manhã

 

café

arrumar a mala do dia

entrar no dia como quem arranca um dente

 

sons por todos os lados

batendo pedra contra a vidraça da manhã,

silêncio e detrito

a poesia desta manhã não enche o copo com o café

 

na manhã

o esmo desterro

preenche as filas falas favelas 

 

voar palavras por todos os lados

o dia:

poesia que ainda lateja?

 

barulhos detritos sons carros falas farpas

de um para outro

tudo é lado

cidade

pedaços soltos palavras  viadutos metrôs

nem atordoado nem atento sem pai sem cálice

café e apenas

a poesia dentro da mala do dia

 

um bêbado sem álcool desamarra um sorriso

canta um samba

dedilha o copo de café

no rosto fotos de um telejornal

pulsações

de um para outro lado nenhum

 

na manhã

o mesmo aterro

preenche as filas facas famílias 

 

um rouco retira os papéis colados no rosto

descobre sem espanto que não tem corpo

desamarra um sorriso

retira de dentro da mala a poesia

 

segue casmurro sem palavra e sem melancolia.