Emoções, Cultura e Modos de Pensar


MSc. Héber Sales
hebersales@gmail.com
http://hebersales.blogspot.com


As nossas emoções não apenas carregam conhecimento como também são importantes elementos num sistema específico de pensamento, o sistema experiencial. O termo foi criado pelos psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky. Segundo eles, nossas atividades mentais estão ligadas a um modo duplo de pensamento que inclui dois sistemas: o experiencial e o cogitativo. Neste ensaio, discutirei algumas relações entre as emoções, a cultura e e esses modos de pensar.


O modo experiencial de pensamento

No sistema experiencial de pensamento, raciocinamos sem fazer esforço, de forma automática, veloz e não consciente (nós não sabemos quando o estamos utilizando). Esse trabalho, normalmente rotulado de "intuição", acontece de modo paralelo e opaco. Sua rapidez resulta da produção de atalhos denominados "heurística", os quais são acionados pelas emoções num processo mais ou menos semelhante ao que ocorre quando clicamos sobre ícones numa tela de computador.

As emoções funcionam então como gatilhos que o sistema experiencial usa para nos forçar a uma ação rápida e decidida. Uma vez acionadas, elas fazem com que nos comportemos de um jeito imponderado - elas simplestemente não nos dão chance de parar e refletir sobre a pertinência das nossas ações. Lembre-se, por exemplo, de quantas vezes você foi tomado pelo medo, e só foi se dar conta do que estava fazendo depois de algum tempo (segundo as pesquisas disponíveis, um tempo que pode ser muito breve, da ordem de milésimos de segundo).

Obviamente, um modo de pensamento tão impulsivo nos leva a cometer muitos enganos, e este é o o grande problema do sistema experiencial. Ocorre que, em algumas situações de perigo, é preferível arriscar-se ao erro do que perder tempo cogitando a certeza das coisas. Foi pensando nesses momentos que a Mãe Natureza nos capacitou, desde muito cedo na história da humanidade, com um tipo de pensamento mais adequado a situações emergentes de alto risco. Suponhamos, por exemplo, que você esteja andando no campo numa noite de lua cheia, sem a ajuda de nenhuma luz artificial, e que de repente se depare com uma cobra. Muito provavelmente, você reagirá de forma impetuosa, defendendo-se, e só depois de afastado o perigo irá questionar se o objeto observado era de fato uma cobra ou se era algum cipó ou corda estendida no caminho.

Dificilmente você será capaz de interromper um comportamento como esse, uma vez que, quando entra em ação, o sistema experiencial quase nunca cede lugar a um tipo de pensamento mais crítico, o chamado sistema cogitativo de pensamento.
 
 
O modo cogitativo de pensamento 
 
A cogitação é um sistema lento, exige dedicação e raciocínio. Ele é lógico, seqüencial e autoconsciente. Sua grande vantagem é cometer relativamente poucos enganos, pois como geralmente sabe o caminho que percorreu ao longo de um pensamento, torna-se fácil para ele voltar atrás, ver aonde falhou e então refazer os passos. Acontece porém que além de lerdo, o modo cogitativo de pensamento sofre de uma grave limitação: consome muita energia. É por isso então, devido a uma mera questão de economia, que nós preferimos acioná-lo apenas em ocasiões muito especiais.


A cultura e o modo experiencial de pensamento

Tendo em vista tal classificação dos nossos modos de pensar, bem como aquilo que já escrevi sobre a natureza epistêmica das emoções, fica mais ou menos claro que estas, em sua função cognitiva, têm pelo menos duas características em comum com o que chamamos de cultura.

Primeiro, a de serem, tanto uma como a outra, formas de conhecimento tácito. Assim como ocorre à informação emocional, a informação cultural não é questionada rotineiramente. De maneira geral, usamo-la sem que tenhamos consciência de que a estamos usando. Repare, por exemplo, nas várias normas que observamos enquanto interagimos uns com os outros, como as seguimos "sem pensar"

A cultura assemelha-se também ao sistema emocional num outro aspecto: ela provê atalhos. Graças à cultura, não temos que nos questionar o tempo todo sobre como agir em determinadas circunstâncias. Por exemplo, se você é homem e cresceu no Brasil, jamais cogitará em andar de mãos dadas com seus amigos pelas ruas. Já para os hindus vale exatamente o contrário: se saem a passear com os amigos, logo os tomam pelas mãos, automaticamente, "sem pensar".

Tais semelhanças entre a cultura e o modo experiencial de pensamento não parecem ser fortuitas. Na verdade, os dois fenômenos podem operar em conjunto, com a cultura moldando as reações automáticas do sistema experiencial e os seus gatilhos, as emoções. Notem como, em circunstâncias equivalentes, cada cultura sanciona padrões de comportamento emocionais específicos, distintos daqueles observados em outras culturas. E não é preciso ir muito longe para observar isso. Caso tenha sido socializado em Pernambuco, por exemplo, é muito provável que se espante com a fleuma com que, em alguns outros estados do país, homens observam suas mulheres pegarem carona com outros homens ou até serem paqueradas por eles. Em Pernambuco, a reação de tais homens seria outra. Eles provavelmente reagiriam violentamente sem pestanejar, aparentando muita raiva. Tal comportamento seria muito previsível para qualquer pernambucano, o que nos indica ser ele de natureza ritual.

De fato, se Clifford Geertz estiver certo, teremos que encarar as emoções envolvidas em tais situações como verdadeiros artefatos culturais:

Sem o guia das imagens exteriorizadas, dos sentimentos falados no ritual, os mitos e a arte, não saberíamos, de fato, como sentir. Tal como o próprio cérebro anterior desenvolvido, as idéias e as emoções são artefatos culturais do homem. (Clifford Geertz em "A Transição para a Humanidade, via Adalene Sales).

A título de conclusão

A meu ver, todas essas considerações nos sugerem que as emoções, longe de serem apenas forças da natureza completamente opostas ao pensamento e à razão, são, na verdade, elementos cognitivos complexos, estreitamente relacionados às nossas nossas crenças e à nossa vida social. Isto quer dizer que além de carregarem conhecimento, de serem informativas, elas também são socialmente construídas e fazem parte dos nossos sistemas culturais.


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