A Esquerda no Século XXI: as lições do Fórum Social Mundial

Boaventura de Sousa Santos

 

Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra

Universidade de Wisconsin-Madison

Universidade de Warwick

 

 

Resumo: Neste trabalho, começo por analisar as razões que

conduziram ao sucesso do FSM, contrastando-as com os

fracassos da esquerda convencional nas últimas décadas.

Tento em seguida responder à questão da sustentabilidade

deste sucesso. Por fim, identifico os desafios colocados pelo

FSM tanto à teoria crítica como ao activismo político de

esquerda.

 

Introdução

 

Muito se tem dito sobre a crise da esquerda, e uma boa parte

tem funcionado como uma profecia que se cumpre pelo simples

facto de ser feita. Quando é posto em causa o hábito de pensar

que a história está connosco – que dominou o pensamento de

esquerda ao longo do século XX – sentimo-nos inclinados a pensar

que a história está irremediavelmente contra nós. A suposta fadiga

mortal da história, expressa na ideia do fim da história, contém a

armadilha de se transformar na fadiga mortal dos homens e

mulheres que fazem a história no seu dia-a-dia. A história não sabe

melhor do que nós para onde se dirige, nem usa homens e

mulheres para atingir os seus fins. O mesmo é dizer que não

podemos confiar mais na história do que em nós mesmos.

Seguramente confiar em nós mesmos não é um acto subjectivo e

descontextualizado do mundo. Durante as últimas décadas, a

hegemonia cultural e política do neoliberalismo deu origem a uma

concepção do mundo que o mostra como sendo demasiado perfeito

para permitir a introdução de quaisquer novidades, ou demasiado

fragmentado para permitir que o que quer que façamos tenha

consequências capazes de compensar os riscos inerentes em

tentar modificar o status quo.

 

Os últimos trinta ou quarenta anos do século passado podem

ser considerados anos de crise degenerativa do pensamento e das

práticas globais de esquerda (Santos, 2005; 2006a). Certamente,

existiram crises antes, mas não eram globais; estavam restringidas

ao mundo Eurocêntrico, que hoje em dia denominamos de Norte

global, e desde 1950 em diante, pareciam superadas pelo sucesso

das lutas de libertação das colónias. Foram, por isso, vivenciadas

como acidentes da história, uma história cuja trajectória e

racionalidade eram a garantia da vitória da esquerda sob a forma da

revolução, socialismo, comunismo. Assim foi vivida a divisão do

movimento operário no início da I Guerra Mundial, bem como a

derrota da revolução Alemã (1918-1923), e depois o nazismo (1933-

1945), fascismo (1922-1943), franquismo (1939-1975) e

salazarismo (1926-1974), os processos de Moscovo (1936-1938), a

guerra civil na Grécia (1944-1949), e mesmo a invasão da Hungria

(1956). Este tipo de crise encontra-se bem caracterizado nos

escritos de Trotsky no exílio. Trotsky apercebeu-se muito

rapidamente da gravidade e ímpeto dos desvios de Estaline à

revolução, ao ponto de se recusar a protagonizar uma oposição,

como lhe propuseram Zinoviev e Kamenev em 1926. Mas nem por

um momento duvidou que a história seguiria a revolução do mesmo

modo que os verdadeiros revolucionários seguiam a história. O

autor que mais brilhantemente retrata este esforço sisífico para

salvaguardar o significado histórico da revolução perante os

excessos mórbidos dos processos de Moscovo é Maurice Merleau-

Ponty em Humanisme et terreur (1947).

 

Nos últimos trinta ou quarenta anos, as crises do pensamento e

práticas de esquerda têm sido de um tipo distinto e têm assumido

duas características principais: assumem-se como tendo um

âmbito global e como sendo sintomas de uma degenerescência

geral e talvez irreversível. As crises são consideradas globais, ainda

que ocorram em diferentes países por razões específicas: o

assassínio de Lumumba (1961); o falhanço de Che na Bolívia e o

seu assassinato (1966); o movimento estudantil de Maio de 1968 na

Europa e nas Américas e a sua neutralização; a invasão da

Checoslováquia (1968); a resposta do imperialismo Americano à

revolução Cubana; o assassínio de Allende (1973) e as ditaduras

militares dos anos de 1960 e 1970 na América Latina; a repressão

brutal da esquerda na Indonésia de Suharto (1965-1967); a

degradação ou liquidação dos regimes nacionalistas,

desenvolvimentistas, e socialistas na África sub-sahriana

resultantes das independências (anos 1980); a emergência de uma

nova/velha direita militante e expansionista, com Ronald Reagan

nos EUA e Margaret Thatcher no Reino Unido (anos 1980); a

globalização da forma mais anti-social do capitalismo, o

neoliberalismo, imposto pelo Consenso de Washington (1989); a

conspiração contra a Nicarágua (anos 1980); a crise no Partido do

Congresso Indiano e a ascensão do Hinduísmo (comunalismo)

(anos 1990); o colapso dos regimes da Europa central e de leste,

simbolizado pela queda do Muro de Berlim (1989); a conversão do

comunismo Chinês na forma mais anti-social de capitalismo, o

estalinismo de mercado (iniciado por Deng Xiaoping no início dos

anos 1980); e por fim, nos anos 1990, a ascensão paralela do

Islamismo político e do Cristianismo político, ambos de natureza

fundamentalista e confrontacional.

 

Além disso, a crise do pensamento e prática de esquerda nos

últimos trinta ou quarenta anos parece ser degenerativa: os

falhanços parecem resultar da exaustão mortal da história, seja

porque a história deixou de ter sentido ou racionalidade, ou porque

o sentido e a racionalidade da história optaram finalmente pela

consolidação permanente do capitalismo. Este último parece

transformado na tradução literal da imutabilidade da natureza

humana. Revolução, socialismo, comunismo, e mesmo reformismo

parecem estar depositados nas gavetas de cima do armário da

história, onde apenas chegam os coleccionadores de raridades. O

argumento neoliberal afirma que o mundo está bem feito e que o

futuro chegou finalmente ao presente para ficar. Este acordo quanto

aos fins é o fundo supostamente incontestável do liberalismo a

partir do qual é possível respeitar e mesmo celebrar a diversidade

de opiniões sobre os meios. Sendo que os meios são políticos

apenas na medida em que estão ao serviço de fins diferentes, não

havendo divergências quanto aos fins, as diferenças a respeito dos

meios de mudança social são técnicas e jurídicas e, portanto,

podem e devem ser discutidas independentemente das clivagens

que ainda restem entre a esquerda e a direita.

 

Contudo, em meados dos anos 1990, a história desta

hegemonia começou a mudar à medida que o lado sinistro desta

hegemonia se foi evidenciando: a intensificação da exclusão, e da

opressão, a destruição dos meios de subsistência de vastas

camadas de população mundial, culminando em situações extremas

onde a inacção e o conformismo são sinónimos de morte. Estas

situações converteram a contingência da história em necessidade

de mudá-la. Estes são os momentos em que as vítimas não se

limitam a chorar a sua condição e, pelo contrário, rebelam-se. As

acções de resistência combinadas com a revolução nas tecnologias

de informação e comunicação que entretanto tiveram lugar,

possibilitaram a realização de alianças em lugares distantes do

mundo e a articulação de lutas através de articulações

locais/globais. O levantamento Zapatista de 1994 representa um

momento importante desta construção, precisamente porque visa

um instrumento da globalização neoliberal, o Acordo Norte-

Americano de Livre Comércio (NAFTA), e porque pretende articular

diferentes escalas de luta, do nacional ao global, das montanhas de

Chiapas à Cidade do México e, daí, a um mundo solidário,

recorrendo a novas estratégias políticas e discursivas e às novas

tecnologias de informação entretanto disponíveis. Em Novembro de

1999, os manifestantes em Seattle conseguiram paralisar a reunião

ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), e mais

tarde muitas outras reuniões do Banco Mundial, Fundo Monetário

Internacional (FMI), da Organização Mundial do Comércio (OMC), e

G-8 (EUA, Inglaterra, França, Itália, Canadá, Alemanha, Japão e

Rússia) foram perturbadas pelos manifestantes de organizações

não governamentais (ONGs) e movimentos sociais apostando na

denúncia da hipocrisia e do carácter destrutivo da des-ordem do

mundo neoliberal. Em Janeiro de 2001, o Fórum Social Mundial

(FSM) reuniu-se pela primeira vez em Porto Alegre (Brasil), e,

desde então, muitos outros encontros se seguiram: fóruns globais,

regionais, temáticos, nacionais, supranacionais e locais.

Assim, uma globalização alternativa à globalização neoliberal

tem vindo a ser gradualmente construída, uma globalização contrahegemónica,

construída a partir de baixo, dos movimentos sociais e

das classes populares. O FSM representa hoje, em termos

organizativos, uma das manifestações mais consistentes da

globalização contra-hegemónica. Como tal, o FSM fornece o

contexto mais favorável para averiguar em que medida uma nova

esquerda está a emergir através destas iniciativas – uma esquerda

verdadeiramente global, com a capacidade de ultrapassar a crise

degenerativa que tem assombrado a esquerda nos últimos quarenta

anos.

 

O FSM é o conjunto de iniciativas de intercambio transnacional

entre movimentos sociais e organizações não governamentais e

respectivas práticas e conhecimentos onde se articulam lutas

sociais de âmbito local, nacional ou global, travadas (de acordo com

a Carta de Princípios de Porto Alegre) contra as formas de exclusão

social, de autoritarismo político e de imposição cultural, geradas ou

agravadas pela presente fase do capitalismo conhecida por

globalização neoliberal.

 

O FSM é um novo fenómeno social e político. O facto de ter

antecedentes não diminui a sua novidade, antes pelo contrário. O

FSM não é um evento, nem uma mera sucessão de eventos, ainda

que procure conferir alguma dramatização às reuniões formais que

promove. Não é um congresso académico, ainda que para lá

confluam os contributos de muitos intelectuais. Não é um partido

nem uma internacional de partidos, ainda que nele participem

militantes e activistas de muitos partidos de todo o mundo. Não é

uma ONG nem uma confederação de organizações não

governamentais, ainda que a sua origem e organização devam

muito às organizações não governamentais. Não é um movimento

social, ainda que frequentemente se auto-designe de movimento

dos movimentos. Apesar de se apresentar como agente da

mudança social, o FSM rejeita o conceito de sujeito histórico, o que

equivale a dizer que não confere prioridade a nenhum actor social

específico neste processo social de mudança. Não obedece a

nenhuma ideologia claramente definida, seja na definição do que

rejeita, seja na daquilo que afirma.

 

Considerando que o FSM se auto-concebe como uma luta

contra a globalização neoliberal, será uma luta contra uma

determinada forma de capitalismo ou contra o capitalismo em geral?

Tendo em conta que o FSM se encara como sendo uma luta contra

a discriminação, a exclusão e a opressão, será que o sucesso desta

luta pressupõe um horizonte pós-capitalista, socialista e anarquista,

ou, pelo contrário, pressupõe que nenhum horizonte seja

claramente definido? Atendendo a que a ampla maioria dos grupos

de militantes que participam no FSM se identificam como apoiantes

de políticas de esquerda, quantas definições de “esquerda” cabem

no FSM? E o que pensar daqueles que recusam ser definidos como

de esquerda ou de direita por considerarem que esta dicotomia é

um particularismo nortecêntrico ou ocidentalcêntrico, e procuram

definições políticas alternativas? As lutas sociais que encontram

expressão no FSM não se ajustam adequadamente a nenhuma das

vias de transformação social sancionadas pela modernidade

ocidental: o reformismo e revolução. Para além do consenso sobre

a não-violência, as suas formas de luta são extremamente diversas

e estão distribuídas num contínuo entre o pólo da institucionalidade

e o pólo da insurreição. Mesmo o conceito de não-violência está

aberto às interpretações mais díspares. Finalmente, o FSM não

está estruturado de acordo com qualquer dos modelos de

organização política moderna, seja ele o do centralismo

democrático, o da democracia representativa ou o da democracia

participativa. Ninguém o representa ou está autorizado a falar e,

muito menos, a tomar decisões em seu nome, ainda que ele seja

concebido como um fórum que facilita as decisões dos movimentos

e das organizações que nele participam.1

 

É possível defender que estas características não são novas,

na medida em que estão associadas ao que se convencionou

chamar “novos movimentos sociais”. Porém, a verdade é que estes

movimentos, quer sejam locais, nacionais ou globais, são temáticos.

Os temas, enquanto campos de confrontação política directa,

obrigam à definição – e, por conseguinte, à polarização – quer no

que respeita às estratégias ou tácticas, quer no que concerne às

formas de organização ou formas de luta. Os temas operam,

portanto, simultaneamente como factores de atracção e de

repulsão. Ora, o que é novo no FSM é o facto de ser inclusivo, no

que diz respeito quer à sua escala, quer à sua temática. O que é

novo é o todo que ele constitui, não as partes que o compõem. O

FSM é global na forma como acolhe os movimentos locais,

nacionais e globais, e no facto de ser inter-temático e até transtemático.

Dado que os factores convencionais de atracção e de

repulsão não operam no âmbito do FSM, isto significa que, ou ele

desenvolve entretanto outros factores fortes de atracção e de

repulsão, ou funciona sem eles, buscando nesse facto a sua força.

 

Por outras palavras, o “movimento dos movimentos” não é apenas

mais um movimento. É um movimento diferente.

O problema dos fenómenos novos é que, para lhes ser feita

justiça, são, em geral, necessárias novas teorias sociais e novos

conceitos analíticos. Posto que nem umas, nem outros emergem

facilmente da inércia das disciplinas, existe um risco considerável

de que essas novidades sejam sub-teorizadas e desvalorizadas.2
O
risco é tanto mais sério quanto o facto de o FSM, dado o seu

alcance e a sua diversidade interna, desafiar não só as teorias

políticas dominantes, como também as várias disciplinas das

ciências sociais convencionais, e ainda a ideia de que o

conhecimento científico é o único produtor de racionalidade política

e social. Dito de outra forma, o FSM levanta não só questões

analíticas e teóricas, mas também questões epistemológicas. Isto

encontra-se expresso na ideia, amplamente partilhada pelos

participantes do FSM, de que não haverá justiça social global sem

justiça cognitiva global.3

Mas o desafio colocado pelo FSM comporta ainda outra

dimensão. Além das questões teóricas, analíticas e

epistemológicas, suscita uma nova questão política: pretende

realizar a utopia num mundo desprovido de utopias. Esta vontade

utópica exprime-se na fórmula: “outro mundo é possível”. Aquilo em

que se aposta não é tanto num mundo utópico, mas num mundo

que permita as utopias.

 

Neste texto, começo por analisar as razões do sucesso do

FSM, contrastando-as com os fracassos da esquerda convencional

nas últimas décadas. Identifico as razões principais em três

condições do nosso tempo: a discrepância entre perguntas fortes e

respostas fraca; a polarização entre a temporalidade das mudanças

urgentes e a temporalidade das mudanças civilizacionais; a relação

fantasmagórica entre as teorias de esquerda e as práticas de

esquerda. Seguidamente procuro responder à questão da

sustentabilidade deste sucesso. Finalmente, analiso os desafios

que o processo do FSM coloca tanto à teoria crítica como ao

activismo político de esquerda.

 

Perguntas fortes e respostas fracas

 

Ao contrário de Habermas (1990), para quem a modernidade

Ocidental é ainda um projecto incompleto, tenho vindo a argumentar

que o nosso tempo é testemunha da crise final da hegemonia do

paradigma sócio-cultural da modernidade ocidental e que, portanto,

é um tempo de transição paradigmática.4 Os tempos de transição

são por definição tempos de perguntas fortes e respostas fracas. As

perguntas fortes dirigem-se não só às nossas opções de vida

individual e colectiva, mas sobretudo às fundações que criam o

horizonte de possibilidades entre as quais é possível escolher. São,

portanto, questões que provocam um tipo particular de

perplexidade. As respostas fracas são aquelas que não atenuam

esta perplexidade, podendo, pelo contrário aumentá-la. As

perguntas e respostas podem variar de acordo com a cultura e a

região do mundo. Contudo, a discrepância entre a força das

questões e a fraqueza das respostas parece ser comum. Deriva da

diversidade contemporânea de zonas de contacto envolvendo

diferentes culturas, religiões, economias, sistemas sociais e

políticos, e modos de vida, resultante do que vulgarmente

denominamos por globalização.5 As assimetrias de poder nestas

zonas de contacto são tão vastas hoje, se não mais ainda, do que

no período colonial, sendo mais numerosas e difundidas. A

experiência de contacto é sempre uma experiência de limites e

fronteiras. Nas condições presentes, é a experiência de contacto

que provoca a discrepância entre as perguntas fortes e as

respostas fracas. Na minha opinião, uma das razões para o

sucesso do FSM reside na disjunção entre perguntas fortes e

respostas fracas. Mas antes de fundamentar esta asserção, é

necessária uma precisão conceptual.

 

Existem dois tipos de respostas fracas. O primeiro tipo é aquilo

que denomino de resposta fraca-forte. Parafraseando Lucien

Goldmann (1966, 1970), esta resposta representa o máximo de

consciência possível de uma dada época. Transforma a

perplexidade provocada pela pergunta forte em energia e valor

positivos. Em vez de assumir que a perplexidade é inútil ou que

pode ser eliminada por uma resposta simples, transforma a

perplexidade num sintoma de complexidade implícita. Assim, a

perplexidade transforma-se na experiência social de um novo

campo aberto de contradições onde existe uma competição

relativamente desregulada entre as diferentes possibilidades. Sendo

os resultados desta competição muito incertos, existe lugar de

sobra para a inovação social e política, logo que a perplexidade seja

transformada na capacidade de viajar sem mapas fiáveis.

 

O outro tipo de resposta fraca é a resposta fraca-fraca.

Representa o mínimo de consciência possível de uma determinada

época. Descarta e estigmatiza a perplexidade como sintoma de um

fracasso na compreensão de que o real coincide com o possível,

valorizando as soluções hegemónicas como um produto “natural” da

sobrevivência dos mais aptos. A perplexidade é, neste caso, vista

como uma debilidade decorrente da recusa em viajar de acordo

com mapas historicamente testados. Porque os mapas não podem

ser questionados, a resposta fraca-fraca convida ao imobilismo e,

portanto, à rendição. Inversamente, a resposta fraca-forte é um

convite para um movimento de alto risco.

 

O sucesso do FSM reside em tratar-se de uma resposta fracaforte

a duas perguntas fortes do nosso tempo. Formulo a primeira

do seguinte modo: se a humanidade é una, porque existem tantas

concepções distintas de dignidade humana e de sociedade justa,

todas presumivelmente únicas, ainda que frequentemente

contraditórias entre si? Na cerne desta questão está o

entendimento, hoje mais inequívoco do que nunca, de que a

compreensão do mundo excede largamente a compreensão

Ocidental do mundo. Uma das mais difundidas respostas fracasfracas

a esta questão é o pensamento e as práticas convencionais

dos direitos humanos os quais banalizam a perplexidade,

postulando a universalidade abstracta da concepção de dignidade

humana subjacente aos direitos humanos. O facto de esta

concepção ser baseada em pressupostos ocidentais é considerado

irrelevante, já que a historicidade dos direitos humanos não interfere

com o seu estatuto ontológico. Do mesmo modo, é irrelevante que

muitos movimentos sociais nas suas lutas contra a injustiça e a

opressão não formulem as suas demandas em termos de direitos

humanos, e que frequentemente as definam em termos que

contradizem os princípios convencionais dos direitos humanos. A

flecha do tempo linear assegura-nos de que estamos perante

movimentos retrógrados ou pouco esclarecidos.

 

A esquerda convencional abraçou incondicionalmente esta

resposta fraca-fraca, particularmente no Norte global. Por esta

razão, deixou de poder ver muitas das novas realidades e

experiências que estão a ocorrer nos países do Sul global. Refirome

a movimentos de resistência que têm vindo a emergir e a

florescer contra a opressão, marginalização e exclusão cujas bases

ideológicas nada têm a ver com aquelas que foram referência para

a esquerda ao longo do século XX (marxismo, socialismo,

desenvolvimentismo, nacionalismo anti-imperialista). Estão, por

vezes, enraizados em identidades históricas e culturais

multisseculares, e/ou em militância religiosa. Não é de surpreender,

portanto, que seja difícil situar tais lutas na clivagem entre esquerda

e direita. O que é realmente surpreendente é o facto de a esquerda

hegemónica como um todo não possuir instrumentos analíticos que

lhe permitam posicionar-se em relação a elas, e que não considere

prioritário fazê-lo. Tende a aplicar genericamente a mesma receita

abstracta dos direitos humanos, esperando, dessa forma, que a

natureza das ideologias alternativas e universos simbólicos sejam

reduzidos a especificidades locais sem qualquer impacto no cânone

universal dos direitos humanos. Sem pretender ser exaustivo,

menciono apenas três destes movimentos, com significados

políticos muito distintos: os movimentos indígenas, particularmente

na América Latina; a “nova” reemergência do tradicionalismo em

África; e a insurgência do Islão político. Apesar das enormes

diferenças entre eles, estes movimentos comungam do facto de

provirem de referências políticas não-ocidentais e de se

constituirem como resistência ao domínio ocidental. As dificuldades

de avaliação política experimentadas pela esquerda derivam, por

um lado, do fracasso em projectar uma sociedade futura alternativa

à sociedade capitalista liberal e, por outro lado, do universo cultural

e epistémico nortecêntrico ou eurocêntrico que a tem vindo a

dominar.

 

Na minha opinião, o FSM é até ao momento a resposta fracaforte

mais convincente. Apesar das suas limitações e das críticas

internas e externas, o FSM tem-se estabelecido de forma credível

como um espaço aberto global, um ponto de encontro para os mais

diversos movimentos e organizações, provenientes dos lugares

mais díspares do planeta, e das lutas mais diversas, expressandose

numa Torre de Babel de línguas, ancorados em filosofias e

conhecimentos ocidentais e não-ocidentais, propondo diferentes

concepções de dignidade humana, apelando a uma enorme

variedade de outros mundos possíveis. O FSM não responde à

questão do porquê de tal diversidade, nem às questões do para

quê, ou sob que condições ou em benefício de quem. Mas foi bem

sucedido na tarefa de tornar esta diversidade mais visível e mais

aceitável pelos movimentos e organizações, fazendo com que estes

se tornassem mais conscientes do carácter incompleto ou parcial

das suas lutas e das filosofias políticas que lhes subjazem. Por esta

via, o FSM criou uma necessidade nova de inter-conhecimento, de

inter-reconhecimento e de interacção e, de facto, tem promovido

coligações entre movimentos até agora separados pelo

desconhecimento mútuo ou por suspeições recíprocas. Em suma,

transformou a diversidade num valor positivo, numa fonte potencial

de energia para a transformação social progressista.

O sucesso do FSM reside no facto de celebrar uma diversidade

que até agora não pôde ser adequadamente teorizada nem

convertida em motor de uma acção colectiva de transformação

social progressista globalmente coerente e localmente ancorada.

De certo modo, o FSM representa o máximo de consciência

possível do nosso tempo. Dialecticamente, a sua fraqueza (a não

discriminação entre soluções diversas) não pode ser separada da

sua força (a celebração da diversidade como um valor em si

mesma) e vice-versa. O FSM é tão transitório como o nosso tempo

e chama a atenção para as possibilidades latentes desta transição.

Nisto reside o seu sucesso.

 

A segunda pergunta forte para a qual o FSM fornece uma

resposta fraca-forte pode ser formulada deste modo: Existe neste

mundo lugar para a utopia? Existe realmente uma alternativa ao

capitalismo? Depois do fracasso histórico de tantas tentativas de

construção de uma sociedade não capitalista, com consequências

tão trágicas, não deveríamos buscar alternativas dentro do

capitalismo em vez de alternativas ao capitalismo? A perplexidade

causada por esta questão reside em dois factores. Primeiro, na

teoria da história que lhe está subjacente. Se tudo o que existe na

história é histórico, ou seja, tem um princípio e um fim, porque razão

deveria o capitalismo ser diferente? Segundo, a perplexidade

provém de alguns factos perturbadores. Não existirá alternativa

para um mundo em que 500 dos indivíduos mais ricos detêm um

rendimento semelhante ao rendimento somado dos 40 países mais

pobres, com uma população de 416 milhões de pessoas, e onde a

catástrofe ecológica é uma possibilidade cada vez menos remota?

Devemos assumir como um facto inevitável que os problemas

causados pelo capitalismo só poderão ser resolvidos por mais

capitalismo, que a economia altruísta não é uma alternativa credível

à economia do egoísmo, e que a natureza não merece outra

racionalidade que não seja a irracionalidade com que é tratada pelo

capitalismo?

 

A crise das políticas de esquerda dos últimos trinta ou quarenta

anos deriva em parte das respostas fracas-fracas que a esquerda

convencional tem dado a esta questão. A concepção de uma

sociedade alternativa e a luta para a tornar possível foram a coluna

vertebral da teoria crítica e das políticas de esquerda ao longo do

século XX. Esta concepção, embora vaga, foi suficientemente

consistente para servir como critério de avaliação das condições de

vida da classe trabalhadora, grupos sociais excluídos e vítimas de

discriminação. Com base nesta visão alternativa e na possibilidade

credível de a realizar, foi possível avaliar o presente capitalista

como violento e moralmente repugnante. A força do Marxismo

reside na sua capacidade única de articular um futuro alternativo

com uma forma oposicionista de viver o presente.

 

Nas últimas décadas, contudo, o neoliberalismo conservador

tornou-se de tal modo dominante que as políticas de esquerda,

particularmente no Norte global, se dividiram em dois campos,

paradoxalmente nenhum deles verdadeiramente de esquerda. Por

um lado, temos aqueles que tomaram a erradicação da ideia de

uma sociedade alternativa como uma derrota de tal modo

devastadora que só restaria espaço para o velho centrismo talvez

agora dominado por uma direita “mais iluminada” (políticas de

alianças antes julgadas impensáveis); por outro lado, temos os que

viram na ausência de uma alternativa a oportunidade para legitimar

e encorajar um novo centrismo, agora dominado pela esquerda (a

terceira via do partido trabalhista no Reino Unido e os seus

desenvolvimentos na América Latina). Qualquer destes dois

campos ignora a perplexidade provocada pela pergunta, negando

qualquer razão para ela.

...

 

 

1 Para uma melhor compreensão do carácter político e dos objectivos do Fórum Social Mundial,

ver a Carta de Princípios, em http://www.forumsocialmundial.org.br.

2 Um dos exemplos mais paradigmáticos é a hubris conceptual, aliada a um positivismo estrito,

da principal corrente da sociologia dos movimentos sociais nos EUA (McAdam, McCarthy, Zald,

1996; McAdam, Tarrow, Tilly, 2001).

3 Sobre o conceito de justiça cognitiva global ver Santos, 2003.

4 Ver Santos, 1995 e 2000.

5 Sobre os processos de globalização ver Santos, 2002.