O Contributo das Novas Plataformas de Comunicação Web na Divulgação do Património

 

 

Já Marshall McLuhan afirmava, nos tempos em que a televisão cimentava os seus passos como janela do mundo e a rádio começava finalmente a conhecer, no pós-guerra, a curva descendente das audiências sumárias de um público que se esqueceu rapidamente das façanhas obtidas enquanto baluarte da resistência no período conturbado do conflito mundial, e ainda em prole de um mercado cinematográfico cada vez mais poderoso, que se vivia (afirmava McLuhan), naquela época uma fase de grandes transformações sociais, derivadas do progresso tecnológico, reduzindo o planeta à escala de “aldeia global”, ideia que viria a publicar no seu livro “O meio é a mensagem”, em 1967, ano em que a Internet surgia ainda como um horizonte longínquo mas que, dois anos depois, em 1969, via a sua aurora com o surgimento da ARPANet, acrónimo em inglês de Advanced Research Projects Agency Network (ARPANet) do Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América, primeira rede operacional de computadores e o precursor da World Wide Web.

Transformações essas que vieram culminar, quase três décadas depois, com a Internet a assumir-se como verdadeiro veículo global de transmissão de informação, para muitos o mais perfeito meio de comunicação alguma vez criado pelo homem, depois do alfabeto e da escrita, e utilizada por mais de 400 milhões de pessoas em todo o mundo.

Mundo da Internet esse que nos surge de formas diversas, seja de forma estática ou interactiva, espelhando conceitos, opiniões ou tendências, veículo da nossa própria opinião ou simplesmente jogo das interpretações das coisas.

 

Numa fase em que a era da comunicação verdadeiramente de massas se conjuga com a ideia de economia de massas, mesmo assim cresceu no seio de toda esta parafrenália consumista um sentido de protecção do que é nosso: proteger o ambiente, proteger a nossa cultura nacional, a nossa cultura regional, seja este sinónimo de cultura a nossa tradição oral, os ritos e cantares, a gastronomia e a ainda o nosso património, construído ao longo de séculos sobre a forma de igrejas, mosteiros, castelos, palácios, casas senhoriais ou centros históricos, entre outros.

 

E é do contributo das novas plataformas de comunicação Web para a divulgação do património que venho nesta comunicação abordar e mesmo defender, num misto de estudo das ciências da comunicação e a sua vertente de serviço público, aliada à indústria cada vez mais importante do turismo e mais em concreto do turismo cultural, que, como o Professor Doutor Lencastre Godinho abordou, no seu discurso de abertura das II Jornadas de Turismo e Património realizadas pelo ISLA de Vila-Nova de Gaia nos dias 31 de Maio e um de Junho deste ano, o “turismo cultural representa já cerca 42 por cento do volume da industria turística em Portugal”.

 

Assim há que fazer uma primeira abordagem sobre a que públicos se destinam este tipo de conteúdos on-line e que novas plataformas são essas que nos permitem então, não só divulgar o património, como também conhecer e estudar o espólio patrimonial, defendê-lo e emitir uma opinião favorável ou contra a forma como se está ou não a preservar e a divulgar esse mesmo património.

 

É vasto o leque de entidades e públicos atentos ao fenómeno do património cultural, à sua divulgação, estudo ou preservação.

Desde os organismos públicos nacionais (juntas de freguesia, autarquias, agrupamentos municipais e entidades estatais) ou supranacionais, são várias as instituições atentas ao património, em que destacam claro está no âmbito nacional o IPPAR e na esfera internacional a UNESCO ou o ICOMOS (International Council on Monuments and Sites), ICOM: sigla para “International Counsil of Meuseums” ou OWHC – sigla para “World Heritage Cities Organization), estes últimos relacionados intrinsecamente com o espólio arquitectónico classificado como Património Mundial.

 

Instituições privadas relacionadas com o turismo, hotelaria ou entretenimento são também espectadores e produtores de conteúdos, atentos e activos no que concerne à interacção nos diversos campos do Património. Destacam-se obviamente os operadores turísticos, as grandes cadeias de hotéis e empresas específicas que, mesmo pertencendo a um ramo de produção diferentes, beneficiam com a divulgação do património, tornando essas mesmas empresas, em certos casos, exemplos de património, como é o caso das caves e quintas do vinho do Porto, as pousadas de Portugal ou unidades hoteleiras instaladas em monumentos classificados.

 

De destacar naturalmente, para os entendedores das teorias da comunicação que este facto é uma espécie de nota corrente, pois tanto as entidades públicas como especialmente as privadas fazem, na maioria das vezes uso da divulgação do património como uma questão social no sentido de diminuir as barreiras à publicidade, isto é, o público sabendo que se trata de publicidade cria obviamente obstáculos para se defender desta, mas quando encapuzada de um objectivo social como por exemplo a preservação do património arquitectónico em risco, mais facilmente levantam esses obstáculos. Pode-se dar como exemplo as iniciativas levadas a cabo pelas Tintas CIN em promover o seu produto aliando-se à Câmara Municipal do Porto, pintando as fachadas dos prédios históricos da baixa portuense.

Refira-se que a grande maioria dos sítios web criados por estes organismos são, na sua grande maioria, páginas de óptima qualidade, desenvolvidas por algumas das melhores empresas de design nacionais ou internacionais, criando-se desta forma mais um nicho que intrinsecamente retira vantagens da divulgação do património: falamos de toda uma variedade de profissionais da imagem, como fotógrafos, repórteres de imagem, designers, copyrighters, etc.

 

De salientar ainda que no universo das empresas públicas e privadas é essencial englobar também os órgãos de comunicação social, sejam eles jornais, rádios ou canais de televisão.

São muitos os exemplos de conteúdos on-line desenvolvidos pelos meios de comunicação que de uma forma directa ou indirecta se relacionam com a divulgação ou defesa do património. Serão esses conteúdos lícitos, passivos de coerência científica ou mero showbiz? São algumas das perguntas que podemos colocar em outras oportunidades.

 

De que forma é que esses conteúdos são fomentados pelos órgãos de comunicação social: São-nos por intermédio de páginas dedicadas no sítio, com a possibilidade se participarem em fóruns de discussão, visualização de vídeos ou podcasts, ou mesmo tomar parte de um blog criado pelo órgão de comunicação social para o devido efeito.

 

Contudo, não é apenas o mundo empresarial que rodeia o património e a vertente da sua divulgação on-line. Talvez tão afoita como o universo económico está a classe científica, nomeadamente as universidades, organismos de investigação, institutos arqueológicos, entidades culturais e estudantes dos mais variados ciclos de ensino, passando pelo ensino primário acabando nos cursos de Doutoramento ou pós doutoramento.

Bem como nas empresas é vasto o leque de conteúdos introduzidos por estes grupos de interesse na Internet. São páginas de organização de informação e layout variadas, com todo o tipo de conteúdos disponíveis, mas em que se destacam sobretudo aquelas ligadas às organizações que se dedicam ao estudo do património, não esquecendo porém os blogs dos investigadores, ferramentas que se apresentam como essenciais no momento de compilação, organização, difusão e intercâmbio da informação científica. É por esta importância que os weblogs alcançaram no relacionamento e mesmo êxito de alguns investigadores, no exercício da construção das teses ou artigos, que actualmente a matéria e o estudo relacionado com os blogs já fazem parte de muitos planos curriculares de licenciaturas, mestrados ou doutoramentos quando abordadas as metodologias de investigação.

 

Mas a esfera de públicos que se dedicam a “postar” conteúdos que de uma forma ou de outra se ligam ao património não termina na classe científica.

Existe um público com um alcance ainda mais vasto. São os utilizadores comuns da Internet. Aqueles que apreciam o espólio histórico das suas aldeias, vilas, cidades, são todos os que não admitem ver a raiz da sua cultura feito pedra, cair no esquecimento dos comandam os destinos. São os que buscam conforto no banco de uma igreja centenária, imaginam romances em palácios sumptuosos, travam batalhas da imaginação em antigos castelos fronteiriços.

Não menos válidos, contudo com um cunho mais pessoal e com muito menos recursos são variadíssimos os exemplos de conteúdos on-line: desde álbuns fotográficos, blogues e fóruns, simples páginas enaltecendo a “pequena capela da vila”, passando já por estruturados sítios que não se ficam apenas pelo património mas que buscam o conhecimento também na tradição oral.

 

Em jeito de conclusão, venho por este meio fazer a apologia de todos estes públicos e conteúdos. A criação de um espírito de defesa, preservação e divulgação do Património passa cada vez mais pelo mundo virtual e por todo um vasto público que se dedica a criar produtos ou conteúdos relacionados com o património histórico edificado ou imaterial. Apostando, ajudando e consumindo esses mesmos conteúdos estamos a incentivar uma crescente valorização, não só económica ou científica, mas sobretudo uma valorização ao nível de cada um de nós, no sentido de se terminar com o vandalismo que muito do nosso património é actualmente alvo ou com o abandono que muito desse património é sujeito por parte das entidades competentes.

 

 

 

Artur Santos