hora retocada

 

parar

insistentemente parar como uma estrela sob olhos

ou um carro debaixo da distância

o ar no corpo extremo dos olhos

parar.

 

um corpo assim quarto fechado

o interno que não sabe o que refaz

com seus frios mínimos máximos corrompidos

 

interromper a perna no caminho sob a indiferença

de amor que não se fica para além da hora contada

milimétrica hora calculada inscrita na fuga trêmula do que se esconde

 

fazer a mala partir lenços comprimidos papéis pernas

tocar em velocidade o corpo em vento

já sem toques das palavras sem céu na sintaxe

dessa obra que não se faz

cobre e lã

apenas leveza e adeus

 

parar

como os parafusos líquidos derramados em calor

explodir em silêncio como uma pequena hora retocada

ou os tiros perdidos na noite cega

parar.

 

o silêncio se desenrola dia sobre a noite e os corpos

aqui nada a tecer remoendo em arco teso movimento

o que são estórias de tempo e de nada

do que não retorna mas torna à casa vazia

 

sem personagens-eu parar as estrelas

e a massa azul que bate em leve sobre as pestanas

com certa dor Coltrane do ato mais que matemático desse amar sem estar

 

abrir os dedos para receber esse nada que desumano revólver

incita e recita para além da língua que humana não flui

 

a língua

rios e mares para sempre desnavegados

 

entrar na língua por qualquer fenda 

sem eu

sem outro que tudo que digo é linguagem do outro

nada, mas a língua em sons e céus

réus interrompidos

estáticos sob os dentes em ruína do movimento

de uma enorme população de eixos e paralelas nas estradas soltas pelas caras

língua desenhada sobre os mares de amor que não se deixa estar

 

parar

ainda assim a língua e engolir os monumentos de silêncio puro

a solidez da ausência do que jamais fica mas corta no dia e noite 

parar