Texto redigido por Francisco Whitaker, que acompanha o vídeo “Conversando com Chico Whitaker – Sobre Redes”, das Edições Paulinas.

 

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A palavra "Rede" pode ser usada com muitos sentidos: rede de pescar, rede de dormir, rede de TV, rede de estradas, rede de comunicação - como a Internet, rede de supermercados...

Nesta nossa conversa, vou usá-la num sentido mais limitado: a rede como forma de organização de pessoas ou entidades que trabalham juntas.

Usar a palavra rede nesse sentido mais limitado é uma certa novidade. É um conceito novo que está se firmando. De uns tempos para cá, cada vez mais movimentos e entidades se apresentam como "redes".

Mas nem todos que se apresentam como redes poderiam de fato se chamar redes. Organizam-se como sempre e seguem a moda: mudam seu nome. É pena que isso ocorra, mas é natural. Esse novo conceito ainda não é muito preciso. Está sendo construído pouco a pouco.

O objetivo deste texto é apresentar o que haveria de novo numa organização em rede. Quais suas vantagens, como surgiu essa idéia, porque e em que situações valeria a pena organizar-se em rede. E como organizar-se em rede. Espero que lhes seja útil.

 

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Sempre que um grupo de pessoas ou de entidades se dispõem a trabalhar juntas, visando realizar um determinado objetivo, elas precisam se organizar: dividir responsabilidades e funções, estabelecer regras de comunicação e decisão.

O modo mais tradicional, mais comum, de nos organizarmos é em pirâmide.

O que é uma pirâmide? Um conjunto de planos superpostos que vão diminuindo de tamanho à medida que se superpõem. Ou um conjunto de objetos colocados uns sobre os outros, seu número diminuindo à medida em que a construção vai subindo. Como as pedras dos túmulos dos faraós do Egito.

A pirâmide tem portanto uma base, tanto maior quanto mais alta ela for, seu topo podendo chegar a ser somente um ponto.

Organizar-se em pirâmide significa que definimos responsabilidades e poder de decisão afunilando-os. Os níveis de responsabilidade se superpõem e se estabelece uma hierarquia de poder entre esses níveis: quanto mais se sobe na pirâmide menor é o número dos que lá se encontram e mais se concentram as responsabilidades e o poder, quanto mais se desce as responsabilidades e o poder, que se tornam cada vez menores, são distribuídos a mais gente.

 

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Ao nos organizarmos em pirâmide, estamos na verdade imitando nossa sociedade, em que quase tudo é estruturado em pirâmide.

Por exemplo a pirâmide da riqueza: em baixo os mais pobres - muitos - em cima os mais ricos - poucos;

- a pirâmide do saber diplomado: em baixo a massa dos que não tem nenhum diploma, ou só tem o do primário; lá em cima os cientistas e professores de universidade, em número muitíssimo menor;

- a pirâmide do poder político - os vereadores e prefeitos, muitos, em baixo, os deputados estaduais em menor número, os federais, os senadores, o Presidente da República, os Presidentes dos parlamentos, dos Tribunais lá no alto;

- os governos, com a massa de funcionários em baixo e, em número progressivamente menor, os subchefes, os chefes, os diretores, os secretários, o Prefeito na pirâmide municipal, ou o Governador, na estadual, ou o Presidente, no governo federal.

 

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A estrutura piramidal não é, no entanto, necessariamente, um bom modelo a imitar. Ela estabelece desigualdades que nem sempre têm razão de ser.

É o que acontece, por exemplo, com a pirâmide da riqueza. Os de cima têm muito e chegamos a chamar os lá de baixo de excluídos. Os excluídos do acesso aos bens que se consegue com dinheiro, porque muitas vezes nem chegam a ter dinheiro...

Quanto mais desigualdade e concentração de renda, mais disforme é a pirâmide social. Neste nosso Brasil em que convivem a opulência e a miséria, com uma enorme distância entre o ganho dos ricos e o dos pobres, nossa pirâmide social é um desastre. Uma enorme base, que vai se afunilando, com cada vez menos gente se distanciando dessa base e concentrando cada vez mais riqueza.

Uma sociedade justa e igualitária como a que todos nós desejamos não seria estruturada em pirâmide. Ou pelo menos os níveis de renda teriam que estar tão próximos uns dos outros que a pirâmide social seria bastante achatada.

Mas isso é assunto para outro texto. Estamos tratando aqui da forma de nos organizarmos, em nossas atividades e ações. E dessa novidade que são as redes.

 

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Enquanto forma de nos organizarmos, as pirâmides, ao concentrarem sempre mais o poder à medida em que se sobe nos seus diversos níveis, criam duas dinâmicas perversas: a da dominação e a da competição. A dominação para manter o poder. A competição para chegar ao poder.

 

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Quando o poder se concentra em pirâmide, os de cima tendem a achar que podem e devem controlar tudo, e mandar e desmandar nos que estão em baixo.

Nem sempre é porque gostem de mandar e desmandar - o chamado gosto do poder, com a vaidade que sempre o acompanha. Pode ser porque os de cima, na melhor das intenções, têm medo de que os de baixo deixem de fazer o que devem fazer, e os objetivos que perseguem deixem de ser realizados.

Mas outras vezes o que eles têm mesmo é medo de pagar o pato pelo que acontecer. E com isso perder seu lugar... Como também podem ter medo de que os de baixo tentem lhes tomar o poder.

É quando a dominação se instala. E quem domina faz tudo que pode para aumentar seu poder, para concentrar cada vez mais poder. Para dominar cada vez mais. Para se defender.

 

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Quanto aos de baixo, eles também podem querer mais poder do que aquele de que dispõem no nível em que se encontram. Muitas vezes também na melhor das intenções, porque acham que suas idéias são melhores do que as idéias dos que estão mandando. Ou porque querem escapar da dominação. Ou porque querem conseguir, quem sabe, todo o poder... .

Qualquer que seja a motivação, para eles o que passa a interessar é subir na pirâmide. Degrau por degrau. Devagar, ou muito depressa, se se está com muita sede de mais poder, de um dia passar a ser quem domina... Como acontece na luta por ter cada vez mais riqueza. Ou cada vez mais poder político. Acotovelando quem tenta passar na frente. Derrubando, empurrando para baixo quem está ameaçando pelos lados. Pisando e esmagando quem está no degrau inferior. Procurando agradar quem está no degrau de cima, para ver se ele nos puxa para cima. Procurando sempre "levar vantagem". Vivendo em função de chegar no topo. Competindo, competindo.

 

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Ninguém ousa justificar a dominação. Mas há os que acham que a competição é necessária, que ela é o próprio motor do desenvolvimento. Pode ser...

Mas convenhamos que um mundo em que prevalecem as dinâmicas de dominação e de competição, criadas pela organização em pirâmide, não é o melhor dos mundos para se viver. Pelo contrário. Elas só geram desigualdade e exclusão.

Ora, a rede é um tipo de organização alternativa à organização em pirâmide, com a qual esses problemas podem ser evitados, pelo menos no interior de nossas organizações.

 

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O que seria então uma organização em rede?

As redes de que sempre falamos - redes de pescar, redes de dormir - nos dão uma idéia do que pode ser uma organização em rede. Essas redes são um tecido, mais ou menos denso, feito de mais ou menos fios que se entrelaçam uns com os outros. Uma malha, que se espalha onde seja posta, que não pode ficar de pé - a não ser que seja pendurada em algum gancho que a sustente.

A organização em rede também se espalha horizontalmente. Ela é portanto totalmente diferente da organização em pirâmide, com sua base e sua cúpula. Não há hierarquia de importância entre os que a compõem. Há diferentes tipos de poder, diferentes tipos de responsabilidade e funções diversas. Mas todos os seus membros estão no mesmo nível, em termos de poder.

Muitas das redes que se dizem redes na verdade não são redes exatamente porque estão dependuradas num gancho: elas têm um dono, um líder, um chefe...

 

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Para compreendermos melhor o que se pretenderia com as redes, será útil lembrar onde e como elas surgiram.

Nos anos 60 - mais exatamente em 1968 - no mundo todo começou uma reação - que parecia nascer das suas próprias entranhas - aos diferentes tipos de dominação que estavam esmagando as pessoas. E ela veio principalmente dos jovens.

No Brasil era a ditadura militar que começava a esmagar liberdades. Mas o mesmo tipo de mobilização aconteceu aqui, nos Estados Unidos, no Japão, na Alemanha, em diferentes situações. Todas essas lutas tinham algo em comum: a reação dos jovens contra diferentes tipos de autoritarismo.

 

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A que ficou mundialmente mais conhecida foi a da França. Foram os famosos acontecimentos de maio de 68. Como um rastilho de pólvora, as manifestações de rua se estenderam por toda a parte, paralisando o país por quase um mês.

Uma das frases que os jovens pintaram nos muros de lá, e que se espalharam por todo o mundo, era: "é proibido proibir". Foi uma espécie de sonho libertário, que mobilizou milhões de pessoas. Nasceu na Universidade de Paris, contra a prepotência dos que eles chamavam de "mandarins" - os professores donos das cátedras e do saber, que impunham autoritariamente seus desejos e vontades. Mas em todos os lugares se instalaram assembléias para discutir como fazer para se viver e trabalhar mais democraticamente, com mais liberdade, criatividade, gratuidade, respeito mútuo. No fundo, com mais felicidade.

Foi uma espécie de greve geral, combinada com uma discussão generalizada sobre suas próprias razões. Um movimento sem comando mas assumido por todos que sentiam a necessidade de reagir, de rever tudo.

 

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Mas é óbvio que os dominadores de então ficaram assustadíssimos. Era o risco de seus impérios ruírem. E deram um basta, depois de um tempo de surpresa.

No Brasil o Ato Institucional no. 5 implantou claramente a ditadura militar. Na França e em outros lugares, os que antes controlavam as coisas retomaram o controle de tudo, naturalmente com algumas mudanças de método, com um pouco de democracia...

 

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Mas na boca dos que participaram daquela mobilização toda ficou um gosto de coisa boa. E a pergunta: o que nós mesmos criássemos não poderia ser de fato diferente?

Daí nasceu a idéia de rede como forma de organização das nossas próprias atividades. Uma organização horizontal, sem comando nem mando, sem hierarquias nem exclusões, sem imposições nem proibições, na base da co-responsabilidade e da cooperação, e não da competição e do interesse pessoal.

 

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Ou seja, em vez de nos organizarmos piramidalmente com o poder se concentrando, articular horizontalmente o poder de todos. Uns ajudando os outros a ter cada vez mais poder, não uns sobre os outros, mas ao serviço uns dos outros. Superando o exercício do poder como dominação - o poder-dominação - para se passar ao exercício do poder como serviço - o poder-serviço.

Construindo o poder conjunto de todos. Que será necessariamente muito maior do que o poder concentrado de alguns. Sonhando até em ter um dia um poder conjunto capaz de mudar a sociedade como um todo. Acabando de vez com suas pirâmides da desigualdade, respeitando a dignidade de todos. Construindo verdadeiras democracias.

 

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Foi então que nos anos 70 - depois que esfriou a febre dos movimentos de 68 - que começaram a surgir pelo mundo afora diferentes tipos de rede - de "nets", como diziam os de língua inglesa, de "reseaux", como diziam os de língua francesa. Palavras que hoje já estão no vocabulário de todos.

 

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Na verdade essa idéia não era totalmente nova. Já na natureza as coisas se organizam em rede. Desde os átomos e as moléculas, tudo vai se juntando em tecidos interdependentes. E o poder-conjunto das bactérias que se multiplicam horizontalmente é tão forte que pode ser fatal ao organismo que estejam infestando.

Os vírus, as ervas e os insetos daninhos se espalham horizontalmente, e indefinidamente, enquanto outras ervas ou animais não restabelecem, como anti-vírus, o equilíbrio natural em que há lugar para todos.

Na natureza esse equilíbrio horizontal é além do mais condição de sobrevivência. O segredo da boa ecologia é agir dentro do próprio sistema, sem violências nem corpos novos que afastem o que não precisa ser afastado nem eliminem para sempre o que o está prejudicando. Doses de veneno ou outros corpos artificiais, mais ainda se concentradas, podem destruir todo o sistema. E para sempre.

 

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Mas não é só na natureza que existem redes, e que as redes são condição de continuidade da vida. Em geral nas famílias que vão bem, nas nossas pequenas comunidades de vizinhança que já não lutam ferozmente para sobreviver, vivemos em redes. Redes de ajuda mútua - em que trocamos reciprocamente favores, bens, saberes, conselhos, serviços.

Mais além das redes que usam para dormir e descansar, nossos índios nos ensinam a nos organizarmos em rede.

Quando a fraternidade prevalece, todos por um, um por todos, ficamos na horizontalidade da cooperação. Quando a autoridade de alguns se impõe pela experiência e pela sabedoria, e não pela eliminação do oponente ou pela esperteza, ela passa a ser uma ajuda e não um empecilho ao crescimento humano de todos. Quando todos dependem uns dos outros mas ninguém explora em seu benefício a dependência do outro, abre-se o caminho para a autonomia co-responsável de todos. A vida baseada na confiança mútua fica mais tranqüila, sem sobressaltos - ou assaltos... Quem está querendo roubar meu poder, o pobre poder sobre o pouco que controlo para mim? .

 

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Esse seria de fato o nosso mundo, se prevalecesse a sensatez. Com menos enfartes e menos úlceras - ou menos stress, como se diz hoje em dia. Mais parece outro mundo, tão diferente ele é daquele em que vivemos... Imaginem o quanto nossas organizações ganhariam se se organizassem efetivamente em rede...

 

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Mas as pirâmides não enfrentam somente o problema das dinâmicas perversas da dominação e da competição que elas criam, e que podem fazê-las desmoronar inteiramente, como se fossem de barro. Como estrutura de organização, elas enfrentam também outros tipos de problemas, que as fragilizam afetando seu próprio funcionamento e eficácia. E que as redes também resolveriam.

São os problemas que decorrem do modo como nelas circulam as informações.

 

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Toda organização exige que aqueles que dela participem se comuniquem entre si. Isto é essencial para que ela funcione. Numa pirâmide essa comunicação é vertical: da direção à base e da base à direção.

As decisões sobre o trabalho de todos são tomadas na direção, e dela saem as diretrizes, as orientações, as instruções, as ordens. Elas descem pelos diferentes degraus da pirâmide, distribuindo-se em todo o seu corpo através dos responsáveis de cada escalão.

Ora, na base das pirâmides se encontram aqueles que vão executar as ordens e instruções no contato direto com a realidade. Eles conhecem portanto melhor do que ninguém essa realidade. A direção de uma organização em pirâmide que queira errar menos baseia suas decisões em informações de diferentes tipos e origens, mas dá uma importância especial àquelas que venham da base da pirâmide. Cria-se com isso, antes de se tomar as decisões, um fluxo igualmente vertical de informações, de baixo para cima, degrau por degrau, para alimentar o processo decisório da direção.

Da mesma forma, uma direção sensata de organização em pirâmide procura recolher, dessa mesma base, sua avaliação do que ocorreu com a ação decidida, dos resultados obtidos, das dificuldades encontradas. Cria-se com isso, depois da ação realizada, um segundo fluxo vertical de informações, de baixo para cima, que alimentará as novas decisões a serem tomadas, que descerão pirâmide abaixo.

 

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Há pirâmides mais e menos rígidas, mais e menos disciplinadas. Nas mais rígidas e disciplinadas - como a dos exércitos e a de partidos organizados como exércitos - esses fluxos de ida e volta são regulamentados em detalhe, não se admitindo de forma alguma que se pulem degraus, ou que as ordens e informações deixem de passar por todos os níveis de poder e responsabilidade que deveriam percorrer.

Isto exige o respeito a procedimentos burocráticos e a implantação de sistemas que controlem os fluxos. Ora, burocracia e controle diminuem a velocidade dos fluxos e podem diminuir a eficiência da ação. Além disso, aumentam os custos de funcionamento da organização.

Mas os problemas não param aí. Por vezes os canais por onde deveriam passar as informações se entopem. E nem as decisões chegam a quem deve executá-las, nem a boa informação - antes ou depois da ação - chega a quem deve decidir. Há lugar até para sabotagens.

Aí a pirâmide pode começar a fazer água. Direções se distanciam das bases, bases começam a não querer obedecer às diretrizes das direções e se desmotivam. .

 

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Como circulam as informações numa rede?

Horizontalmente, como a própria rede. Estabelece-se não uma comunicação, mas uma intercomunicação. Os fios que ligam entre si os nós de uma rede são os canais pelos quais transitam as informações.

Não há um nó central, para o qual todas as informações devem convergir e do qual todas as informações devem sair. Um tecido desse tipo já não é uma rede, mas um conjunto de fios independentes um do outro, amarrados num só ponto.

Numa rede, de cada nó saem as informações em todas as direções que ligam esse nó aos demais nós que estão em torno dele, e destes aos outros nós do resto do tecido.

Pode haver também entupimentos, numa rede. Mas como os canais não são únicos, a informação que não chegou a um determinado nó porque o canal em que ela transitava entupiu, chegará a esse mesmo nó pelos outros canais que o ligam aos demais.

 

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Uma organização em rede ganha dessa maneira uma característica bem diferente da pirâmide, naquilo que é essencial a toda organização: o fluxo de informações em seu interior.

Não há informações que poderosos guardam para si, para dominar os demais. Nem há informações que insatisfeitos escondam, para prejudicar os que dominam. Pelo contrário, todos sabem de tudo, todos recebem todas as informações que circulam na rede. E todos tem igual responsabilidade de fazer o que acham que devem fazer frente a determinadas informações que lhes cheguem.

A desconcentração do poder é condição de verdadeira democracia. O livre fluxo de informações é condição para se assegurar a transparência. Ambos são valores essenciais do mundo novo que todos queremos construir.

 

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Mas a realização de uma ação conjunta não depende somente de fluxos diversos de informação. Ela exige que se definam objetivos e estratégias para realizar esses objetivos, assim como implica em organizar a ação daqueles que vão dela participar. Isto não exigiria comandos, chefias, ordens, ou pelo menos distribuição piramidal de responsabilidades e poder?

Frente a isso as redes têm também algo de novo a oferecer.

 

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As ações desenvolvidas pelos participantes de uma rede não resultam de decisões tomadas por dirigentes, porque estes não existem.

Numa rede, cada ação resulta de uma proposta que nela circula e que é assumida por aqueles que considerem que essa proposta é válida e viável e se dispõem a assumi-la. Cabe a eles então se organizarem para agir, e até precisar melhor os objetivos e discutir estratégias alternativas para realizá-los efetivamente.

Eles deverão se organizar de forma a que a distribuição de responsabilidades fique bem definida e para que a ação não se dilua por falta de clareza nas atribuições de cada um. Não haverá chefias, mas poderá haver coordenações, modos transparentes de tomada democrática de decisões, controles coletivos sobre o que está sendo feito, avaliações sistemáticas dos resultados que vão sendo obtidos, animadores, facilitadores.

A novidade é que aqueles que estão agindo o fazem não porque receberam ordens mas porque estão comprometidos com o que deve ser feito. Foram eles que assumiram a ação proposta e decidiram participar. Ninguém lhe impôs nada, como pode ocorrer nas organizações em pirâmide. Escolheram, como sujeitos de seus compromissos e seu tempo pessoal. Engajaram-se naquela ação.

 

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Esta forma de organizar ações com participantes de uma rede implica em que todas as propostas que estes façam possam circular pela rede de forma livre.

Numa rede ninguém pode se colocar como censor, organizador, hierarquizador, julgador de informações e propostas que sejam nela lançadas. Todos têm o mesmo direito de informar e propor, ninguém têm o direito de limitar ou direcionar as propostas. Nem mesmo de classificar informações e propostas.

O critério para excluir propostas sem sentido é a própria resposta que recebam dos participantes da rede. Se ninguém ou poucos assumirem determinada proposta, é porque ela era inoportuna ou inviável.

Em compensação, aquele que lançar propostas na rede tem que se dispor a pelo menos participar de sua implementação. Ou até mesmo a ser seu animador principal.

Assim como aquele que fizer circular informações falsas ou prejudiciais a outros terá que assumir a responsabilidade pelo que fez.

 

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De tudo que foi dito até agora fica evidente que, numa perspectiva de transformação social, a organização em rede tem muitas vantagens sobre a organização em pirâmide. Ela assume radicalmente alguns valores fundamentais de uma sociedade efetivamente nova: a liberdade, a co-responsabilidade, o respeito mútuo, a igualdade, a democracia, a transparência.

Há organizações que ganhariam muito se pudessem se estruturar em rede. É o caso de campanhas ou de movimentos sociais que precisem crescer sempre mais e que dependam da ação de militantes e não de funcionários.

Quando mais o êxito de uma ação depende da adesão militante dos que a realizarão, da livre adesão a uma causa, mais vantajoso será organizá-la em rede. Ações com pessoas livremente engajadas na realização de seus objetivos são muito mais fortes do que ações decididas de cima para baixo, por mais democraticamente que isto possa ser feito.

 

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Algumas campanhas recentes que se desenvolveram no Brasil não teriam atingido seus resultados se tivessem sido organizadas em pirâmide: a da participação popular na elaboração da Constituição brasileira, na década de oitenta. Na década de noventa a ação da cidadania contra a fome e a miséria, a coleta de assinaturas na iniciativa popular de lei contra a corrupção eleitoral, o plebiscito sobre a dívida externa do Brasil.

Na primeira dessas campanhas, foram apresentados ao Congresso Nacional 122 emendas populares, subscritas por doze milhões de eleitores. Os Comitês da Ação da Cidadania se espalharam rapidamente por todo o Brasil. A Iniciativa Popular de Lei contra a corrupção eleitoral recolheu um milhão de assinaturas de eleitores, e no plebiscito sobre a dívida exprimiram sua opinião seis milhões de pessoas.

Em qualquer desses casos, as propostas que originaram essas campanhas circularam por múltiplas redes formais e informais, e foram assumidas por aqueles que nelas acreditaram, sem que ninguém impusesse nada a ninguém.

 

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Mas é certo também que nem sempre se pode cogitar de organizar-se em rede. A questão que se coloca, portanto, não é a de escolher ou rede ou pirâmide, ou uma ou outra. Depende. Uma não exclui a outra.

Na verdade há muitas situações em que não se tem remédio. Temos mesmo é que nos organizar em pirâmide. Não há saída. Nesses casos, o que se tem que fazer, é cercear suas dinâmicas perversas, nelas introduzindo o respeito aos valores que as redes radicalizam. É possível também organizar pirâmides que funcionem democraticamente.

 

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Nas sociedades complexas em que vivemos no mundo de hoje somos obrigados a delegar nosso poder político, de cidadãos - a quem pertence de fato todo o poder político - a um número menor de outros cidadãos. Não dá para decidirmos tudo em assembléias gerais de toda a nação. Temos que dar a esses cidadãos, que deveremos eleger em plena liberdade - regra democrática básica - o poder de decidir em nosso nome, como nossos representantes, sobre uma série de assuntos de interesse coletivo.

Podemos e devemos exigir deles que suas decisões sejam tomadas com transparência. Podemos e devemos cercá-los de controles, inventar instrumentos como o plebiscito ou o referendo para que eles nos consultem em questões mais cruciais. Podemos exigir que nos prestem contas, sistematicamente, do que estão decidindo e fazendo. Podemos até tirar deles a delegação que lhes demos quando acharmos que não estão nos representando como deveriam - nas eleições seguintes ou por algum outro instrumento de que ainda não dispomos no Brasil - a não ser a pressão das ruas...

Podemos exigir que, por exemplo nos parlamentos, as decisões sejam tomadas segundo a vontade da maioria, e que as regras para o funcionamento do processo de tomada de decisões sejam democráticas e plenamente respeitadas. Mas temos que aceitar a pirâmide do poder político que delegamos - municipal, estadual, federal.

 

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Temos também que aceitar que a máquina administrativa a ser gerida pelos governantes que elegermos se organize como uma pirâmide. As decisões do Presidente, do Governador ou do Prefeito têm que ser respeitadas pelos Secretários, pelos Diretores, pelos Chefes e Sub-chefes, de cima para baixo. Cabe a eles serem democráticos na sua forma de decidir, ou de fazer com que seja respeitada a autoridade que o povo lhes deu.

Mas a democracia exige que essas decisões, como a dos representantes que elegemos para os parlamentos, sejam transparentes e controláveis, sem desvios de recursos públicos e sem beneficiar interesses particulares em prejuízo do conjunto ou da maioria. O povo não escolhe ou elege os funcionários dos governos. Ele escolhe só o chefe geral em cada nível: o Prefeito, o Governador, o Presidente. Mas pode exigir, junto ao chefe geral, que os funcionários que eles chefiam respeitem o interesse coletivo e trabalhem pela efetivo atendimento desses interesses.

Numa democracia mais exigente deveria haver processos de participação, nas próprias decisões a serem tomadas, de todos os que sejam por elas atingidos ou estejam nelas interessados - é a chamada democracia participativa.

 

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O mesmo ocorre com os partidos, os sindicatos. Inclusive porque, numa sociedade, os interesses são sempre conflitantes, será sempre preciso negociar, e serão só os representantes desses interesses que se encontrarão para essas negociações, não a massa de sindicalizados ou de militantes partidários.

Quando a população se mobiliza e se reúne diante de uma sede de governo, para reivindicar algo, as negociações só começam quando um grupo de representantes dos manifestantes entra na sede de governo para apresentar suas reivindicações. Não dá para entrarem todos. A dinâmica das negociações exige a constituição de pirâmides de representatividade. Inclusive uma certa continuidade na representação, para que se possa avançar mais rapidamente nas negociações.

 

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Também aqui a democracia também exige transparência, prestação de contas, delegação de responsabilidades por eleição, para que a vontade da maioria seja efetivamente respeitada.

Para que não haja traições podemos inventar sistemas como por exemplo o de alto-falantes transmitindo para a massa de manifestantes as negociações em curso dentro dos palácios. Isto já foi experimentado na Polônia. Mas a palavra dentro dos palácios, ainda que assim reforçada e controlada, será a dos representantes.

 

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A organização militar é o exemplo acabado de estrutura que só pode ser piramidal. Na verdade esse é um exemplo negativo, que mais nos levaria a não querermos nos organizar em pirâmides, que um dia teria que desaparecer, assim como queremos que não haja mais guerras no mundo.

Nos exércitos a disciplina tem muito a ver com crueldade, mas é condição de eficácia. A obediência tem que ser cega. Como nas máfias - outro exemplo negativo de pirâmides - os que desobedecem podem ser castigados até com a perda da vida.

 

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Numa organização militar o segredo da informação não pode ser questionado. As ordens do general não podem ser previa e democraticamente discutidas em assembléias de todos os soldados. Posteriormente ele teria que prestar contas de suas decisões e atos. Mas durante as ações cabe a ele - e seu Estado Maior - a total responsabilidade de conduzi-las. E o pior é que freqüentemente eles desrespeitam até regras de Direito que os Estados tentam impor a esse tipo de barbárie.

Assim mesmo, há organizações militares que emprestam das redes algumas de suas dinâmicas, como na guerra de guerrilhas. Mas também nesse tipo de guerra, mais horizontal em seu processo decisório, há necessidade de comandos e de rígida disciplina.

 

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Mas se estamos por assim dizer condenados a muitas vezes nos estruturarmos em pirâmide, e a conviver com pirâmides, isto nos abre também outra possibilidade: a de organizarmos redes que atravessem transversalmente essas pirâmides, com o objetivo de arejá-las.

Há situações em que isto não é somente possível como desejável. Neste caso essas redes podem ajudar as organizações em pirâmide a não descambarem para o autoritarismo, a se renovarem, a aumentarem sua transparência, a aproveitar melhor a criatividade e o interesse dos seus integrantes, a abrir espaço para a circulação e assimilação de inovações.

 

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Pirâmides organizadas rígida e disciplinadamente têm medo da liberdade de intercomunicação entre os que estão a um mesmo nível de poder ou entre diferentes níveis de poder. Tudo que escape do controle permitido pelo fluxo vertical de informações lhes cheira a subversão.

Mas pode-se imaginar quanta força e eficácia se agregaria a organizações piramidais, como por exemplo os partidos políticos, se estes organizassem eles mesmos, em seu interior, redes horizontais de intercomunicação, de liberdade de opinião e de proposição, como contra-venenos à dominação e à manipulação.

Muitos canais poderiam ser desobstruídos, evitando o acúmulo de mal-entendidos e manobras mal intencionadas. E, como portas abertas para dentro, mas também para fora deles mesmos, em todos os seus níveis, essas redes poderiam captar tanto avaliações internas e externas sem espaço para se expressar, como sempre novas adesões.

 

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Nesta altura de nossa conversa cabe uma observação super-importante, quase preliminar a tudo isso de que estamos falando: para podermos nos organizar em redes, dentro ou fora de pirâmides, uma condição é mais do que essencial: para nos organizarmos efetivamente em rede, temos que mudar nossas cabeças e nossos corações. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde nossas redes se re-transformam em pirâmides...

Na verdade somos há tanto tempo e tão intensamente mal-educados numa perspectiva de competição, de luta por algum tipo de poder, de desconfiança mútua, de individualismo, de egoísmo, que nem sempre conseguimos aceitar e assumir inteiramente as regras do jogo - de um mundo realmente novo - das organizações horizontais em rede. A solidariedade é um valor fácil de ser enunciado mas menos fácil de ser vivido.

 

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Ficamos paralisados pelo medo de que a liberdade e a necessidade de todos se engajarem "não dê certo". Temos que rever nossos critérios de eficiência e mesmo de prazos. Temos que nos reeducar, superando muitos hábitos do "mundo velho". As próprias práticas dos que se engajam em ações transformadores - especialmente na ação política - são muitas vezes conduzidas por princípios de luta pelo poder.

Essa mudança de cabeça e coração é na verdade o maior desafio que está sendo proposto ao mundo neste novo milênio.

 

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Isto já vem há muito tempo sendo sentido até pelas empresas do sistema capitalista, que existem para produzir lucros. Cada vez mais empresas estão se servindo de princípios da organização em rede. Mesmo aquelas que não se preocupam com sua "responsabilidade social".

É o caso por exemplo do sistema de "franchising", para ganhar eficiência e eficácia. As indústrias mais modernas são cada vez menos piramidais e desenvolvem muitos métodos para ganhar quase uma adesão militante dos seus funcionários - muitos dos quais elas começam a chamar de "colaboradores"...

Elas nunca poderão deixar de competir entre elas, numa guerra que chega a ser cruel e ultrapassar limites éticos. A lógica a que estão submetidas as impedem de se organizarem plenamente como redes, ao terem que manter centros de poder e decisão, segredos e controle geral sobre o que se passe dentro delas.

Mas assim como podem se servir de valores como a solidariedade - ainda quando o façam porque isto pode ser favorável à sua imagem e à paz dentro delas - os princípios da organização em rede podem lhes ser úteis.

 

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Para terminar, desejando coragem e boa sorte a todos que se decidam a entrar nesta aventura, enumero algumas observações mais práticas:

 

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Uma rede não é necessariamente aberta, como ocorre por exemplo com a Internet - em que basta ter alguns equipamentos para nela entrar, e é possível participar até sem pagar nada aos seus administradores. Em redes abertas é necessário assegurar tanto a liberdade de nela entrar como a de sair.

Mas uma rede pode ser restrita às pessoas que trabalham num determinado campo de atividade, ou que compartilham determinado objetivo específico, ou que desejam se intercomunicar sobre um assunto especial.

Nesse caso, quem entra terá que aceitar as regras de participação estabelecidas pelos que estiverem propondo a formação da rede. E têm que aceitar eventuais compromissos que tenham sido definidos para quem queira se desligar.

 

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Fechada ou aberta, mais ainda numa rede aberta, ninguém pode falar em nome da rede como um todo. Ninguém pode ser o porta-voz dos participantes de uma rede. Se alguém o fizer, já estará pretendendo assumir uma posição de direção, comando, representação, que é contraditória ao caráter uma rede. Estará pendurando a rede em si mesmo, com todas as conseqüências negativas que isto terá para a sua continuidade.

Numa rede fechada, seus participantes poderiam em princípio exprimir uma posição comum a respeito de determinado assunto. Mas nesse caso ou eles teriam que assumir por unanimidade essa posição, ou esta seria assumida somente por aqueles que decidissem assumi-la, em nome deles mesmos e não da rede. Nesse caso, o mecanismo seria o mesmo de uma proposta que tivesse circulado pela rede.

 

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A circulação de informações dentro de uma rede exige que algum ou alguns de seus integrantes prestem um tipo de serviço próprio às redes: o de fazer acontecer essa circulação, bombeando as informações pelos canais que interligam os membros da rede.

A intercomunicação através da Internet já se desenvolveu tanto que há a possibilidade de entrar num determinado grupo e receber e enviar automaticamente informações a todos os membros desse grupo, sem nenhum tipo de controle. São as chamadas "listas" ou "grupos de discussão".

Mas como existe sempre alguém que registra a entrada e saída desses participantes, e "vende" ou autoriza essa participação, essa possibilidade contem também uma armadilha, que nem todos percebem: em muitos desses "grupos" seus "moderadores", como são chamados, às vezes censuram e mesmo impedem que a informação chegue efetivamente a todos. Cuidemo-nos, portanto...

Isto coloca uma questão a considerar: os participantes de uma rede podem muito bem estabelecer certas regras a serem respeitadas por todos, quanto ao conteúdo das mensagens ou mesmo por exemplo quanto à sua dimensão. Ou seja, só circularão informações que respeitem essas regras. O problema a resolver passa a ser o da legitimidade do poder daquele ou daqueles que se encarregarão de verificar se as regras estão sendo respeitadas. E o da transparência de sua ação ou do controle que sobre ela devem exercer os participantes da rede.

Se essa intercomunicação se fizer por meio escrito ou pelo encontro pessoal, será necessária a montagem de um serviço que publique as mensagens intercambiadas, faça-as chegar a todos, organize reuniões.

O importante é que esse serviço, como de quaisquer "moderadores", não se auto-atribua nem funções de representação da rede, muito menos de controle, hierarquização e censura das informações que nela circulem. E menos ainda que a dependência que se cria seja por ele utilizada para concentrar poder.

Na verdade esse é um grande desafio que se coloca aos organizadores de uma rede. É por essa "prestação de serviço", aparentemente inofensiva, que se começa a colocar a rede num gancho...

 

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As redes podem ser grandes e pequenas, podem ser redes de pessoas ou redes de entidades e organizações, ou ainda redes de que participem tanto entidades como pessoas. Elas podem ser locais, nacionais, internacionais. Podem comportar sub-redes, como podem ser redes de redes.

Podem ser formadas somente para fazer circular informações, como para realizar um determinado objetivo. Podem ser redes de ajuda mútua ou de formação mútua, de troca de saberes ou de troca de saberes, bens e serviços, como os "Clubes de Trocas" que estão sendo criados no Brasil. Podem servir para ações de solidariedade. Podem ser redes permanentes ou ocasionais.

O resto é experimentar e inventar. Cada caso é cada caso, com suas especificidades, possibilidades e exigências. Mas uma vez lançados na experiência, precisamos, dentro do espírito das redes, compartilhar em rede nossos novos conhecimentos sobre essa forma de organização, nascidos dessa prática, com todos que acreditam que "um outro mundo é possível". Como se afirma nessa grande experiência de rede planetária que é o Fórum Social Mundial.

 

FWF 10/05/02