UM TECIDO DE ESTILHAÇOS

 

Casé Lontra Marques

 

O corpo que recebe, em silêncio, a paisagem; que acolhe, nos dentes, seus ritmos, suas imagens; este corpo — às vezes, sólida ausência — está vivo, num entrelaçar de múltiplas coordenadas, numa “população de eixos”, de “paralelas nas estradas soltas pela cara”, mastigando (ruidosamente) uma mudez disseminada por “baralhos/ detritos/ seus carros falas farpas”. Para a experiência da miséria, um dos fenômenos de fundação da literatura brasileira, volta-se a poesia de Alexandre Moraes, desde as suas engrenagens mais delicadas, mais seminais: a experiência de uma miséria não só material, como se faz evidente, mas também existencial (além de política, histórica) — uma miséria que, em incessante deslocamento por espaços tanto físicos quanto subjetivos, não se apreende por inteiro, porque exige das criações que nascem nas suas chagas um esforço de compreensão sustentado pela necessidade de se produzir para respirar. Desse modo, Paisagem sobre corpo em silêncio, livro construído por mãos de cuidadosa sofisticação, distancia-se da poesia desligada de qualquer preocupação de ordem ética; seus poemas, portanto, opõem-se a um charme tanto mais insosso quanto mais avesso aos chiados das vidas, dos objetos, das palavras, dos afetos que se arrastam ao rés do chão.

 

Desde as primeiras tentativas de contato, experimenta-se, em não raros poemas, o movimento de rever, de retocar: um movimento (uma poética) do retornar? — de certa forma, sim: um retornar em invenção de sentidos ainda imprevistos, de códigos não domesticados, nem surpreendidos nem lembrados (como a fazer o verbo acontecer em diversas versões?). Por isso, as séries de referências presentes nos textos não constituem simples homenagens (não existem marcas de um impulso talvez encomiástico, talvez decorativo, comum a produções de volumosa erudição, mas de anêmica criatividade), pois se oferecem a um processo de ressemantização, de reorganização de significados em que os elementos selecionados nutrem um outro organismo literário, cuja voracidade se estende de forma rizomática.

 

Em Paisagem sobre corpo em silêncio, a poesia, “recobrindo em branco todos os poros de cada escala de sol”, propõe-se como meditação constante sobre o amor, sobre o tempo, sobre o corpo no cotidiano, exposto ao “desejo sem paisagem”, ao “destino que/ sem se despir/ se abre”, ao silêncio “que se desenrola dia sobre a noite”, à violência, ao pânico, à suavidade, ao que “não retorna mas torna à casa vazia”. Há dor — “em todas as latitudes do tempo na tempestade do ar”, — uma dor que se propaga, entre tropeços; que ativa a “tormenta” que “se instala na fala”, mas não inutiliza a vivência de uma vontade (também insistente, também cambaleante) cujos “dedos atravancam sem deslizes a metáfora sutil de estar vivo”, sem anular, por exemplo, o amor, que “é quando a exatidão das coisas cabe no movimento”. 

 

Não se precisa, em relação à vida, o domínio nem do júbilo nem da catástrofe, embora subsista, nos poemas, um complexo de ansiedades, de carências, de voragens que se intercomunicam, enquanto se chocam, em conflito, mas também que, em determinados casos, se ignoram, em situação de ácida indiferença. Os textos, distribuídos em partes ora de versos ora de prosa, ofertando à leitura um versátil compósito rítmico, questionam o estar no mundo, o que significa lançar-se tanto ao desejo quanto à laceração, tanto ao pensamento quanto à incompreensão, uma vez que não existem senão como possibilidades de manifestação das intensidades que constituem o humano entendido como um processo — mutável — de faltas, de conflitos, de fomes, de precariedades, impedindo, desse modo, qualquer ilusão (estupidamente asséptica) de pureza, por exemplo, assim como de universalidade.

 

Nesses poemas, busca-se a velocidade (mesmo que retorcendo — outra possibilidade: sobretudo retorcendo — a sintaxe); procura-se, também, a lentidão (propondo, inclusive, a urgência de parar, “insistentemente parar como uma estrela sob os olhos”, “como parafusos líquidos derramados em calor”), com um rigor que não se pontua de maneira a massacrar a dispersão dos signos, porque opta pela expansão do fluxo verbal, recolhendo — no seu curso — retalhos de falas diárias, de músicas, de imagens continuamente reelaboradas, de modo a compor não um traçado estável, mas um tecido de estilhaços que se propõe tanto ao enigma quanto ao diálogo. Alexandre Moraes constrói campos de combate, lugares de discussão em que persiste a vivência do desprazer, num embate — que se apresenta, ainda, como interrogação — com paradigmas (para não dizer efeitos) de realidade, matéria delicada que tem de ser, para se tornar palpável, inventada por quem aceita que “só pode dizer o que nunca será dito”.

 

Não há, portanto, dispositivos estéticos que se dediquem a dissolver a tensão que não corrói, mas funda um real por vezes esquivo às certezas que, assim dizem, ainda nos tranqüilizariam (fazendo impossível, por exemplo, a presença de um sujeito lírico a perguntar se “Tudo se acaba ou nada pode continuar quando continua?”); um real não raro alheio à organização, à rotina dos acontecimentos, das sensações, dos pensamentos, dos contatos, que se cega para aquele que afirma que “Nunca soube o que fazer com essa dor que nem sempre é a minha dor, até mesmo porque a minha dor não existe inteiramente”. As imagens, confeccionadas como parte de um percurso de compreensão em que se aprende principalmente a perguntar, não constituem conceitos, mas desenvolvem-se motivadas por uma máquina conceitual, sem que se crie, com isso, uma espécie já desidratada de paradoxo, pois compõem uma poesia em que a palavra poética — jamais decorativa — estrutura-se também como ato de pensamento, do outro lado de um hábito concentrado em amputar do cotidiano tanto o exercício da reflexão quanto a prática da intensidade.

 

Destacam-se diversas concepções de paisagem no repertório de poemas que compõem o livro, como, por exemplo, aquelas relacionadas — de acordo com uma vontade tanto de entendimento quanto de desorganização — à cidade, à escrita, à memória, à melancolia, à criação; nem todas, no entanto, se projetam — se efetivam — sobre o corpo, tampouco sobre aquilo que o faz existir. No mais, conclui-se que definir a paisagem projetada sobre o corpo como nostálgica, em conformidade com um olhar elegíaco, raquiticamente romântico, seria um duplo equívoco: não há, nos poemas de Alexandre Moraes, nem nostalgia de uma natureza que abrigasse, desvelando, o humano, nem lugar onde uma visão elegíaca pudesse se instalar para repousar a miopia, recordando, em suspensão, um murmúrio de harmonia. A paisagem que dá título ao livro situa-se nas fímbrias, sem uma fronteira que a delimitasse, tornando o corpo (que emudece quando concluído) um movimento possível, constituído por intensidades que fabricam a fala, nem laudatória nem jubilosa, como atitude de luta, de modo a afirmar uma outra prática de respiração.