Legenda da foto: Chico Whitaker conversa com Pierre-Yves Maillard,
vice-presidente do Partido Socialista Suíço. (swissinfo)
Depois da França e antes da Alemanha, ele passou três dias em conferências na Suíça esta semana, em Fribourg e Lausanne. As pessoas o ouvem com atenção e depois fazem uma batelada de perguntas.
Durante o trajeto a pé entre uma sala de conferência e outra, Chico Whitaker passa por um trecho do centro de Lausanne (oeste da Suíça) e acha a cidade interessante. "Sempre que venho aqui, me organizam uma conferência perto da estação e eu chego num trem e saio no outro", reclama.
Ele que sempre viajou, primeiro pela necessidade do exílio, em 1966, nos últimos anos é convidado em toda a parte para explicar o processo desencadeado em 2001, no 1° Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. As palestras na Suíça foram organizadas por ongs e sindicatos, entre elas E-Changer, Attac e Comedia.
No fundo ele não cessa de empregar termos de sua formação de arquiteto. Refere-se freqüentemente ao FSM como "espaço", "praça", "ponto de encontro" "ponto de convergência", embora insista que o essencial de seu trabalho sempre foi o planejamento. Entrevista:
CW: Como qualquer outra obra de arte sim. Não tenho outras pretenções além disso. Na verdade, rapidamente eu me dirigi mais para questões urbanísticas, depois no planejamento regional e aí a gente já vai ampliando, depois na reforma agrária, imagine você! Ou seja, acho que planejamento passou a ser o meu eixo. Com o golpe militar fui trabalhar no planejamento pastoral da Igreja. Prossegui nessa área e atualmente estou no planejamento da ação social coletiva para tentar ajudar a mudar alguma coisa nesse mundo.
CW: Na minha vida ele se situa numa bateria de coisas, nas quais eu fui descobrindo dimensões diferentes. Trinta anos antes do Fórum, eu participei de um grande projeto internacional proposto pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que já lançava duas idéias fundamentais: a idéia de rede e a idéia de intercomunicação horizontal de experiências. Então para mim o Fórum já é resultado de um acúmulo de reflexão e de ação concreta.
Mas o próprio Fórum evoluiu de maneira inacreditável. Inicialmente, a abordagem nossa foi muito modesta e não imaginávamos que iria tomar essa dimensão. Também não víamos todas as potencialidades que essa experiência encelava dentro dela.
CW: Sem dúvida e porque o Fórum tornou-se um vasto movimento em escala mundial para mudar as regras do jogo. Isso não significa que estamos nessariamente ganhando. Tá duro e muito difícil porque o sistema dominante é muito poderoso. Mas continuamos apredendo. Num dos fóruns locais de que participei, na França, um participante disse que era preciso aprender a desaprender, ou seja, abrir a cabeça, ouvir, aceitar a diversidade e aprender com ela. Esse é o espírito do Fórum.
CW: Começou global porque realmente se defrontava com a globalização do dinheiro e das multinacionais que dirigem o mundo e que se reuniam no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Propôs então uma globalização baseada na solidariedade dos povos, o que é uma mudança cavalar. Ou seja, em Davos, a economia é o eixo de tudo. No Fórum que surgiu em Porto Alegre, o eixo é o ser humano e suas relações. Acontece que o Fórum é uma criação permanente de espaços, ele se multiplicou. Isso é ótimo, quanto mais fóruns sociais melhor. Os fóruns mundiais são importantes para marcar etapas. Mas a vocação do fórum é a expansão.
CW: No fundo, é um acúmulo de experiências. Mas a decisão por consenso se fez na nossa prática. Descobrimos que, se não fosse assim, íamos nos dividir e nos enfraquecer. E grande tragédia de quem quer mudar o mundo é a divisão. Descobrimos então que a regra do consenso é fundamental para continuar o caminho e juntar cada vez mais gente em torno dessa idéia.
CW: Essa questão não está totalmente resolvida. Ela ressurge com mais ou menos força a cada momento. Mas, no debate interno, está ficando mais claro que são duas opções que não precisam se excluir. Os movimentos têm de existir e o fórum existe para incubar novos movimentos. Por isso tem de prosseguir como espaço a serviço dos movimentos. São dois intrumentos diferentes de luta política. Minha impressão é que poderemos avançar muito mais na medida em que isso fique mais claro.
CW: Houve uma enorme curiosidade quando da eleição de Lula e as pessoas sabem que fui vereador em São Paulo pelo PT e militante até o início do ano ano passado. Explico que vinha da sociedade civil e que vi as lutas internas do partido e sua involução, a meu ver, da proposta de fazer uma educação política de base para tornar-se um partido eleitoral, que acabou usando os meios que ele próprio combatia.
Ou seja, entrou numa contradição interna muito grande e na dinâmica extremamente perversa da política brasileira. Quando assumiu a presidência, então desandou na corrupção típica da política brasileira para obter maioria no Congresso para poder governar.
De minha parte eu disse que não havia do que se decepcionar mas constatar. Se eu tinha ilusões, tive que abandoná-las. Achei então melhor voltar à sociedade civil, por isso me separei do PT.
CW: É um desafio que nós ainda não conseguimos resolver. Primeiro, não conseguimos difundir a imagem exata do fórum. Há uma certa confusão conceitual entre espaço, movimento etc. Como é uma idéia totalmente nova no panorama político, é difícil para as pessoas apreenderem. Então a mídia sofre desse problema com o fórum. Segundo, os jornalistas chegam e esperam encontar um guru ou um documento final que facilitariam as coisas ... e se deparam com um espaço totalmente louco, com milhares de atividades diferentes.
Tem ainda outro problema: quando os jornalistas começam a entender surge outra dificuldade porque eles geralmente trabalham para empresas inseridas no sistema econômico dominante e que não estão interessadas em que o fórum se promova, muito pelo contário.
Eu, pessoalmente, vejo a maior dificuldade no seguinte fato: se você perguntar se "um outro mundo é possível" (red. mote do fórum) pouquíssimas pessoas vão dizer que sim. Se você questionar os que vivem bem, eles dirão "pra quê?" Se você perguntar para os que vivem mal, eles dirão "não acredito".
A conclusão minha é que nós ainda não conseguimos convencer um número suficiente de pessoas de que vale a pena lutar por um outro mundo porque ele é possível.
Entrevista swissinfo, Claudinê Gonçalves