Livro movente, vida versátil
Parece fácil entrar neste livro: basta abrir uma página e se deixar conduzir pelos fluxos que o atravessam. De fato, a fluidez de Mares inacabados é notável. Tal qualidade, porém, gera dúvidas quanto a se tratar de uma mera coletânea. É inegável que há aqui poemas cujo impressionante grau de depuração prova uma autonomia exemplar: peças irretocáveis, perfeitas em sua arquitetura verbal e no impacto emotivo que provocam. Mas o mais impressionante é que há um movimento que articula, de modo perturbadoramente consistente, os poemas.
Sim, movimento é um termo-chave, não apenas a descrever a estruturação do conjunto de textos, mas como mote cujas variações não ocultam uma insistência elementar, definidora do arcabouço do volume. Assim, talvez não seja fácil entrar neste livro, justamente porque ele indaga o primeiro passo, o começo e o recuo, partidas e novas partidas, o impulso de permanecer e o de seguir, saltos, empedramentos, dissipações. Não se entra no mar, lugar que, por flertar com o infinito (no que este possui de inabarcável, ou, para um ponto de vista determinado, de inacabado), coloca em xeque a própria noção de lugar.
O termo movimento sintetiza, e simultaneamente escande, arranjos e tensões fundamentais no livro: entre abstração e concretude (o movimento é produzido por um corpo, mas não possui corporeidade); entre ação e latência (movimento pressupõe dinâmica, mas também potência, é realização e propensão); intensidade e direção (movimento é a força em manifestação e a transformação desta força); acaso e determinação (movimentos dependem de espaços livres, mas definem espaços); desejo e conquista (é movimento o que se passa entre a existência precária e os vislumbres de plenitude que ela persegue); logro e logro (em sua ambivalência, o cerne da linguagem é móvel).
Neste livro, o movimento principal é a procura da palavra: procura que tem a palavra como objeto; procura empreendida pela palavra. No equilíbrio delicado, mas necessário, entre o que e como se diz, entre a materialidade sensória e a vocação intelectiva e abstratizante, a palavra expõe, sem soluções pacificadoras, sua condição ambígua e conflituosa, seja ao enunciar regimes de concreção (aço, dente, pedra, osso, metal, corpo, calcário, argamassa) tão reiteradamente que a solidez se volatiliza, seja ao explorar a si mesma como ritmo, por via de uma sintaxe peculiar, ao mesmo tempo límpida e estranha, feita de hesitações, repetições, interrupções, retomadas, reinvenções. A palavra, em Mares inacabados, sem abdicar da liberdade especulativa (pelo contrário: radicalizando-a), é também respiração, paladar, tato, vibração da língua, criadora de coisas e corpos.
O movimento da palavra já é, assim, o movimento da imagem. Constata-se no livro uma pletora imagética na qual o leitor é exposto a séries entrecruzadas de intensidades. A alta voltagem sinestésica chega a parecer o endosso das convenções surrealistas, mas se redimensiona ao admiti-las, sem condescendência, como convenções, e ao submetê-las ao crivo de uma racionalidade também impiedosamente autocrítica. Viabilizado pelo liame agônico entre imagem e razão, intuição e rigor, o livro soa pulsante, voraz, extremo quando contido, luxuriante, sem receio dos excessos, mas sem escamotear-lhes a insuficiência. Se a imagem é a palavra que, não deixando de ser palavra, deseja tocar, se o poema é o corpo que não se aceita oco, se a poética é a matéria que se recusa impossível, decorre que, quando o verbo deflagra seu movimento, nada se mantém intacto.
A despeito da sensação de instabilidade que induz no leitor, Mares inacabados se desenvolve a partir da ineludível concatenação das vértebras-poemas, firme a ponto de esboçar um horizonte narrativo. Se a direção principal parece ser a voragem, se a orientação do movimento é tributária da desorientação, também parece irrecusável que a voragem cede, com relevante freqüência, a algum prosaísmo, a relatos em cujos fios, embora esgarçados, se entrevêem personagens, ações, tempos, espaços, com contornos não de todo esmaecidos. Nessa protonarrativa, jogo intrincado de possíveis que se interrogam reciprocamente, eu, o corpo, alguém, a pálpebra, nós, a metáfora, ninguém, o poema atuam como personagens; a ação que avança é regressiva, a própria ação pode ser estática; o tempo é multiplicável, reversível, composto de atenções e esquecimentos, tateável; os espaços se desdobram de uma esquina a outra cidade, a casa é o poema, o urbano é paisagem, proximidades são distâncias.
Mares inacabados é um movimento compósito, ou uma suíte de movimentos na qual se aliam e se atritam espantos e aliciamentos, lucidez e convulsão, peso e alívio, êxtase e catástrofe, efeitos complexos que constantemente se reinventam durante a leitura. Neste mar de palavras (que, como todo mar, se projeta além do verificável), afogar e respirar, submergir e alçar-se não se excluem, como brilhantemente sugerem os versos: "o afogado / também mantém o mar sobre o ombro / submerso". Como a concretização da ideia equívoca (nutriz mas desafiadora) de extensão, o mar equivale ao livro à medida que ambos, ao se extenderem, criam uma duração, lances de tempos; se corporificam no espaço, materializando-se; transitam de um ponto a outro, fazendo-se deslocamento.
Estes mares não dizem respeito somente às palavras: é a vida que se mira. Na palavra vida, contudo, não cabe qualquer sentido ontológico, muito menos uma acepção realista. Vida também é uma palavra. Experimentar palavras é sem dúvida manifestação vital. Se ao termo vida se associa a clara invocação do que há de indiscutível, insofismável, na experiência humana, é preciso lembrar que a claridade é também enigma, e que toda experiência possui algo de inapreensível.
O lembrete é válido sobretudo nos casos em que a experiência se oferece, como em Mares inacabados, apaixonadamente. É por esse motivo que o leitor, quando entra, mesmo sem saber ao certo por onde e como entrou, facilmente se apaixona pelo livro. O leitor penetra no movimento da vida de palavras, torna-se ele próprio o movimento em que a vida se revela versátil: apta a transfigurar-se em verso, passível de transformar-se em muitas outras vidas.
Luis Alberto Brandão
Ficcionista, ensaísta e professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais