O silêncio sobre a água 

 

 

Acompanhamos o poeta em seu dizer e fazer-se, no espaço em que tudo flui. Ao capturar e disseminar o real, persegue a vida.

 

O ato criador inicia-se na leitura. Ler é disciplina em que há aprendizagem, que nos leva ao assombro, à identificação, ao encontro, à colisão e à observação.

 

Cada palavra, metonimicamente, abre-se a outra, envolvendo cada poema em outro. O saber e o sabor de que falava Barthes (na sua "Leçon"), todo o peso do universo é captado na fugacidade dos instantes, pois no espaço poético de Mares inacabados tudo é possível.

 

A vivência das coisas desse artesão meticuloso que é Casé se aprofunda na relação entre o factual e o poema, nessa desconstrução do real, de metáfora em metáfora. Assim, a poesia, segundo Auden, "sobrevive no vale do seu próprio dizer".

 

O mundo ganha espessura através do corpo e do êxtase amoroso.

 

A água é tema presente na poesia de todos os tempos. Também aqui, o criador escreve o silêncio sobre a água, metáfora da poesia. Gira entre as percepções interiores (a casa, a linguagem) e o exterior (a cidade), revitalizando a linguagem.

 

A palavra como instância de vida, torna-se maneira de transformar a realidade, até encontrar a única possível, a única necessária.

 

O caráter visual do ofício poético remete-nos à criação meticulosa e ao prazer de organizar a palavra, canto à felicidade e ao prazer literário.

 

Bella Jozef

 

Crítica, ensaísta e professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro