OS ESPAÇOS SAGRADOS DO CORPO
Uma arte sacra do corpo realiza-se em poesia de assentamento – ato ritualístico – em paisagem sobre corpo em silêncio, de Alexandre Moraes. Isto porque as oferendas se dão por um eu poético que está num lugar “aqui sem onde”; ”só o tempo sabe seu rosto”. Hora retocada de tamanho lirismo somente na morada do corpo, onde se encontram esculpidas as imagens do “mar sem olhos”! O mar edipiano nos faz lembrar, em “fina superfície”, que a cidade é sinestésica porque é língua, ou melhor, torna-se linguagem quando “aqui não se parte ou chega”. Então o quê? O movimento deste espaço entre a cidade e o mar, sem pieguice, traz-nos uma forte erótica da língua, seguido por outros poemas extremamente criativos, como “manhã” – “arrumar a mala do dia” – “desamarra um sorriso”, na cidade pela manhã. Em atenção à sua linhagem de alta poesia contemporânea, furta-se à composição usual dos conceitos críticos e, sem ser rigorosamente mutável, muda sempre de voz, para guardar na situação mais dramática, o lirismo que sempre salta aos olhos: como em “hora retocada” – “ entrar na língua por qualquer fenda”, um achado inusitado, que se desenrola na proximidade imediata do leitor de poesia.
O leitor vem, então, ver que é uma “língua desenhada sobre os mares de amor que não se deixa estar/ parar/ ainda assim a língua e engolir os monumentos de silêncio puro/ a solidez da ausência do que jamais fica mas corta no dia e na noite/ parar. Toda a situação lírica serve a uma situação dialógica, trazendo o fluxo do movimento musical do poema para o nível da palavra falada, aliás, quase sussurrada; revela-se uma dicção poética de pesada ancestralidade, que suspende pela extrema dinâmica do discurso poético a localização do sentido de cada segmento como tentei mostrar acima; este localizar não se confunde com determinar, a relativa inarticulação dá margem à plenitude dos vocábulos; a palavra, símbolo dela mesma, tende a absoluta; é o que chamamos lirismo: “ sem personagem-eu parar as estrelas/ e a massa azul que bate em leve sobre as pestanas/ com certa dor Coltrane do ato mais que matemático desse amar sem estar”.
Em “forma de paisagem”, nota-se um fato paradoxal: a segmentação miúda da frase, a fragmentação em partículas tornadas equivalentes pela menor estruturação gramatical acompanha a presença de um poderoso jorro verbal. A atenção como que não se detém no desenho do verso, oscila entre o fluxo como direção geral e os segmentos isolados. Pela ausência relativa do mediador (o desenho sintático), aumenta a importância dos extremos. O mesmo, como já disse, dá-se em relação à palavra, sempre: “nesse amor sem verbos ou sintaxe/ apenas léxico descolado de frases contínuas/ amor indiferente/ quer ser sem estar/ dessa língua que diz/ devastadora/ sobre os garfos e facas/ devorando o corpo/ estendido inseguro sobre o silêncio/ na forma de paisagem”.
O poder do fluxo poético contínuo até nos tirar o fôlego em “instante”- “desejar o desejo sem paisagem” – em que o poder do fluxo não lhe limita a força, pelo contrário, possibilita que os versos, libertos de conexões gramaticais secundárias, existam mais solitários e apresentem mais pleno o seu sentido: “tocar o pêlo do instante” – versos muito ricos n”a poesia recobrindo em branco todos os poros de cada escala de sol”.
Seus melhores poemas (não tão distantes dos outros em valor estético) são os que refletem e brincam com a própria linguagem poética; usa, para tal, movimentos internos diversos nos poemas. Aí estão “poema sob tormenta”, “intensidade” – “ alguma coisa insuspeita se instala e era apenas o instante sensível sobre o ar”. Uma tormenta clariceana aparece de longe para nos lembrar aquela tão cara! Afinal, “amor é quando a exatidão das coisas cabe no movimento”.
Se os efeitos dessa poética que avança por territórios mais ousados e, conseqüentemente, mais significativos, sua presença irreversível no pensamento contemporâneo dá-se pela poética mais preocupada em descobrir de que maneira os novos olhares, as novas constelações entre a cultura da poesia e a poesia do corpo contemplam o pensamento do leitor e de que forma influem sobre a recepção dessa criativa poesia.
A sinalização das linhas de fuga da prática poética evidenciada nos fartos poemas pela amostragem de novas possibilidades expressivas, até mesmo na prosa poética, coloca o livro de Alexandre Moraes entre aqueles que, no epicentro da tentativa de fusionismo do mar e da cidade, via corpo, hibridamente articulado, com valores diversos, abrem um debate acerca do valor das formas de produção literária em poesia, sob olhares múltiplos que se tornam cúmplices nas idéias. A postura lírica, sempre presente, alimenta-se também de idéias, marcadamente desobedientes sob o ponto de vista dos poemas temáticos, muitos, obsessivos. Ao contrário, cada poesia, enquanto postura singular, transborda efeitos, aposta na lírica que não quer passar o papel; permanece!
Deneval Siqueira de Azevedo Filho