Alguns mundos

Na canção “Livros”, Caetano arremata soberbo uma estrofe: “Porque a frase, o conceito, o enredo , o verso / (E, sem dúvida , sobretudo o verso) / É o que pode lançar mundos no mundo”. Que me perdoe o leitor começar assim, citando, mas Paisagem sobre corpo em silêncio, de Alexandre Moraes , pouco a pouco vai cumprindo a sina de “lançar mundos no mundo”. Por todo canto multiplicam-se os modos como estes mundos se transformam em arte. É sobre a sobra, sobre a fartura, sobre a intensidade que, de meu lugar, me lanço.

Tem um preço tamanho redemoinho: deixa tonto o leitor (quanto mais atento for) que, desde o título, se prende a três signos imensamente plurais: paisagem, corpo, silêncio. Dentro do livro, detecta, de pronto, a estrutura em dez capítulos, ora em verso, ora em prosa. (E descobrirá, em breve, o quão narrativos são – também – os versos, e o tanto de lirismo que trazem os surpreendentes contos. Penso, antecipo, que quanto a gênero o Paisagem é, na verdade, um baita romance disfarçado.) E máscaras igualmente proliferam nas epígrafes, nas dedicatórias, nas personagens, nas alusões – exuberantes todas, e a mancheias.

Não à toa imagens rizomáticas como “tormenta”, “tempestade de escombros”, “enchentes de ausências” e afins se espalham pelas páginas, linhas, sílabas. Aqui e ali a palavra “versão” surge, como a nos lembrar do rascunho que a vida é e do rascunho que em tudo há. No livro, versão sugere reescrita, fluxo sem festa, trânsito em transe. Daí , certos estilemas: sinestesia – cores e sons, sobretudo – e repetição (esta, sob a capa de anáforas e enumerações).

Outros traços estilísticos se pontilham: a cada uma das várias vezes que retorna o termo “aqui”, percebe-se o pacto proposto, afirmando, lúcido, o espaço poético (para lembrar o abandonado Blanchot). Os versos, hegemonicamente brancos e livres, inventam melodia pelo ritmo, que não se quer amparar na métrica regular, e pelas rimas internas, menos visíveis ao ouvido (sic).

Naturalmente, para tudo o que se disse exemplos não faltariam. Mais vale a surpresa de encontrar, num repente, escrito aquilo que se quis escrever: “encontrar mudo / em olhos sem furto // assim / tudo // toda a matéria / do enigma”. E uma das matérias do enigma, aqui, sem dúvida, é a própria literatura e sua tradição autofágica, de visceral luta entre tribos. Trata-se, sim, de um embate, diria Bloom, de morte: o lance-xeque é matar o pai, demolindo-o. Para além de um mero jogo de palavras, tal simbólico parricídio (a superação do nom do pai) se dá na letra, à força de um não.

Ocioso e sem graça seria agora localizar, de bandeja, algumas das cabeças que em Paisagem circulam. Cada leitor há de reconhecer, com mais ou menos precisão, a presença de Drummond (e como!), Chico Buarque, Caetano, Cabral, Graciliano, Guimarães, Cortázar, Dostoiévski, Bandeira, Baudelaire, Ana C., Clarice, Carroll, Marx, Pound etc. – porque cada um de nós tem um etc. particular, paideuma intelectual e afetivo, que tanto nos irmana quanto nos afasta desse outro, leitor, que (se) amplifica (em) nossa solidão. Entregar-se a Paisagem é como curtir uma aula, no delicioso e ambivalente prazer de uma “excursão” – passeio e digressão, lê-se na Leçon de Barthes.

Atenção, todos: se raro se faz o humor, em Paisagem, impera a paródia, sem chalaça, com sabor de vidro e corte. Quando não a paródia, impera a dor – uma bela “dor Coltrane”. Há um antídoto para a dor, porém, e tem a patente mais clássica e incontornável: atende pelo nome-rima de “amor”, que “é quando a exatidão das coisas cabe no movimento”. (Não resisto e indico outros finos biscoitos: “Escorreu”, na prosa, e, em verso “Na paisagem da cela”.)

Para quem esquece que literatura é trama e vai à cata de temas, pode-se pinçar e catalogar alguns mais, além de dor e amor: a cidade e o deserto, os detritos e as estrelas, espermas e vaginas, e outros mil e muitos mundos e máquinas ad libitum: imagens (nuvens; piano; sangue), gêneros (romance à sorrelfa), máscaras (o discurso feminino e o do subalterno), sentidos (cheiros e toques), atitudes (rebeldia, loucura, suicídio) e que tais. Se o paideuma a dois parágrafos acima dá a ver, basicamente, um leque moderno, o veemente tom contemporâneo com que Paisagem trata dos tais temas é inconteste. (Pode parecer óbvio o dito, mas o que se observa na cena literária pós-moderna é o inverso: referências atualíssimas, up-to-date, mas dicção de ontem, com sabor de fruta mordida. Paisagem estaria, assim, na contracorrente da paisagem do hoje.)

Se fosse segredo, manter-me-ia em silêncio. O fato, no entanto, é que Alexandre Moraes vive, professor e teórico de Letras, de ensinar literatura (ou, como nós, leciona majestáticas mentiras). Isto – a plena consciência do ato de criar – faz com que desconfiemos de que, dizia Nietzsche, seja mesmo o mais autêntico todo este ficto, o mais genuíno todo este entorno a que arte se chama. Só indo em frente, repito, integrando-se aos mundos de Paisagem, como quem se olha na seiva da folha, para saber se.

 Wilberth Salgueiro
agosto/2008