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A política nuclear do governo é um equívoco




O artigo A política nuclear do governo é um equívoco, assinada pelo consultor Ricardo Neves e publicada na edição de 14/07/2008, afirma alguns fatos que gostaríamos de esclarecer a fim de melhor informar ao leitor da revista Época.

De início, o articulista denuncia a existência de um “lobby nuclear” internacional que estaria por trás do soerguimento dessa indústria no mundo. É preciso esclarecer que a guinada de 180º promovida nos últimos anos no cenário nuclear tem a ver, sim, com a busca por uma solução energética que não produza CO2 – um sério ameaçador do planeta. Pois bem, a energia nuclear não produz CO2

Uma das alternativas proposta pela ONU no terceiro relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) referendado pela União Européia para a redução de emissões de gases prejudiciais ao equilíbrio climático foi a “ampliação da vida útil das usinas nucleares”. Baseado nos princípios do desenvolvimento sustentável, as mais recentes análises – inclusive do próprio IPCC – não conseguem elaborar qualquer cenário para os próximos 50 anos no qual não haja uma significativa participação da fonte nuclear para atender às demandas de geração de energia concentrada em larga escala, juntamente com as renováveis, para atender às necessidades dispersas em pequena escala. A alternativa a isto seria exaurir os combustíveis fósseis, aumentando brutalmente a emissão de gases de efeito estufa, ou negar as aspirações de melhoria de qualidade de vida para bilhões de pessoas da geração de nossos netos.

Em 2006, pela primeira vez na sua história, a Agência Internacional de Energia (AIE) defendeu as vantagens da opção nuclear: "A economia evoluiu em favor da energia nuclear, que oferece vantagens consideráveis na redução das emissões de gás de efeito estufa e em termos de segurança energética", explicou a AIE nas suas Perspectivas Energéticas Mundiais de 2006 (PEM). Na apresentação do documento, o diretor-executivo da agência, Claude Mandil, sublinhou: "não vejo como poderemos evitar o nuclear se queremos ter um futuro sustentável no longo prazo. Globalmente, consideramos que o nuclear tem de fazer parte do mix energético".

Estudo realizado, em 2007, pela empresa Economia & Energia, sob o patrocínio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq – Impacto direto da geração nuclear no Brasil sobre emissões que contribuem para o efeito estufa concluiu que “a energia nuclear já evitou no Brasil a emissão de 85 milhões de toneladas de CO2”. Cita ainda que ”as emissões evitadas pela energia nuclear, com apenas duas plantas (47 milhões de toneladas de 2000 a 2005), equivalem a 4% das evitadas pela energia hídrica e 40% das evitadas pelo uso do álcool carburante no mesmo período”.

Seguindo essas indicações dentro de um cenário energético, onde a crise do petróleo se anuncia, e onde a sustentabilidade do planeta requer medidas urgentes, o mundo vive hoje um verdadeiro boom da energia nuclear.

Nos anos 80, houve realmente um retraimento do investimento provocado pelo aumento do custo financeiro, o que fez com que as usinas nucleares perdessem em competitividade para o carvão e o gás. Além disso, os acidentes nas usinas de Three Mile Island, em 1979, nos Estados Unidos, e de Chernobyl, em 1986, na antiga União Soviética, resultaram em uma onda contrária à geração nuclear em alguns países. Mas, no período, não houve um abandono da energia nuclear. Um exemplo é a França, que consolidou sua indústria nuclear na década de 80 e hoje tem 59 usinas que respondem por 78% de sua energia elétrica. Apenas os Estados Unidos têm 104 reatores em operação, que respondem por 19% da energia gerada no país. Atualmente, em 15 países a energia nuclear é responsável por, no mínimo, 30% da geração de energia elétrica, incluindo Japão (55 reatores, 30% de participação nuclear), Coréia do Sul (20 reatores, 39%) e Suécia (10 reatores, 48%). Hoje, existem 438 reatores nucleares em operação em todo o mundo e 31 unidades estão em construção em 13 países, que representam mais de 24 mil megawatts (MW) de potência instalada. Apenas a Índia tem seis reatores sendo construídos. Além desses, os indianos querem colocar em operação cerca de 20 usinas nucleares até 2020. A China constrói quatro unidades e tem mais 23 planejadas. Até 2020, a Rússia pretende construir de 15 a 20 reatores, o Japão e a Coréia do Sul, 15 cada. A França começa a construir em 2008 um reator de última geração e até 2020 planeja construir uma planta por ano. Em 2006, a Argentina anunciou a retomada das obras de Atucha 2, sua terceira usina nuclear, que deve ficar pronta em 2010. Em junho de 2007, quando o Conselho Nacional Política Energética decidiu recomendar a retomada de Angra 3, três países anunciaram a construção de novas usinas: Finlândia (que já tinha um reator em construção), a Lituânia e a Romênia. Nos Estados Unidos, 50 reatores nucleares obtiveram extensão de sua vida útil por mais 20 anos. Além disso, de acordo com a Administração de Informações de Energia (EIA), órgão do governo responsável pelas estatísticas oficiais do setor energético, o aumento de potência dos reatores norte-americanos em operação deverá adicionar cerca de 2,7 gigawatts (GW) à geração total até 2030.

Estes são dados e informações substantivos devem ser agregados às opiniões adjetivas que compõe a retórica antinuclear, buscando contribuir com debate democrático sobre o tema.


Gloria Alvarez

Coordenadora de Imprensa da Eletronuclear

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