Onde a palavra se renova

 

 

Mares inacabados nos surpreende pela densidade dos poemas. Casé possui dicção própria. Nele iremos encontrar a aspiração impossível por um pacto, que já se sabe de antemão perdido, entre o homem e a natureza. O desejo de conciliação ou de superação, onde a palavra se renova no exercício da permanência, num mundo onde tudo está por um triz. E, para tanto, parte do fragmento, da ruína em direção à totalidade. Um olhar melancólico contempla a cidade/corpo/paisagem, superpostos, confundidos, minados pela asfixia da modernização. Ali, também, a violência urbana, sutilmente, comentada: “Através da vidraça trincada, dá para ver a cara calma/ da calçada. Prédios em vez de asas./ Quando escurecer, o corpo edificará sua cota/ de argamassa. Algo branco/ seduz a cidade com solidez de fumaça./ Depois de respirar, aceito/ o sol na medida exata do furo de uma bala”. Se por um lado, uma forte crítica social, nunca panfletária, acompanha os versos, onde os objetos parecem humanizar a cidade, enquanto homens se reificam, o insólito se insere no jogo do puro e do impuro, do lirismo e do prosaico: “[...] Ninguém viu quando a metáfora tropeçou / na fome do operário. Agora falaria / do detergente a brilhar nas gengivas”. Mas o que realmente se impõe na poética de Casé, como se fora um ímã atraindo os demais elementos, é o trabalho com a palavra. É ela a bússola que orienta essa viagem por Mares inacabados, onde nos supomos sujeitos do que não passa de uma cega combinatória de objetos. É através dela, que corpo e lugar ganham unidade, fixando-se no espaço da forma solenemente exata. “[...] Até ontem o sol do sexo perturbava/ o panorama do luto. Acho/ que não esquecemos a cor da palavra mar”. O leitor de Casé passa a ter uma experiência que talvez intuísse ou suspeitasse, mas que assume enfim, como universo completo, sua verdadeira significação. Um toque e um alerta nos chegam de seus versos, nos advertem que como seres desejantes somos capazes de afirmar a vida, desafiar e exorcizar a morte.

 

 

Cinda Gonda

 

Crítica e professora do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro