Está confirmado que o Forum Social Mundial de 2009 será em Belem do Pará?  

 

Exatamente. A decisào foi tomada pelo Conselho Internacional do FSM reunido no fim de maio. Havia uma proposta de organizá-lo outra vez na Africa, mas prevaleceu a opção da região amazônica para 2009 e de novo na Africa em 2010 ou 2011. Neste momento cresce no mundo a preocupação com a questão ambiental e climática, o que  certamente atrairá muita gente para o Forum, embora não seja este seu único tema. O lugar escolhido foi Belem do Pará, no Brasil, mas a organização do evento caberá a entidades e movimentos da sociedade civil dos oito paises que integram a região amazônica.

 

Nào haverá nenhum Forum Social Mundial em 2008? 

 

Seu formato será diferente. Isto já ocorreu em 2006, em que o Forum foi policentrico: na Venezuela, no Mali e no Paquistão. Desta vez pretende-se multiplicar e diversificar as atividades, para que se expanda a todo o planeta a mensagem “outro mundo é possivel”, mostrando que ele já está em construção, através de tudo que se está fazendo em toda parte para mudar o mundo. As organizações que vêm participando do processo do Forum estão sendo convidadas a organizar no final de janeiro de 2008 – época em que se realiza o Forum de Davos – foruns locais ou regionais, espetaculos, festivais, manifestações de rua, atos públicos, seminários, debates, lançamento de manifestos, de campanhas, de publicações. Cada um definirá o formato, o local e o tema da sua própria atividade – que será naturalmente o de sua própria luta, ou de sua própria contribuição para mudar o mundo.

 

Mas essas atividades não podem se diluir no espaço, tornando dicil apreender que é um Forum Social Mundial que está sendo realizado?   

 

O risco efetivamente existe. Pensando nisso, propõe-se que num dia determinado - 26 de janeiro, que será o “Dia Global de Açào” (é bom ver a convocação para esse dia no www.wsf2008.net ) - todos deem maior visibilidade à sua atividade. Há um Grupo de Trabalho do Conselho Internacional do Forum preparando a divulgação prévia do que estará acontecendo nesse dia em todo o mundo. E estão sendo montados alguns instrumentos de comunicação na Internet para tornar visível, como um todo, esse conjunto de atividades. Assim, por exemplo, um relógio-mapa-mundi na Internet seguirá, hora após hora, durante 24 horas, cada lugar da Terra onde algo está sendo realizado. Propõe-se também que os organizadores de cada atividade escolham outra em outro continente, para dialogar entre si no dia 26. Uma malha de ligações cobrirá assim nosso planeta, apoiada em centenas ou quem sabe milhares de pontos em que uma luz de esperança estará acesa, e muita gente verá que somos muitos a querer mudar o mundo.

 

É portanto otimista a perspectiva de continuidade do Forum Social Mundial? 

 

Sem dúvida o processo “pegou”, como se diz. Multiplicam-se em toda parte Foruns nacionais, regionais e locais. Em Nairobi, na Africa - continente tão dividido pelos colonizadores - o Forum lá realizado em janeiro permitiu que organizações da sociedade civil de todos os seus paises pudessem se reunir num só local, pela primeira vez na historia, para se conhecerem melhor, intercambiar experiências, descobrir convergências e problemas comuns, articular-se entre si e com movimentos e organizações do resto do mundo. Logo depois, em fim de junho, realizou-se o primeiro Forum Social Norteamericano, no qual ocorreu o mesmo, com a infinidade e diversidade de movimentos e organizações sociais que existem naquele país, especialmente os que mobilizam os pobres e excluidos que vivem no centro do império. No fim de agosto acontecerá o primeiro Forum Social do Quebec, no Canadá, e em fim de outubro um Forum Social na Alemanha. Alem daqueles que estão sendo programados para a semana do Dia Global de Açào, como o do Magreb, no norte da Africa, , o da Catalunha, o do Mercosul aqui em Curitiba, o da Suissa e, mais adiante, o das Americas, na Guatemala. Por isso mesmo considero que o principal desafio desse processo já não é a multiplicação de Foruns, nem o de organizá-los efetivamente como espaços abertos, incubadores de novas ações e de campanhas articuladas planetariamente para a superação da dominação do mundo pela lógica do dinheiro. O novo desafio é talvez mais decisivo.

 

Qual é esse desafio? 

 

É o de conseguir fazer com que as grandes maiorias acreditem efetivamente na mensagem que nós, organizadores e participantes dos Foruns, estamos repetindo desde 2001: “um outro mundo é possivel”. Quantas pessoas pensam efetivamente que é possivel um mundo diferente daquele em que vivemos?

 

Explique um pouco melhor?

 

Há todos aqueles que têm condições dignas de vida - minorias no Terceiro Mundo, maiorias nos paises ricos. Eles não têm muito porque desejar que o mundo mude. Estão acomodadas, vivem até com muitos prazeres e comodidade. Em muitos desses paises a violência, assim como o desemprego, chegam a inquietar. Está crescendo o medo das mudanças climáticas. A corrupção parece uma doença incurável que se espalha, deteriorando perigosamente governos, instituições sociais e relações humanas. Mas segundo a ideologia dominante o “mercado” acabará por resolverá todos os problemas pendentes, já que as experiencias do socialismo real foram muito frustrantes. Prá que então complicar as coisas? Prá que “outro” mundo? É melhor ir fazendo “reformas” e acertos aqui e ali. Vem se tornando mais generalizada também a consciência da desigualdade – que no Brasil é escandalosa – mas muita gente chega a pensar que ela faz parte da condiçào humana. Quem fala que um outro mundo é, além de possivel, necessário e urgente, não tem os pés no chão da realidade, é sonhador...

 

Ou seja, ninguem quer que as coisas mudem? 

 

Não. Há as maiorias do mundo - que não têm condiçóes de vida dignas e tomam consciência – infelizmente ainda nào em número suficiente - de que tambem são gente e têm direitos. Eles querem sair da miséria, querem um mundo diferente. Há inclusive paises mergulhados em guerras crueis, onde as maiorias sonham com a paz. Mas o problema, nesse caso, é acreditar que isto seja possivel. Ou que se possa ir mais longe do que as ilusões com que os que sofrem são mantidos silenciosos – oprimidos ou conformados, até que se desesperem... Minhas condiçoes pessoais de vida não são nem de longe a dos pobres e excluidos que constituem a maioria em nosso país. Mas se me coloco na posição deles, me pergunto se poderia esperar alguma coisa de diferente. Nas eleições se reavivam as aspiraçoes e se reacendem as esperanças. Mas depois tudo cae no mesmo de sempre, com uma ou outra melhoradinha, aqui e ali.

 

Você vê alguma saida?  

 

Trata-se de uma enorme tarefa, a de reacender esperanças e estimular cada vez mais gente a agir e lutar por outro mundo. Além e fora dos periodos e dos mecanismos eleitorais. Por isso me entusiasmo com a proposta do Forum de 2008, que se situa dentro desse esforço. Permitirá que se torne mais conhecido tudo que já se faz para mudar o mundo. Não somente este ou aquele governo, mas a própria sociedade. Há uma infinidade de grupos, movimentos, associaçoes atuando para que não haja tanta injustiça e tanta desigualdade. Pressionando os diferentes tipos de poder para que seja usado a serviço dos outros. Trabalhando para aumentar a consciência de cidadania, da dignidade de todos os seres humanos, dos direitos a serem respeitados. Fazendo crescer a solidariedade e a disponibilidade e diminuir a violência. Para acabar com as guerras e com a dominação do dinheiro. Ajudando direta e concretamente quem sofre necessidades, criando redes de ajuda mutua, apoiando jovens na busca de caminhos e perspectivas, lutando contra a corrupção e contra discriminações, despertando e educando para o respeito ao meio ambiente.

 

Como membro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo e da Brasileira, você considera que essas e outras Comissões podem fazer alguma coisa dentro dessa perspetiva? 

 

Se o grande desafio que o Forum Social Mundial hoje enfrenta - o de reacender esperanças – eu diria que ele poderia ser assumido por essas Comissões como seu próprio desafio. Até mesmo como sua missão. Nesse sentido foi muito boa a idéia da Comissão Justiça e Paz de São Paulo de realizar em sua cidade, como sua atividade em 26 de janeiro de 2008, uma grande “feira de ações para mudar o mundo”. As “feiras” se tornaram uma das dimensões tradicionais dos Foruns: banquinhas em que as organizações, entidades e movimentos participantes expõem o que fazem, seus materiais de trabalho, seus projetos e propostas, suas publicações. Paralelamente às oficinas, debates, conferências e espetáculos, as “feiras” oferecem - como todos os mercados ao longo da história da humanidade – um espaço livre, informal e horizontal de conversa, conhecimento mútuo, descoberta de alianças possiveis. Que pode ser completado com palcos para apresentações, e até locais de encontro para quem esteja a fim de debater determinados temas...

 

Porque não organizar um Forum Social Local, como vai acontecer em muitos lugares?  

 

Um Forum Social é mais trabalhoso para montar. Além disso, dentro do espírito do processo do Forum, ele teria que resultar da associação de um grupo de entidades e não por iniciativa de uma só entidade ou organização. O tempo para isso até 26 de janeiro é muito curto. Uma “feira” é uma atividade de um só dia, mais fácil de ser organizada. Pode até vir a ser o embrião de um Forum Local, ao permitir que organizações nela se encontrem e discutam iniciativas conjuntas como um Forum. Mas eu vejo nessa idéia uma outra potencialidade muito interessante.

 

Completando esta entrevista... 

 

Pois é... A mesma iniciativa poderia ser repetida todos os anos, no momento em que se realizem Foruns Sociais Mundiais onde quer que seja. Sempre imaginamos como fazer com que aqueles que não podem ir aos Foruns Mundiais – a imensa maioria das pessoas interessadas – saibam o que está neles sendo discutido. As “feiras” seriam espaços livres – pelo mundo afora, se a proposta de “feiras” se expandisse - onde, alem das bancas, palcos e salas de discussão, poderiam ser montados telões transmitindo o que se passa nesses Foruns. Hoje isto é possivel sem maiores dificuldades. O que permitiria também difundir com rapidez grandes propostas de ação que surgissem, em campanhas planetárias propostas pelos participantes dos Foruns. Para mudar o mundo e fazer com que se acredite cada vez mais que isto é realmente possivel.

 

Francisco Whitaker 18/08/07