"Temos que funcionar na lógica de rede"

 

Legenda da foto: Exposição na Universidade de Fribourg,  

durante o FSS. (swissinfo) 

  

Os Fóruns Sociais devem adotar uma lógica semelhante à utilizada pelo sistema dominante, o sistema capitalista, mas voltada para o homem. 

É o que Francisco Whitaker, co-fundador do Fórum Social Mundial, realçou em Friburgo, no Forum Social Suíço. 

Em entrevista a swissinfo, Chico Whitaker lembrou que o sistema (capitalista) trabalha de maneira diferente dos que se a ele se antepõem. É uma ilusão querer montar um novo modelo, novas regras do jogo, tomando, por exemplo, o poder político. Foi assim que "demos com os burros n’água", pois inclusive houve tragédias humanas... 

"O sistema capitalista funciona como rede: com uma infinidade de agentes econômicos e visando lucro".  

Nossa tarefa, na visão de Whitaker, é fazer com que dentro do tecido social surjam cada vez mais agentes que trabalhem numa perspectiva de cooperação e não de competição; numa perspectiva de necessidades humanas.  

Cada vez mais gente deve tomar consciência de que nós, seres humanos, temos muito mais interesse em atender a nossas necessidades como seres humanos, do que acumular dinheiro.  

Acumular dinheiro é outra lógica, impessoal, que inclusive leva à guerra e a essa loucura que é a atual existência de um mundo de finanças praticamente isolado do mundo real da produção e do comércio de bens e serviços. 

Oposições 

Essas duas lógicas que se enfrentam. E propõe: "Devemos descobrir que temos que funcionar também na lógica da rede, de agentes múltiplos, introduzindo lógicas diferentes nas nossas relações de seres humanos". 

Como consumidor, por exemplo, precisa-se ultrapassar a perspectiva do sistema atual em que as pessoas não são consideradas cidadãos com direitos e, sim, pessoas com capacidasde de consumo. Dá-se, então, a elas a condição de consumir, para que o mercado funcione. 

Se a produção encontra consumidores, tudo rola como rolou até agora", ironiza. 

A perspectiva apontada por Whitaker é outra: somos acima de tudo cidadãos e nas nossas sociedades temos a condição de exigir que os direitos dos cidadãos sejam respeitados.  

Isso passa por uma organização como sociedade, para produzir o suficiente pra todos terem o que comer, todos se realizarem plenamente como seres humanos, em todas as suas potencialidades. 

 

 

Co-fundador do FSM, Chico Witaker
participou do segundo Fórum Social Suíço.   (swissinfo) 

 

"Construir alianças" 

Samir Amin, intelectual altermundialista reconhecido, destaca, por seu lado, que o capital sabe o que quer, talvez mais que suas vítimas, caso contrário nao teria uma posição dominante. 

Os opositores ao sistema neoliberal vigente devem, portanto, construir alianças na perspectiva de mudar o rumo da História. 

Falando, por exemplo, do "não" francês ao projeto de constituição européia, ele acha que para os europeus há um problema importante: que Europa querem eles? "Uma Europa liberal, atlantista ou uma outra Europa"?  

A propósito, lembrou que, com freqüência, os movimentos sociais europeus proclamaram uma outra Europa. Mas, estima, "deve se especificar: é mesmo uma Europa anti-liberal e anti-atlantista"? 

Função dos fóruns sociais 

Resta que o papel da sociedade pode ser determinante se construir as redes de atuação preconizadas por Francisco Whitaker. Neste ponto os fóruns sociais teriam função importante a desempenhar. 

Segundo Whitaker, "eles estão se expandindo cada vez mais e nossa tarefa é desenvolvê-los o mais rápido possível, porque o mundo está correndo célere a grandes desastres. Nós temos que evitar que esses desastres, ecológicos, sociais... aconteçam".  

 

swssinfo, J.Gabriel Barbosa, de Friburgo.