Do corpo mais compacto que há
Para os que navegamos nestas águas, um aviso: tempo instável, sujeito a tempestades. Mas, também, a bonanças. Porque os versos de Casé Lontra Marques são feitos de matéria nada onírica, vêm do corpo mais compacto que há: a palavra prensada — nela, o peso pênsil do pensamento se agarra, feito um náufrago à tábua. As frases fingem o abstrato e, logo, plásticas, traçam a madeira: “Algo branco / seduz a cidade com solidez de fumaça.”, “Ninguém viu quando a metáfora tropeçou // na fome do operário.” Às vezes, o movimento se inverte e o concreto enterra o etéreo: “Súbito / soco no tórax / do tempo.”, “Não entregarei o braço / para o marasmo roer.” — tem, sim, tudo isto um tom entre o aforismo e o enigma — entendemo-nos, então: estamos à deriva. (O belo de um livro é nos deixar, imperdoavelmente perdidos, numa ilha.) Tanta oscilação faz dos versos ondas incessantes, num vaivém de acidez e doçura, de violência e delicadeza, de força e cansaço. Sendo sentidos, não há, entre tantos, flor, lua ou coração nos versos de Casé: há costelas, medulas, pulmões, dentes, crânios, vértebras. Da saliva, sede e fome, surge o mar maior, a palavra que mais está: o corpo compacto, “catando cáries na arcada quase escancarada”, quase na palma da pálpebra. Aberta, a pálpebra encara o sol: insolação. Fechada, apara o sono: insulação. Mas não, não nos afoguemos muito — há mares, tantos mares vêm, dando todas as boas-vindas e abonando obra e braço de Casé Lontra Marques. Agora, leitores, com ele, olhemos estes Mares, crusoés catando arcas, sem marasmo a nos roer naus e margens.
Wilberth Salgueiro
Poeta, crítico e professor do Departamento de Línguas e Letras da Universidade Federal do Espírito Santo