aragem artificial

 

Virgem sem lábios e sem pernas, desprovida de dentes; a virgem tomada de todo

incêndio a arder de febre. Era a escrava escondida nos desvãos da noite. Nunca sabia

nada sobre o corpo e do que falava, tampouco a respeito das palavras. Engolia suave o

vento das coisas, a marola de todas as drogas que as horas e o sol vão ofertando. Fazia,

sem saber, o sol cegar todos os meus olhos espalhados pela pele. Nunca soube o que

fazer com essa dor que nem sempre é a minha dor, até mesmo porque a minha dor não

existe inteiramente e, se está presente, é muito mais porque a fome, o medo e o

abandono neste apartamento secaram minha boca quase intacta. Chego virgem a tudo na

vida e penso saber alguma coisa, mas apenas a dor e esse silente incêndio me tocam.