A Ilha
tempestades

Publicado originalmente no blogue
Bobagera .

por Carlito Costa


Parte 1

I. Rush

O carro corre veloz pela Via Expressa Sul, ignorando os sinais vermelhos. O motorista recebeu um bom pagamento - em euros - para fazer uma viagem arriscada. O geólogo Ian Kalvelage, holandês de origem alemã, não conhecia Florianópolis. Tira os olhos por um momento do notebook e olha pela janela, mas não pode fazer qualquer julgamento sobre a cidade. Não do banco traseiro de um Citröen C3 a 120 quilômetros por hora e com pouca luz do lado de fora. O céu de fim de tarde está escurecido por nuvens pesadas e pela chuva.

O vento é cada vez mais forte. Apesar do horário do rush, não há outros veículos à vista. Alertas foram dados na tarde do dia anterior sobre a perigosa aproximação de um ciclone extra-tropical. A experiência traumática com esse tipo de fenômeno está bem viva na memória dos habitantes locais. Não faz três anos que algo assim passou bem perto. Numa cidade em que todos estão com medo, Kalvelage é o único a ir voluntariamente de encontro ao monstro.

II. Joaquina

A tempestade já havia se transformado no furacão Joaquina, o segundo a atingir o litoral do estado de Santa Catarina em menos de três anos, numa área onde esse fenômeno nunca havia sido registrado até 2004. Mas diferente do antecessor, o Catarina, que atingiu uma região menos povoada ao sul, desta vez o furacão se dirige direto à ilha-capital Florianópolis. O motorista terá que deixar Ian Kalvelage rapidamente no aeroporto e retornar a tempo de não ser colhido no caminho pela tempestade.

O geólogo não vai tomar nenhum avião. Os vôos foram suspensos. A meta da viagem é a estação meteorológica do aeroporto, onde Kalvelage pretende estar quando o olho do furacão atravessar a planície entremares, que corta o sul da ilha no sentido leste-oeste, entre a longa praia do Campeche e a área do aeroporto. Doutor em Climatologia, a missão de Kavelaage é estudar o fenômeno, a serviço do instituto holandês Neederlandsche Geocitoyeerde Oast Compagnie (NGOC).

III. Milagres

Se os aviões estivessem na pista do aeroporto, teriam alçado vôo como helicópteros sem piloto. A torre resiste a ser arrancada do chão. Dentro, no andar inferior, Kalvelage tenta fixar os olhos nos dados do notebook, enquanto o prédio inteiro treme. A região por onde passa o olho de um furacão é a mais afetada, onde os ventos atingem a velocidade máxima por duas vezes, em sentidos contrários, intercalados por um período de calmaria e céu azul. Quando o pesadelo parece ter acabado, começa de novo.

A tempestade é grande o suficiente para fazer estragos num raio de algumas dezenas de quilômetros. Da janela do escritório no Morro da Boa Vista, anexo ao Hospital de Caridade, Gilmar Linhares observa o furacão varrer o centro da cidade. Na borda da espiral, o centro recebe os ventos na direção leste-oeste, e o morro acaba protegendo o hospital, servindo de anteparo. Três quilômetos adiante, a grande ponte pênsil metálica de 80 anos é sacudida como um varal, mas milagrosamente resiste. Gilmar acredita em milagres. Lembrou que outra tempestade, ocorrida há 240 anos, está na origem da irmandade religiosa que dirige.

IV. Praia

Kalvelage percorreu a ilha durante dois dias, coletando dados. Os estragos provocados pelo furacão, especialmente na parte sul, são impressionantes. O vento deslocou as dunas do leste e soterrou ruas inteiras. Casas foram arrancadas do chão e a infra-estrutura de energia e comunicações foi retalhada. Aos poucos a cidade se recupera. As praias do leste foram bastante alteradas. Os dados confirmam a tese do cientista holandês, que viaja o mundo para testá-la.

Escreve ao NGOC:
– Encontrei mais indícios de uma mudança de padrão na geologia e clima do Atlântico Sul. O furacão, assim como o anterior, faz parte do evento global. A elevação do nível do mar está se acelerando.

Na Praia da Armação, um outro tipo de fenômeno chamou a atenção de Kalvelage, homem interessado pelas coisas do mar. O furacão revolveu o fundo da plataforma continental, desenterrou e levou para perto da praia o que parecem ser os destroços de um antigo naufrágio. A área havia acabado de ser isolada.

V. Naufrágio

Os pedaços do navio de madeira desenterrados pelo furacão são guardados por uma equipe de resgate do Projeto de Arqueologia Subaquática, que investiga antigos naufrágios ao redor da Ilha de Santa Catarina. Além de trazer à tona pedaços do navio, a tempestade espalhou no fundo do mar objetos que foram transportados pela embarcação antiga. Dois mergulhadores do projeto acabaram de trazer à superfície um objeto pesado, usando bolsas de ar para retirá-lo do fundo, a algumas dezenas de metros da praia.

Algo como uma caixa de metal, não maior do que um monitor de PC, foi içado para o bote inflável. Já na praia, a arqueóloga Carolina Paes e o mergulhador Jonas Neto, que retiraram o objeto do fundo, levam a caixa para uma tenda armada na praia, usada como base provisória. Carolina faz uma primeira limpeza da caixa, bastante oxidadada, mas com um relevo ainda visível na parte superior. Traz um tipo de inscrição aparentemente ainda mais antiga do que se supõe o naufrágio. Três letras: I-H-S.

Carolina volta-se para Jonas com ar de certeza:
– Companhia de Jesus.

VI. Tesouro

O prédio do Museu Universitário havia sido recentemente ampliado, multiplicando seu espaço por dez, mas a fachada continuava sendo a de uma antiga estrebaria, construída antes mesmo da universidade e adaptada para novos usos, de forma que sua função original tornou-se irreconhecível. Carolina atravessou o pequeno prédio antigo e entrou no grande anexo novo, com salas modernas e laboratórios. Cumprimentou a velha amiga Vilma Duarte, historiadora dedicada ao projeto missionário jesuítico nos séculos 16 a 18.

Vilma já havia recebido o objeto encontrado no naufrágio, no dia anterior. O conjunto havia passado por um processo de limpeza e a caixa fora aberta pelos arqueólogos. Pelo peso, julgou-se inicialmente que transportava ouro, mas o conteúdo revelado eram placas de um tipo de cerâmica muito dura, bem preservadas. Carolina procurou a especialista porque nunca havia encontrado material como esse.

VII. Mensagem

As placas de cerâmica dura continham algumas inscrições, mapas e outras indicações gráficas.

– É curioso que isso não tenha sido escrito em papel – disse a historiadora Vilma Duarte. – É possível que contassem com a possibilidade de perder esse material e encontrá-lo de novo muito tempo depois. A escrita parece ser do século 18, a caixa também, mas simplesmente não encontrei referências a esse tipo de material – concluiu.
– Bom, isso torna o material ainda mais interessante – argumentou a arqueóloga Carolina. – Continuamos a busca no sítio do naufrágio, mas não há esperança de encontrar algo mais. Foi sorte o mar ter desenterrado o navio. O que resta dele, ou está enterrado bem mais fundo, ou já se deteriorou. Mas temos uma pista. Encontramos um sino, que acreditamos ser do próprio navio.
– E então?
– É holandês.

VIII. Companhia

Vilma reconhecia no Museu do Homem do Sambaqui, instalado dentro de um colégio jesuíta, um segundo lugar de trabalho, talvez até uma segunda casa. Os padres e funcionários do colégio já estavam acostumados com isso e ela sempre subia ao museu quando precisava falar com um dos religiosos. O padre-professor Alfredo Schmitt não demorou muito a chegar. Cumprimentou amistosamente a historiadora.

– Tomei conhecimento de que os arqueólogos do PAS haviam descoberto algum objeto com a inscrição da Companhia – disse o padre. – Estamos todos muito interessados.
– Não quis trazer a caixa aqui hoje por uma questão de segurança, e também pelas dificuldades de transportar algo assim pesado. Mas está à sua disposição no Museu Universitário. Trouxe algumas fotos. Não conhecíamos nada desse tipo, talvez os padres da Companhia possam nos ajudar a saber mais sobre ela.

Vilma abriu a pasta de fotos ao padre ansioso.

IX. Imagem

Jonas admirou a estátua de Jesus Cristo carregando a cruz, guardada há quase dois séculos e meio na Capela do Menino Deus. A imagem é expressiva, até assustadora. Toda esculpida em madeira, teve as partes móveis travadas porque seu realismo apavorava o povo durante as procissões. Há 240 anos, um navio vindo do Norte a transportava para outra cidade, mas uma tempestade obrigou a embarcação a fazer uma escala forçada na ilha. O povo disse que era milagre. A gente mais importante do lugar acabou comprando a imagem. Fundaram uma irmandade para cuidar do Cristo de madeira e todos os anos carregá-lo em procissão até a catedral.

– Ela sempre impressiona, mesmo tendo sido vista muitas vezes – disse uma voz conhecida.
O mergulhador virou-se e reconheceu Gilmar, o provedor da irmandade.
– Obrigado por ter vindo, Jonas. Vamos ao meu escritório, alguém deseja falar com você. Acho que os dois têm muito o que conversar.

X. Alarme

Estudantes que dirigiam-se às salas de aula, no início da manhã, estranharam a presença de uma picape Ford Ranger preta, com inscrições amarelas da Polícia Federal, no estacionamento ao lado do Museu Universitário. Um pequeno grupo de curiosos e funcionários tumultuava a entrada do prédio e havia um nítido clima de agitação. Policiais estavam lá dentro, examinando um dos laboratórios do novo anexo.

– Não havia alarme no prédio? - perguntou o delegado federal César Pacheco.
– Sim, mas parece que faltou energia durante a noite, acho que não chegou a disparar – respondeu o diretor do museu, em crise de taquicardia.
– Sentiram falta de mais alguma coisa?
– Até agora não, fizeram alguma bagunça aqui e ali, mas parece que só levaram mesmo o material da sala da professora Vilma.

A historiadora havia informado o roubo ao pró-reitor de pesquisa da Universidade, que imediatamente acionou a Polícia Federal. A caixa de metal havia sumido, com todo o conteúdo.

Continua...