscientes derivados da experiência pessoal.
A Persona
Nossa Persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo. É o caráter que assumimos; através dela nós nos relacionamos com os outros. A Persona inclui nossos papéis sociais, o tipo de roupa que escolhemos para usar e nosso estilo de expressão pessoal. O termo Persona é derivado da palavra latina equivalente a máscara, se refere às máscaras usadas pelos atores no drama grego para dar significado aos papéis que estavam representando. As palavras "pessoa" e "personalidade" também estão relacionadas a este termo.
A Persona tem aspectos tanto positivos quanto negativos. Uma Persona dominante pode abafar o indivíduo e aqueles que se identificam com sua Persona tendem a se ver apenas nos termos superficiais de seus papéis sociais e de sua fachada. Jung chamou também a Persona de Arquétipo da conformidade. Entretanto, a Persona não é totalmente negativa. Ela serve para proteger o Ego e a psique das diversas forças e atitudes sociais que nos invadem. A Persona é também um instrumento precioso para a comunicação. Nos dramas gregos, as máscaras dos atores, audaciosamente desenhadas, informavam a toda a platéia, ainda que de forma um pouco estereotipada, sobre o caractere as atitudes do papel que cada ator estava representando. A Persona pode, com freqüência, desempenhar um papel importante em nosso desenvolvimento positivo. À medida que começamos a agir de determinada maneira, a desempenhar um papel, nosso Ego se altera gradualmente nessa direção.
Entre os símbolos comumente usados para a Persona, incluem-se os objetos que usamos para nos cobrir (roupas, véus), símbolos de um papel ocupacional (instrumentos, pasta de documentos) e símbolos de status (carro, casa, diploma). Esses símbolos foram todos encontrados em sonhos como representações da Persona. Por exemplo, em sonhos, uma pessoa com Persona forte pode aparecer vestida de forma exagerada ou constrangida por um excesso de roupas. Uma pessoa com Persona fraca poderia aparecer despida e exposta. Uma expressão possível de uma Persona extremamente inadequada seria o fato de não ter pele.
A Sombra
Para Jung, a Sombra é o centro do Inconsciente Pessoal, o núcleo do material que foi reprimido da consciência. A Sombra inclui aquelas tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a Persona e contrárias aos padrões e ideais sociais. Quanto mais forte for nossa Persona, e quanto mais nos identificarmos com ela, mais repudiaremos outras partes de nós mesmos. A Sombra representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. Em sonhos, a Sombra freqüentemente aparece como um animal, um anão, um vagabundo ou qualquer outra figura de categoria mais baixa.
Em seu trabalho sobre repressão e neurose, Freud concentrou-se, de inicio, naquilo que Jung chama de Sombra. Jung descobriu que o material reprimido se organiza e se estrutura ao redor da Sombra, que se torna, em certo sentido, um Self negativo, a Sombra do Ego. A Sombra é, via de regra, vivida em sonhos como uma figura escura, primitiva, hostil ou repelente, porque seus conteúdos foram violentamente retirados da consciência e aparecem como antagônicos à perspectiva consciente. Se o material da Sombra for tra-zido à consciência, ele perde muito de sua natureza de medo, de desconhecido e de escuridão.
A Sombra é mais perigosa quando não é reconhecida pelo seu portador. Neste caso, o indivíduo tende a projetar suas qualidades indesejáveis em outros ou a deixar-se dominar pela Sombra sem o perceber. Quanto mais o material da Sombra tornar-se consciente, menos ele pode dominar. Entretanto, a Sombra é uma parte integral de nossa natureza e nunca pode ser simplesmente eliminada. Uma pessoa sem Sombra não é uma pessoa completa, mas uma caricatura bidimensional que rejeita a mescla do bom e do mal e a ambivalência presentes em todos nós.
Cada porção reprimida da Sombra representa uma parte de nós mesmos. Nós nos limitamos na mesma proporção que mantemos este material inconsciente.
À medida que a Sombra se faz mais consciente, recuperamos partes previamente reprimidas de nós mesmos. Além disso, a Sombra não é apenas uma força negativa na psique. Ela é um depósito de considerável energia instintiva, espontaneidade e vitalidade, e é a fonte principal de nossa criatividade. Assim como todos os Arquétipos, a Sombra se origina no Inconsciente Coletivo e pode permitir acesso individual a grande parte do valioso material inconsciente que é rejeitado pelo Ego e pela Persona.
No momento em que acharmos que a compreendemos, a Sombra aparecerá de outra forma. Lidar com a Sombra é um processo que dura a vida toda, consiste em olhar para dentro e refletir honestamente sobre aquilo que vemos lá.
O Self
Jung chamou o Self de Arquétipo central, Arquétipo da ordem e totalidade da personalidade. Segundo Jung, consciente e inconsciente não estão necessariamente em oposição um ao outro, mas complementam-se mutuamente para formar uma totalidade: o Self. Jung descobriu o Arquétipo do Self apenas depois de estarem concluídas suas investigações sobre as outras estruturas da psique. O Self é com freqüência figurado em sonhos ou imagens de forma impessoal, como um círculo, mandala, cristal ou pedra, ou de forma pessoal como um casal real, uma criança divina, ou na forma de outro símbolo de divindade. Todos estes são símbolos da totalidade, unificação, reconciliação de polaridades, ou equilíbrio dinâmico, os objetivos do processo de Individuação.
O Self é um fator interno de orientação, muito diferente e até mesmo estranho ao Ego e à consciência. Para Jung, o Self não é apenas o centro, mas também toda a circunferência que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente, ele é o centro desta totalidade, tal como o Ego é o centro da consciência. Ele pode, de início, aparecer em sonhos como uma imagem significante, um ponto ou uma sujeira de mosca, pelo fato do Self ser bem pouco familiar e pouco desenvolvido na maioria das pessoas. O desenvolvimento do Self não significa que o Ego seja dissolvido. Este último continua sendo o centro da consciência, mas agora ele é vinculado ao Self como conseqüência de um longo e árduo processo de compreensão e aceitação de nossos processos inconscientes. O Ego já não parece mais o centro da personalidade, mas uma das inúmeras estruturas dentro da psique.
Crescimento Psicológico - Individuação
Segundo Jung, todo indivíduo possui uma tendência para a Individuação ou auto desenvolvimento. Individuação significa tornar-se um ser único, homogêneo. na medida em que por individualidade entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si mesmo. Pode-se traduzir Individuação como tornar-se si mesmo, ou realização do si mesmo.
Individuação é um processo de desenvolvimento da totalidade e, portanto, de movimento em direção a uma maior liberdade. Isto inclui o desenvolvimento do eixo Ego-Self, além da integração de várias partes da psique: Ego, Persona, Sombra, Anima ou Animus e outros Arquétipos inconscientes. Quando tornam-se individuados, esses Arquétipos expressam-se de maneiras mais sutis e complexas.
Quanto mais conscientes nos tornamos de nós mesmos através do auto conhecimento, tanto mais se reduzirá a camada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo. Desta forma, sai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho, suscetível e pessoal do Eu, aberta para a livre participação de um mundo mais amplo de interesses objetivos.
Essa consciência ampliada não é mais aquele novelo egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições de caráter pessoal, que sempre deve ser compensado ou corrigido por contra-tendências inconscientes; tornar-se-á uma função de relação com o mundo de objetos, colocando o indivíduo numa comunhão incondicional, obrigatória e indissolúvel com o mundo.
Do ponto de vista do Ego, crescimento e desenvolvimento consistem na integração de material novo na consciência, o que inclui a aquisição de conhecimento a respeito do mundo e da prória pessoa. O crescimento, para o Ego, é essencialmente a expansão do conhecimento consciente. Entretanto, Individuação é o desenvolvimento do Self e, do seu ponto de vista, o objetivo é a união da consciência com o inconsciente.
Como analista, Jung descobriu que aqueles que vinham a ele na primeira metade da vida estavam relativamente desligados do processo interior de Individuação; seus interesses primários centravam-se em realizações externas, no "emergir" como indivíduos e na consecução dos objetivos do Ego. Analisandos mais velhos, que haviam alcançado tais objetivos, de forma razoável, tendiam a desenvolver propósitos diferentes, interesse maior pela integração do que pelas realizações, busca de harmonia com a totalidade da psique.
O primeiro passo no processo de Individuação é o desnudamento da Persona. Embora esta tenha funções protetoras importantes, ela é também uma máscara que esconde o Self e o inconsciente.
Ao analisarmos a Persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é de fato coletiva; em outras palavras, a Persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo.
De certo modo, tais dados são reais mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão.
O próximo passo é o confronto com a Sombra. Na medida em que nós aceitamos a realidade da Sombra e dela nos distinguimos, podemos ficar livres de sua influência. Além disso, nós nos tornamos capazes de assimilar o valioso material do inconsciente pessoal que é organizado ao redor da Sombra.
O terceiro passo é o confronto com a Anima ou Animus. Este Arquétipo deve ser encarado como uma pessoa real, uma entidade com quem se pode comunicar e de quem se pode aprender. Jung faria perguntas à sua Anima sobre a interpretação de símbolos oníricos, tal como um analisando a consultar um analista. O indivíduo também se conscientiza de que a Anima (ou o Animus) tem uma autonomia considerável e de que há probabilidade dela influenciar ou até dominar aqueles que a ignoram ou os que aceitam cegamente suas imagens e projeções como se fossem deles mesmos.
O estágio final do processo de Individuação é o desenvolvimento do Self. Jung dizia que o si mesmo é nossa meta de vida, pois é a mais completa expressão daquela combinação do destino a que nós damos o nome de indivíduo. O Self torna-se o novo ponto central da psique, trazendo unidade à psique e integrando o material consciente e o inconsciente. O Ego é ainda o centro da consciência, mas não é mais visto como o núcleo de toda a personalidade.
Jung escreve que devemos ser aquilo que somos e precisamos descobrir nossa própria individualidade, aquele centro da personalidade que é eqüidistante do consciente e do inconsciente. Dizia que precisamos visar este ponto ideal em direção ao qual a natureza parece estar nos dirigindo. Só a partir deste ponto podemos satisfazer nossas necessidades.
É necessário ter em mente que, embora seja possível descrever a Individuação em termos de estágios, o processo de Individuação é bem mais complexo do que a simples progressão aqui delineada. Todos os passos mencionados sobrepõem-se, e as pessoas voltam continuamente a problemas e temas antigos (espera-se que de uma perspectiva diferente). A Individuação poderia ser apresentada como uma espiral na qual os indivíduos permanecem se confrontando com as mesmas questões básicas, de forma cada vez mais refinada. Este conceito está muito relacionado com a concepção Zen-budista da iluminação, na qual um individuo nunca termina um Koan, ou problema espiritual, e a procura de si mesmo é vista como idêntica à finalidade.)
Obstáculos ao Crescimento
A Individuação nem sempre é uma tarefa fácil e agradável. O Ego precisa ser forte o suficiente para suportar mudanças tremendas, para ser virado pelo avesso no processo de Individuação.
Poderíamos dizer que todo o mundo está num processo de Individuação, no entanto, as pessoas não o sabem, esta é a única diferença. A Individuação não é de modo algum uma coisa rara ou um luxo de poucos, mas aqueles que sabem que passam pelo processo são considerados afortunados. Desde que suficientemente conscientes, eles tiram algum proveito de tal processo.
A dificuldade deste processo é peculiar porque constitui um empreendimento totalmente individual, levado a cabo face à rejeição ou, na melhor das hipóteses, indiferença dos outros. Jung escreve que a natureza não se preocupa com nada que diga respeito a um nível mais elevado de consciência, muito pelo contrário. Logo, a sociedade não valoriza em demasia essas proezas da psique e seus prêmios são sempre dados a realizações e não à personalidade. Esta última será, na maioria das vezes, recompensada postumamente.
Cada estágio, no processo de Individuação, é acompanhado de dificuldades. Primeiramente, há o perigo da identificação com a Persona. Aqueles que se identificam com a Persona podem tentar tornar-se perfeitos demais, incapazes de aceitar seus erros ou fraquezas, ou quaisquer desvios de sua auto-imagem idealizada. Aqueles que se identificam totalmente com a Persona tenderão a reprimir todas as tendências que não se ajustam, e a projetá-las nos outros, atribuindo a eles a tarefa de representar aspectos de sua identidade negativa reprimida.
A Sombra pode ser também um importante obstáculo para a Individuação. As pessoas que estão inconscientes de suas sombras, facilmente podem exteriorizar impulsos prejudiciais sem nunca reconhecê-los como errados. Quando a pessoa não chegou a tomar conhecimento da presença de tais impulsos nela mesma, os impulsos iniciais para o mal ou para a ação errada são com freqüência justificados de imediato por racionalizações. Ignorar a Sombra pode resultar também numa atitude por demais moralista e na projeção da Sombra em outros. Por exemplo, aqueles que são muito favoráveis à censura da pornografia tendem a ficar fascinados pelo assunto que pretendem proibir; eles podem até convencer-se da necessidade de estudar cuidadosamente toda a pornografia disponível, a fim de serem censores eficientes.
O confronto com a Anima ou o Animus traz, em si, todo o problema do relacionamento com o inconsciente e com a psique coletiva. A Anima pode acarretar súbitas mudanças emocionais ou instabilidade de humor num homem. Nas mulheres, o Animus freqüentemente se manifesta sob a forma de opiniões irracionais, mantidas de forma rígida. (Devemos nos lembrar de que a discussão de Jung sobre Anima e Animus não constitui uma descrição da masculinidade e da feminilidade em geral. O conteúdo da Anima ou do Animus é o complemento de nossa concepção consciente de nós mesmos como masculinos ou femininos, a qual, na maioria das pessoas, é fortemente determinada por valores culturais e papéis sexuais definidos em sociedade.)
Quando o indivíduo é exposto ao material coletivo, há o perigo de ser engolido pelo inconsciente. Segundo Jung, tal ocorrência pode tomar uma de duas formas. Primeiro, há a possibilidade da inflação do Ego, na qual o indivíduo reivindica para si todas as virtudes da psique coletiva. A outra reação é a de impotência do Ego; a pessoa sente que não tem controle sobre a psique coletiva e adquire uma consciência aguda de aspectos inaceitáveis do inconsciente-irracionalidade, impulsos negativos e assim por diante.
Assim como em muitos mitos e contos de fadas, os maiores obstáculos estão mais próximos do final. Quando o indivíduo lida com a Anima e o Animus, uma tremenda energia é libertada. Esta energia pode ser usada para construir o Ego ao invés de desenvolver o Self. Jung referiu-se a este fato como identificação com o Arquétipo do Self, ou desenvolvimento da personalidade-mana (mana é uma palavra malanésica que significa a energia ou o poder que emana das pessoas, objetos ou seres sobrenaturais, energia esta que tem uma qualidade oculta ou mágica). O Ego identifica-se com o Arquétipo do homem sábio ou mulher sábia aquele que sabe tudo. A personalidade-mana é perigosa porque é excessivamente irreal. Indivíduos parados neste estágio tentam ser ao mesmo tempo mais e menos do que na realidade são. Eles tendem a acreditar que se tornaram perfeitos, santos ou até divinos, mas, na verdade, menos, porque perderam o contato com sua humanidade essencial e com o fato de que ninguém é plenamente sábio, infalível e sem defeitos.
Jung viu a identificação temporária com o Arquétipo do Self ou com a personalidade-mana como sendo um estágio quase inevitável no processo e Individuação. A melhor defesa contra o desenvolvimento da inflação do Ego é lembrarmo-nos de nossa humanidade essencial, para permanecermos assentados na realidade daquilo que podemos e precisamos fazer, e não na que deveríamos fazer ou ser.
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O Indivíduo, o Ser Humano e a PessoaIncluído em 23/02/2005
Ser Humano não é a mesma coisa que Pessoa, como também não é o mesmo que cidadão, este muito mais próximo do termo Pessoa. Ser Humano é um termo mais genérico ou indeterminado, que diz respeito à espécie, à classificação, ao mundo zoológico. É por isso que nos sentimos mais à vontade em dizer Homem (ser humano) das Cavernas e não pessoa das cavernas.
O Indivíduo, o Ser Humano e a Pessoa
Pessoa, em nossa cultura, se opõe ao indivíduo, se opõe à coisa e ao animal, ainda que de modo distinto. Enquanto se distancia das coisas e aos animais, o termo Pessoa se aproxima do termo Ser Humano, mas não se superpõe a ele.
Cabe, portanto, entender o conceito de Ser Humano ao lado do conceito de Pessoa. No direito romano antigo os escravos eram seres humanos (homens) mas não eram consideradas pessoas (patrícios). Os juristas romanos que usavam o conceito de Ser Humano o dissociavam do conceito de pessoas. O conceito de Pessoa aparecia como resultado de um processo vinculado à liberação, ao menos teórica, dos escravos (ou dos bárbaros) e não como um conceito zoológico, biológico classificatório e mental.
para referir: |
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A Realidade do Próximo
Incluído em 23/02/2005
Todas relações humanas envolvem emoções e sentimentos. Na realidade, todo relacionamento do sujeito com o objeto envolve sentimentos e emoções, melhor ainda seria dizer que todo contacto da pessoa com a realidade envolve sentimentos e emoções. Como se vê, para entendermos bem essa questão do relacionamento da pessoa com o outro deve começar procurando entender o relacionamento da pessoa com a realidade.
E por onde começa o contacto da pessoa com a realidade, ou com o mundo? Começa sempre pela senso-percepção, começa sempre pelos nossos cinco sentidos e termina, em sua última essência, nos sentimentos espirituais.
Esses sentimentos e emoções são os elementos que, de fato, nos aproximam ou afastam das outras pessoas, nos dão prazer, desprazer ou indiferença. O sentimento da empatia proporciona prazer no contacto inter-pessoal, nos aproxima do outro e nos traz sensação de bem estar, o sentimento da apatia proporciona indiferença, um "olá, como vai ?" formal, frio e distante e, finalmente, a antipatia produz o desprazer, o afastamento e a evitação do objeto antipático.
De fato, todos os sentimentos que experimentamos ao contactar a realidade, seja a realidade dos fatos, dos objetos ou das pessoas, são conseqüência direta dos valores que atribuímos à essa realidade. Da mesma forma, todos os diferentes valores que as diferentes pessoas atribuem à uma mesma realidade objetiva são os responsáveis pela construção das realidades pessoais de cada um, e cada um viverá particularmente sua própria realidade e só ela interessará.
Isso tudo nos leva a crer que as coisas, embora tenham todas um mesmo significado (objetivo), terão significações pessoais muito diferentes entre as diferentes pessoas. Uma barra de ouro, por exemplo, terá um valor universalmente reconhecido (objetivo) chamado, neste caso, de cotação do ouro. Entretanto, e não obstante, terá também um valor muito pessoal à cada pessoa que venha a possuí-la, dependendo da necessidade de cada um, do apego material ou não ao ouro, da vocação ou não em juntar posses, etc. Terá ainda um valor até em não possuí-la, ou seja, um valor independente da existência ou não do objeto (se eu tivesse uma barra de ouro...). Enfim, vivemos de acordo com nossa realidade pessoal, de acordo com nossa maneira de ver o mundo.
Para termos melhor noção do significado das coisas e daquilo que as coisas representam para nós, vamos começar entendendo o que é a Representação da Realidade, incluindo nela os fatos, as coisas, os objetos, as pessoas, os acontecimentos passados e as perspectivas futuras.
A percepção tem sido considerada como a base da cognição e deve ser verídica e pessoal. A percepção é um dos requisitos mais elementares para percebermos o mundo e conseguirmos um ajustamento realista à ele. Este ajustamento realista exige mais do que o reflexo fisiológico de nossos equipamentos sensoriais; exige satisfazer nossas necessidades, encontrar alguma segurança, explorar as oportunidades para o crescimento e, conseqüentemente, encontrar um sentido satisfatório para a nossa existência.
Este conjunto de elementos capazes de nos fazer perceber o mundo de acordo com nossa aptidão pessoal capacita-nos à uma visão mais diferenciada da realidade, oferece uma percepção que ultrapassa àquela simplesmente oferecida pelos órgãos dos sentidos. Através dos órgãos dos sentidos os objetos se nos apresentam corporalmente, objetivamente e, nas representações internas elaboradas pelo eu, os objetos se apresentam como imagens.
Portanto, a imagem deve ser sempre interior e ter sempre uma concepção individual, porém, apesar de individual, a imagem jamais deve ser emancipada totalmente da realidade. Soltando-se da realidade, de forma a produzir um mundo completamente novo e particular, estaremos incorrendo no domínio dos delírios e das alucinações.
Saber porque algumas pessoas se desesperam, se angustiam ou até se suicidam diante de fatos ou vivências que outras pessoas suportariam de forma diferente diz respeito, em parte, às diferenças entre como as coisas são de fato, e o que elas representam para cada um de nós. Portanto, saber um pouco sobre as diferenças entre a realidade externa à nós e a representação interna dessa mesma realidade poderá facilitar a compreensão das diferenças entre o mundo objetivo e o mundo subjetivo.
A nossa cultura registra em Platão (427-374 AC) a primeira reflexão sobre uma nova espécie de realidade experimentada pelo ser humano e que não corresponde exatamente à realidade objetivamente verdadeira: trata-se da realidade psicológica. Santo Agostinho (354-430 d.C.), considerado um grande estimulador dos recentes movimentos existencialista e até da psicanálise , inspirou sua obra na realidade das experiências interiores do ser humano, propondo a idéia de que os sentimentos são dominantes e que o intelecto é seu servo.
Em seu livro Confissões, Santo Agostinho foi o primeiro a centralizar-se na introspecção psicológica, sugerindo também, uma completa revisão do pensamento anterior, segundo o qual o raciocínio dedutivo era o único instrumento de constatação da verdade e da realidade (racionalismo). Ele negava, categoricamente, a capacidade do ser humano para encontrar a verdade confiando apenas em suas próprias faculdades.
John Locke (1632-1704), filósofo do século XVII, acreditava também na existência de duas realidades: uma delas conferida pela percepção dos objetos e denominada experiência exterior e uma outra, determinada pela percepção dos sentimentos e desejos, a que chamou de experiência interior. A doutrina de Locke foi muito bem desenvolvida por Berkeley (1685-1753) e por David Hume (1711-1776), os quais concluíram que nenhum conhecimento absoluto é possível, e aquilo que sabemos da realidade é baseado na experiência subjetiva (experiência interior), a qual não reflete necessariamente o quadro verdadeiro do mundo. Wilian James (1842-1910), no século passado, enfatizou a natureza altamente pessoal dos processos de pensamento e o caráter sempre mutável das percepções do mundo, alteradas que são pelo estado subjetivo da pessoa que percebe.
Portanto, já que a concepção da realidade é baseada na experiência subjetiva e, sendo esta capaz de conferir uma natureza altamente pessoal à percepção do mundo e aos pensamentos, então a realidade percebida decorrerá sempre do estado subjetivo do indivíduo. Cada consciência, em particular, integra e totaliza de maneira muito peculiar o seu relacionamento com o mundo. Desta forma, os fatos oferecidos pelo mundo à nossa volta resultarão numa representação única e individual para cada um de nós, e será esta representação que constituirá a realidade particular de cada indivíduo.
As representações são construídas pelas imagens dos objetos e pelos fenômenos percebidos nas experiências anteriores, e tudo isso será evocado de modo voluntário ou involuntário . São entendidas, as representações, como um ato de conhecimento conseqüente à reativação de uma lembrança ou de uma imagem mnêmica sem necessidade da presença real do objeto correspondente. Para que este conceito (que é também o conceito de cognição) não fique reduzido ao fenômeno da memória, como a grosso modo poderia parecer, podemos comentá-lo mais amiude.
O que existe, em psicodinâmica, ou é o indivíduo ou é o não-indivíduo, em outras palavras, tudo o que não é o sujeito é o objeto. Tudo o que estiver fora de mim será, para mim, o objeto (mundo objectual), em contraposição à eu mesmo, que sou o sujeito. Entendemos por imagens dos objetos e dos fenômenos percebidos nas experiências anteriores, toda impressão que o contacto com a realidade pode produzir em nós.
Representação, Apercepção e/ou Procepção
Portanto, a representação da realidade, daqui em diante chamada apenas de REPRESENTAÇÃO, transcende significativamente a simples percepção do mundo; é aquilo que o mundo passa a representar para a pessoa depois de nela introjetado ou por ela apreendido. Desta forma, enquanto o caráter da sensopercepção é melhor entendido a nível predominantemente fisiológico e neuro-sensorial, através dos cinco sentidos, a REPRESENTAÇÃO reporta-se, predominantemente, à subjetividade da realidade, e é impregnada de um valor afetivo particular do indivíduo, portanto, reporta-se a um nível afetivo-psicológico.
Uma simples rosa pode ser percebida fisiologicamente através da visão, tato ou olfato, porém, será ricamente representada através do subjetivismo da pessoa. Pode até ser dispensável, nesta representação, a presença física do objeto rosa. Da mesma forma, a palavra mãe, por exemplo, que pode ser percebida pela visão, se for escrita ou pela audição, se for falada, terá sua representação interna tocada pela afetividade de cada um e jamais será igual entre as pessoas.
O texto de Jung é bastante explicativo: "parece que o consciente flui em torrentes para dentro de nós, vindo de fora sob a forma de percepções sensoriais.
Nós vemos, ouvimos, apalpamos e cheiramos o mundo, e assim temos consciência do mundo. Estas percepções sensoriais nos dizem que algo existe fora de nós, mas elas não dizem o que esse algo seja em si. Esta é tarefa não do processo perceptivo, mas do processo de APERCEPÇÃO. Este último tem uma estrutura altamente complexa. Não que as percepções sensoriais sejam algo simples, mas a sua natureza é menos psíquica do que fisiológica. A complexidade da apercepção, pelo contrário, é psíquica".
Portanto, Jung identifica a REPRESENTAÇÃO da qual falamos, com a APERCEPÇÃO, algo responsável pela significação da coisa ou do que é a coisa em si. Neste caso, se a essência das coisas é determinada mais pelo pensamento e emoção que pela percepção neurológica, esta (a essência das coisas) será sempre pessoal e individual, então o significado essencial das coisas será igualmente pessoal e individual.
Allport é outro autor preocupado com a questão da representação do mundo . Para ele, o que Jung chama de APERCEPÇÃO é tratado com o nome de PROCEPÇÃO: mais um sinônimo para REPRESENTAÇÃO interna. Diz-nos, Allport, que "existir como pessoa significa ultrapassar o verídico e o cultural, bem como desenvolver a própria visão do mundo.
Em cada momento cada um de nós realiza, à sua maneira, a sua transação entre o Eu e o mundo. Seria impossível enumerar todos os amplos tipos de orientação proceptiva que servem para distinguir os homens entre si. Uns têm uma mentalidade dominante para o passado, outros para o presente e alguns para o futuro. Para alguns o mundo é um lugar hostil, os homens são maus e perigosos; para outros é um palco para folias e brincadeiras".
Mesmos fatos, mesmas situações e mesmos acontecimentos podem ser experimentados por um número infindável de pessoas e representados de infindáveis maneiras. A guerra, por exemplo, onde participam milhares de pessoas, pode representar uma coisa diferente para cada um; embora seja traumática para a expressiva maioria das pessoas que dela participa, será mais traumática para os que neurotizam, demasiadamente traumática para os que psicotizam, apenas desagradável para alguns, e até boa para os vencedores e para os fanáticos, e assim por diante... Enfim, cada personalidade apercebeu-se da guerra de uma maneira completamente diferente.
Perceber a realidade exatamente como ela é tem sido uma tarefa totalmente impossível para o ser humano. Nós nos aproximamos variavelmente da realidade, de acordo com nossas paixões, nossos interesses, nossas crenças, nosso acervo cultural, etc. Algumas atitudes mentais favorecem um contacto mais íntimo com a realidade, outras afastam deste contacto.
Será muito difícil para uma pessoa perdidamente apaixonada, elaborar um correto julgamento acerca da pessoa a quem ama. Normalmente, nestes casos, a força da paixão turva a avaliação do objeto amado. Da mesma forma e certamente, a realidade que um botânico experimenta diante de uma orquídea será diferente da realidade experimentada pelo poeta, diante da mesma orquídea.
A realidade do índio pode ser plena de determinados deuses que estão ausentes na nossa, assim como nossos micróbios não participam da realidade dele e assim por diante.
Embora a representação do real seja particular em cada um de nós, como dissemos, esta compreensão do mundo percebido e introjetado deve ser organizada segundo as regras comuns de um mesmo sistema cultural e, desta forma, tornar possível a convivência e a comunicação entre as pessoas de uma mesma cultura.
Este sistema sócio-cultural que reconhece o direito da APERCEPÇÃO (ou PROCEPÇÃO, ou REPRESENTAÇÃO) particular de cada um de nós, também estabelece uma determinada faixa de compatibilização entre os indivíduos, onde as diversas maneiras de experimentar e sentir o mundo não comprometam a viabilidade da vida gregária. A esta faixa de congruência sugerimos chamar de CONCORDÂNCIA CULTURAL. Ou seja, um conjunto de valores, normas e modelos capazes de definir um determinado grupo cultural e identificar os indivíduos de um mesmo sistema mediante um contacto mais ou menos consensual com certos aspectos da realidade.
Assim sendo, as infinitas variações pessoais na representação da realidade devem, apesar de infinitas, manter-se dentro da concordância cultural para serem consideradas normais. Seria como a variação infinita das impressões digitais. Mesmo diante da infindável variedade entre todas impressões digitais, há alguma concordância entre elas. No momento em que nos defrontamos com impressões digitais formadas por linhas retas e paralelas, ou regularmente quadradas e concêntricas, certamente estaremos diante de impressões digitais anormais.
Bandler afirma haver uma irredutível diferença entre o mundo e a nossa experiência sobre o mesmo. O pensamento, em seu desenvolvimento espontâneo, tem uma necessidade imperiosa de emancipar-se da realidade dos fatos apresentados pelos nossos sentidos. Este seria o mais importante e brilhante mecanismo responsável por nossa capacidade de abstração e de criação. Sem ele, a espontaneidade e a liberdade estariam irremediavelmente comprometidas. Existir como pessoa significa ultrapassar o verídico e o cultural, desenvolver uma concepção interior do mundo com características próprias, porém, mantendo-se sempre razoavelmente ligado à uma realidade recomendada pela concordância cultural. Como diz o ditado, "a aventura pode ser louca, o aventureiro, porém, necessariamente dever ser lúcido".
A capacidade da pessoa ser ela mesma está em seu esforço (e em seu sucesso) em compatibilizar o seu mundo interior com a realidade externa, controlar seu mundo de forma a viver nele dominando-o de maneira realística. Existe uma parcela de nossa consciência que é emancipada da objetividade exclusiva dos fatos e do mundo dos sentidos, uma parte que nos torna únicos na maneira de ser e sentir o mundo . Existe também, uma outra parcela da consciência que nos identifica a todos como membros de um mesmo sistema sócio-cultural, compatível com uma concordância coletiva e consensual. Allport facilita esta situação ao sugerir a idéia sobre PROCEPÇÃO INDIVIDUAL e PROCEPÇÃO CULTURAL.
A PROCEPÇÃO CULTURAL representa o conjunto em nossa personalidade das respostas culturalmente formadas e estabelecidas, respostas culturais a determinados fatos vividos. A poligamia, por exemplo, é diferentemente representada pela cultura cristã ocidental e pela cultura islâmica oriental. Assim como o monoteísmo existente nossa cultura e o politeísmo em culturas indígenas.
Resumindo, podemos dizer que todo ser humano tem uma maneira peculiar e muito pessoal de representar a sua realidade, e faz isso com arbítrio suficiente para libertá-lo do estreito mundo dos sentidos. Por causa disso ele é capaz de criar, abstrair, pensar além do real e sonhar. Entretanto, mesmo diante desta diversidade representativa, mesmo respeitando sua liberdade ao irreal, está o indivíduo atrelado à concordância cultural de seu meio e, esta, funcionando como uma faixa de tolerância onde deverão situar-se as infindáveis maneiras de representar a realidade.
Os Valores e a Representação da Realidade
Nossos sentimentos experimentados diante dos fatos e das pessoas, sejam eles empáticos, apáticos ou antipáticos, por exemplo, sejam eles de prazer ou de desprazer, de felicidade ou tristeza, etc., dependerão dos valores que atribuímos à realidade. Esses valores, entenda-se, serão sempre uma atribuição do sujeito (capaz de atribuir valores) e não do objeto. Os objetos não se auto-atribuem valores.
Portanto, a representação da realidade, de fato, repousa na capacidade da pessoa atribuir valores, isso é o mesmo que construir uma concepção ontológica individual do real. Segundo o filósofo Nicolai Hartmann, existiriam quatro categorias de valorização possíveis de atribuir-se à realidade no sentido de construir-se uma representação pessoal da existência. Seriam os valores materiais, vitais, anímicos e espirituais . Cada uma dessas categorias necessitaria da anterior para existir e cada uma delas procura se emancipar da anterior.
Para estudarmos as Alterações da Representação, como propõe esse capítulo, teríamos que avaliar as eventuais alterações nessas quatro categorias de valorização do real. Vamos pensar em cada uma dessas categorias separadamente, apesar de sabermos que em nosso interior todas quatro estão intimamente e dinamicamente atreladas umas às outras.
Categoria Material de Valorizar a Realidade
Com a categoria material nos referimos ao corpo, ao fisiologismo da senso-percepção, ao componente neuro-psico-biológico necessário para o contacto primeiro com o mundo que nos rodeia. Construir a realidade a partir do orgânico humano implica na integridade dos órgãos dos sentidos, na integridade das vias nervosas sensitivas, na integridade do Sistema Nervoso Central (SNC) e, principalmente, na capacidade integradora desses estímulos no SNC. Estamos falando das habilidades senso-perceptivas e de suas variações.
A representação da realidade, baseada na categoria material de conhecer o mundo, se dá através da percepção e da sensibilidade perceptiva que a pessoa tem da realidade consciente, anteriormente através dos estímulos que apreendemos pela primeira vez, em seguida, através da transformação dessa percepção em realidade consciente e, por fim, através das percepções posteriores à realidade consciente, onde entram em ação as capacidades de memória, de representação e de integração do SNC.
Sendo diferentes as constituições orgânicas entre as pessoas, diferentemente valorizarão a realidade sob o ponto de vista material (orgânico). Assim sendo, não devemos pretender que uma melodia, uma pintura, um estilo arquitetônico, um requinte culinário, uma paisagem, uma temperatura ambiente ou uma flor sejam igualmente valorizados entre diversas pessoas, nem pretender que nosso próximo valorize qualquer evento da mesma forma como o valorizamos.
Categoria Vital de Valorizar a Realidade
A pessoa aqui e agora pode ser entendida como uma resultância daquilo que ela trouxe ao mundo com aquilo que o mundo lhe deu (fenótipo = genótipo + ambiente). Na categoria vital de valorizar a realidade interessa aquilo que a pessoa trouxe ao mundo, ou seja, seu perfil vital, diga-se, seu perfil personal, diga-se ainda, a constituição básica de sua personalidade. Kurt Schneider se utilizou desse sistema, em seu livro Psicopatologia, para apoiar a idéia das Depressões Vitais, dentro das Alterações Depressivas do Humor.
Segundo Schneider, essas depressões vitais seriam estados afetivos (depressivos) originários do interior da pessoa, de sua sensibilidade afetiva constitucional. Assim como existem pessoas constitucionalmente introvertidas, existiriam também aquelas constitucionalmente mais sentimentais. Através desses sentimentos vitais a realidade teria uma representação pessoal que ultrapassa o meramente real e concreto. Ela estaria atrelada à valores afetivos e sentimentais.
As concepções pessoais da realidade e os sentimentos determinados por nossa categoria vital não seriam baseados exclusivamente em situações reais. Em psiquiatria, quando um sentimento é conseqüente à uma situação real e de fato, chamamos de reativo (em reação à...). A depressão associada à situações reais seria uma Depressão Reativa, ou seja, uma reação depressiva à algum evento desencadeante. É o caso, por exemplo, dos sentimentos depressivos que experimentamos diante de perdas concretas.
Outras conseqüências emocionais à situações reais seriam ainda o Transtorno de Ajustamento com sintomas depressivos ou a Reação Pós-Traumática ao Estresse, quando então a pessoa reage à mudanças de vida e acontecimentos desencadeantes. Existem ainda, por outro lado, estados emocionais que valorizam situações imaginárias, representado por exemplo, pela Neurose Depressiva ou, como se prefere atualmente, pelos casos denominados de Distimia, mais leves, ou pelo Episódio Depressivo Leve.
Fossemos adequar essa categoria vital de valorizar a realidade na teoria jungueana , possivelmente encaixaríamos aqui os tipos psicológicos introvertido e extrovertido. Os introvertidos são pessoas que se relacionam centripetamente com o mundo objectual à sua volta, apreendem os objetos, refletem mais do que agem, recebem a realidade mais reservadamente (dando a falsa impressão de apatia e indecisão), tendem à maior complacência, percebem significados simbólicos nas coisas... Enfim, são o contrário dos extrovertidos.
Os extrovertidos, também de natureza vital, são centrífugos, se deslocam e influenciam o mundo objectual, são mais voltados para ação, se entusiasmam mais facilmente, experimentam com intensidade os estímulos externos. Desta forma, não podemos pretender que uma pessoa extrovertida valorize a realidade da mesma forma que outra introvertida. E mesmo dentro dos introvertidos não podemos pretender que existam duas valorizações da realidade exatamente iguais, sabendo de antemão que a sensibilidade pessoal de cada um é diferente, apesar de serem ambos introvertidos.
É por causa dessa maneira vital de valorizar a realidade que não podemos pretender estabelecer rígidos critérios para que o outro perceba e valorize os fatos da mesma maneira como o fazemos. De nada adiantam os conselhos, bem intencionados, é claro, sobre como fulano deveria estar se sentindo diante de um determinado problema. Nossos conselhos e opiniões são baseados naquilo que sentiríamos caso estivéssemos expostos ao mesmo tipo de situação, entretanto, absolutamente, isso não quer dizer nada.
Categoria Anímica de Valorizar a Realidade
Considerando o que foi dito antes, sobre a pessoa aqui-e-agora ser entendida como uma resultância daquilo que ela trouxe ao mundo com aquilo que o mundo lhe deu (fenótipo = genótipo + ambiente), para a categoria anímica de valorizar a realidade interessaria a pessoa aqui e agora (fenótipo). O humor, responsável por esse tipo de valorização da realidade seria o estado afetivo e emocional atual no qual se encontra a pessoa. Este estado de humor atual tem em sua base, tanto os elementos constitucionais responsáveis pelo perfil afetivo de cada um (sensibilidade da personalidade), quanto os resultados da ação do destino pessoal de cada um. Vale aqui o ditado segundo o qual "cachorro mordido de cobra tem medo de lingüiça".
Avaliar a realidade sob o ponto de vista anímico implica em impregná-la com a tonalidade afetiva da personalidade, entendendo-se por personalidade uma constituição dinamicamente atualizada. Enquanto a categoria vital confere uma maneira perene e continuada de se relacionar e valorizar o mundo, a categoria anímica é dinâmica. Exemplo disso são as mudanças de valores durante a vida de uma pessoa, ou mesmo durante um mesmo dia de sua vida, dependendo de seu estado de humor. Pequenas variações anímicas são possíveis ao longo dos dias ou das horas, grandes e sólidas variações anímicas se dão ao longo dos anos.
Para a psiquiatria esse tipo de valorização decorre da sensibilidade afetiva pessoal e circunstancial. Não se trata apenas da valorização baseada na constituição vital de cada um mas, sobretudo, na valorização momentânea e pessoal das situações reais e imaginárias baseada na tonalidade afetiva e sentimental do momento.
Outra peculiaridade da categoria Anímica é a eventual e substancial mudança dessa modalidade de se valorizar a realidade ao longo da vida. Segundo a teoria jungueana, podem ocorrer grandes mudanças na valorização da realidade durante nossas vidas. Essas mudanças de valores e conceitos, de acordo com Jung, costumam acontecer, normalmente, depois dos 30 anos de idade para as mulheres e dos 40 para os homens. É quando ocorre a passagem da fase chamada natural para a fase cultural de nossa vida. Por esta ocasião os valores sofreriam grande e substancial alteração; muito daquilo anteriormente importante deixa de sê-lo e vice-versa.
Dentro do aspecto anímico de valorizar a realidade teríamos as diferenças de valoração de um mesmo problema por diversas pessoas, já que cada qual estaria representando a realidade com humor (ânimo) diferente ou, para ser mais contundente, teríamos até diferentes maneira de valorizar um mesmo problema em dois momentos diferentes numa mesma pessoa, dependendo de seu estado atual de humor.
Os problemas e as adversidades serão enfrentados de maneira muito diferente entre uma pessoa atualmente insegura e outra segura de si, entre uma pessoa otimista e outra pessimista, entre uma pessoa estável e outra ansiosa e assim por diante. Estando uma pessoa estressada, esgotada ou deprimida a valorização da realidade se dará de forma muito mais sofrível e ameaçadora, os problemas terão dimensões muito mais traumáticas, os desafios terão perspectivas muito mais sombrias.
Categoria Espiritual de Valorizar a Realidade
Avaliação espiritual da realidade é aquela que mais se afasta da realidade objetiva, assim como teria tendência em afastar-se também das influências sensitivas, vitais e anímicas. Essa irreverência espiritual para com a realidade objetiva não reflete uma atitude fantasiosa, como acontece no mundo mágico da criança. Trata-se, sim, de um encontro especial de significações para os aspectos mais abrangentes da vida, da existência e até do não existir mais.
Alguns pensadores associam à categoria espiritual de valorizar a realidade os elementos relacionados à Angústia Existencial. Esta Angústia Existencial seria patológica à medida em que se traduz em ansiedade antecipatória, à sensação de abismo, solidão, desconhecido... e seria normal ou fisiológica sempre que servisse à ampliação da consciência que temos do mundo e da vida.
Os sentimentos espirituais são aqueles que tendem para a valorização intelectual, estética, moral e religiosa. A categoria espiritual de valorizar a realidade diz respeito ao modo de ser e de vir-a-ser no mundo, bem como avalia a relação entre o ser e a vida. É aqui que se polariza a questão existencial mais importante do ser. Esta base de sustentação existencial deveria proporcionar conforto e bem estar, entretanto, na sua falta ou enfraquecimento, a ansiedade torna-se opressora, a angústia se exacerba e há retorno para categorias inferiores de valorização da realidade. Volta-se a questões afetivas, constitucionais ou exclusivamente materiais.
Há um ditado, segundo o qual, "quem está bem consigo não se deixa perturbar pelos demais". Esse seria o exemplo da pessoa espiritualmente bem. Essa pessoa teria plena consciência de seu ser e, portanto, não se perturbaria com eventuais opiniões dos demais à seu respeito; não se sentiria diminuído ou humilhado, nem glorificado e exaltado pois, como dissemos, teria plena opinião à respeito das dimensões de seu ser, independentemente das adulações e contrariedades ambientais.
O desenvolvimento da valorização espiritual pode, com freqüência, atenuar alterações mórbidas determinadas pelas outras categorias inferiores e, em casos patológicos, pode determinar profundos sentimentos depressivos, tendo como pano de fundo a angústia patológica. Evidentemente trata-se, a valorização espiritual, da maneira mais eficiente para a adaptação do ser ao seu mundo e à sua vida.
Como Reagimos à Realidade
Poderíamos chamar esse capítulo de INTERAÇÃO DO SUJEITO COM A REALIDADE, ou INTERAÇÃO DO SUJEITO COM O OBJETO. A todo contacto do sujeito com a realidade, seja esta realidade representada pelo outro, pelo fato, pelo evento, etc, haverá sempre por parte do sujeito uma reação à ela na forma de emoções e sentimentos. Esta reação esboçada pelo sujeito ao interagir com a realidade chamamos de Reação Vivencial.
Para entender melhor devemos considerar o que e como são essas Reações Vivenciais e, antes disso até, o que são, de fato, as Vivências. As experiências subjetivas acerca daquilo que vivemos, devidamente valorizado e particularmente representado dentro de nosso ser são as nossas VIVÊNCIAS. Estas são, então, nossos conteúdos conscientes dos dados perceptivos, representativos, ideativos e emotivos em nossa mente ou, de fato, o que estamos vivendo ou foi por nós vivido.
Perder o emprego, por exemplo, pode tratar-se simplesmente de um dado objetivo, quando consultamos seu significado no dicionário ou, por outro lado, pode tratar-se de uma Vivência, quando se trata de perdermos nosso emprego. Neste caso seu significado ultrapassa o dicionário porque está acontecendo conosco, fazendo parte de nossa vida, sendo representado particularmente em nosso interior. Neste caso então, perder o emprego tratar-se-á de nossa Vivência.
Assim sendo, Reação Vivencial é a resposta emocional ou sentimental a uma determinada vivência, ou seja, a maneira pela qual o aparelho psíquico reage às estimulações vivenciais. Um fato típico e fundamental é apresentado ao indivíduo e, a partir daí, determina uma experiência interna e subjetiva, individual e particular.
Tomando-se por base um FATO, considerado aqui um objeto, um acontecimento ou uma situação, ao ser experimentado por um ser humano passa a fazer parte de seu "eu", será, então, introduzido em sua consciência. Uma vez introjetado na consciência este FATO jamais ficará isolado do universo íntimo de cada um. Fará parte do dinamismo que compõe nosso ser e pertencerá, de alguma maneira, à nossa pessoa.
Qualquer que seja o FATO introduzido em nossa consciência receberá, sempre, um tratamento representativo e particular de cada um. Como vimos acima, há várias maneiras de valorizarmos a realidade (material, vital, anímica e espiritual), entretanto, em termos práticos, consideramos maneiras mais atuantes no cotidiano comum das pessoas a anímica e a vital. Ambas dizem respeito à tonalidade e estado afetivo, portanto, passamos a considerar o afeto como o principal elemento a atribuir significado e valor aos fatos (pessoas, objetos, eventos, etc).
Assim sendo, os FATOS serão sempre coloridos pela afetividade de cada um, tal como se passassem por óculos individuais que fazem cada um enxergar o mundo de sua maneira. Finalizando então, o FATO tratado pela Afetividade será chamado de VIVÊNCIA, algo individual e particular a cada um de nós, de acordo com as particularidades de nossos traços afetivos. Os FATOS podem ser os mesmos entre as várias pessoas, as VIVÊNCIAS porém, serão sempre diferente.
Como exemplo médico, podemos dizer que as VIVÊNCIAS são capazes de determinar uma resposta emocional, tal como um alérgeno é capaz de determinar uma resposta imunológica (reação alérgica). A estes sentimentos e emoções produzidos pela vivência podemos chamar de Reação Vivencial, tal como chamaríamos de reação alérgica as manifestações determinadas pelo embate alérgeno-imunidade. Para que uma Reação Vivencial possa ser considerada normal, Jaspers recomenda 3 ingredientes: uma relação causal, uma relação proporcional e temporal .
1 - Relação Casual
Não se concebe uma Reação Vivencial normal sem que haja uma vivência causadora. A mãe, por exemplo, tendo sido surpreendida por uma febre alta em seu filho durante a noite, dever reagir emocionalmente a esta "causa" com sentimentos de angústia, ansiedade, apreensão, etc, enfim, sentimentos dentro da expectativa da concordância cultural para este evento. A febre do filho é a vivência causadora.
Há pessoas, emocionalmente instáveis, capazes de manifestar uma crise de angústia, choro ou desespero diante da possibilidade de vir a ser demitido, de vir a perder seus pais, etc. Obviamente, tratam-se de possibilidades, entretanto, não é normal viver experimentando exuberantemente tais sentimentos antecipadamente. As pessoas portadoras de algum transtorno de ansiedade podem experimentar desagradáveis sentimentos de tensão muito antecipadamente, como se o evento futuro fosse tomado por ameaça, porém, tal aspecto ameaçador habita exclusivamente sua consciência e está de acordo com sua maneira de valorizar a realidade.
2 - Relação Proporcional
Em situações normais, os sentimentos determinados pela Reação Vivencial devem guardar uma compreensibilidade e proporcionalidade com a vivência causadora, ou seja, o conteúdo da reação acha-se numa relação compreensível com sua causa. Essa compreensibilidade é mediada pela concordância cultural que se tem sobre as coisas. Utilizando o exemplo anterior, não devemos esperar que a mãe do filho doente e febril atire-se janela abaixo ou descabele-se histericamente diante da situação. Igualmente, não se espera que ela manifeste sentimentos de exaltação e alegria transbordante mas, será compreensível ela apresentar sentimentos de ansiedade, medo, angústia ou inquietação proporcionais à causa.
Na tentativa de buscar sempre um aperfeiçoamento e melhora na maneira de vivermos, devemos ter em mente a questão da proporcionalidade de nossas Reações Vivenciais. Assim como somos perfeitamente capazes de julgar a proporcionalidade das Reações Vivenciais dos outros, podemos também avaliar as nossas. Uma atitude proveitosa seria imaginarmos ser possível sairmos de nós mesmos e, tal como um espectador imparcial, observarmos como estaremos nos conduzindo diante de nossas Vivências.
3 - Relação Temporal
Em seu curso temporal a Reação Vivencial deve depender da permanência da Vivência causadora, esmaecendo e, finalmente cessando algum tempo depois de desaparecer a causa. Ainda usando o mesmo exemplo anterior da mãe com filho febril, sua ansiedade e angústia deverão desaparecer quando a saúde do filho for restabelecida. O mesmo acontece, por exemplo, em relação à ansiedade de determinadas pessoas, ao aguardarem o resultado de um exame laboratorial ou o atraso indesejável da menstruação. Tal sentimento dever desaparecer tão logo os resultados sejam satisfatórios.
As Emoções
Não há dúvida que a conotação dos estados afetivos agradáveis e desagradáveis é, na realidade, bem mais ampla que as sensações do prazer e da dor, na acepção puramente sensorial. Os Estados Afetivos Sensoriais implicam numa representação mais íntima de prazer ou desprazer.
O amargo, por exemplo, é desagradável, sem ser necessariamente doloroso, o mesmo podendo suceder com as sensações de fome, calor, frio, sede, etc. Aspirar um fino perfume, ouvir um belo trecho melódico ou contemplar panoramas são representações agradáveis, sem que constituam prazeres físicos propriamente ditos, isto é, não se tratam de prazeres absolutamente localizáveis em algumas partes do nosso corpo.
Emoções mistas são aquelas que envolvem mesclas de estados afetivos internos contrastantes e que se distanciam do sensível orgânico. Por estados afetivos contrastantes entendemos o Conflito emocional consciente, com maior ou menor repercussão na conduta individual.
Estas emoções se compõem de estados afetivos de conteúdos vários e opostos, caracterizando uma representação da realidade sob o ponto de vista da angústia existencial ou, algumas vezes, da Angústia Patológica. Para falar da Angústia temos de falar antes de sua origem; os Conflitos.
Para a manutenção de uma situação de equilíbrio entre o indivíduo e seu meio e, principalmente, entre ele e si próprio, é necessário um relacionamento harmônico entre o peso e a força de suas tendências, das possibilidades de seu Eu e das exigências de seu ambiente.
Nossas tendências dizem respeito àquilo que nós, de fato, queremos, as possibilidades do Eu são, realmente, aquilo que conseguimos através da performance pessoal de cada um e as exigências do meio são as regras, normas e padrões culturais, ou seja, aquilo que devemos.
Assim sendo, se fosse possível vivermos sem conflito, seria necessário uma perfeita combinação daquilo que queremos com aquilo que devemos, juntamente com aquilo que conseguimos. Como se vê, e se percebe consultando nossa intimidade, dificilmente estamos fazendo agora exatamente aquilo que queremos, nem sempre estamos desejando ou fazendo aquilo que devemos desejar e fazer e, muitíssimas vezes, não conseguimos fazer tudo o que queremos, ou mesmo devemos. Portanto, a plena harmonia dessas três forças interiores é incomum em nossa vida, logo, termos conflito é humanamente fisiológico.
As coisas que devemos dizem respeito ao conjunto de normas e regras oferecido à pessoa pelo sistema sócio-cultural. São os princípios éticos e morais que regem uma sociedade e nos ditam procedimentos e condutas. É o Super-Ego que argüi nossos atos, nossos pensamentos e até nossos sentimentos. As coisas que queremos são representantes de nossa natureza humana, são as pulsões, vocações e inclinações que atenderiam nosso bem estar, tal qual o Id, da teoria freudiana. Aquilo que conseguimos representa nossa própria performance como pessoa, seja emocionalmente, intelectualmente ou fisicamente, tal como o Ego, descrito por Freud.
Diante do conflito o ser humano experimenta a angústia ou ansiedade, portanto, sendo o conflito uma constante fisiológica na vida humana, também a angústia e a ansiedade permeiam diuturnamente a existência da pessoa. A adaptação vivencial à esses sentimentos (angústia e ansiedade) caracteriza o bem estar emocional e a saúde psíquica.
Ao se pretender boa adaptação da pessoa aos seus conflitos, indiretamente uma boa adaptação à sua angústia existencial e ansiedade fisiológica, não estamos querendo dizer que a pessoa deve conformar-se sempre diante de seus conflitos. Adaptação e conformismo são duas coisas diferentes. Na realidade a pessoa deve sim, estar sempre inconformada com a situação atual e, diante desse inconformismo, tentar fazer com que seu amanhã seja melhor que hoje.
Entretanto, se a pessoa estiver, além de inconformada, também desadaptada, ficará doente (sofrerá). Por isso dizemos que a desadaptação concorre para o sofrimento enquanto o inconformismo concorre para a melhoria das condições. Reclamar e não se conformar diante de uma situação indesejável e caótica de nossa vida é sadio e pode proporcionar iniciativas no sentido de melhorar alguma coisa, desadaptar-se à essa situação significa adoecer por causa dela.
Portanto, não interessa muito saber se a pessoa tem ou não conflitos pois, de certo os tem. Interessa sim, saber como ela reage à esses conflitos, como ela experimenta a angústia e a ansiedade, mais precisamente, o que ela faz com seus conflitos. Estando a Afetividade bem estruturada, as pessoas conseguem conviver bem e normalmente com seus conflitos mas, diante dos transtornos emocionais esses conflitos, sejam eles recentes ou antigos, passam a causar um grande incômodo. Na realidade o que se estuda na pessoa é sua sensibilidade aos seus conflitos; as mais sensíveis sofrem mais com eles.
Quem Sou Eu
Apesar dos milhares de anos conseguindo se adaptar à natureza, sobreviver às intempéries, aos terremotos, ao animais ferozes, às epidemias e toda sorte de perigos, o ser humano ainda continua vítima daquilo que sempre lhe pareceu o menor dos perigos: seu semelhante e ele mesmo. É intrigante o fato de não termos conseguido dominar essas duas ameaças ao longo de toda nossa história. Não queremos dizer dominá-las no sentido de subjugá-las ou conquistá-las.
A questão se refere à dominá-las no sentido de não mais permitirmos que elas nos causem sofrimento. Talvez então, o mais correto seria pleitearmos integrar-nos harmonicamente à elas e não, propriamente, dominá-las.
Durante toda nossa história temos experimentado algum sofrimento, mágoa ou desencanto com nosso próximo e, não obstante, temos nos permitido sofrer, magoar ou desencantar na medida exata do quanto não nos conhecemos. Muitas vezes encontramos nas relações familiares, profissionais, sociais e de amizade barreiras e dificuldades para compreendermos nosso semelhante e por sermos compreendidos por ele.
A dificuldade em estabelecer comunicação satisfatória e desejável acaba gerando desarmonias de relacionamento, tornando nosso convívio interpessoal empobrecido, distante e difícil. Aliás, algumas vezes temos dificuldades em estabelecer, inclusive, um bom relacionamento conosco mesmo.
É possível que a causa principal de não termos logrado sucesso total no relacionamento interpessoal e conosco mesmos tenha sido subestimar esses nossos adversários. A grande dificuldade foi, talvez, devida ao fato de nossa biologia ter-nos feito seres gregários, portanto, incapazes de viver sozinhos e, ao mesmo tempo, seres egocêntricos, portanto, difíceis de viver bem com o outro: sozinhos não conseguimos viver e, paradoxalmente, com o outro também temos dificuldades. Mas, para compensar essa peça que a natureza nos pregou, fomos apetrechados de um atributo muito especial: somos capazes de mudar.
Por se preocupar com a pessoa, aliviando seu sofrimento e sua angústia, a psiquiatria reconheceu que só se consegue algum progresso propondo mudanças na pessoa e não no mundo à sua volta. Isso quer dizer que, diante da possibilidade de uma pessoa estar sofrendo mágoas ou frustrações produzida por outra pessoa ou por circunstâncias ao seu redor, melhor será pleitear que aquela pessoa não se magoe e nem se frustre ao invés de tentar agir nos outros e nas circunstâncias.
Antes de continuarmos será proveitoso saber que existimos nesse mundo de 3 maneiras diferentes. Numa primeira forma existimos como alguém que é para nós mesmos, ou seja, somos alguém para nós mesmos, portanto, representamos uma determinada pessoa para nossa própria consciência sob a forma de auto-estima.
Em segundo lugar, somos alguém para nosso próximo, ou seja, representamos um determinado personagem social dirigido aos nossos espectadores e, em terceiro, somos essencialmente e realmente alguém, muito embora sem termos, necessariamente, uma nítida consciência de como somos de fato e em nossa essência.
Por dedução devemos supor que nosso próximo também tenha uma existência tripla, ou seja, que ele possa ser alguém para si e segundo sua própria opinião, alguém para os outros, de acordo com aquilo que aparenta ser e, finalmente, alguém de fato e essencialmente humano.
No relacionamento interpessoal vamos estudar quem é esse Eu que vai se relacionar com o outro e consigo mesmo e quem é esse outro, que também vai se relacionar com o Eu.
O Que eu Sou Para Mim
Ser para nós mesmos significa ter consciência de nossa própria pessoa. Em resumo, diz respeito à nossa auto-estima. Sentir-se bem consigo mesmo, representar a nós mesmos de forma satisfatória é o ideal emocional.
Há alguns estados emocionais ou características de personalidade onde a auto-estima está prejudicada. No primeiro caso a pessoa ESTÁ passando por um momento onde, por diversas razões emocionais, sua auto-estima encontra-se depreciativa e no segundo caso, a pessoa tem um traço incômodo de personalidade que proporciona uma constante maneira de auto depreciar-se.
Hipoteticamente podemos exemplificar as conseqüências da auto-estima sobre a maneira de nos sentirmos diante das adversidades da vida da seguinte maneira: vamos imaginar nosso envolvimento numa briga de rua. Nosso medo, portanto, nossa ansiedade, será proporcional ao tamanho de nosso adversário.
O tamanho do adversário será sempre em relação à nós mesmos; maior ou menor que nós, é o que interessa. E como sabemos nosso próprio tamanho? A consciência que temos de nós mesmos é nossa auto-estima. Se nos sentimos fortes, grandes, competentes, saudáveis e espertos a ansiedade diante dos adversários será muito menor caso nos sentíssemos fracos, combalidos, frágeis, incompetentes, doentes, etc.
Ora. Sabemos que a ansiedade excessiva proporciona um estado de estresse suficientemente forte para comprometer seriamente a adaptação. Assim sendo, diante de uma auto-estima prejudicada, a adaptação ficará, também, seriamente prejudicada.
De um modo geral, quem ou o que eu represento para mim mesmo é determinado pelas Categorias Anímica e Vital de valorizar a realidade (veja acima), realidade da qual minha auto-imagem faz parte. Nosso estado de ânimo (Categoria Anímica - afeto) está diretamente relacionado às oscilações das maneiras como nos vemos, ora mais positivamente, ora negativamente, e o estado vital (Categoria Vital - personalidade) está relacionado à maneira mais constante de como nos representamos à nós mesmos.
O Que Eu Sou Para o Outro
Será que nossa atitude interpessoal ou nossa postura social é sempre a mesma e constante nas diversas situações de nosso cotidiano? Será que nos apresentamos da mesma forma na praia e no velório ou no trabalho e no futebol? Não. Normalmente, e em nome do bom senso, devemos nos apresentar adequadamente às expectativas de nosso público, portanto, de alguma forma estamos quase sempre desempenhando algum tipo de papel em atenção aos nossos expectadores.
Para o sucesso social do ser humano há sempre uma imperiosa necessidade da pessoa se apresentar ao outro através de uma identidade pessoal adequada. Não se vai à praia com traje social e nem à um casamento de maiô. Embora isso seja democraticamente possível, corre-se o risco de uma internação psiquiátrica.
Vamos chamar essa postura versátil de adequação às diversas situações de nosso dia-a-dia de PAPEL SOCIAL. Estamos, pois, diuturnamente desempenhando algum tipo de PAPEL SOCIAL.
A função dos PAPEIS SOCIAIS está relacionada à própria identidade da pessoa em seu meio social, uma maneira desejável de se apresentar aos nossos semelhantes e assegurar uma identidade pessoal mais aceitável possível.
Podemos comparar esses Papeis Sociais à nossa própria roupa; ninguém será capaz de apresentar-se nu para seu meio social e, além disso, para cada circunstância social nos apresentamos com um vestuário adequado. Para irmos à praia escolhemos os trajes de banho e não uma roupa social e vice-versa.
Embora sejamos obrigados à adequar nosso vestuário às circunstâncias, continuamos sendo sempre a mesma pessoa; somos aquela mesma pessoa que se apresenta formalmente num jantar de gala e aquela que se apresenta descontraidamente na praia.
O vestuário é capaz de modificar nossa identidade para nossos observadores, de tal forma que, vestindo roupas sociais (terno e gravata) não somos considerados da mesma maneira como se estivéssemos usando apenas roupas íntimas, apesar de sermos a mesma pessoa. Somos exatamente o mesmo que esbraveja e ofende durante uma partida de futebol e aquele que se penitencia e ora na igreja, aquele que afere lucros e aquele que faz caridade.
O sucesso social da pessoa, tão glorificado pela nossa cultura, é conquistado na proporção de um bom desempenho artístico e, conseqüentemente, nossa aprovação social estará de acordo com a qualidade do personagem que oferecemos aos nossos espectadores.
Durante o correr do dia podemos desempenhar vários PAPEIS SOCIAIS; somos pai, filho, esposo ou irmão compreensivos e amáveis dentro de casa, somos motoristas arrojados no trânsito, empresários ardilosos no banco, compradores exigentes ou vendedores flexíveis na empresa e assim por diante. E nosso sucesso dependerá da fidelidade para com nosso personagem.
Normalmente conseguimos mais comida quando parecemos estar com fome do que quando estamos realmente com fome mas não aparentamos, teremos mais crédito quanto mais aparentarmos honestidade, seremos mais convincentes quanto mais parecemos conhecer aquilo que falamos. Tudo isso espelha o sucesso de nosso personagem.
Portanto, existir para o outro implica em desempenhar muito bem o PAPEL SOCIAL, implica em adequarmos nosso personagem ao anseio de nosso expectador. A pessoa que procura um médico, por exemplo, antes de chegar ao consultório já possui uma perspectiva de imagem do médico, mais precisamente, da postura do médico. O médico, por sua vez, terá maior sucesso quanto mais próximo estiver da perspectiva de seu cliente.
O Que Eu Sou de Fato
Sou, de fato, representante da espécie humana, tanto quanto o são todos meus semelhantes. Portanto, habita em minha personalidade todos os traços encontrados nas demais pessoas mas, apesar de não haver nada de especial em mim que não haja em todo mundo, a combinação desses traços em meu interior é que me faz uma pessoa única e exclusiva.
Se fosse possível listar todos adjetivos do ser humano, tais como lealdade, ambição, fraternidade, inveja, maldade, companheirismo, egoísmo, caridade, etc., veríamos que esses infindáveis atributos, independentemente de seus méritos e deméritos, existem em minha pessoa assim como em todas as pessoas.
Acontece que todos esses adjetivos combinam-se entre si para constituir minha particular personalidade, uns sobressaindo-se aos outros, alguns manifestando-se em quantidades diversas, uns permanecendo dormentes, enfim, todos arranjam-se de forma a tornar-me único.
Portanto, de maneira mais ou menos grosseira, para aprimorar nossa compreensão sobre o outro basta investigarmos nosso próprio interior. Alguns de nossos traços mais primitivos e instintivos são domesticados e se apresentam socialmente dissimulados através de nossos PAPEIS SOCIAIS.
A gula, a avidez, a sedução, a inclinação para a posse e o orgulho, por exemplo, podem ser perfeitamente domesticados e se apresentarão através dos mais variados subterfúgios sociais. Da mesma forma, a vingança, a ira e a crueldade podem vestir uma roupagem de justiça, assim como também, o sentimento de culpa e a inclinação à barganha com vantagens podem se traduzir em atitudes caridosas e filantrópicas.
Normalmente temos uma tendência em recriminar nos outros as coisas que não conseguimos ou não nos permitimos (o que dá no mesmo) fazer. Causa-nos profundo constrangimento e irritação observar nos outros a manifestação livre de alguns traços primitivos, os quais não nos permitimos usar. Entretanto, consultando nossa intimidade, veremos que possuímos também esses mesmos traços. Apenas não nos permitimos usá-los.
Diante da frustração de vermos nos outros atitudes que não nos permitimos mas que pululam dentro de nós, primeiro dissimulamos essa nossa incapacidade sob rótulos socialmente enobrecedores, tais como "prefiro ficar com a consciência tranqüila" ou "isso está moralmente errado", ou finalmente, "quero estar de bem com Deus".
Depois condenamos as pessoas que procedem dessa forma deplorável. Veja, por exemplo, nosso sentimento de rancor ao vermos, num congestionamento de trânsito, pessoas que passam pelo acostamento e nos deixam para trás. Torcemos para que encontrem um caminhão parado no acostamento que os impeça de prosseguir ou que tenha lá um policial austero e multe todos eles. O que queremos dizer é que existe também em nós a pulsão da vantagem sobre os demais, tanto quanto existe nas pessoas que fazem valer fortemente essa inclinação.
Finalizando podemos dizer que, de modo geral e excluindo-se as aberrações de nossa espécie, somos o mesmo que o outro, tão humano quanto ele, tão ávidos de prazeres, tão carentes de carinho, tão necessitados de bem-estar quanto ele e, se alguma grande diferença pode ser observada, é o fato de estarmos do lado de cá do balcão e ele do lado de lá. Nosso desconsolo é desesperador ante o sofrimento ou ante a morte desse nosso outro mas, inevitavelmente, entre uma lágrima e outra, acabamos pensando "antes ele do que eu".
Quem é o Outro
Agora está bem mais fácil entendermos Quem ou O Que é o outro, mais precisamente, O Que o outro representa para nós. Soubemos que a realidade é representada, em todos seus aspectos, de maneira muito particular e íntima a cada um de nós através do capítulo "REPRESENTAÇÃO, PROCEPÇÃO E APERCEPÇÃO". Soubemos que há varias maneiras (categorias) de valorizarmos essa realidade através do capítulo "OS VALORES E A REPRESENTAÇÃO DA REALIDADE". Soubemos também como reagiremos emocionalmente e sentimentalmente à realidade (onde o outro está incluído) no capítulo "COMO REAGIMOS À REALIDADE".
Assim como os fatos, os eventos e os objetos, também as pessoas (o outro) farão parte da nossa realidade, ou seja, representarão algo muito pessoal e terão uma valorização muito pessoal para nós.
Muito embora as coisas da realidade, como o outro, os objetos e os fatos, possam ter um determinado valor intrínseco e objetivo, como é a cotação do ouro ou a autoridade do Papa, por exemplo, o real valor subjetivo (que realmente mais me interessa) só pode ser alocado ao objeto através do sujeito, ou seja, somente eu mesmo serei responsável pelo valor que atribuo às coisas.
De certa forma, em geral o outro representará para mim aquilo que eu permito. O outro representará uma ameaça, uma coisa boa, um adversário, um amigo, uma namorada, um cúmplice, um companheiro ou um concorrente na medida em que represento-o dessas maneiras. Portanto, compreendendo a questão como compreendemos agora, será incorreto dizer que fulano me irrita, me humilha, me agride ou me ameaça. O mais correto será dizermos eu me sinto irritado com fulano, eu me sinto humilhado, eu me sinto agredido ou ameaçado.
Há, evidentemente, situações onde a objetividade dos fatos é contundente e não deixa margem à dúvidas representativas. Diante de um assalto, por exemplo, aquela pessoa que está me apontando a arma representará, de fato, o assaltante, uma séria ameaça à vida. Assim como o chefe no emprego deve representar-me, obrigatoriamente, meu chefe. Entretanto, em alguns casos, o valor subjetivo representado pelo chefe pode ultrapassar seu suposto valor objetivo e, sendo assim, diante dele a pessoa acaba experimentando emoções e sentimentos tal como se estivesse diante do assaltante, diante de uma séria ameaça.
Voltamos a enfatizar que o valor atribuído ao objeto, nesse caso ao outro, emana e provem do sujeito. Antes então, há que se perguntar Quem ou O Que sou eu, esse sujeito que se depara com o outro e, depois disso, Quem ou O Que é esse outro em relação ao Eu; será maior, menor, mais forte, mais fraco, igual, semelhante, parecido, enfim, qual será o grau de comparação entre o Eu e o outro?
para referir:
Ballone GJ -A Realidade do Próximo in. PsiqWeb, Internet - disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2005
[1][1] Edgar MORIN. Os sete saberes necessários à educação do futuro, p.
[2][2] Paulo FREIRE. Pedagogia da autonomia, p. 22.
[3][3] Ibid, p.23.
[4][4] Marina ROSENFELD. "Guru" de recursos humanos critica escolas. Disponível em:
www2.uol.com.br/aprendiz/noticias/congressos/id200504_02.shtml
[5][5] Carl ROGERS. Um jeito de ser, p. 39.
[6][6] Ibid, p.65-66.
[7][7] Marina ROSENFELD. "Guru" de recursos humanos critica escolas. Em
www2.uol.com.br/aprendiz/noticias/congressos/id200504_02.shtml
[8][8] Marina ROSENFELD. Idem.
[9][9] Nilson José MACHADO. Sobre a idéia de competência. In Philippe PERRENOUD. As competências para ensinar no século XXI. p. 154
[10][10] Dados do relatório do PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento divulgado em 15-07-2004.
[11][11] Educação: um tesouro a construir. Cap. IV: Os quatro pilares da educação.
[12][12] Ver o artigo de Cláudio de Moura Castro. Escola para cidadania in http://novaescola.abril.com.br/cidadania.doc