Almoço de domingo

 

 

Na minha infância, adorava os domingos, aliás, gosto muito até hoje, mas quando criança, eram bastante especiais.

Meu pai era militar, ganhava pouco e complementava a renda com diversos "bicos". Quase não o via. Chegava de madrugada, saía muito cedo, domingo sim, domingo não, ficava em casa.

Os domingos com meu pai em casa eram bastante especiais, não que ele fosse um super pai, atencioso e brincalhão como esperávamos. Autoritário e muito severo, exigia bom comportamento, o que era humanamente impossível na idade em que nos encontrávamos.

Éramos quatro: três meninas, com poucos anos de diferença, e o meu irmão, sete anos mais novo que eu, até então, a caçula. Tínhamos muita energia, brincávamos e brigávamos o tempo todo, então os castigos e broncas eram inevitáveis. Mesmo assim, adorávamos os domingos.

.A presença de meu pai em casa era sinal de almoço farto, gostoso. Mamãe caprichava no molho do macarrão, comprava frango assado, fazia quase sempre pudim de leite, (o preferido de papai e nosso também) até refrigerante tínhamos à mesa e esse era o motivo de tanta euforia.

Mas dentre esses domingos, um ficou para sempre em minha lembrança: o batizado de meu irmão. Minha mãe caprichou ainda mais no almoço, já preparado no sábado. Em vez do costumeiro macarrão, lasanha. O frango foi substituído por carne assada e a sobremesa...

No lugar do tradicional pudim de leite, ela fez um bolo de festa recheado de geléia de ameixa, grosseiramente enfeitado com chantili e coco ralado. Minhas irmãs e eu estávamos ansiosas por comê-lo, por isso íamos toda hora apreciá-lo e comê-lo com os olhos. Num desses momentos, a mais velha, que comandava todas as nossas ações, chamou-nos até a geladeira e, ao mexer no bolo, a prateleira despencou, o que causou uma terrível tragédia. O bolo caiu por toda parte e o desespero foi total.  

Além das broncas, neste dia apanhamos muito e até ficamos de castigo. Tudo isso aconteceu no sábado. Depois do susto, minha mãe, numa demonstração de arrependimento, deixou que comêssemos, à vontade, o bolo que conseguiu reaproveitar.

No domingo, tudo era novidade: a lasanha, a carne assada. Até os refrigerantes eram melhores. Mas o que não mudou foi a sobremesa. Lá estava o tradicional pudim de leite, o que agradou novamente a todos.

A presença dos meus tios, padrinhos do meu irmão, inibiu as broncas de meu pai. Então passamos, realmente, um domingo perfeito.

Hoje, todas as vezes que preparo o almoço de domingo da minha família, lembro-me dos domingos da infância e dos valores, que com gestos simples, meus pais conseguiram nos transmitir por meio desses momentos.